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A Revelação Templária – 16 – A Grande Heresia

Posted by on 09/06/2016

revelação-templaria-clive-prince-livroCAPÍTULO XVI – A GRANDE HERESIA

Estamos conscientes de que grande parte dos últimos capítulos pode ter causado um choque  a muitos leitores, especialmente àqueles que não estão familiarizados com os recentes  estudos bíblicos.

Afirmar que o Novo Testamento fez uma interpretação errada de João Batista,  como subordinado a Jesus, e que o sucessor oficial de João foi o mágico Simão, o Mago, está tão em contradição com a história «tradicional» que sugere uma completa invenção.

Mas, como vimos, estudiosos do Novo Testamento altamente respeitados fizeram  estas descobertas com total independência: limitamo-nos a confrontá-las e a comentá-las.

Edição e imagens:  Thoth3126@protonmail.ch

CAPÍTULO XVI – A GRANDE HERESIA – Livro  “The Templar Revelation – Secret Guardians  of the True Identity of Christ”, de  Lynn Picknett e Clive Prince.

http://www.picknettprince.com/

A maior parte dos eruditos bíblicos modernos concorda que João Batista era um destacado  líder político cuja mensagem religiosa, de algum modo, ameaçava destabilizar o status quo  da Palestina dessa época – e há muito que se reconheceu que Jesus era uma figura  semelhante. Mas como se relaciona esta dimensão política da sua missão com o que  descobrimos sobre os seus antecedentes de escolas egípcias de mistérios?

Devemos lembrar que a religião e a política eram uma e a mesma coisa, no mundo antigo, e  que qualquer líder carismático que arrastasse multidões era, automaticamente, considerado  uma ameaça política pelos poderes vigentes. E estas mesmas multidões seguiriam a  orientação do seu líder, o que, no mínimo, deveria perturbar as autoridades. A mistura de  religião e política está exemplificada no conceito de rei divino ou César divinizado. No Egito, os faraós eram considerados divindades desde o momento da sua sucessão:  começavam por Hórus encarnado – o descendente mágico de Ísis e Osíris – e, terminados os  ritos sagrados da morte, tornavam-se Osíris. Mesmo nos tempos do Império romano, a família reinante do Egito, a dinastia grega dos Ptolomeus – da qual Cleópatra é o membro  mais famoso – era muito escrupulosa em manter a tradição do faraó-como-deus. A rainha  do Nilo identificava-se muito com Ísis e era, por vezes, retratada como essa deusa.

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Um dos mais persistentes conceitos associados a Jesus é a sua realeza. «Cristo-Rei» é frequentemente alternado com a designação «Cristo, o Senhor», e, embora ambas sejam usadas simbolicamente, persiste um sentimento difuso de que, de  certo modo, ele pertencia à realeza – e a Bíblia está de acordo. O Novo Testamento é inequívoco neste ponto: Jesus era descendente direto do rei David,  embora não se possa comprovar a exatidão desta afirmação. O ponto crucial é que o  próprio Jesus se considerava de estirpe real ou queria que os discípulos assim o considerassem.  Seja como for, não há dúvida de que Jesus pretendia ser o rei legítimo de todo o Israel.

Em face disto, tudo pareceria estar em contradição com a nossa ideia de que Jesus era de  religião egípcia – porque prestariam atenção os judeus a um pregador não judaico, quanto  mais aceitá-lo como seu rei legítimo? Como vimos no Capítulo XIII, muitos discípulos de  Jesus pareciam considerá-lo judeu: presumivelmente, isso era uma parte essencial do seu  plano. Contudo, a questão permanece – por que desejaria ele ser rei dos judeus? Se tivermos  razão, e ele desejasse recuperar o que julgava ser a religião original do povo de Israel, para  restituir ao feroz patriarcado a deusa perdida do Templo de Salomão, que melhor maneira que instaurar-se nos corações e nas mentes das massas como seu legítimo governante?

Jesus pretendia poder político: talvez isto explique o que ele esperava conseguir pela  submissão ao rito iniciatório da crucificação e à subsequente «ressurreição» através da  intervenção da sua sacerdotisa e companheira do casamento sagrado, Maria Madalena. Talvez acreditasse que, «morrendo» e ressuscitando, se transformaria – à maneira clássica dos faraós – no próprio deus-rei Osíris. Como imortal divinizado, Jesus teria, então, poder  material ilimitado. Mas, obviamente, alguma coisa correu mal.

Como exercício gerador de poder, a crucificação teve qualquer coisa de colapso, e,  presumivelmente, o esperado afluxo de energia mágica não se materializou. Como vimos,  alguns eruditos, tal como Hugh Schonfield, sugerem que é improvável que Jesus tivesse  perecido na cruz ou em consequência direta dos suplícios sofridos. Mas parece ter saído  derrotado, ou mesmo incapacitado, não só porque o grande arranque para o poder não se  materializou mas também Madalena deixou o país, chegando eventualmente a França (Marseille).  Podemos especular que, sem Jesus – o seu protetor -, ela sentiu-se subitamente ameaçada  pelos seus velhos opositores, Simão Pedro e os seus aliados.

