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Ramakrishna (01): Mestre e Discípulo

Posted by on 27/07/2015

Sri-Ramakrishna

MESTRE e DISCÍPULO

Ramakrishna Paramahamsa (Bengali: রামকৃষ্ণ পরমহংস), nascido Gadadhar Chattopadhyay (Bengali: গদাধর চট্টোপাধ্যায়), (18 de Fevereiro, 1836 – 16 de Agosto, 1886), foi um dos mais importantes líderes espirituais da Índia, e foi profundamente reverenciado por milhões de Hindus e não-Hindus como um autêntico mensageiro de Deus.

Ramakrishna foi uma figura influente na Renascença Bengali do século XIX. Swami Vivekananda, um dos seus maiores discípulos descreveu Ramakrishna Paramahamsa como: Ele que foi Rama, Ele que foi Krishna, agora é Ramakrishna neste corpo.”

Edição e imagens:  Thoth3126@gmail.com

CAPÍTULO   I  –  MESTRE   E   DISCÍPULO – Março, 1882

Foi num domingo de primavera, alguns dias depois do aniversário de Sri Ramakrishna, que “M” encontrou-o pela primeira vez. Sri Ramakrishna morava no Kalibari, templo da Mãe Kali, às mar­gens do Ganges, em Dakshineswar.

M., estando de folga nos domingos, fora visitar com seu amigo Sidhu, diversos jardins em Ba­rana­gore. Quando estavam passeando no de Prasanna Bannerji, Sidhu disse-lhe: “Há um lugar encan­tador às margens do Ganges, onde vive um Paramahamsa (*).

Você quer ir lá?” M. concordou e dirigi­ram-se imedia­tamente para o templo de Dakshineswar. Chegaram ao portão principal ao entardecer, foram diretamente para os aposentos de Sri Ramakrishna, onde o encontraram sentado num divã de madeira, olhando para o leste. Sorrindo, falava de Deus. O quarto estava cheio, todos sentados no chão, bebendo suas palavras, em silêncio profundo.

cisnes-Swans-Cygnus

(*)Paramahamsa (परमहंस), também escrito paramahansa ou paramhansa, é um titulo de honra em sânscrito de cunho religioso-teológico e aplicado aos mestres espirituais hindus de elevado estatuto que são considerados como tendo atingido (realizado) a iluminação. O titulo pode ser traduzido como o “supremo cisne (Hamsa)” e é baseado na característica de os cisnes estarem igualmente confortáveis tanto na terra (Matéria) como na água (Espírito). Similarmente, o verdadeiro sábio esta igualmente em casa tanto nos reinos da matéria e do espírito. O cisne é também, de acordo com a lenda Indiana, capaz de separar o leite da água. Portanto, o cisne simboliza a capacidade de um mestre auto-realizado de separar a verdade da ilusão insubstancial.

M. de pé, ficou mudo, observando. Era como ele estivesse no ponto de encontro de todos os lugares santos e como se o próprio Shukadeva estivesse falando de Deus, ou como se Sri Chaitanya (que popularizou o Mahamantra Hari Krishna) estivesse cantando o nome e as glórias do Senhor em Puri, com Ramananda, Swarup e ou­tros devotos.

Trimurti-3

Sri Ramakrishna disse: “Se ao ouvirem o nome de Hari ou Rama, seus olhos se encherem de lá­gri­mas ou seu cabelo ficar de pé, podem estar certo de que não precisam mais praticar exercícios devocio­nais tais como o sandhya. Somente então podem renunciar aos rituais, ou melhor, os rituais cairão por si mesmos. Só será necessário repetir o nome de Rama ou Hari, ou simples­mente, Om. Continuando disse: “O sandhya funde-se no Gayatri e o Gayatri no Om.”

M. olhou para os lados e maravilhado, disse para si mesmo: “Que lindo lugar! Que homem en­can­tador! Como são lindas as suas palavras! Não pretendo sair daqui.” Após alguns minutos pensou: “Deixe-me conhecer o lugar primeiro; depois volto e me sento.”

Quando deixou o quarto com Sidhu, ouviu a suave música do gongo, do tambor e dos pratos que vinha do culto da tarde no templo. Ouviu também, a música que vinha do nahabat no fundo do jardim. Os sons cruzavam o sagrado rio Ganges, flutuando e perdendo-se à distância. Um vento suave de verão soprava, carre­gado com o perfume das flores; a lua acabava de aparecer.

Era como se a natureza, juntamente com o homem estivessem se preparando para o culto da tarde. M. e Sidhu visitaram os doze templos de Shiva, o de Radhakanta e o de Bhavatarini. E à medida que M. assistia ao serviço religioso diante das ima­gens, seu coração enchia-se de alegria.

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O sagrado rio Ganges, em Varanasi, Índia

Quando voltaram ao quarto de Sri Ramakrishna, os dois amigos conversaram. Sidhu explicou que o templo tinha sido construído por Rani Rasmani, que Deus era adorado ali, diariamente, na forma de Kali, Krishna e Shiva, e que no interior, era oferecida comida aos sadhus e mendigos. Quando che­garam de novo na porta do quarto de Sri Ramakrishna encontraram-na fechada e Brinde, a empregada, estava no lado de fora. M. que possuía boas maneiras inglesas, jamais entraria num quarto sem per­missão, pergun­tou: “Está aí o santo?” Brinde respondeu: “Sim, ele está.”

M.: “Há quanto tempo ele vive aqui?”

Brinde: “Ó! Ele vive aqui há muito tempo.”

M.: “Ele lê muitos livros?”

Brinde: “Livros? Ó não! Estão todos na ponta de sua língua.”

M. havia terminado seus estudos na universidade. Admirou-se muito em saber que Sri Ra­makrishna não lia livros.

M.: “Talvez seja a hora de sua adoração da tarde. Podemos entrar? Pode-lhe dizer que estamos an­siosos para vê-lo?”

Brinde: “Entrem, rapazes. Entrem e sentem-se!”

Entrando no aposento, encontraram Sri Ramakrishna sentado, sozinho, no divã de madeira. O in­censo tinha acabado de queimar e todas as portas estavam fechadas. Ao entrar, M. de mãos postas, saudou o Mestre. Então a seu aceno, sentaram-se no chão. Sri Ramakrishna perguntou-lhes: “Onde vocês moram? Qual a sua profissão? Por que vieram a Baranagore?” M. respondeu às perguntas, mas reparou que de vez em quando, o Mestre parecia ausente. Mais tarde soube que aquele estado cha­mava-se bhava, êxtase.

É como o pescador, sentado com seu caniço; o peixe vem e morde a isca; e a bóia começa a balançar; o pescador fica alerta e segura a vara e observa a bóia firme e atentamente; não fala com ninguém. Tal era o estado mental de Sri Ramakrishna. Mais tarde M. ouviu e ele mesmo observou, que Sri Ramakrishna ficava muitas vezes neste estado depois do entardecer, às vezes tor­nava-se totalmente inconsciente do mundo exterior.

