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A Caverna dos Antigos (10)

Posted by on 26/11/2016

caverna-dos-antigos-lobsang-rampaEste é um livro que trata do Oculto e dos Poderes do Homem. É livro simples, no sentido de que nele não há “palavras estrangeiras”, palavras em sânscrito, nem coisa alguma de línguas mortas. A pessoa média quer SABER as coisas, e não ficar a adivinhar palavras que o autor médio tampouco compreende!

Se um autor sabe trabalhar, pode escrever, sem ter de disfarçar sua falta de conhecimento com o emprego de uma língua estrangeira. Um número demasiado de pessoas deixa-se envolver pela confusão. As leis da Vida são realmente simples; não há necessidade alguma de revesti-las de cultos místicos ou pseudo-religiões. Tampouco existe qualquer necessidade de que alguém afirme ter tido “revelações divinas”. QUALQUER PESSOA pode obter as mesmas “revelações”, se se esforçar por alcança-las…

Edição e imagens:  Thoth3126@protonmail.ch

T. LOBSANG RAMPA, e o livro “A CAVERNA DOS ANTIGOS”

Nenhuma religião tem em si as Chaves do Céu, nem pessoa alguma será condenada para sempre, por ter entrado em uma igreja com o chapéu na cabeça, ao invés de tirar os sapatos. À entrada das lamaserias tibetanas, lê-se a inscrição: “Mil monges, mil religiões”.

lobsang_rampaQualquer que seja nossa crença, se ela englobar o “faze ao próximo o que queres que te seja feito”, teremos êxito, quando soar o Chamamento final. Alguns dizem que o Conhecimento Interior só pode ser obtido ingressando-se neste ou naquele culto, ao mesmo tempo em que se faça o pagamento de uma contribuição substancial.

As Leis da Vida dizem: “Procura e encontrarás”. Este livro é o fruto de toda uma vida, de ensinamentos obtidos nas grandes lamaserias do Tibete e de poderes conquistados por uma observância rigorosa das Leis. Trata-se de conhecimento transmitido pelos Antigos, e se acha inscrito nas Pirâmides do Egito, nos Altos Templos da Cordillheira dos Andes e no maior de todos os repositorios de conhecimentos ocultos do mundo, o Planalto do Tibete – T. LOBSANG RAMPA [Nasceu: Cyril Henry Hoskin-8 April 1910, em Plympton, Devon, United Kingdom – Morte: 25 January 1981 (aged 70) Calgary, Alberta, Canada]


Capítulo 10

O Mestre estava de mau humor; talvez o chá que tomara não se achasse suficientemente quente, talvez seu tsampa não houvesse sido torrado ou misturado de acordo com seu paladar. O Mestre estava de mau humor; nós, os meninos, sentávamo-nos na sala de aula quase estremecendo de pavor. Ele já caíra inesperadamente sobre meninos à minha direita, meninos à minha esquerda. Eu tinha boa memória, conhecia perfeitamente as Lições — poderia repetir capítulo e versículo de qualquer parte dos cento e oito volumes de O Kangyur. “Ta-plac! Ta-plac!” Eu saltei, quase um palmo no ar, tomado de surpresa, e uns três meninos à esquerda, outros três à direita, saltaram também igualmente surpresos. Por momentos nem sabíamos qual de nós estava levando a coça, e então, quando o mestre bateu com mais força, percebi que eu era o infeliz! Ele prosseguiu batendo, enquanto resmungava, sem parar:

— Favorito do Lama! Idiota mimado!! Vou-lhe ensinar a aprender alguma coisa! A poeira se levantava de meu manto, em nuvem sufocante que me pôs a espirrar. Por algum motivo, isso enraiveceu ainda mais o Mestre, pelo que se dedicou à tarefa de tirar mais poeira de mim. Por sorte — e sem que ele soubesse — eu previra seu mau humor, e vestira mais roupa do que o comum, de modo que — embora ele não ficasse satisfeito, se tivesse conhecimento disso — seus golpes não me preocupavam além da conta. De qualquer modo, eu era um menino rijo. Aquele Mestre era uma criatura tirânica, um perfeccionista sem ser perfeito ele mesmo. Não só tínhamos de ser perfeitos em nosso Trabalho Escolar, como também se a pronúncia e a inflexão não fossem exatamente de acordo com seus desejos, apanhava a bengala, ia para trás, e depois nos surrava pelas costas.

Agora, fazia algum exercício a mais, e eu quase sufocava no meio da poeira. Os meninos, no Tibete, como os meninos por toda a parte, costumam rolar na poeira, quando brigam ou brincam, e meninos inteiramente separados da influência feminina nem sempre conseguem que toda a poeira saia da roupa; a minha estava cheia dela, e isso era mais ou menos o costumeiro. O Mestre prosseguiu, deferindo bordoadas:

—Vou-lhe ensinar a pronunciar mal as palavras! Demonstrando desrespeito ao Conhecimento Sagrado! Seu imbecil mimado, sempre faltando às aulas, e depois voltando e sabendo mais do que os outros a quem, ensinei… Fedelho inútil… vou-lhe ensinar, você vai aprender comigo, de um modo ou de outro!

No Tibete, sentamo-nos no chão, as pernas cruzadas, na maioria das vezes sobre almofadas com umas quatro polegadas de espessura, e diante de nós temos mesas que podem ir de palmo a palmo e meio de altura do chão, dependendo do tamanho do estudante. Aquele Mestre, de repente, pôs as mãos com força na parte de trás da minha cabeça, empurrando-a para minha mesa, onde eu tinha uma ardósia e alguns livros. Colocando-me assim em posição adequada, respirou fundo e passou a um verdadeiro espancamento. Eu me contorcia, só por questão de hábito, não porque estivesse sofrendo, porque a despeito de seus esforços mais empenhados, nós éramos meninos enrijecidos, quase literalmente “curtidos em couro”, e coisas assim eram uma ocorrência cotidiana.