A ideia de que algum judeu se tivesse mostrado receptivo a um líder não judeu parece  improvável à primeira vista. Contudo, esse cenário não é impossível – porque ele, de fato,  aconteceu. Josefo, em A Guerra Judaica, registra que, aproximadamente vinte anos depois da crucificação, uma figura conhecida na história apenas como sendo o Egípcio, entrou  na Judeia e levantou um considerável exército de judeus para expulsar os romanos.  Referindo-o como um «falso profeta», Josefo escreve:

“Chegando ao país, este homem, um impostor que se fazia passar por profeta, reuniu 30.000  ingênuos, conduziu-os por regiões desertas até ao monte das Oliveiras, e daí estava  preparado para forçar a entrada em Jerusalém, dominar a guarnição romana e apoderar-se  do poder supremo, tendo os seus companheiros do ataque como escolta”.

Este exército foi desbaratado pelos romanos, comandados por Félix (o governador que  sucedeu a Pilatos), embora o egípcio fugisse e desapareça completamente da história. Embora existissem colônias judaicas no Egito e este aventureiro estrangeiro pudesse ser  judeu, este episódio é instrutivo porque alguém que era, pelo menos, considerado egípcio  pôde reunir um número substancial de judeus no seu próprio país. Outras evidências, no entanto, sugerem que este líder não era judeu: esta mesma figura é mencionada nos Atos  dos Apóstolos (21:38). Paulo acabara de ser salvo da populaça, no Templo de Jerusalém, e  colocado «sob proteção» pelos romanos, que estão claramente duvidosos da sua  identidade. O capitão da guarda pergunta-lhe:

“Não és tu o egípcio que há pouco tempo provocou um tumulto e conduziu para o deserto  quatro mil homens que eram assassinos?”

Paulo responde: “Eu sou um homem que é um judeu de Tarso… “

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Este episódio levanta algumas perguntas interessantes: por que deveria um egípcio dispor-se a encabeçar uma revolta palestiniana contra os romanos? E talvez uma pergunta mais pertinente: por que teriam os romanos associado Paulo – um pregador cristão – a um  agitador de multidões egípcio? Que teriam eles em comum? Há outro ponto importante: a  palavra traduzida por «assassinos», na versão do rei James, é, de fato, sicarii, o nome  dos nacionalistas judeus mais ativos, que eram notórios pelas suas táticas terroristas. O  fato de, nesta ocasião, poderem agrupar-se a seguir um estrangeiro, demonstra que é possível que o tivessem feito no caso de Jesus.

A nossa investigação sobre Maria Madalena e João Batista lançou alguma luz sobre Jesus.  Apercebemo-lo, agora, como radicalmente diferente do Cristo da tradição. Parece haver  dois fios principais no conjunto da informação que emergiu sobre ele: um que o liga a um quadro não judeu, especificamente egípcio – e outro em que ele é considerado como rival de João. Se combinarmos os dois fios, que quadro irá emergir?

Os Evangelhos são muito cuidadosos em apresentar um Jesus que era literalmente divino;  portanto, toda a gente – incluindo João – era espiritualmente inferior em relação a ele. Mas, quando isso é considerado como mera propaganda, a história, finalmente, faz sentido. A primeira grande diferença, em relação à história geralmente aceita, é que, pondo de lado as  ideias pré-concebidas, ele não foi distinguido, desde o princípio, como Filho de Deus, nem  o seu nascimento foi acompanhado por hostes angélicas. De fato, a história da sua  milagrosa natividade era, em parte, um completo mito e, em parte, «plagiada» da história  (igualmente mítica) do nascimento de João.

Segundo os Evangelhos, a missão de Jesus começou depois de João o ter batizado, e os  seus primeiros discípulos foram recrutados entre os de João Batista. E é também como discípulo de João que Jesus figura nos textos mandeístas. Contudo, é muito provável que Jesus fosse membro do círculo interno do Batista – e,  apesar de João nunca ter proclamado que ele era o esperado Messias, a história pode fazer  eco de alguma genuína recomendação feita por ele. Existe mesmo a possibilidade de que  ele fosse realmente o herdeiro aparente de Batista, durante algum tempo, mas alguma  coisa muito séria aconteceu que fez João refletir e nomear Simão, o Mago, em vez de  Jesus.

Parece ter havido um movimento de ruptura com o grupo de João. Presumivelmente, foi o  próprio Jesus quem liderou o cisma. Os Evangelhos registram o antagonismo entre os dois grupos de discípulos, e sabemos que o movimento de João continuou depois da sua morte,  independente do culto de Jesus. Certamente, houve alguma grande disputa ou luta de poder  entre os dois líderes e os seus discípulos: testemunhemos as dúvidas de João, na prisão,  sobre Jesus.

Há dois cenários possíveis. O cisma podia ter acontecido antes de João ser preso e ter sido  uma ruptura completa. Há esta sugestão no Evangelho de João (3:22-36), mas não nos  outros (apenas se concentram em Jesus após o seu batismo). Em alternativa, depois da  prisão de João, Jesus podia ter tentado assumir a liderança – por iniciativa própria ou como  legítimo lugar-tenente de João. Mas, por alguma razão, ele não foi aceite por todos os  discípulos de João Batista.