M.: “Talvez o senhor deseje fazer sua adoração da tarde. Neste caso, podemos ir embora?”

Sri Ramakrishna (ainda em êxtase): “Não – Adoração da tarde? Não é exatamente isso.”

Depois de algum tempo, M. saudou o Mestre e saiu: ‘Volte’- disse Sri Ra­makrishna.

Durante o trajeto de volta para casa, M. começou a conjeturar: “Quem é esse homem de olhar se­reno, que me está atraindo para ele? É possível que um homem seja grande, sem ser erudito? Como isso é maravilhoso! Gostaria de tornar a vê-lo. Ele mesmo me disse: ‘Volte!’ Irei amanhã ou depois.”

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Rama (uma encarnação de Krishna pré dilúvio), com sua consorte Sita, desembarca de sua Vimana

A segunda visita de M. a Sri Ramakrishna deu-se na varanda sudeste, às oito horas da manhã. O Mestre estava prestes a fazer a barba e o barbeiro acabara de chegar. Como a estação fria ainda per­mane­cia, tinha posto um xale de lã com franja vermelha. Vendo M., o Mestre falou: “Então você veio. É bom. Sente-se aqui!” Sorria e gaguejava um pouco enquanto falava.

Sri Ramakrishna (a M.): “Onde você mora?

“M.: “Em Calcutá, senhor.”

Sri Ramakrishna: “Onde você está hospedado aqui?

M.: “Estou em Baranagore, na casa de minha irmã mais velha, casa de Ishan Kaviraj.”

Sri Ramakrishna: “Ó na casa de Ishan? Bem, como vai Keshab? Ele estava muito doente.”

M.: “É verdade, também ouvi dizer isso, mas agora, acredito que esteja bem.”

Sri Ramakrishna: “Fiz uma promessa de oferecer a Mãe coco verde com açúcar se ele ficasse cu­rado. Às vezes, de madrugada, eu acordava e chorava diante d’Ela: ‘Mãe, por favor, devolva a saúde a Keshab. Se ele morrer, com quem vou conversar, quando for a Calcutá?’ E foi então que resolvi ofere­cer-Lhe coco verde com açúcar.

“Diga-me, você conhece um certo Sr. Cook, que chegou a Calcutá? É verdade que está dando con­ferências? Certa vez Keshab levou-me num passeio de barco e este Sr. Cook também estava lá.”

M.: “Sim, ouvi algo sobre isso, mas nunca fui às suas palestras. Não sei muito a seu respeito.”

Sri Ramakrishna: “O irmão de Pratap veio aqui. Ficou alguns dias, estava desempregado e que­ria morar aqui. Soube que havia deixado a esposa e os filhos com o sogro. Ele tem uma grande prole. Então o repreendi. Imagine! É pai de tantas crianças! Será que os vizinhos vão educá-las e dar-lhes de comer? Nem tem vergonha de deixar que outros os sustentem e também, de tê-los largado na casa do sogro. Re­preendi-o duramente e mandei que procurasse um trabalho. Por isso está que­rendo ir embora.

“Você é casado?”

M.: “Sim, senhor, sou.”

Sri Ramakrishna (estremecendo): “Ó Ramlal![1] Ele é casado!”

Como se fosse culpado de uma grande falta, M. ficou imóvel, olhando para o chão. Pensou, “Será uma coisa má ser casado?”

O Mestre continuou: “Você tem filhos?”

Desta vez M. pôde escutar as batidas do seu coração. Sussurrou com a voz trêmula: “Sim, se­nhor, tenho filhos.”

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Ramakrishna e a representação da deusa Kali.

Tristemente, Sri Ramakrishna disse: “Ai meu Deus! Ele tem até filhos!”

Com tal censura, M. ficou sem fala. Seu orgulho havia recebido um golpe. Depois de alguns mi­nutos, Sri Ramakrishna olhou-o com bondade e disse afetuosamente, “Você tem bons sinais. Co­nheço-os, olhando a testa, os olhos etc. de uma pessoa. Diga-me, que tipo de pessoa é sua esposa? É espiritualizada ou está sob o poder de avidya?”

M.: “Ela é boa, mas creio que é ignorante.”

Mestre (com visível desagrado): “E você é um homem de conhecimento!”

M. tinha ainda que aprender a diferença entre conhecimento e ignorância. Até aquele dia, seu con­ceito era que só se adquiria conhecimentos através dos livros e nos colégios. Mais tarde veio aban­donar essa falsa concepção. Aprendeu que conhecer Deus é conhecimento e não O conhecer é igno­rância. Quando Sri Ramakrishna exclamou: “E você é um homem de conhecimento!” o ego de M. ficou nova­mente terrivelmente chocado.

Mestre: “Bem, você acredita em Deus com forma ou sem forma?”

M. bastante surpreso, disse a si mesmo: “Como pode alguém acreditar em Deus sem forma quando acredita em Deus com forma? E se alguém acredita em Deus sem forma, pode acreditar que Deus tenha forma? Podem essas duas idéias contraditórias serem verdadeiras ao mesmo tempo? Pode um líquido branco como o leite, ser preto?”

M.: “Senhor, gosto de pensar em Deus sem forma”.

Mestre: “Muito bem. É suficiente ter fé em qualquer um desses aspectos. Você acredita em Deus sem forma, está muito bem, mas jamais pense que só isso seja verdadeiro e tudo o mais falso. Lembre-se de que Deus com forma é tão verdadeiro como Deus sem forma, mas fique firme em sua convicção”.

A afirmação de que ambos são verdadeiros surpreendeu M. Jamais havia aprendido esse conceito nos livros. Assim seu ego recebeu um terceiro golpe, mas desde que ele não havia sido esma­gado, tornou a fazer novas perguntas ao Mestre.

M.: “Senhor, suponha que alguém acredite em Deus com forma. Certamente Ele não é uma ima­gem de barro.”

Mestre (interrompendo): “Mas por que de barro? É uma imagem do Espírito.”

M. mal podia compreender o significado da expressão “imagem do Espírito.” “Mas senhor”, disse ao Mestre, “deve-se explicar àqueles que adoram a imagem de barro, que ela não é Deus e que, adorando-a, devem ter Deus em mente e não a imagem de argila. Não se deve adorar a argila.”

Mestre (bruscamente): “Trata-se de uma mania de vocês, pessoas de Calcutá, dar palestras para trazer luz aos outros – Ninguém jamais pensa como conseguir luz para si mesmo. Quem são vocês para ensinar os outros?