Algum menino deu uma risadinha mais ao lado, e o Mestre deixou-me, como se eu me houvesse transformado em brasa viva, saltando como um tigre sobre o outro. Tive o cuidado de não proporcionar qualquer indicação de meu próprio divertimento, ao ver uma nuvem de poeira levantar-se de alguns meninos mais adiante na fila! Surgiram diversas exclamações de dor, pavor e horror, à minha direita, porque o Mestre já estava batendo indiscriminadamente em todos, sem saber qual dos meninos rira. Finalmente, sem fôlego e por certo sentindo-se muito melhor, o Mestre encerrou seu exercício físico.

—Ah! — arquejou. — Isso vai ensinar a vocês, seus monstrinhos, a prestarem atenção ao que digo. Agora, Lobsang Rampa, recomece, e trate de apresentar a pronúncia perfeita. Eu recomecei tudo, e quando dedicava os pensamentos a alguma coisa sabia realmente fazê-la bem. Dessa feita foi o que fiz — com atenção, — de modo que não houve novas demonstrações de raiva do Mestre nem bordoadas ainda mais fortes em mim. Durante toda aquela sessão, cinco horas ao todo o Mestre andou para a frente e para trás, de olho muitíssimo vivo em todos nós, e nenhuma provocação lhe foi necessária para que se atirasse, apanhando algum menino infeliz, exatamente quando o mesmo julgava não estar sendo observado.

No Tibete, nosso dia começa à meia noite, quando vamos a um culto Religioso e, naturalmente, existem cultos a intervalos regulares. Depois, temos de executar trabalho rude, para que nos mantenhamos humildes, para que não encaremos o pessoal doméstico com desdém. Também temos um período de descanso, e depois disso vamos para nossas aulas. Estas duram cinco horas, sem parar, e por todo esse tempo os professores cuidavam de fazer-nos aprender completamente. Nossas aulas, é claro, duravam mais do que cinco horas por dia, mas aquela sessão, a da tarde, tinha essa duração.

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As horas se arrastavam, parecia que estávamos ali há dias e dias. As sombras quase não se moviam, e o sol, lá em cima, dava a impressão de estar cravado em um só lugar, do qual não se retirava. Suspirávamos em exasperação e tédio, achando que um dos Deuses devia descer e tirar aquele Mestre de nosso meio, pois era o pior de todos, ao que parecia esquecido de que em alguma ocasião, oh, em tempo muito longínquo, também fora jovem. Mas, afinal, as conchas soaram e lá em cima, no teto, ouviu-se uma trombeta, reverberando pelo Vale, mandando um eco de volta, refletido pela Potala. Com um suspiro, o Mestre disse:

—Bem, lamento que tenha de deixá-los agora, meninos, mas podem acreditar que quando os vir outra vez, tratarei de fazê-los aprender alguma coisa! Fez um sinal, em direção à porta. Os meninos da fileira mais próxima puseram-se em pé, com um salto, e correram para a mesma. Eu já ia, também, mas ele me chamou:

—Você, Terça-Feira Lobsang Rampa, vá ter com o seu guia, e aprenda as coisas, mas não volte aqui, exibindo-se com os meninos a quem eu ensinei. Você está aprendendo por hipnotismo e outros métodos, e vou ver se consigo expulsá-lo da sala. Desferiu-me um pescoção, e prosseguiu:

—Agora, suma-se de minha vista. Acho difícil suportá-lo aqui, outros estão se queixando de que você aprende mais do que os meninos a quem eu ensino.

Assim que soltou meu manto, também saí correndo, e nem sequer me dei ao trabalho de fechar a porta por onde saíra. Ele berrou alguma coisa mas eu já corria com velocidade suficiente para não ter de voltar. Lá fora, alguns dos outros meninos estavam à minha espera, bem fora do alcance da audição do Mestre, como era natural.

—Devíamos fazer alguma coisa com esse camarada, — disse um dos meninos.

—Sim! — corroborou outro.

— Alguém vai ficar muito machucado se ele continuar desse jeito.

—Você, Lobsang — disse um terceiro —, está sempre a jactar-se de seu Mestre e Guia… Por que não fala com ele, por que não diz a ele como somos maltratados? Pensei no assunto, e me pareceu uma boa idéia, pois tínhamos de aprender, mas não havia motivo pelo qual devêssemos fazê-lo sob tanta brutalidade. Quanto mais pensava na questão, tanto mais agradável ela se tornava; eu iria ter com meu guia, dizendo-lhe como éramos tratados, e ele, a seu turno, iria ter com o Mestre, aplicando-se um sortilégio, transformando-o em um sapo, ou coisa parecida.

—Sim! — exclamei. — Vou, agora mesmo. Dito isso, voltei-me e saí correndo. Segui pelos corredores conhecidos, subindo sempre, de modo a me aproximar do telhado. Finalmente, enveredei pelo corredor dos lamas, e descobri que meu guia já estava em seu quarto, tendo a porta aberta. Fez-me sinal para que entrasse, e disse:

—Ora, Lobsang! Você está agitado. Foi nomeado Abade ou coisa parecida? Olhei para ele, com ar bastante pesaroso, e disse:

—Honrado Lama, por que motivo nós, os meninos, somos tão maltratados na aula? Meu guia fitou-me com ar sério, dizendo:

—Mas como foram maltratados, Lobsang? Sente-se e conte o que o preocupa tanto. Sentei-me, e comecei minha narrativa triste. Enquanto falei, meu guia não fez qualquer comentário, nem interrupção alguma. Deixou-me dizer o que sentia, e finalmente cheguei ao final de meu rosário de pesares, e quase ao final do fôlego.

—Lobsang — disse meu guia —, não lhe ocorre que a própria vida é apenas uma escola?

—Uma escola? — contrapus, fitando-o como se meu guia houvesse repentinamente perdido a lucidez. Minha surpresa não seria maior se ele me dissesse que o Sol se fora e que a Lua viera para o lugar do mesmo!

—Honrado Lama, — disse eu, atônito, — o senhor disse que a vida é uma escola?