Como vimos, Jesus parecia ter motivos complexos, mas é inegável que, conscientemente,  representou dois importantes dramas religioso-políticos, um esotérico e outro exotérico –  respectivamente, a história de Osíris e o profetizado papel de Messias judaico. O seu  ministério sugere uma estratégia definida, que foi aplicada em três fases principais: primeiro, atrair as massas através da realização de milagres e curas;  depois, logo que as massas começassem a segui-lo, fazendo discursos, prometendo-lhes  uma Idade de Ouro (o «Reino dos Céus») e uma vida melhor; e, finalmente, levando-as a  reconhecê-lo como o Messias. Devido à hiper-sensibilidade das autoridades relativamente a  potenciais agitadores, sem dúvida teve de afirmar o seu messianismo de forma implícita e  não proclamá-lo abertamente.

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Muitas pessoas, atualmente, admitem que Jesus tinha uma agenda política, mas que ainda  é considerada secundária em relação à sua doutrina. Compreendemos que era necessário  colocar as nossas hipóteses sobre o seu carácter e ambições no contexto do que ele pregava.  A ideia de que ele defendia um sistema ético coerente, baseado na compaixão e no amor, é  tão divulgada que é considerada provada.

Virtualmente para toda a gente, da maioria das religiões, Jesus é a epítome da suavidade e da bondade. Atualmente, ainda que ele não seja considerado como o filho de Deus, ainda é  julgado um pacifista, um campeão dos excluídos e do amor pelas crianças. Para os cristãos,  e para um grande número de não-cristãos, Jesus é apercebido como a pessoa que quase  inventou a compaixão, o amor e o altruísmo. Evidentemente, esse não é o caso; é óbvio que sempre existiram boas pessoas, em todas as culturas e religiões, mas, especificamente, a  religião dos adoradores de Ísis da época dava grande ênfase à responsabilidade e moralidade pessoais, à defesa dos valores familiares e ao respeito por todas as pessoas.

Um exame objetivo dos episódios dos Evangelhos revela algo muito diferente do coerente  mestre de moral, que se supõe que Jesus tenha sido. Apesar de os Evangelhos serem  efetivamente propaganda pró-Jesus, o quadro que eles apresentam do homem e das suas  doutrinas é inconsistente e elusivo. Em resumo, as doutrinas de Jesus, tal como o Novo  Testamento as apresenta, são contraditórias. Por exemplo, ele exorta os seus discípulos a  oferecerem a outra face, a perdoarem aos seus inimigos e a entregarem todos os seus bens  ao ladrão que roubar alguns deles *4 – mas, por outro lado, declara: «Eu não vim trazer a  paz, mas a espada» *5. Defende o mandamento «Honrarás pai e mãe», mas também  afonia:

“Se alguém vier até mim, e não aborrecer o seu pai e mãe, esposa e filhos, e irmãos e irmãs, e a sua própria vida, não pode ser meu discípulo”.

Os seus discípulos podem ter sido incitados a odiar as suas próprias vidas, mas, ao mesmo  tempo, são exortados a amar os seus próximos como a si mesmos. Os teólogos tentam explicar estas discrepâncias alegando que algumas máximas devem ser  interpretadas literalmente, mas outras, metaforicamente. O problema desta afirmação, no entanto, é que a teologia foi inventada para enfrentar estas contradições. Os teólogos  cristãos partem do princípio de que Jesus era Deus. Este é um exemplo primordial de  raciocínio vicioso: para eles, tudo o que Jesus diz tem de estar certo, porque ele o disse, e  disse-o porque estava certo. Contudo, a teoria cai por terra, se Jesus não fosse Deus encarnado e as flagrantes contradições das palavras que lhe são atribuídas pudessem ser  analisadas à crua luz do dia.

Os cristãos atuais têm tendência para pensar que a imagem de Jesus se manteve imutável  durante dois mil anos. De fato, a sua imagem atual é muito diferente da imagem de há  dois séculos, quando a ênfase era colocada no conceito de juiz severo. A sua imagem muda de era para era, de lugar para lugar. Jesus, como juiz, foi o conceito que inspirou atrocidades, como a cruzada cátara e os julgamentos por feitiçaria; mas, desde a época  vitoriana, passou a ser o «suave Jesus, manso e humilde». Estas imagens contraditórias são  possíveis porque as doutrinas de Jesus, tal como os Evangelhos, podem ser tudo para todos os homens.

Curiosamente, esta mesma qualidade nebulosa pode, de fato, deter a chave da compreensão das palavras de Jesus. Os teólogos tendem a esquecer que ele se dirigia a  pessoas verdadeiras que viviam num contexto político real. Por exemplo, os seus discursos pacifistas podem ter sido uma tentativa para dissipar as suspeitas das autoridades quanto ao  seu potencial subversivo. Dada a agitação da época, os agrupamentos dos seus partidários  teriam incluído informantes e ele tinha de ter cuidado com o que dizia. (Afinal, João  fora preso devido a suspeitas de que pudesse vir a provocar uma rebelião.) Jesus tinha de  ser muito cuidadoso: por um lado, tinha de conseguir apoio popular, mas, por outro, tinha de se fazer notar como não representando qualquer ameaça ao status quo – até que estivesse  preparado.