“Aquele que é o Senhor do universo ensinará cada um. Somente Ele que criou esse universo nos ensina: Aquele que fez o sol e a lua, homens, animais e todos os outros seres; Aquele que provê meios para seu sustento: que deu pais aos filhos e dotou-os de amor para poder educá-los. O Senhor fez tan­tas coisas – Ele não mostrará às pessoas a maneira de adorá-Lo? Se precisarem de ensinamentos, Ele será o Mestre. Ele é o nosso Guia” Interno“.

“Suponhamos que haja um erro na maneira de adorar a imagem de barro. Por acaso não sabe Deus que é através dessa imagem somente que Ele está sendo invocado? Ele aceitará tal adoração. Por que ter dor de cabeça por causa desse fato? É melhor você procurar adquirir conhecimento e devoção.”

trimurti2

A essa altura dos acontecimentos, M. sentiu que seu ego estava completamente esmagado. Disse para si mesmo: “Sim, ele falou a verdade. Que necessidade tenho de ensinar os outros? Já conheço Deus? Será que realmente O amo? ‘A minha cama é estreita para mim e estou convidando um amigo para com­partilhá-la comigo!’ Não sei nada a respeito de Deus e estou tentando ensinar aos outros. Que vergonha! Que tolo sou! Isto não é matemática ou história ou literatura, que alguém possa ensinar aos outros. Não, isto é o profundo mistério de Deus. O que ele me diz, toca-me.”

Esta foi a primeira argumentação com o Mestre e felizmente, a última.

Mestre: “Você estava falando de adorar a imagem de barro. Mesmo que ela seja de barro, há ne­ces­sidade de adoração. O Próprio Deus estabeleceu diversos tipos de adoração. Aquele que é o Senhor do universo, planejou todas essas formas para atender às pessoas nos diversos estágios de seu desenvolvimento.

“A mãe faz diferentes pratos a fim de atender ao estômago de seus diferentes filhos. Suponha­mos que ela tenha cinco filhos. Se há peixe, prepara vários cardápios como pilau, escabeche, peixe frito e as­sim por diante, para satisfazer aos diferentes gostos de seus filhos e condições de digestão.

“Você me compreende?”

M.(humildemente): “Sim, senhor. Como podemos fixar nossas mentes em Deus?”

Mestre: “Repita o nome de Deus e cante Suas glórias e mantenha a companhia dos santos; de vez em quando, visite os devotos de Deus e homens santos. A mente não pode ficar estabelecida em Deus se estiver mergulhada dia e noite apenas no mundanismo, nos deveres e responsabilidades do mundo; é necessário ficar de vez em quando em solidão e pensar em Deus. Fixar a mente em Deus é muito difí­cil no começo, a menos que se pratique a meditação em solidão. Quando uma árvore ainda é pequena, é necessário pro­tegê-la com uma cerca. Caso contrário, pode ser destruída pelo gado.

“Para meditar, deve-se interiorizar a mente ou retirar-se para um lugar isolado ou uma floresta. Deve sempre discriminar entre o Real e o irreal. Só Deus é Real, a Substância Eterna, tudo o mais, é irreal, quer dizer, é transitório. Assim discriminando, a pessoa tira (a importância dos) os objetos transitórios da mente.”

M. (humildemente): “Como devemos viver no mundo?”

Mestre: “Cumpra seus deveres mas mantenha a mente em Deus. Viva com todos – esposa, fi­lhos, pai e mãe – e sirva-os. Trate-os como se fossem muito queridos, mas saiba no fundo do seu coração, que eles não lhe pertencem.

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“A mente não pode ficar estabelecida em Deus se estiver mergulhada dia e noite apenas no mundanismo, nos deveres e responsabilidades do mundo; é necessário ficar de vez em quando em solidão e pensar em Deus”

“Uma empregada da casa de um homem rico faz todos os serviços da casa, mas seus pensa­mentos estão voltados para sua casa na terra natal. Cria os filhos do patrão como se fossem os seus próprios. Chega mesmo a referir-se a eles como ‘meu Rama’ ou ‘meu Hari’, mas em sua mente sabe que eles não lhe pertencem.

“A tartaruga movimenta-se na água, mas onde estão seus pensamentos? Nas margens, onde es­tão enterrados os seus ovos. Faça seus deveres do mundo, mas mantenha o pensamento em Deus.

“Se você entrar no mundo, sem antes ter cultivado o amor de Deus, se enredará cada vez mais. Será subjugado pelos perigos, tristezas e tribulações. Quanto mais pensar nas coisas do mundo, mais se ape­gará a elas.

“Primeiro esfregue as mãos com óleo e em seguida, quebre a jaca para abri-la, do contrário, suas mãos ficarão sujas com o leite pegajoso. Primeiro obtenha o óleo do amor divino e depois, mãos à obra com os deve­res do mundo.

“Mas uma pessoa deve se retirar para a solidão a fim de conseguir esse amor divino. Para se fa­zer manteiga do leite, é necessário que ele seja guardado em separado para que forme o coalho. Caso contrá­rio o leite não se transformará em coalho. Depois deve deixar todas as outras obrigações, sentar-se num lugar sossegado e bater a manteiga. Só assim terá a manteiga.

“Além do mais, meditando em Deus na solidão, a mente adquire conhecimento, desapego e de­vo­ção. Mas a mesma mente desce se ficar presa às coisas do mundo. No mundo só há um pensamento: ‘sexo e ouro”.[2]

“O mundo é a água e a mente, o leite. Se derramar leite na água, eles se transformam num só; não poderá encontrar o leite nunca mais. Mas transforme esse leite em coalho e o bata até virar manteiga. Então quando a manteiga é colocada na água, flutua. Pratique disciplina espiritual na soli­dão e obtenha a manteiga do conhecimento e amor. Mesmo que ponha a manteiga na água do mundo, as duas não se misturarão. A manteiga flutuará.

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“A par disso, praticar discriminação sobre “mulher (sexo) e ouro (bens materiais)”, considerando-se que são transitórios, Deus é a única Substância Eterna. O que o homem obtém com dinheiro? Comida, roupa e casa – nada mais. Você não pode realizar Deus com sua ajuda. Por conseguinte, o dinheiro jamais poderá ser a meta (única, principal) da vida. Esse é o processo da discriminação (discernimento). Compreende?”

M.: “Sim, senhor. Recentemente li uma peça em sânscrito chamada Prabodha Chandrodaya, que trata da discriminação.”

Mestre.: “Sim, da discriminação (discernimento) a respeito dos objetos. Pense – o que há no dinheiro ou num corpo bonito, seja masculino ou feminino? Discrimine e verá que o mesmo corpo de uma linda mulher é formada de ossos, carne, gordura e outras coisas desagradáveis. Por que um homem deveria abandonar Deus e dirigir a atenção para essas coisas? Por que um homem deveria esquecer Deus por causa delas?”