—Foi exatamente o que eu disse, Lobsang. Descanse um pouco, vamos tomar chá, e depois conversaremos. O auxiliar que foi chamado logo nos trouxe chá e coisas boas para comer. Meu guia comia de modo muito parcimonioso. Como dissera uma vez, eu comia o bastante para sustentar uns quatro homens como ele! Mas o dissera com um sorriso tão travesso, que não houvera qualquer ofensa. Muitas vezes brincava comigo e eu sabia que ele jamais, em qualquer circunstância, diria alguma coisa que magoasse outra pessoa. Eu realmente não me importava, de modo algum, com o que ele me dizia, sabendo qual era sua intenção. Ali, sentados, tomamos nosso chá, e depois meu guia escreveu um pequeno bilhete dando-o ao auxiliar para que o entregasse a outro lama.

—Lobsang, eu disse que você e eu não estaremos no Serviço do Templo, esta noite, pois temos muito a conversar, e embora os Serviços do Templo sejam coisas muito essenciais… diante de suas circunstâncias especiais… é necessário dar-lhe mais instrução do que o comum. Pôs-se em pé, e foi ter à janela. Eu o imitei, apressadamente, indo ter com ele, pois um dos meus prazeres era ficar por ali e ver tudo o que acontecia. Meu guia tinha um dos quartos mais altos no Chakpori, quarto do qual se podiam ver espaços amplos a distâncias enormes. Além disso, ele dispunha de uma daquelas coisas maravilhosas, um telescópio. As horas que passei com aquele instrumento! As horas que passei olhando a Planície de LHASa, vendo os comerciantes na própria Cidade, observando as damas de LHASa que cuidavam de seus afazeres, fazendo compras, visitas e (como entendo) desperdiçando o tempo. Durante dez ou quinze minutos ficamos ali, olhando, após o que meu guia disse:

—Vamo-nos sentar outra vez, Lobsang, e falar sobre a questão de escola. Quero que me escute, Lobsang, pois se trata de um assunto que você deve compreender bem claramente desde o início. Se não entender algo do que eu digo, faça-me parar no mesmo instante, pois é essencial que compreenda tudo, ouviu? Assenti e polidamente disse:

—Sim, Honrado Lama, eu o ouço e compreendo. Se não. entender, falarei. Ele concordou e disse:

—A vida é como uma escola. Quando estamos além desta vida, no mundo astral, antes de descermos ao corpo de uma mulher, examinamos com os outros o que vamos aprender. Há algum tempo, contei-lhe uma história sobre o velho Seng, o chinês. Eu lhe disse que íamos usar um nome chinês porque você… sendo quem você é!… procuraria ligar qualquer nome tibetano com algum tibetano seu conhecido. Vamos dizer que o velho Seng, que morreu e viu todo seu passado, chegou à conclusão de que tinha certas lições a aprender. E então as pessoas que o ajudavam puseram-se a procurar pais, ou melhor, possíveis país, que vivessem nas circunstâncias e nas condições capazes de capacitar à alma que fora o velho Seng a aprender as lições desejadas. Meu guia olhou para mim e prosseguiu:

—Acontece coisa muito parecida a um menino que se vai tornar monge. Se quiser ser monge-médico, vem para o Chakpori. Se quiser fazer trabalho doméstico, certamente poderá entrar na Potala, pois eles parecem estar sempre com escassez de monges domésticos, por lá. Escolhemos nossa escola de acordo com o que queremos aprender.

Assenti, porque tudo era bem claro para mim. Meus próprios pais haviam feito todos os preparativos para que eu entrasse no Chakpori, desde que tivesse a necessária capacidade de permanência para enfrentar a prova inicial de resistência. Meu guia, o Lama Mingyar Dondup, continuou:

—Uma pessoa que vai nascer já tem tudo preparado. Ela descerá e nascerá de uma mulher, que vive em certo distrito, casada com certa classe de homem. Julga-se que isso conferirá à criança que vai nascer as oportunidades de adquirir a experiência e o conhecimento planejados antes. Com o tempo, chegado o momento, nasce a criança. De inicio, tem de aprender a comer, tem de aprender a controlar certas partes do corpo físico… Tem de aprender a falar e ouvir. De início, você sabe, uma criancinha não consegue focalizar os olhos, tem de aprender a ver. Ela está na escola. Olhou para mim e havia um sorriso em seu semblante, ao aduzir:

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—Nenhum de nós gosta da escola, alguns têm de vir, mas outros não o precisam fazer… Planejamos vir… não pelo Carma… mas para aprendermos outras coisas. A criança cresce, torna-se um menino e vai então para uma sala de aulas, onde às vezes é tratado com bastante brutalidade pelo mestre. Mas não há nada de errado nisso, Lobsang. Ninguém jamais foi prejudicado pela disciplina. A disciplina é a diferença entre um exército e uma turba. Você não consegue um homem culto, a menos que esse homem tenha sido disciplinado. Muitas vezes, agora, você acha que está sendo maltratado, que o professor é duro e cruel, mas… seja lá o que pense, agora… você escolheu particularmente vir a esta Terra, em tais condições.

—Bem, Honrado Lama, se eu concordei em vir para cá, nesse caso acho que devia mandar examinar os meus miolos. E se eu concordei em vir para cá, por que motivo não sei de nada disso? Meu guia olhava para mim, a rir-se, gargalhando mesmo.

—Eu sei exatamente como você se sente, Lobsang, no dia de hoje, mas na verdade não há coisa alguma com que deva preocupar-se. Você veio a este planeta, em primeiro lugar, para aprender certas coisas. E então, tendo aprendido essas coisas, vai passar a um mundo maior, além de nossas fronteiras, para aprender outras. A Trilha não vai ser fácil, mas você obterá êxito no fim, e eu não quero que fique desanimado. Todas as pessoas, qualquer que seja a posição ocupada por elas na vida, descem à Terra, vindas dos planos astrais, para poderem aprender e, ao aprendê-lo, progredirem. Você concordará comigo, Lobsang, em que se quiser progredir na Lamaseria tem que estudar e passar nos exames. Você não teria grande respeito por um menino que fosse repentinamente colocado acima de você, e que apenas pelo favoritismo se tornasse um lama ou abade. Enquanto houver exames adequados, você sabe que não será preterido pelo capricho, fantasia ou favoritismo de uma pessoa superior. Eu percebia isso, também. Assim explicado, o assunto era de uma simplicidade a toda prova.