E sempre importante compreender o contexto de qualquer afirmação que Jesus faz. Por  exemplo, a frase «Deixai vir a mim as criancinhas” é quase universalmente considerada  como um belo exemplo da sua suavidade, acessibilidade e amor pelos inocentes. Ignorando o fato de que os políticos sempre beijaram criancinhas, devemos lembrar que Jesus  gostava de desafiar as convenções – acompanhava com mulheres de moral duvidosa e  mesmo com cobradores de impostos. Quando os discípulos tentavam deter as mães e as  crianças, Jesus interveio e mandou-as avançar. Este podia ser outro exemplo do seu prazer em não respeitar as convenções ou simplesmente mostrar aos discípulos quem dava as  ordens. Do mesmo modo, quando Jesus se refere às criancinhas:

“Qualquer um que escandalizar um destes pequeninos, que creem em mim, melhor lhe fora  que lhe pusessem ao pescoço uma mó (pedra) de moinho e fosse lançado ao mar.”

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A maior parte das pessoas interpreta estas palavras como uma afirmação do amor do seu  Deus pelas crianças. Mas poucas pessoas notam a qualificação – «que crêem em mim».  Nem todas as crianças estão habilitadas ao seu amor, apenas aquelas que pertencem aos  seus discípulos. De fato, ele está a abusar da insignificância das crianças dizendo, com efeito, «mesmo uma criança que me segue é importante». A ênfase não é nas crianças – é na  sua própria importância.

Como vimos no caso da Oração do Senhor, as palavras de Jesus mais conhecidas – e mais  famosas – são também, ironicamente, as mais discutíveis. «Pai Nosso, que estais no Céu»  não era uma expressão inventada por Jesus: parece que João também as usava, na época, e,  seja como for, elas tinham origem nas orações a Osíris-Amon. E é também o caso do  Sermão da Montanha – como escreve Bamber Gascoigne, em The Christians, «Nada no  Sermão da Montanha é exclusivamente original de Cristo». Mais uma vez, verificamos  que Jesus profere palavras que já tinham sido atribuídas a João Batista. Por exemplo, no Evangelho de Mateus (3:10), João diz «[…] toda a árvore que não produz bons frutos é  cortada e lançada ao fogo».

Depois, mais tarde, no mesmo Evangelho (8:19-20), no Sermão  da Montanha, Jesus repete esta metáfora, palavra por palavra, acrescentando: «Porque pelos  frutos as conhecereis.» Embora seja improvável que Jesus tivesse feito o sermão conhecido por Sermão da  Montanha, é provável que ele representasse os pontos-chave da sua doutrina – como ela foi  interpretada pelos evangelistas. Embora um desses elementos, pelo menos, já fosse  reconhecido como pertencente à mensagem de João, o sermão é, sem dúvida, complexo:  inclui declarações éticas, espirituais – e mesmo proféticas – e, portanto, merece um exame  mais atento.

A evidência de que Jesus tinha uma agenda política é excepcionalmente forte. Partindo  deste princípio, muitas das suas elusivas máximas fazem sentido. O Sermão da Montanha  parece ser formado por uma série de curtas frases que são particularmente reconfortantes devido à autoridade com que são proferidas, tais como «bem-aventurados os puros de coração porque eles verão Deus». Contudo, os cínicos podem considerá-las apenas como  uma série de lugares-comuns, ou melhor, de promessas absurdas («bem-aventurados os  humildes porque eles possuirão a Terra»). Afinal, todos os revolucionários da história tentaram tornar-se populares junto das pessoas vulgares, apelando especialmente aos  descontentes e aos pobres, tal como um político podia, atualmente, fazer promessas aos desempregados. Tudo isto se ajusta, como um todo, à agenda de Jesus: os seus repetidos  ataques aos ricos são uma parte essencial do seu apelo ao apoio popular, dado que os ricos  sempre foram o foco de descontentamento.

Permanece o fato de que as palavras de Jesus – «amai os vossos inimigos /bem- aventurados os pacíficos /bem-aventurados os misericordiosos – parecem ser as de um  homem genuinamente misericordioso, afetuoso e solícito. Fosse, ou não, o filho de Deus, ele parece ter encarnado um espírito notável. Se aparentamos expressar algum cinismo  sobre o homem e os seus motivos, só o fazemos porque acreditamos que a evidência sugere  que ele é justificado. Para começar, e como vimos, as palavras de Jesus – pelo menos, tal  como os Evangelhos as registram – eram geralmente ambíguas, algumas vezes  completamente contraditórias, e, ocasionalmente, pode provar-se que foi João Batista o  seu autor.

Mesmo assim, as nossas sugestões podiam ser consideradas contraditórias: por um lado,  questionam os motivos e mesmo a integridade de Jesus, enquanto, por outro, o alinham  firmemente ao terno e misericordioso culto de Ísis (culto ao Feminino Divino). Contudo, não há qualquer contradição:  ao longo da história, homens e mulheres foram atraídos por um grande número de religiões  ou de sistemas políticos e tornaram-se seus adeptos fervorosos e só mais tarde os usaram  para promover as suas próprias causas, talvez mesmo convencidos de que visavam os melhores interesses da sua organização. Tal como a história revelou que o cristianismo –  que se proclama a religião do amor e da misericórdia – criou filhos e filhas que viveram  vidas menos do que exemplares, também a religião de Ísis sofreu as depredações da  natureza humana ao longo dos anos.