M.: “É possível ver Deus?”

Mestre: “Sim, certamente. Ficando em solidão de vez em quando, repetindo seu nome, cantando Suas glórias e discriminando entre o Real e o irreal – esses são os meios para vê-Lo.”

M.: “Sob que condições uma pessoa vê Deus?

Mestre: “Chore por Deus com o coração cheio de intensa ânsia e certamente irá vê-Lo. As pes­soas derramam um jarro de lágrimas por esposa e filhos. Nadam em lágrimas por dinheiro. Mas quem chora por Deus? Chore por Ele do fundo do seu coração.”

O Mestre cantou:

Implore à sua Mãe Shyama, com súplica verdadeira, Ó mente!

  • Como pode Ela manter-Se afastada de você?
  • Como pode Shyama ficar afastada?
  • Como pode sua mãe Kali ficar longe?
  • Ó mente, se você for sincera, traga-Lhe uma oferenda
  • De folhas de bel e flores de hibiscus
  • Coloque a Seus pés sua oferenda
  • E misture nela a pasta perfumada de sândalo do Amor.

Continuando disse: ‘A ânsia é a aurora rosada. Depois dela, nasce o sol. O intenso anelo (desejo) é seguido pela visão de Deus.

“Deus revela-Se ao devoto que se sente chamado para Ele pela força combinada de três atra­ções: a atração pelos bens materiais que o homem possui do mundo, a que uma criança sente por sua mãe e a que um marido sente por sua esposa e a esposa pelo marido. Se alguém se sentir atraído para Deus pela força combi­nada dessas três atrações então, através dela, poderá alcançá-Lo.

“A questão é amar a Deus da mesma maneira que a mãe ama seu filho, a esposa, seu marido e o homem do mundo, o dinheiro. Junte essas três forças de amor, esses três poderes de atração e os dê a Deus. Então certamente voce O verá.

“É necessário orar a Ele com o coração ansioso. O gatinho só sabe chamar a mãe chorando: “Miau, miau!” Fica feliz onde ela o coloca. E a gata o põe, ora na cozinha, ora no chão e às vezes, na cama. Quando o filhote sente um desconforto, apenas chora “Miau, miau!”. É tudo o que sabe dizer, mas ao ouvir seu choro, a mãe onde quer que esteja, vem correndo em sua direção.”

Foi num domingo à tarde que M. fez a terceira visita ao Mestre. Estava tremendamente impres­sio­nado com as duas primeiras visitas que fizera àquele homem maravilhoso. Vivia pensando cons­tante­mente no Mestre e na maneira simples de exprimir as verdades profundas da vida espiritual. Ja­mais havia encontrado antes alguém parecido.

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Krishna e sua consorte, Radharani

Sri Ramakrishna estava sentado no divã pequeno. O aposento estava cheio de devotos[3] que ha­viam se aproveitado do fato de ser feriado para ir vê-lo. M. ainda não estava familiarizado com os demais de­votos, de modo que se sentou no canto. O Mestre sorria enquanto falava com eles.

Dirigia-se de forma especial para um jovem de dezenove anos chamado Narendra­nath[4] que ainda era estudante e freqüentava o Sadharan Brahmo Samaj. Seus olhos eram brilhantes, suas pala­vras cheias de força e tinha o olhar de um amante de Deus.

M. percebeu que a conversa era sobre os homens do mundo que desprezavam aqueles que aspi­ram às coisas espirituais. O Mestre falava sobre o grande (a maioria, cerca de 85%) número de pessoas desse tipo que há no mundo e da maneira como lidar com elas.

Mestre (a Narendra): “Como você se sente a esse respeito? As pessoas do mundo dizem tudo a respeito das pessoas espiritualizadas. Mas olhe aqui! Quando um elefante anda na rua, muitos cachor­ros e outros animais pequenos podem latir e gritar para ele, mas o elefante nem olha para trás para vê-los. Se alguém fala mal de você, o que pensa dela?”

Narendra : “Penso que são cachorros latindo para mim.”

Mestre (sorrindo): “Ó não! Não deve ir tão longe, meu filho! (Risada geral). Deus mora em to­dos, mas você só deve se tornar íntimo das pessoas boas; deve manter-se afastado daquelas de mente perversa. Deus está até mesmo num tigre faminto, mas ninguém vai abraçar o tigre por causa disso. (Risada). Pode-se con­testar: ‘Por que fugir do tigre, que é também, uma manifestação de Deus?’ A resposta é o seguinte: ‘Aqueles que mandam fugir do tigre são, também, manifestações de Deus – por que então não dar ouvidos a eles?’

“Deixe-me contar uma história. Numa floresta vivia um homem santo que tinha muitos discí­pulos. Um dia ensinou-lhes a ver Deus em todas as criaturas e, sabendo disso, curvarem-se diante de todas elas. Um discípulo foi à floresta pegar lenha para o fogo do sacrifício. De repente ouviu um grito: ‘Saiam do caminho! Um elefante louco está se aproximando!’ Todos, menos o discípulo, corre­ram. Ele imaginou que o elefante era também Deus, sob esta outra forma. Por que haveria de fugir dele? Ficou quieto, cur­vou-se ante o animal e começou a cantar em seu louvor. O mahout (o tratador ) do elefante gritava: ‘Fuja! Fuja!’, mas o discípulo não se mexia. O animal pegou-o com sua tromba, jogou-o para um lado e seguiu seu caminho. Ferido e contundido, ele ficou inconsciente no chão.

Sabendo do ocorrido, o Mestre e seus discípulos vieram e levaram-no para a cabana. Com a ajuda de alguns medicamentos, logo recuperou a consciência. Alguém perguntou-lhe: ‘Você sabia que o elefante estava vindo. Por que não saiu do lugar?’ ‘Mas’, disse ele, ‘o nosso Mestre disse-nos que o Próprio Deus toma todas essas formas, tanto de animais como de homens. Por isso, pensando que se tratava apenas de Deus num elefante que estava vindo, não corri.’ A isso retrucou o Mestre: ‘Sim, meu filho, é verdade que era Deus que estava chegando; mas o Deus no mahout proibiu você de ficar ali. Já que todos são manifestações de Deus, por que não acreditou nas palavras do mahout? Você deveria ter atendido às palavras de Deus em mahout.’ (Risada geral).

“Está escrito nas escrituras que a água é uma forma de Deus, porém há água própria para o culto, para lavar o rosto e outra para lavar pratos ou roupa suja. Este último tipo não pode ser empre­gado para beber ou com propósito religioso. Assim também Deus inegavelmente mora no coração de todos – santos ou pecadores, corretos ou ímpios, mas o homem não deve se relacionar com os pecado­res, maus e impu­ros. Não deve ter intimidade com eles. Com algumas pessoas, pode trocar algumas palavras, mas com outras, não deve nem mesmo fazer isso. Deve-se manter afastado delas”.