—Nós viemos à terra para aprender coisas e, não importa quão duras ou amargas sejam as lições aqui, trata-se de lições que nós nos propusemos receber antes de virmos. Quando deixamos esta terra, temos férias por algum tempo no outro Mundo, e depois, se quisermos fazer progresso, passamos à frente. Podemos regressar a esta terra sob condições diferentes, ou podemos seguir para uma etapa completamente diferente da existência. Muitas vezes, quando estamos na escola, julgamos que o dia não vai acabar, achamos que não vai haver um fim para a aspereza do professor. A vida sobre a terra é assim; se tudo corresse sem tropeços, se tivéssemos tudo que quiséssemos, não estaríamos aprendendo uma lição, estaríamos apenas vagando na corrente da vida. É um fato deplorável que só aprendemos com a dor e o sofrimento.

—Bem, então, Honrado Lama, por que motivo alguns meninos, e alguns lamas também, têm uma vida tão fácil? Sempre me parece que eu fico com as dificuldades, as profecias más, os espancamentos por um professor irritado, quando realmente fiz o melhor que pude.

—Mas, Lobsang, algumas dessas pessoas que aparentemente estão muito satisfeitas… você tem certeza de que realmente o estejam? Tem a certeza de que as condições são tão fáceis para elas, afinal de contas? Enquanto não souber o que elas planejavam fazer antes de virem à terra, você não se encontra em posição de avaliar. Todas as pessoas que vêm a esta terra o fazem com um plano preparado, um plano do que querem aprender, o que se propõem a fazer, e o que aspiram a ser quando deixarem esta terra, depois de passarem pela sua escola. E você diz que realmente se esforçou na aula de hoje. Tem certeza disso? Não estava bastante complacente, achando que sabia tudo quanto devia saber da lição? Você, por sua atitude bastante superior, não fez com que o Mestre se sentisse mal?

Perguntava isso a fitar-me de modo um tanto acusador, e percebi que minhas faces se punham vermelhas. Sim, ele realmente sabia de alguma coisa! Meu guia tinha a habilidade mais deplorável de pôr a mão nos lugares sensíveis. Sim, eu fora complacente, achara que daquela feita o Mestre não conseguiria descobrir falta alguma em mim. Minha atitude superior, naturalmente, não contribuíra pouco para a exasperação daquele Mestre. Meneei a cabeça, concordando.

—Sim, Honrado Lama, tenho tanta culpa quanto outro qualquer. Meu guia olhou para mim, sorriu, e assentiu. —Mais tarde, Lobsang, você irá a Chungking, na China, como sabe — disse o Lama Mingyar Dondup. Concordei, taciturno, não querendo sequer pensar no momento em que eu teria de partir. Ele prosseguiu:

—Antes que deixe o Tibete, mandaremos consultar diversas escolas e faculdades para obter detalhes quanto ao método de instrução que usam. Receberemos todos os pormenores, e decidiremos então que faculdade ou universidade lhe oferecerá exatamente o tipo de preparo do qual você necessita nesta vida. De modo semelhante, antes que uma pessoa no mundo astral sequer pense em descer à terra, avalia o que se propõe a fazer, o que quer aprender, e o que finalmente deseja conseguir. Depois, como já lhe disse, pais adequados são descobertos. É o mesmo que procurar uma escola adequada. Quanto mais eu pensava nessa coisa de escola, tanto mais a mesma me desagradava.

—Honrado Lama! — disse eu. — Por que motivo algumas pessoas sofrem tantas doenças, tantos infortúnios? O que isso lhes ensina? Meu guia disse:

—Mas você deve lembrar-se de que uma pessoa que vem a este mundo tem muito a aprender, não se trata apenas de aprender a entalhar, de aprender uma língua, ou a recitar os Livros Sagrados. A pessoa tem de aprender coisas que vão ser de utilidade no mundo astral, depois de deixar a terra. Como já lhe disse, este é o Mundo de Ilusão, e se presta extremamente bem a nos ensinar o que são as vicissitudes e, ao passarmos por estas, devemos compreender as dificuldades e problemas dos outros. Pensei sobre tudo isso, e me pareceu que tínhamos chegado a um assunto dos mais importantes. Meu guia, obviamente, percebeu meus pensamentos, pois disse:

—Sim, a noite está chegando, está na hora de encerrarmos nossa conversa, pois ainda temos muito o que fazer. Preciso ir ao Pico (como chamávamos a Potala) e quero levá-lo comigo. Você passará lá toda a noite e o dia de amanhã. Amanhã, poderemos falar novamente sobre esta questão, mas vá agora pôr um manto limpo, e trazer outro de reserva. Pos-se em pé, e deixou o quarto. Eu hesitei apenas por momentos — e isso porque estava estonteado — e logo segui às pressas para me preparar com a melhor indumentária, levando outra de reserva. Juntos, descemos a estrada da montanha, chegando ao Mani Lhakhang, e exatamente quando passávamos pelo Pargo Kaling, o Portão Ocidental, ouvi um berro alto e repentino pór trás de mim, que quase me fez cair da sela.

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—Uai! Santo Médico Lama! — gritou uma voz feminina, bem ao lado da estrada. Meu guia olhou, e desmontou em seguida. Conhecedor da minha insegurança quando em cima de um pônei, fez sinal para que continuasse montado, concessão que me encheu de gratidão.

—Sim, madame, o que é? — perguntou meu guia, em tom bondoso. Houve movimentos repentinos e uma mulher atirou-se aos pés dele.

—Oh! Santo Médico Lama — disse ela, arquejante. — Meu marido não soube gerar um filho normal, aquele desgraçado filho de uma cabra! Taciturna — aturdida por sua própria audácia — ela estendeu um pequeno volume à frente. Meu guia inclinou-se e examinou.

—Mas, madame, — observou. — Por que incrimina seu marido, devido a seu filho adoentado?