Assim, Jesus era um mágico taumaturgo que atraía as multidões porque as entretinha. A  expulsão de demônios devia ter sido espetacular e garantia que o exorcista fosse motivo de  conversas durante meses, depois de ter abandonado a aldeia. Tendo captado a atenção das  multidões, Jesus começou a doutriná-las para se instituir como Messias. Mas, como vimos,  Jesus começou por ser discípulo de João, o que sugere a pergunta – Batista tinha as mesmas ambições? Infelizmente, dada a escassa informação disponível, é impossível ir  além da especulação. E, embora a imagem que temos de João dificilmente seja a de um ativo organizador político, a nossa concepção daquela figura, severamente justa, provém  das páginas da propaganda do movimento de Jesus – os Evangelhos do Novo Testamento.  

Por um lado, Herodes Antipas mandara prender João (segundo o mais fiável relato de  Josefo) porque o considerava um subversivo potencial, mas a prisão foi mais um gesto de antecipação do que uma reação a  alguma coisa que ele tivesse dito ou feito. Por outro lado, os discípulos de João, incluindo  os mandeístas, não parecem reconhecer ao seu líder qualquer ambição política, mas talvez  isso se deva ao fato de João ter sido preso antes de se ter podido manifestar – ou apenas  porque desconheciam os seus motivos secretos.

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O acontecimento que marcou o momento em que Jesus entrou em ação parece ter sido o  da multiplicação dos pães. Os Evangelhos descrevem-no como um piquenique milagroso, com um espantoso número de pessoas e a multiplicação do magro recurso de cinco pães de  centeio e dois peixes, de forma a alimentar cinco mil pessoas – mas, na época, a história  tinha um profundo significado, que se perdeu: primeiro, o milagre é totalmente diferente de todos os outros atribuídos a Jesus – os outros milagres, que se destinavam ao público em  geral, diziam respeito a curas de vários gêneros. Em segundo lugar, os próprios Evangelhos  sugerem que há alguma coisa importante neste episódio que nem eles próprios compreendem. O próprio Jesus reforça esta sugestão com estas palavras misteriosas: «Vós  procurais-me, não porque compreendais os sinais mas porque comeis os pães.» No  Evangelho de Marcos, pelo menos, ninguém se mostra assombrado pelo acontecimento.  Como escreve A. N. Wilson:

O milagre, ou sinal, concentra-se na comida e não na multiplicação do pão. Na verdade, é  notório que, no relato de Marcos, ninguém revela o menor espanto por este incidente.  Quando Jesus cura um leproso ou um cego, toda a gente tem conhecimento disso. Em  Marcos, não há absolutamente nenhum assombro.

A importância da multiplicação dos pães não era a sua natureza paranormal. É possível que  os evangelistas inventassem a parte milagrosa da história, porque eles sabiam que deviam  realçá-la, embora não soubessem exatamente o por quê. O ponto-chave é que se encontravam lá, segundo o Evangelho, cinco mil homens – também podia haver um número não especificado de mulheres e crianças, mas elas são irrelevantes  nesta história. O relato pode começar por referir as cinco mil pessoas, mas, mais tarde,  especifica que esta era uma multidão de homens. Há nisto um significado especial: é  realçado que Jesus os mandou sentar todos juntos. A. N. Wilson escreve:

Que os homens se sentem! Que se sentem os essénios! Que se sentem os fariseus! Que se  sente Iscariotes… que se sente Simão, o Zelota, com este grupo de guerrilha terrorista! Sentem-se. Oh! Homens de Israel!

Com efeito, Jesus fazia sentar, de forma pacífica, facções até então inimigas para partilharem uma refeição ritual. Como defende A. N. Wilson, parece ter sido literalmente  uma reunião de clãs – um grande agrupamento de velhos inimigos, temporariamente, pelo  menos, reunidos por Jesus, o antigo discípulo de João Batista. A própria linguagem de Marcos (6:39-40) é altamente sugestiva dum acontecimento  militar:

E ordenou [aos discípulos] que fizessem sentar a todos, em grupos, sobre a erva verde. E  eles sentaram-se em grupos de cem e de cinquenta.

Segundo o Evangelho de João (6:15), foi em consequência direta do «milagre dos pães» que aqueles homens quiseram fazer de Jesus rei. Evidentemente, foi um grande  acontecimento, mas parece ter mais importância que o significado óbvio – porque ele  acontece imediatamente após a decapitação de João. Mateus (14:13) relata assim a história:

E Jesus, ouvindo isto [a morte de João], retirou-se dali num barco, para um lugar deserto,  afastado, e, sabendo-o o povo, seguiu-o a pé desde as cidades.

Jesus pode ter ficado tão sucumbido pela dor, ao receber a notícia da morte de João, que  necessitasse da paz de uma região deserta, que, infelizmente, em breve foi abalada pela chegada de uma multidão de pessoas que queriam ouvi-lo pregar. Talvez as pessoas  desejassem assegurar-se de que os ideais de João não tinham morrido com ele e de que a  sua continuidade estava assegurada através de Jesus.