Um devoto: “Senhor, se um homem estiver a ponto de fazer mal a alguém ou realmente o faz, de­vemos ficar quietos?”

Mestre: “Uma pessoa que vive em sociedade deveria criar a impressão de muita força, a fim de se proteger contra aqueles de mente perversa, mas não deve ferir ninguém antecipando um mal que eles poderiam lhe fazer.

“Ouçam uma história. Alguns jovens pastores tinham o hábito de levar suas vacas para um campo onde vivia uma serpente terrivelmente venenosa. Todas as pessoas viviam alertas com medo dela. Um dia, um brahmachari estava passando pelo campo. Os rapazes correram para ele e disse­ram-lhe: ‘Santo homem, por favor não vá por esse caminho. Uma cobra venenosa vive ali.’ ‘O que tem isso demais, meus filhos?’ disse o brahmachari. ‘Não tenho medo de cobra. Conheço alguns mantras.’ Assim falando, conti­nuou seu caminho em direção ao campo, mas os pastores com medo, não o acom­panharam.

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Uma Naja com os capelos abertos, sinal de alerta e pronta para o ataque.

Nesse ínterim a serpente dirigiu-se para ele rapidamente, com o capelo erguido. Assim que ela chegou, recitou um man­tra e a cobra deitou-se a seus pés como se fosse uma minhoca. O brahma­chari disse: ‘Olhe aqui. Por que você vive fazendo mal aos outros? Venha, vou lhe dar uma palavra (mantra) sagrada. Repetindo-a aprenderá a amar a Deus. Por fim O realizará e dessa maneira se libertará de sua natureza violenta.’

Assim falando, ensinou-lhe uma palavra sagrada e iniciou-a na vida espiritual. A serpente curvou-se ante seu mestre e disse: ‘Reverenciado senhor, como vou fazer a prática espiri­tual?’ ‘Repita a palavra sagrada’, disse o mestre, ‘e não faça mal a ninguém’. Como já estava de saída, o brahmachari disse: ‘Eu a verei de novo.’

“Passaram-se alguns dias e os pastores notaram que a serpente não mordia mais. Jogaram mui­tas pedras nela, mas mesmo assim ela não demonstrou raiva; comportava-se como se fosse uma mansa mi­nhoca. Um dia um dos rapazes aproximou-se, segurou-a pela cauda, rodopiou-a no ar, lançou-a contra o chão várias vezes e jogou-a longe. A serpente vomitou sangue e ficou inconsciente. Estava zonza. Não podia se mover. Então julgando-a morta, os rapazes foram embora.

“Tarde da noite a serpente recobrou os sentidos. Lentamente e com muita dificuldade, conse­guiu arrastar-se até a sua toca; seus ossos estavam quebrados e mal podia se mexer. Passaram-se mui­tos dias. A serpente transformou-se num esqueleto coberto de pele. De vez em quando, à noite, saía para procurar alimento. Com medo dos rapazes não saía do buraco durante o dia. Desde que recebera e diariamente praticava com a palavra sagrada do mestre tinha deixado de fazer mal aos outros. Mantinha-se viva graças a detritos, folhas e frutos que caíam das árvores.

“Mais ou menos um ano depois, o brahmachari voltou e perguntou pela cobra. Os pastores dis­se­ram que estava morta. Não pôde acreditar neles. Sabia que ela não morreria antes de ter colhido o fruto da palavra sagrada com a qual havia sido iniciada. Saiu procurando-a aqui e acolá, chamando-a pelo nome que lhe havia dado. Ouvindo a voz do mestre, a serpente saiu da toca e curvou-se com muita reverência diante dele.

‘Como vai você?’ perguntou-lhe o brahmachari. ‘Estou bem, senhor’ respondeu a serpente. ‘Mas’, perguntou o mestre, ‘por que você está tão magra?’ A cobra respondeu: ‘Reverenciado mestre, o senhor mandou que eu não fizesse mal a ninguém. Por isso tenho vivido so­mente de folhas e frutos. Tal­vez seja por esta razão que eu tenha ficado mais magra.’

“A cobra havia desenvolvido a qualidade de sattva; não podia ficar com raiva de ninguém. Es­que­cera-se completamente de que os pastores quase a haviam matado.

“O brahmachari disse: ‘Não pode ter sido uma simples falta de comida que a reduziu a este es­tado. Deve haver uma outra razão. Pense um pouco.’ Então a serpente lembrou-se de que os rapazes a haviam atirado ao chão. Disse: ‘Sim, reverenciado mestre, agora me lembro. Os rapazes um dia me jogaram vio­lentamente contra o chão. Afinal de contas, são ignorantes. Não compreenderam a grande mudança que se operou em minha mente. Como poderiam saber que eu não ia mais morder nem fazer mal a ninguém?’ O brahmachari exclamou: ‘Que vergonha! Você é uma boba! Não sabe proteger-se. Eu lhe mandei que não mordesse, mas não, que não silvasse. Por que não os atemorizou com seu silvo?’

“Você deve, portanto, silvar para as pessoas más. Deve assustá-las, senão elas lhe farão mal. Jamais injete veneno nelas. Ninguém deve fazer mal aos outros.’

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“Na criação de Deus há uma variedade de coisas: homens, animais, árvores, plantas. Entre os ani­mais, há alguns bons, outros maus. Há animais ferozes como o tigre. Algumas árvores dão frutos doces como o néctar, outras dão frutos venenosos. Da mesma maneira, entre os seres humanos, há bons e maus, santos e pecadores. Há alguns que são devotados a Deus e outros apegados ao mundo.

“Os homens podem ser divididos em quatro categorias; aqueles presos pelos grilhões do mundo, os que buscam a liberação, os liberados e os sempre livres.

“Entre os sempre livres encontramos sábios como Narada. Vivem no mundo para o bem dos outros, a fim de ensinar a verdade espiritual.

“Aqueles que estão apegados estão mergulhados no mundanismo e esquecem-se de Deus. Nem por engano pensam nele.

“Os que buscam a liberação querem livrar-se do apego ao mundo. Alguns conseguem, outros não.

“As almas liberadas como sadhus e mahatmas, não são tragadas pelo mundo, por ‘sexo e ouro’. Suas mentes estão livres de mundanismo. Além disso vivem em constante meditação aos Pés de Lótus do Senhor.