—Porque aquele homem malsinado sempre andou por aí, em companhia de mulheres à toa, só pensa em mulheres, e quando nos casamos não conseguiu sequer gerar uma criança normal. Para meu desalento, ela começou a chorar, e as lágrimas caíam ao chão, fazendo “pequenos ruídos, exatamente como pedras de granizo, rolando das montanhas. Meu guia olhou ao redor, fitando a escuridão que aumentava. Uma figura ao lado do Pargo Kaling saiu das sombras mais escuras e veio à frente. Era um homem com roupa esfarrapada, e no semblante ostentava uma expressão das mais cabisbaixas. Meu guia fez-lhe um sinal e ele se adiantou, ajoelhando-se no chão aos pés do Lama Mingyar Dondup. Este fitou a ambos e disse:

—Vocês não andam certos em incriminar-se mutuamente por um acidente de nascimento, pois isso não é questão que tenha ocorrido entre vocês, mas tem a ver com o Carma. Voltou a olhar para a criança, afastando os abrigos em que a mesma se achava envolta. Examinou com atenção, e eu sabia que ele olhava para a aura da criança. Depois, empertigou-se, dizendo:

—Madame! Sua criança pode ser curada, a cura se acha dentro das nossas possibilidades. Por que não a trouxe antes? A pobre mulher voltou a pôr-se de joelhos e apressadamente entregou a criança ao marido, que a recebeu como se fosse algo capaz de explodir a qualquer momento. Ela entrelaçou as mãos e, olhando para meu guia, disse:

—Santo Médico Lama, quem nos daria atenção? Nós viemos do Ragyab, e não merecemos os favores de alguns dos outros Lamas. Não podíamos vir, Santo Lama, por mais urgente que fosse nossa necessidade. Eu achei tudo aquilo ridículo, pois os Ragyabs ou Eliminadores dos Mortos, que viviam no canto sudeste de LHASa, eram tão essenciais quanto outros em nossa comunidade. Eu sabia disso porque meu guia estava sempre frisando que qualquer que fosse a atividade da pessoa, a mesma continuava sendo um membro útil da comunidade. Lembro-me de ter rido gostosamente certa feita, quando ele dissera:

—Até mesmo os ladrões, Lobsang, são gente útil, pois sem eles não haveria necessidade de policiais, e são os ladrões que dão emprego aos homens da polícia! Mas aqueles Ragyabs… muita gente os encarava com desdém, julgando-os impuros porque lidavam com os mortos, retalhavam os cadáveres, de modo que os abutres comessem as partes espalhadas. Eu sabia — e sentia, como meu guia — que eles faziam um bom trabalho, pois grande parte de LHASa era tão rochosa, tão pedregosa, que não se podia cavar sepulturas, e ainda que isso fosse possível, de modo normal o Tibete era tão frio que os corpos ficariam congelados e não entrariam em decomposição, não seriam absorvidos pelo solo.

—Madame! — ordenou meu guia. — Vai trazer-me esta criança pessoalmente, daqui a três dias, e nós faremos o possível para curá-la, porque com base neste exame rápido que fiz parece que pode ser curada. Procurou alguma coisa na bolsa da sela, tirando dali um pedaço de pergaminho. Com rapidez escreveu uma mensagem no mesmo, entregandoa à mulher.

—Traga isto a mim, no Chakpori, e o ajudante a deixará entrar. Informarei ao guarda do portão de sua vinda, e não encontrará dificuldade alguma. Esteja tranqüila, todos nós somos humanos aos olhos de nossos Deuses, e nada tem a recear de nós. Voltou-se, então, e fitou o marido:

—Você deve continuar fiel à sua esposa. E, voltando-se para esta, aduziu: —Você não deve ser tão áspera com seu marido. Talvez, se for mais bondosa, ele não vá a outros lugares, à procura de compensação! Agora, vão para sua casa, e daqui a três dias voltem ao Chakpori, que eu os receberei e ajudarei. É minha promessa. Montou novamente no pônei, e nós partimos. Diminuindo, à medida que a distância aumentava, vinham os sons de louvores e agradecimentos do homem do Ragyab e a mulher.

—Acredito que esta noite, ao menos, Lobsang, eles estarão de acordo, sentir-se-ão com disposição bondosa um com o outro! — afirmou, com uma risada curta, seguindo adiante pela estrada à esquerda, pouco antes de chegarmos à Aldeia de Shö. Eu ficara realmente espantado com aquilo, pois fora a primeira vez que vira marido e mulher.

—Santo Lama, — exclamei —, não compreendo como essa gente pode unir-se. Se não gostam um do outro, por que o fazem? Meu guia sorria, enquanto respondia:

—Você, a chamar-me de “Santo Lama”! Você se julga um camponês? Quanto à sua pergunta, bem, vamos falar sobre tudo isso amanhã. Esta noite, estamos ocupados demais. Amanhã, falaremos sobre essas coisas, e eu procurarei tranqüilizá-lo, porque a sua mente está muito confusa!

Juntos, escalávamos a montanha. Eu sempre gostei de olhar para trás, vendo a Aldeia de Shö, e imaginei o que aconteceria se jogasse uma pedra de bom tamanho em um ou dois telhados: Atravessá-los-ia? Ou o estardalhaço faria alguém sair da casa, pensando que os demônios estavam jogando coisas sobre ele? Nunca tivera o atrevimento de jogar a pedra, porque não queria que a mesma atravessasse o telhado e atingisse  alguém lá dentro. Entretanto, a tentação sempre foi das mais fortes. Na Potala, subimos as escadas sem fim — escadas que se mostravam bem gastas, e com degraus íngremes — e finalmente chegamos a nossos apartamentos, que ficavam bem além do alcance dos monges comuns, e situados por cima dos armazéns.