Seja como for, a morte de João foi muito importante para Jesus. Preparou-lhe o caminho  para se tornar líder do grupo e, possivelmente, para tomar a direção de toda aquela gente.  E provável que ele já tivesse tomado a direção do movimento de João, depois da prisão  deste, e, quando as pessoas tiveram a notícia da subsequente execução de Batista,  acorressem a seguir o seu lugar-tenente, Jesus.

Surgem muitas perguntas sem resposta relacionadas com todo o episódio da prisão de João:  mais uma vez, parece que os evangelistas estão a esconder alguma coisa. Segundo os  Evangelhos, João foi preso por ter condenado publicamente o casamento ilegal de Herodes  com Herodíades, enquanto o relato de Josefo afirma que João foi preso por ser considerado  uma ameaça, efetiva ou potencial, ao governo de Herodes. No seu relato, Josefo não  apresenta pormenores das circunstâncias da morte de Batista nem do modo como foi executado. E há também a  mudança de opinião, aparentemente súbita, de João sobre o messianismo de Jesus: talvez  tivesse sabido alguma coisa sobre Jesus enquanto estava na prisão, e que lançasse dúvidas sobre ele. E, como vimos, há alguma coisa claramente insatisfatória nas razões  apresentadas para a morte de João: segundo os Evangelhos, Herodes foi persuadido por Herodíades a mandar matar João, tendo Salomé como intermediária.

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A morte de João, segundo a versão dos Evangelhos, apresenta vários problemas. Referem  que Salomé, agindo segundo as instruções da mãe, Herodíades, pede a Herodes a cabeça de  João Batista – e ele acede, embora com relutância. Este é um cenário extremamente  improvável: dado o que se conhece sobre o grau da popularidade de João, dificilmente  Herodes seria suficientemente tolo para o mandar matar por um capricho tão perverso. João Batista, enquanto vivo, pode ter constituído uma ameaça, mas talvez se tivesse tomado  muito mais perigoso como mártir. Herodes, evidentemente, pode ter considerado que valia  a pena correr o risco e ter exercido a sua autoridade, independentemente da grandeza do  movimento de Batista. Nesse caso, teria mandado executar João, por sua ordem  inequívoca: certamente, não teria atuado numa questão grave simplesmente para satisfazer  uma enteada sádica. Dadas as circunstâncias, parece estranho que não tivesse havido uma  enorme agitação civil ou mesmo uma revolta. Como vimos, Josefo regista que o povo  atribuiu a esmagadora derrota sofrida, pouco depois, pelo exército de Herodes a castigo  divino pela morte de João, o que, no mínimo, revela que a tragédia teve um forte e  duradoiro impacto.

Contudo, não houve nenhuma revolta. Em vez dela, toda a tensão foi dissipada por Jesus,  que, como vimos, imediatamente presidiu à multiplicação dos pães. Jesus acalmou a  multidão? Conseguiu reconfortá-la pela morte do seu amada Batista? Pode tê-lo feito,  mas, nos Evangelhos, não há qualquer referência a esse respeito. Mas é evidente que muitos  dos discípulos de João aperceberam Jesus como tendo revestido o manto do seu líder  morto.

Assim, a morte de João, segundo a versão dos Evangelhos, faz pouco sentido. Por que  teriam eles achado necessário inventar uma história tão complicada? Afinal, se a sua  intenção fosse simplesmente minimizar a grandeza do movimento de João, podiam tê-lo  transformado no primeiro martírio cristão. Deste modo, descrevem-na como a consequência  de uma sórdida intriga palaciana. Mas por que fariam os evangelistas os possíveis por  insistir em que Herodes surgisse como um homem decente, persuadido por mulheres  astuciosas a ordenar um ato tão terrível? Parece, portanto, que existira uma intriga palaciana que rodeava a morte de João, e que era demasiado conhecida para que os evangelistas a ignorassem. Mas, ao reescrever a história  para servir os seus propósitos, os evangelistas, involuntariamente, criaram um absurdo.

Herodes Antipas não beneficiou, de modo algum, com a morte de João – a condenação do  seu casamento era, presumivelmente, muito conhecida e o mal estava feito. No entanto,  verificava-se o inverso: a morte de João tornava-lhe a situação mais difícil. Então, quem se beneficiou com a morte de João? Segundo a teóloga australiana Barbara  Thiering, tinham circulado rumores, na época, que atribuíam a responsabilidade à facção de  Jesus.

Por chocante que possa parecer, de início, nenhum outro grupo conhecido teria se beneficiado mais com o afastamento de João Batista. Apenas por esta razão, os apoiantes de Jesus não deviam ser ignorados, se – como suspeitamos – a morte de João fosse, de fato, um assassínio inteligentemente planejado. Afinal, conhecemos a identidade do líder rival sobre o qual ele decidiu levantar dúvidas enquanto estava na prisão, no que deve ter constituído a  sua última declaração pública.