“Suponhamos que uma rede seja lançada ao lago para apanhar peixes. Alguns peixes são tão espertos que jamais são apanhados. São como os homens sempre livres, mas a maioria é apanhada. Alguns tentam sair e neste caso, são como os que buscam a liberação. Mas nem todos os peixes que lutam, conseguem. Poucos pu­lam fora da rede. e fazem um grande barulho quando caem na água. Então o pescador grita: ‘Olhe! Lá vai um grande!’ Mas a maioria dos que caem na rede não pode escapar, nem faz qualquer esforço para tanto. Ao contrário, escondem-se na lama, com a malha da rede em suas bocas e ali ficam quietos, pensando: ‘Não temos nada a temer agora, estamos seguros aqui’. Os pobres peixes não sa­bem que o pescador os vai tirar da rede. São os homens ligados ao mundo material apenas.

“As almas apegadas estão presas pelos grilhões de ‘sexo e ouro’. Estão com os pés e as mãos atadas. Pensando que ‘mulher e ouro’ os tornarão felizes e lhes proporcionarão segurança, não com­preen­dem que isso os levará à ruína. Quando um homem assim apegado ao mundo está para morrer, sua esposa lhe pergunta: ‘Você se vai. O que você fez por mim?’ Assim também, seu apego às coisas do mundo é tal que, quando vê a lamparina queimando fortemente, diz: ‘Diminua a luz. Está gastando muito óleo.’ E ele está em seu leito de morte!

“As almas apegadas jamais pensam em Deus. Quando têm um tempo livre, gastam-no com ta­gare­lices e conversas tolas, ou então, em algum trabalho sem proveito, em futilidades. Se perguntarmos a uma delas a razão, responde: ‘Ó não posso ficar parado, estou fazendo uma cerca.’ Quando não têm nada para fazer, talvez comecem a jogar cartas”.

Havia um profundo silêncio no aposento.

Um devoto pergunta: “Senhor, não há salvação para essa pessoa do mundo?”

Mestre: “Certamente que há. De tempos em tempos, deve viver na companhia dos homens santos e retirar-se para a solidão, a fim de meditar em Deus. Além do mais, deve praticar discrimina­ção (discernimento) e orar: ‘Dá-me fé e devoção.’ Quando conseguiu ter fé, já alcançou tudo. Não há nada maior do que a fé.

(A Kedar): “Você já deve ter ouvido falar a respeito do poder tremendo da fé. Está escrito nos Pu­ranas que Rama, que era uma encarnação do Próprio Deus – a Encarnação do Brahman Absoluto – teve que construir uma ponte para atravessar o mar até o Ceilão (hoje o Sri Lanka). Mas Hanuman, tendo fé no nome de Rama, abriu o mar e atra­vessou-o num pulo e alcançou o outro lado. Não teve necessidade de ponte. (Todos riram).

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A ponte entre o antigo Ceilão (atual Sri Lanka) e a Índia, citada no Ramayana, um épico hindu, foi fotografada por um satélite da NASA.

“Uma vez um homem estava prestes a atravessar o mar. Bibhishana escreveu o nome de Rama numa folha, amarrou-a na ponta da roupa do homem e disse-lhe: ‘Não tenha medo. Tenha fé e ande sobre a água. Mas olhe aqui – no momento em que perder a fé, se afogará’. O homem começou a andar com facilidade sobre a superfície da água. De repente teve um imenso desejo de ver o que estava amarrado em sua roupa. Abriu o papel e apenas viu uma folha com o nome de Rama escrito. ‘O que é isto?’ pensou – ‘Apenas o nome de Rama!’ Assim que a dúvida entrou em sua mente, ele afundou (Orai e VIGIAI).

“Se um homem adquire fé em Deus, mesmo que tenha cometido o mais hediondo crime – tal como matar uma vaca, um brahmane ou um ser humano – certamente se salvará pela força de sua fé. Basta ape­nas que diga a Deus: ‘Ó Senhor! Não cometerei mais essa ação’, e não necessitará ter medo.”

Quando acabou de dizer isso, o Mestre começou a cantar:

  • Se apenas pudesse morrer repetindo o nome de Durga,
  • Como podes Tu, Ó Abençoado,
  • Impedir minha liberação.
  • Por mais pecador que eu tenha sido?
  • Posso ter roubado uma taça de vinho ou morto uma criança antes de nascer.
  • Ou ter matado uma mulher ou uma vaca.
  • Ou mesmo, causado a morte de um brahmane.
  • Mas apesar de tudo isso ser verdadeiro,
  • Nada disso pode me fazer sentir a menor preocupação;                       
  • Pois pelo poder de Teu doce nome
  • Minha alma pecadora ainda pode aspirar
  • Possuir até o estado de Brahman.

Apontando para Narendra, o Mestre disse: “Vocês todos estão vendo esse rapaz. Aqui ele se com­porta dessa maneira. Um menino travesso parece muito educado quando se encontra na presença do pai, mas torna-se outra pessoa quando brinca no chandni. Narendra e pessoas de seu tipo pertencem à classe dos sempre livres. Jamais se deixam enredar pelo mundo. Quando crescem um pouco sentem o despertar da consciência interior e dirigem-se diretamente para Deus (dentro de si mesmo). Vêm ao mundo somente para ensinar os ou­tros. Jamais se importam com coisa alguma do mundo. Nunca ficam ape­gados a ‘sexo e ouro’.

“Os Vedas falam da ave homa. Essa ave mora bem alto, no céu e lá coloca os ovos. Logo que o ovo é posto, começa a cair, mas como está muito alto, o ovo continua sua queda por vários dias. À medida que cai, o ovo é chocado até que o filhote nasce. Quando a avezinha sai da casca, os olhos se abrem e as asas crescem. Compreende então, que está caindo e que ficará reduzida a pedaços se tocar o solo. Dá um ar­ranque para cima em direção à sua mãe no céu.”

Nesse ponto da conversa, Narendra saiu do quarto. Kedar, Prankrishna, M. e outros perma­neceram.

Mestre: “Veja, Narendra é superior a todos quando canta, toca instrumentos, estuda e tudo o mais. Outro dia teve uma discussão com Kedar e arrasou seus argumentos.” (Risada geral).

(A M.): “Há algum livro sobre a razão, em inglês?”

M.: “Sim. Chama-se Lógica.”

Mestre: “Diga-me do que se trata.”

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O homem ocidental é um escravo do seu intelecto e da “razão”

M. estava um pouco envergonhado. Disse: “Uma parte do livro trata de dedução, partindo-se do ge­ral para o particular. Exemplo: Todos os homens são mortais. Os intelectuais são homens. Logo todo in­telectual é mortal. Uma outra trata com o método de raciocinar, partindo-se do particular para o geral. Exemplo: Esse corvo é preto. Aquele corvo é preto. Os corvos que vemos em todos os lugares são pretos. Logo, todos os corvos são pretos. Mas pode ocorrer um erro na conclusão feita dessa ma­neira, porque poderá existir um corvo branco em alguma parte do mundo. Uma outra ilustração: Se há chuva, há ou já houve nuvens. Em conseqüência, a chuva vem das nuvens. Ainda um outro exemplo: Esse homem tem trinta e dois dentes. Aquele homem tem trinta e dois dentes. Todos os homens que vemos têm trinta e dois dentes. Portanto, todos os homens têm trinta e dois dentes. A lógica inglesa trabalha com tais deduções e induções.”