O Lama Mingyar Dondup foi para seu quarto e eu para o meu, que ficava ao lado do dele, devido à posição de meu guia, e por ser eu o seu chela (discípulo). Segui para a janela, e como gostava de fazê-lo, fiquei olhando dali. Lá embaixo havia algum pássaro noturno, chamando a companheira, no Bosque de Salgueiros. A luz brilhava, agora, e eu podia ver aquele pássaro — ver as ondulações da água, enquanto suas pernas compridas se sacudiam bem como a lama. De algum lugar, bem próximo, veio o canto de um pássaro em resposta. “Pelo menos aquele marido e mulher parecem estar em harmonia” — pensei. Logo chegava o momento de dormir, pois eu tinha de comparecer ao culto da meia-noite, e já estava tão cansado que talvez na manhã seguinte eu viesse a perder a hora. Na tarde do dia seguinte, o Lama Mingyar Dondup veio a meu quarto, onde eu estudava um livro antigo.

—Venha comigo, Lobsang. Acabo de voltar de uma conversa com O Mais Precioso, e agora temos de debater problemas que estão intrigando você. Voltou-se e seguiu à frente, para seu próprio quarto. Sentado diante dele, pensei em todas as coisas que tinha no espírito.

—Senhor! — perguntei eu. — Por que motivo as pessoas que se casam são tão inamistosas umas com as outras? Eu olhei a aura daqueles dois Ragyabs, ontem à noite, e me pareceu que realmente se odiavam um ao outro; se se odiavam, por que se casaram? O lama pareceu realmente triste, por alguns momentos, e depois disse:

—As pessoas esquecem, Lobsang, que vêm a esta terra para aprender lições. Antes que uma pessoa nasça, enquanto uma pessoa se acha ainda no outro lado da vida, os preparativos têm prosseguimento, decidindo que tipo de companheiro matrimonial será escolhido. Você deve compreender que muita gente se casa com o que poderíamos chamar o calor da paixão. Depois a paixão passa, a novidade se esgota, e a familiaridade cria o desdém!

“A familiaridade cria o desdém.” Pensei sobre isso e continuei pensando. Por que motivo, então, as pessoas se casavam? Era claro que o faziam para que a raça humana continuasse. Mas por que motivo as pessoas não se acasalavam do mesmo modo que os animais? Ergui a cabeça, e fiz essa pergunta a meu guia. Ele me fitava, ao responder:

—Ora, Lobsang! Você me surpreende, pois devia saber tão bem quanto eu que os chamados animais muitas vezes se acasalam por toda a vida. Muitos animais o fazem, muitos pássaros também, certamente os mais evoluídos. Se as pessoas se juntassem, como você diz, apenas com o fito de aumentarem a população, nesse caso as crianças resultantes seriam criaturas quase sem alma, o mesmo, na verdade, que aquelas criaturas nascidas pelo que se conhece como inseminação artificial. Deve haver amor nas relações, deve haver amor entre os pais, se quiserem que nasça o melhor tipo de criança… de outra forma, será coisa bem parecida com um produto saído de uma fábrica!

As questões de marido e mulher realmente me intrigavam. Pensei em meus próprios pais, minha Mãe, que fora mulher dominadora, e em meu Pai, que fora realmente duro com os seus filhos. Eu não sentia muito afeto filial quando pensava quer nela ou nele. Disse, então, a meu guia:

—Mas por que as pessoas se casam no calor da paixão? Por que não se casam assim como quem faz um negócio?

—Lobsang! — disse meu guia. — Isso acontece muitas vezes com os chineses e japoneses. É freqüente que os casamentos deles sejam combinados, e tenho de reconhecer que os matrimônios chineses e japoneses são mais bem sucedidos do que no mundo ocidental. Os próprios chineses comparam o casamento a uma chaleira. Não se casam na paixão porque dizem que é como uma chaleira que ferve e que se esfria. Casam-se com calma, e deixam que a chaleira mítica vá à fervura; desse modo ela permanece quente por mais tempo! Olhou para mim, para ver se eu o acompanhava — para ver se o assunto se tornara claro.

caminho-da-luz

—Mas eu não posso compreender, Senhor, o motivo pelo qual as pessoas são infelizes, quando juntas.

—Lobsang, as pessoas vêm à terra como a uma sala de aula. Vêm para aprender as coisas, e se marido e mulher fossem idealmente felizes juntos, desse modo não aprenderiam, porque nada haveria a aprender. Eles vêm a esta terra para estarem juntos, e prosseguirem juntos… e isso é parte da lição… eles têm de aprender a dar e a receber. Cada qual tem arestas cortantes, arestas ou idiossincrasias que irritam e magoam o outro cônjuge. O cônjuge irritante tem de aprender a dominar e, talvez, dar fim ao traço irritante, enquanto o cônjuge irritado deve aprender a ser tolerante e a perdoar. Praticamente todo casal poderia viver com êxito, desde que aprendesse essa lição de dar e receber.

—Senhor! — disse eu. — Como deviam marido e mulher viver juntos?

—Marido e mulher, Lobsang, deviam esperar o momento favorável, e nessa oportunidade ser bondosos, corteses, e dizer calmamente o que os incomoda. Se marido e mulher debatessem as questões, seriam, então, mais felizes em seu matrimônio. Pensei sobre isso, e imaginei como meu Pai e minha Mãe se dariam, se procurassem discutir qualquer coisa entre si! A mim, pareciam o fogo e a água, cada qual tão contrário ao outro quanto possível. Meu guia, como era óbvio, sabia o que eu estava pensando, pois prosseguiu:

—Deve haver algum dar e receber, porque se as pessoas têm de aprender alguma coisa, nesse caso necessitam de uma percepção suficiente para saberem que existe algo de errado nelas.

—Mas como é — perguntei — que uma pessoa se apaixona por outra, ou se sente atraída por outra? Se as duas se sentem atraídas uma pela outra em uma etapa, por que logo esfriam?

—Lobsang, você saberá muito bem que, se uma pessoa vir a aura, poderá conhecer a outra. A criatura comum não vê a aura, mas, não obstante, são numerosos os que têm um sentimento, podem dizer que gostam desta pessoa, ou não gostam daquela outra. Na maior parte das vezes, não podem afirmar qual seja o motivo pelo qual gostam ou desgostam, mas concordarão em que uma pessoa as agrada, e outra as desagrada.

—Bem, Senhor, como podem gostar repentinamente de uma pessoa e, repentinamente, desgostar de outra?