Contudo, albergar suspeitas é uma coisa e encontrar provas que as apoiem é outra muito  diferente. Depois de terem passado dois mil anos, evidentemente que é impossível  encontrar pistas novas e diretas sobre a verdade desta questão, mas ainda é possível  descobrir o esboço de um quadro de provas circunstanciais que, certamente, nos fazem  refletir. Afinal, como vimos, deviam existir razões específicas para a tradição joanina, para  – na melhor das hipóteses – a frieza dos heréticos, em relação a Jesus, e, na mais extrema,  para a forte hostilidade dos mandeístas em relação a ele. As razões deviam residir nas  circunstâncias que rodearam a morte de João.

Curiosamente, embora este seja um dos mais famosos de todos os episódios do Novo  Testamento, apenas conhecemos o nome da filha de Herodíades – Salomé – graças a Josefo.  Os evangelistas evitaram cuidadosamente referi-lo, embora registrem os nomes de todos os  outros protagonistas principais desta cena. Seria possível que eles estivessem  deliberadamente a escondê-lo?

Jesus tinha uma discípula chamada Salomé. Contudo, apesar de o seu nome ser referido  como uma das mulheres que se encontrava junto da cruz e que acompanhou Madalena ao  túmulo, no Evangelho de Marcos, em Mateus e Lucas – que usou Marcos como fonte -, ela  desapareceu misteriosamente. Além disso, já vimos a curiosa omissão do episódio,  aparentemente inócuo, do Evangelho de Marcos, que é revelado em The Secret Gospel de  Morton Smith:

Depois ele entrou em Jericó. E a irmã do jovem que Jesus amava estava lá, acompanhada  pela mãe de Jesus e por Salomé, mas ele recusou recebê-las.

Ao contrário da omissão da ressurreição de Lázaro, não há nenhuma razão óbvia para  excluir este incidente. Assim, parece que os evangelistas tinham motivos próprios para não se referirem a Salomé. (Ela surge, no entanto, no Evangelho de Tomás – um dos textos de  Nag Hammadi – deitada num sofá com Jesus, no chamado Evangelho Perdido dos  Egípcios e na Pistis Sophia, onde é retratada como discípula e catequista de Jesus.) Sabe-se que Salomé era um nome vulgar, mas o próprio  fato de que era suficientemente importante para que os evangelistas o eliminassem, com  tanto cuidado, tem o efeito de chamar a atenção para a Salomé que seguia Jesus.

João-Batista

Certamente, João Batista tinha-se tornado um embaraço para o movimento cismático de  Jesus. Mesmo na prisão, ele conseguira expressar as suas dúvidas sobre a posição do seu  antigo discípulo – que eram tão preocupantes que, como vimos, o seu sucessor oficial não  foi Jesus, mas Simão, o Mago. Depois, este carismático profeta, com um considerável  movimento, é morto devido a um capricho da família Herodes, que não podia ser tão  ingênua que subestimasse a reação potencial do povo.

Como vimos, alguns eruditos, tal como Hugh Schonfield, defendem, de forma convincente,  que existia um grupo-sombra que parece ter facilitado a missão de Jesus – e que podia ter  considerado prudente afastar definitivamente Batista. A história está cheia de exemplos de  mortes convenientes, as de Dagoberto II e de Thomas Becket, que, de uma só vez,  afastaram os dissidentes e o obstáculo final à ambição do novo regime. Talvez a execução  de João se enquadre nesta categoria. Este grupo teria concluído que era tempo de afastar da  cena o grande rival de Jesus? É evidente que Jesus podia ter ignorado totalmente o crime cometido em seu proveito, tal como Henrique II nunca pretendeu que os cavaleiros  matassem o arcebispo Thomas Becket.

O grupo que apoiava Jesus parece ter sido rico e influente, portanto, podia ter tido contatos  no interior do palácio de Herodes. Sabemos que isto não era impossível, porque mesmo os  discípulos imediatos de Jesus tinham, pelo menos, um contato conhecido dentro do  palácio: os Evangelhos referem o nome da discípula Joana como sendo a mulher de Chuza,  o mordomo de Herodes.

Seja qual for a verdade da questão, o fato é que havia alguma coisa que corria muito mal  na relação entre Batista e Jesus, alguma coisa em que os heréticos acreditaram durante  séculos e que os eruditos estão, por fim, a começar a reconhecer, ainda que seja apenas o  fato de que eram rivais. No mínimo, a antipatia dos heréticos por Jesus pode basear-se na  ideia de que ele não passava de um oportunista sem escrúpulos, que explorou a morte de  João em proveito próprio, assumindo a liderança do movimento com uma prontidão  indecorosa – especialmente quando o legítimo sucessor de João era, realmente, Simão, o Mago. Talvez o mistério que rodeia a morte de João  apresente a solução para a ênfase, de outro modo inexplicável, na veneração de João,  superior à de Jesus, entre os grupos que discutimos ao longo desta investigação.

Como vimos, os mandeístas veneram João como o «Rei da Luz», enquanto depreciam Jesus  como um falso profeta que desencaminhou o povo – exatamente como é retratado no  Talmude, onde também é descrito como feiticeiro. Outros grupos, como os Templários,  adotaram uma perspectiva menos radical, mas, todavia, veneravam João acima de Jesus.  Esta veneração encontrou suprema expressão na Virgem dos Rochedos de Leonardo e é reforçada por elementos de outras obras, que discutimos no Capítulo I.