Sri Ramakrishna mal ouvia essas palavras. Enquanto escutava, sua mente tornou-se ausente. Por conseguinte, a conversa não foi além.

Quando a reunião acabou, os devotos foram passear no jardim do templo. M. dirigiu-se ao Pan­cha­vati. Eram mais ou menos cinco horas da tarde. Depois de algum tempo voltou para o aposento do Mes­tre. Ali, na pequena varanda norte, presenciou uma cena maravilhosa.

Sri Ramakrishna estava em pé cercado por alguns devotos e Narendra cantava. M. jamais vira uma pessoa cantar de forma tão suave, a não ser o Mestre. Quando olhou para Sri Ramakrishna, ficou deslum­brado, porque o Mestre estava imóvel, com os olhos fixos. Parecia que nem respirava. Um devoto disse a M. que o Mestre estava em samadhi. M. jamais vira nem ouvira falar de tal coisa. To­mado de encanta­mento pensava: “Será possível para um homem estar tão alheio ao mundo exterior e com a consciência em Deus? Quão profunda deve ser sua fé e sua devoção para fazê-lo atingir esse estado!”

Narendra cantava:

  • Medite, Ó mente, no Senhor Hari,
  • O Imaculado, Puro Espírito, por todos os tempos
  • Como é inigualável a Luz que brilha n’Ele!
  • Como enfeitiça a alma a Sua forma maravilhosa!
  • Como Ele é amado por todos os seus devotos!
  • Cada vez mais maravilhado no seu amor recém-florido,
  • Que envergonha o esplendor de milhões de luas.
  • Como relâmpago brilha a glória de Sua forma.
  • Eriçando os cabelos de pura alegria. 

O Mestre estremeceu quando esse último verso foi cantado. O cabelo ficou de pé e lágrimas de fe­licidade escorriam de suas faces. De vez em quando os lábios entreabriam um sorriso. Estaria vendo a inigualável beleza de Deus “que envergonha o esplendor de milhões de luas?” Seria isso a visão de Deus, a Essência do Espírito? Quantas austeridades e disciplinas, quanta fé e devoção são necessárias para se ter essa visão!

A canção continuou:

  • Adore Seus pés no lótus de seu coração:
  • Com a mente serena e os olhos radiantes,
  • Com amor celestial, contemple essa visão incomparável.

De novo aquele sorriso encantador. O corpo imóvel como antes, os olhos semicerrados, como que contemplando uma estranha visão interior.

A canção terminou. Narendra cantou as últimas linhas:

  • Apanhada na magia do êxtase do Seu amor.
  • Mergulhe para sempre, Ó mente,
  • N’Ele que é Puro Conhecimento e Pura Bem-aventurança.

O samadhi e a divina bem-aventurança que havia presenciado deixaram uma impressão indelé­vel na mente de M. Voltou para casa profundamente tocado. De vez em quando podia ouvir dentro de si, o eco daqueles versos que inebriavam a alma.

  • Mergulhe para sempre, Ó mente
  • N’Ele que é Puro Conhecimento e Pura Bem-aventurança.
krishna-vrindavan-india

Krishna, Hari, a suprema personalidade divina…

O dia seguinte foi de novo, dia de folga para M. Chegou a Dakshineswar às três horas da tarde. Sri Ramakrishna estava em seu quarto: Narendra, Bhavamath e alguns devotos estavam sentados numa es­teira. Eram todos jovens de dezenove e vinte anos. Sentado no divã pequeno, Sri Ramakrishna con­versava com eles, sorrindo.

Assim que entrou no aposento, o Mestre riu e disse para os rapazes: “Aí está! Ele veio de novo.” Todos riram. M. inclinou-se profundamente e sentou-se. Antes saudava o Mestre com as mãos postas, como uma pessoa de educação inglesa, mas naquele dia, aprendeu a se prosternar a seus pés à moda hindu ortodoxa.

Logo em seguida o Mestre explicou a causa daquela risada para os devotos. Disse: “Certa vez um homem deu ao pavão uma pílula de ópio às quatro horas da tarde. No dia seguinte, exatamente na mesma hora, o pavão voltou. Sentira a intoxicação da droga e voltava na hora certa para tomar uma outra dose.” (Todos riem).

M. achou essa ilustração muito adequada. Mesmo em casa não podia tirar Sri Ramakrishna de seu pensamento, nem por um momento. Sua mente estava permanentemente em Dakshineswar e con­tava os minutos para lá voltar.

Nesse meio tempo, o Mestre divertia-se com os rapazes, tratando-os como se fossem seus ami­gos íntimos. Risadas hilariantes enchiam o quarto como se fosse um mercado de felicidade. Essa cena foi uma revelação para M. Pensou:

“Ontem não o vi inebriado por Deus? Não estava ele nadando no Oceano de Amor Divino? – uma cena que nunca vi antes? E hoje, essa mesma pessoa comporta-se como se fosse um homem comum! Não foi ele quem me censurou no primeiro dia de minha chegada aqui? Não foi ele quem me advertiu, ‘Não é você um homem de conhecimento?’ Não foi ele quem me disse que Deus com forma é tão verdadeiro como Deus sem forma? Não foi ele quem me disse que só Deus é real e que tudo o mais é ilusório? Não foi ele quem me aconselhou a viver no mundo de forma desapegada, como uma empregada na casa de um homem rico?”

Sri Ramakrishna estava se divertindo muito com os jovens devotos: de vez em quando olhava de relance para M. Havia reparado que M. permanecia em silêncio. O Mestre disse a Ramlal: “Veja, ele já é um pouco avançado em idade e por conseguinte, um tanto sério. Senta-se quieto enquanto os demais jovens ficam alegres.” M. estava com aproximadamente vinte e oito anos de idade.

O assunto desviou-se para Hanuman, cuja fotografia encontrava-se na parede do quarto do Mestre.

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Sri Ramakrishna disse: “Imaginem só o estado mental de Hanuman. Não se importava com di­nheiro, honra, comodidades ou qualquer outra coisa. Ansiava somente por Deus. Enquanto corria com a arma celestial que tinha sido escondida no pilar de cristal (Ramayana), Mandodari começou a tentá-lo com várias fru­tas para que ele descesse e deixasse cair a arma[5] Mas ele não podia ser enganado assim tão facilmente. Em resposta às persuasões de Mandodari, entoou a seguinte canção:

  • Tenho necessidade de fruta?
  • Já tenho a Fruta que torna esta vida
  • Realmente proveitosa. Dentro do meu coração
  • A Árvore de Rama cresce.
  • Dando a salvação como fruto.                                  
  • Debaixo da Árvore que satisfaz todos os Desejos,                                  
  • De Rama, sento-me à vontade                                  
  • Colhendo qualquer fruto que deseje,                                  
  • Mas se você falar de fruta –                                  
  • Pedinte não sou de frutas comuns.                                  
  • Veja, vou  deixar uma fruta amarga para você.”               