—Quando as pessoas se encontram em certa etapa, quando sentem que estão apaixonadas, suas vibrações aumentam e pode ocorrer muito bem que essas duas, um homem e uma mulher, tenham elevadas vibrações, tomando-se compatíveis. Infelizmente, não as deixam sempre elevadas. A esposa se tornará desmazelada, talvez negue ao marido o que é direito dele, sem a menor dúvida. O marido, em seguida, procurará outra mulher, e gradualmente eles se separarão. Também gradualmente, suas vibrações etéricas sofrerão alteração, de modo que não mais se mostrem compatíveis, tornando-se então inteiramente antipáticos. Sim, eu podia perceber isso, que realmente vinha explicar muita coisa, mas voltava ao ataque!

—Senhor! Fico de todo perplexo em saber que uma criancinha viva por talvez um mês, e depois morra. Que possibilidade teve essa criancinha de aprender, ou de pagar o Carma atrasado? Parece um desperdício para todos, até onde percebo! O Lama Mingyar Dondup sorriu de leve, diante de minha veemência.

—Não, Lobsang, nada se desperdiça! Sua mente está confusa. Supõe que uma pessoa viva uma vida, apenas. Tomemos outro exemplo. Dito isso, olhou para mim, e depois pela janela, por momentos. Eu percebia que ele pensava naquela gente dos Ragyabs —talvez pensasse no filho deles.

—Eu quero que você imagine estar acompanhando uma pessoa que passa por uma série de vidas, — disse meu guia.

—Essa pessoa andou bastante mal em uma vida, e nos últimos anos chegou à conclusão de que não pode prosseguir mais, decide que a situação está demasiadamente ruim para ela, de modo que dá fim à vida; comete suicídio. Tal pessoa, portanto, morreu antes do tempo certo. Todos nós estamos destinados a viver um determinado número de anos, dias e horas. Tudo está fixado antes de descermos a esta terra. Se uma pessoa dá fim à sua própria vida, talvez doze meses antes do momento em que teria morrido normalmente, nessas condições é preciso voltar e cumprir os doze meses restantes. Olhei para ele, visualizando algumas das possibilidades notáveis que podiam advir disso. Meu guia prosseguiu:

—Uma pessoa dá fim à vida. Continua no mundo astral até que ocorra uma oportunidade pela qual possa descer novamente à terra, sob condições apropriadas, e viver o tempo que tem de cumprir na terra. Esse homem, com doze meses, bem, ele poderá descer e ser uma criancinha doentia e morrerá enquanto ainda o for. Ao perder essa criancinha, também os pais terão ganho algo; terão perdido uma criancinha, mas terão adquirido experiência, pago um pouco do que tinham de pagar. Nós concordaremos em que, enquanto as pessoas se acham sobre a terra, sua visão, as percepções, os valores… tudo… está deformado. Este, repito, é o Mundo de Ilusão, o mundo de valores falsos, e quando as pessoas regressam ao Mundo Maior do Eu Maior, poderão ver que as lições duras e destituídas de sentido que tiveram de atravessar neste período da terra não foram tão disparatadas, afinal de contas. Olhei ao redor, e pensei em todas as profecias a meu respeito; profecias antevendo vicissitudes, profecias antevendo torturas, profecias antevendo períodos passados em terras distantes e estranhas. Comentei, então:

—Nesse caso, uma pessoa que faz uma profecia está apenas entrando em contato com a fonte de informações; se tudo está determinado antes que se venha à terra, então é possível, sob certas condições, adquirir tal conhecimento?

— Sim, isso é inteiramente correto, mas não creia que tudo esteja determinado de modo inevitável. As linhas básicas se acham presentes. Recebemos certos problemas, certas linhas a seguir, e ali somos deixados, para fazermos o melhor possível. Uma pessoa pode ter êxito, outra fracassar. Olhe a coisa da seguinte maneira: Suponho que dois homens sejam informados de que têm de ir daqui a Kalimpong, na Índia, não precisam seguir a mesma trilha ou caminho, mas é necessário que cheguem ao mesmo destino, se o conseguirem. Um deles adotará uma rota, e o segundo tomará outra; dependendo da rota que adotem, suas experiências e aventuras serão afetadas. Assim temos a vida, nosso destino é conhecido, mas como chegamos a ele, eis algo que depende de nós mesmos.

Enquanto falávamos, um mensageiro surgiu, e meu guia, com palavras curtas de explicação a mim, o acompanhou pelo corredor. Fui ter novamente à janela, apoiando os cotovelos no peitoril, o rosto nas mãos. Pensei em tudo que ouvira, pensei em todas as experiências que atravessara, e todo o meu ser se enchia de amor por aquele grande homem, o Lama Mingyar Dondup, meu guia, que me demonstrara mais amor do que meus pais, em qualquer momento da vida. Decidi que, fosse como fosse o futuro, eu sempre agiria e me comportaria como se meu guia estivesse à meu lado, examinando meus atos. Lá embaixo, nos campos, monges músicos praticavam sua arte; lá estavam os diversos “brumps-brumps-brumps”, gemidos e guinchos emitidos por seus instrumentos. Ociosamente eu os fitava. A música nada representava para mim, pois eu era surdo aos acordes, mas vi que se tratava de homens muito sérios, esforçando-se bastante para produzirem boa música.

Voltei-me, procurando ocupar-me novamente com um livro. Logo me cansei da leitura; estava inquieto. As coisas aconteciam cada vez mais depressa, comigo. Cada vez mais ociosamente eu folheava as páginas e então, tomado de uma decisão repentina, pus tudo aquilo entre as capas de madeira esculpida e amarrei as fitas. Tratava-se de um livro que devia ser envolto em seda. Seguindo o cuidado inato, completei minha tarefa, e deixei o livro de lado. Pondo-me em pé, fui à janela e pus-me a olhar para fora. A noite estava um tanto abafada, parada, sem um só sopro de vento. Voltei-me, e saí do quarto. Tudo estava parado, parado como a quietude de um grande edifício que parecia dotado de vida. Ali, na Potala, há alguns séculos que os homens vinham trabalhando e desempenhando tarefas sagradas, e por isso o próprio edifício como que criara uma vida própria. Segui com pressa até a extremidade do corredor, e ali subi em uma escada. Logo chegava ao telhado alto, ao lado dos Túmulos Sagrados.