Quando, pela primeira vez, reparamos na obsessão de Leonardo pela supremacia de João Batista, interrogamos-nos se ela seria apenas uma fantasia da sua parte. Mas, depois de  examinar minuciosamente o conjunto de evidências da existência de um culto mais vasto de  João, fomos forçados a concluir que não só esse culto existia mas também que sempre  existira, paralelo à Igreja romana, mantendo o seu segredo bem guardado. A Igreja de João teve  vários rostos, ao longo dos séculos, como o dos antigos guerreiros-monges e o do seu braço  político, o Priorado de Sião. Secretamente, muitos veneravam João quando dobravam o joelho perante «Cristo» – como vimos, o Priorado de Sião, que confere aos seus grão-mestres o título de «João», deu início a esta tradição com «Jean II». Pierre Plantard de  Saint-Clair explica este fato com o que parece ser uma non sequitur: «João I» está  reservado para Cristo.

Evidentemente, apresentar bons argumentos a favor da existência de grupos que  acreditaram que Jesus era um falso profeta, ou mesmo que tivera participação no assassínio  de João Batista, não é, de modo algum, a mesma coisa que provar que estas coisas foram,  de fato, assim. O que é certo é que as duas Igrejas existem lado a lado há dois mil anos; a  Igreja de Pedro, que venera Jesus não só como o único homem perfeito mas também como  Deus encarnado – e a Igreja de João, que considera Jesus como exatamente o oposto.  Talvez nenhuma delas tenha o monopólio da verdade e que o que vemos refletido nestas  facções opostas seja apenas a continuação da antiga contenda entre os discípulos dos dois  mestres.

Contudo, o próprio fato da existência de uma tradição, como a Igreja de João, demonstra  forçosamente que há muito devia ter sido feita uma reavaliação radical das personagens,  papéis e legados de João Batista e de Jesus «Cristo». Mas aqui está em jogo muito mais do  que isso.

Se a Igreja de Jesus assentar na verdade absoluta, então, a Igreja de João assenta numa  mentira. Mas, se invertermos a situação, somos confrontados com a possibilidade de umas  das mais terríveis injustiças da História. Não estamos a afirmar que a nossa cultura tenha venerado o Cristo errado,  porque não há nenhuma prova de que João Batista pretendesse esse papel ou de que ele tivesse existido, tal como o interpretamos hoje, até que Paulo o inventasse para Jesus. Mas,  em todo o caso, João foi morto devido aos seus princípios, e acreditamos que eles tinham  origem direta na tradição da qual ele adotou o ritual do batismo. Esta era a antiga  religião da gnose pessoal, da iluminação, da transformação espiritual do indivíduo – os  mistérios do culto de Ísis e Osíris.

isis-osiris

Jesus, João Batista e Maria Madalena pregavam, essencialmente, a mesma mensagem –  mas, ironicamente, não era aquela que a maioria das pessoas supõe ser. Este grupo do  século I introduziu a sua forma de intenso conhecimento gnóstico do divino na Palestina,  batizando os que desejavam possuir este conhecimento místico – iniciando-os na antiga  tradição ocultista. Também faziam parte deste movimento Simão, o Mago, e a sua consorte  Helena, cuja magia e milagres eram, como os associados a Jesus, parte intrínseca das suas  práticas religiosas. O ritual era central para este movimento, desde o batismo até à representação dos mistérios egípcios. Mas a suprema iniciação acontecia através do êxtase  sexual.

Contudo, nenhuma religião, seja qual for o seu credo, garante superioridade moral ou ética.  A natureza humana sempre se manifesta, criando o seu próprio sistema híbrido, ou, nalguns  casos, a religião torna-se num culto de uma personalidade. Este movimento, na essência, pode  ter sido dedicado à Ísis, com toda a ênfase no amor e na tolerância que a religião pretende instilar;  mas, mesmo na sua pátria, o Egito, registraram-se muitos casos de corrupção entre os sacerdotes e as sacerdotisas. E nos dias turbulentos da Palestina do século I, quando os  homens ansiavam por um Messias, a mensagem confundiu-se com uma vaga de ambições  pessoais. Como sempre, quanto mais alta é a posição mais provável é o abuso do poder.

As conclusões e implicações desta investigação serão novidade para a maioria dos leitores,  e, sem dúvida, chocantes para muitos. Contudo, como esperávamos demonstrar, estas descobertas surgiram gradualmente, à medida que examinávamos as evidências. Em muitos  casos, existiu o que muitas pessoas considerarão um forte apoio dos estudos modernos. E, no final, o quadro que emerge é, no mínimo, muito diferente daquele a que estávamos habituados a aceitar.

O novo quadro das origens do cristianismo e do homem, em cujo nome foi fundada uma religião, comporta implicações de profundidade surpreendente. E, embora estas implicações  sejam novidade para muitas pessoas, elas foram reconhecidas por um estrato particularmente obstinado da sociedade ocidental, desde há séculos. E estranhamente  perturbador considerar, mesmo por um momento, a possibilidade de os heréticos terem  razão.

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