Em silêncio, fui ter a meu lugar costumeiro, um ponto bem abrigado dos ventos, que normalmente desciam com força das montanhas. Encostado a uma Imagem Sagrada, e com as mãos entrelaçadas na nuca, fiquei a contemplar o Vale. Cansando-me disso após algum tempo, deitei-me e fitei as estrelas. Enquanto o fazia, tive a mais estranha das impressões: todos aqueles mundos lá em cima estavam girando em torno da Potala. Por algum tempo isso me fez sentir tonteira, como se eu estivesse caindo. Enquanto observava, notei um traço fino de luz. Tornando-se mais intenso, ele explodiu repentinamente numa luz brilhante. “Outro cometa que acaba!” pensei, enquanto ele se queimava, expirando em um chuveiro de fagulhas vermelhas.

Tomei consciência de um “shush-shush” quase inaudível, por perto. Com cautela, ergui a cabeça, imaginando o que podia ser. À luz fraca das estrelas, vi uma figura de capuz,, andando de um lado para outro, na parte oposta aos Túmulos Sagrados. Pus-me a observar. A figura seguiu até a parede de frente para a cidade de LHASa. Observei o perfil, enquanto ele fitava a distância. Era o Homem mais solitário do Tibete, a meu ver. O Homem com mais preocupações e responsabilidades do que qualquer outro no país. Ouvi um suspiro profundo, e tive curiosidade de saber se também Ele tivera profecias tão duras quanto as minhas. Com cuidado, rolei para o lado e me arrastei, afastando-me dali em silêncio; não desejava intrometer-me — ainda que inocentemente — nos pensamentos particulares de outro.

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Logo cheguei à entrada, e desci em silêncio para o abrigo de meu próprio quarto. Uns três dias depois, eu me achava presente quando meu guia, o Lama Mingyar Dondup, examinava o filho do casal de Ragyabs. Ele despiu a criança, examinando-lhe cuidadosamente a aura. Por algum tempo, meditou, fitando a base do cérebro. Aquela criança não chorou, nem choramingou durante todo o exame. Como eu sabia, embora fosse pequenina, compreendia que o Lama Mingyar Dondup estava procurando curá-la. Meu guia, finalmente, pôs-se em pé, e disse:

—Bem, Lobsang! Vamos curá-lo. É claro que ele tem um mal causado por dificuldades no nascimento. Os pais esperavam num quarto próximo à entrada. Eu, tão próximo à meu guia quanto uma sombra, fui com ele ver aquela gente. Quando entramos, eles se prostraram aos pés do Lama. Com suavidade, ele lhes falou:

—O seu filho pode ser curado, e o será. Em nosso exame, tornou-se claro que no momento do nascimento o deixaram cair, ou bateram nele. Isso pode ser remediado, e vocês não precisam ter receio. A mãe tremia, ao responder:

—Santo Lama Médico, é como o senhor diz. Ele veio de chofre, sem ser esperado, e caiu ao chão. Eu estava sozinha, nesse momento. Meu guia fez um gesto de solidariedade e compreensão, dizendo:

—Voltem amanhã a esta hora, e tenham a certeza de que poderão levar seu filho… curado. Eles ainda faziam mesuras e prostrações, enquanto deixávamos a sala. Meu guia fez com que eu examinasse cuidadosamente a criança.

—Olhe, Lobsang, há pressão aqui — indicou. — Este osso está comprimindo o nervo… observe como a luz áurica toma a forma de leque ao invés de ser redonda. Tomou minhas mãos nas suas, fazendo-me apalpar ao redor da área afetada. —Vou reduzir, afastar o osso que está causando a obstrução. Observe! Mais depressa do que eu consegui ver, apertou os polegares, para dentro, para fora. O menino não gritou; fora rápido demais para sentir dor. Agora, porém, a cabeça não pendia para o lado, como antes, mas se mostrava firme, sobre o pescoço, como devia ser. Por algum tempo, meu guia massageou o pescoço da criança, cuidadosamente, da cabeça para baixo, em direção ao coração, e nunca na direção oposta. No dia seguinte, à hora marcada, os pais regressaram e ficaram quase delirantes de alegria ao verem o que parecia milagre.

—Vocês terão de pagar por isto, — disse o Lama Mingyar Dondup, sorrindo. — Vocês receberam o bem. Assim sendo, precisam pagar o bem, um ao outro. Não briguem, nem estejam em desacordo um com o outro, pois uma criança absorve as atitudes dos pais. O filho de pais sem bondade torna-se destituído dela. A criança de pais infelizes e sem amor é infeliz e sem amor, à seu turno. Paguem… com bondade e amor um para com o outro. Nós os visitaremos, para ver a criança, dentro de uma semana. Dito isso, sorriu, afagando a face da criança, e depois se voltou e saiu, tendo-me ao lado.

— Algumas das criaturas muito pobres são orgulhosas, Lobsang, ficam perturbadas se não tiverem dinheiro com que pagar. Faça sempre o possível para que elas pensem que estão pagando. Eu lhes disse que precisam pagar. Isso os agradou, pois eles acharam que, em sua melhor roupa, haviam-me impressionado a tal ponto que eu julguei tratar-se de gente com dinheiro. O único modo pelo qual eles podem pagar é, como eu disse, sendo bondosos um com o outro.

Se o homem e a mulher mantiverem seu orgulho, seu amor-próprio, Lobsang, eles farão qualquer coisa que pedirmos! De volta à meu quarto, apanhei o telescópio com que estivera brincando. Estendendo os tubos luzidios de latão, olhei na direção de LHASa. Duas figuras surgiram rapidamente em foco, uma delas levando uma criancinha nos braços. Enquanto eu observava, o homem passou o braço pelo ombro da mulher, beijando-a. Em silêncio, guardei o telescópio e dei prosseguimento a meus estudos.

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