Enquanto cantava, Sri Ramakrishna entrou em samadhi. De novo os olhos semicerrados e o corpo imóvel, tal qual vemos em sua fotografia. Apenas há um minuto atrás, os devotos alegravam-se em sua companhia. Agora, todos os olhares voltavam-se para ele. Assim, pela segunda vez, M. via o Mestre em samadhi.

Depois de muito tempo, o Mestre voltou à consciência normal. O rosto brilhava com um sorriso e o corpo estava relaxado; os sentidos começaram a funcionar normalmente. Derramava lágrimas de felici­dade enquanto repetia o santo nome de Rama. M. duvidava se esse verdadeiro santo era a mesma pessoa que há minutos antes, havia se comportado como um menino de circo.

O Mestre disse a Narendra e a M.: “Gostaria de ouvir vocês perguntarem e responderem em in­glês.” Ambos riram mas continuaram a falar em sua língua mãe. Era impossível para M. falar mais al­guma coisa diante do Mestre. Embora Sri Ramakrishna insistisse, não falaram inglês.

Às cinco horas da tarde todos os devotos, exceto Narendra e M., despediram-se do Mestre. M. pas­seava no jardim do templo. Inesperadamente encontrou o Mestre conversando com Narendra na borda do lago de gansos. Sri Ramakrishna dizia a Narendra: “Olhe. Venha aqui mais vezes. Você é um recém-che­gado. No início as pessoas se visitam mais vezes como no caso de um homem enamorado e sua amada (Narendra e M. riram). Venha por favor, sim?”

Narendra, membro do Brahmo Samaj, era muito cioso do cumprimento de suas promessas. Disse, com um sorriso: “Sim, senhor, vou fazer o possível.”

Quando regressavam para o quarto, disse Sri Ramakrishna a M.: “Quando os camponeses vão ao mercado a fim de comprar gado para seus arados, sabem distinguir os bons dos maus pelo simples toque em suas caudas. Quando são tocados, uns simplesmente deitam-se humildemente no chão. Os campone­ses consideram-nos sem força e os rejeitam. Escolhem somente os que dão um salto e reagem quando suas caudas são tocadas. Narendra é um boi desse último tipo. Está cheio de força interior.” O Mestre sorria enquanto dizia essas palavras e continuou: 

Há algumas pessoas que não têm determinação de espécie alguma. São como arroz tostado mergulhado no leite – mole e empapado, sem qual­quer força interior!”

Era o entardecer. O Mestre meditava em Deus. Disse a M.: “Vá falar com Narendra. Depois diga-me o que você pensa dele.”

O culto vespertino havia terminado nos templos. M. encontrou Narendra nas margens do Gan­ges e começaram a conversar. Narendra falou a respeito de seus estudos na universidade, do fato de ser mem­bro do Brahmo Samaj etc.

Já era tarde e hora de M. voltar para casa, mas como não estava com vontade, foi procurar Sri Ra­makrishna. Estava fascinado pelo canto do Mestre e desejava ouvir mais uma vez. Por fim encon­trou o Mestre andando de um lado para o outro no natmandir, defronte ao templo de Kali. Uma lampa­rina quei­mava em ambos os lados da imagem da Mãe Divina. Essa única lamparina, no natmandir tão grande, misturava a luz e a escuridão numa espécie de crepúsculo místico, no qual a figura do Mestre podia ser vista de uma forma velada.

M. havia ficado encantado com a música suave do Mestre. Com voz hesitante, perguntou-lhe se ainda cantaria naquela noite. “Não, essa noite não”, disse Sri Ramakrishna, depois de pensar um pouco. Então como se lembrando de alguma coisa, acrescentou: “Logo irei à casa de Balaram Bose em Calcutá. Vá lá e você me ouvirá cantar.” M. concordou em ir.

Mestre: “Você conhece Balaram Bose?”

M.: “Não, senhor.”

Mestre: “Ele mora em Bosepara.”

M.: “Sim, senhor, vou encontrá-lo.”

Sri Ramakrishna andava de um lado para o outro com M. no vestíbulo e disse-lhe: “Deixe-me per­guntar-lhe: o que você pensa de min?”

M. permaneceu em silêncio. Novamente Sri Ramakrishna perguntou: “O que você pensa de mim? Quantas annas (uma moeda hindu) de conhecimento de Deus eu tenho?”

M.: “Não compreendo o que quer dizer com ‘annas’, mas de uma coisa estou certo: jamais vi tanto conhecimento, amor extático, fé em Deus, renúncia e universalidade em qualquer outro lugar.”

O Mestre riu.

M. curvou-se profundamente ante ele e despediu-se. Já estava no portão principal do templo, quando subitamente, lembrou-se de algo e voltou para falar com Sri Ramakrishna, que ainda se en­con­trava no natmandir. Sob a luz fraca o Mestre, sozinho, andava de um lado para outro, regozijando-se no Ser – como o leão que vive e perambula sozinho pela floresta.

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Num encantamento silencioso, M. examinava atentamente aquela grande alma.

Mestre (a M.): “O que o fez voltar?”

M.: “Talvez a casa que o senhor me pediu para ir, pertença a um importante homem rico. Pode ser que não me deixem entrar. Penso que é melhor não ir. Prefiro encontrá-lo aqui.”

Mestre: “Ó não! Por que você pensaria assim? Apenas mencione o meu nome. Diga que você quer me ver e alguém o conduzirá a mim.”

M. acenou com a cabeça e depois de saudar o Mestre, foi embora.

Notas de rodapé:

[1] Sobrinho de Sri Ramakrishna e sacerdote do templo de Kali.
[2] A expressão “Mulher e Ouro” que vem sendo usada amplamente num sentido coletivo, aparece com freqüência nos ensinamentos de Sri Ramakrishna para designar os principais entraves ao progresso espiritual. Essa expressão preferida do Mestre, “kaminikanchan”, tem sido muitas vezes mal interpretada. Por ela, ele queria dizer “luxúria e ganância”, a influência nociva que retarda o desenvolvimento espiritual do aspirante. Ele empregava a palavra “kumini” ou “mulher”, como um termo concreto para o instinto sexual, quando se dirigia aos devotos masculinos. Aconselhava às mulheres por outro lado, a evitar “homem”, “Kanchan” ou “ouro”, simboliza a avidez, que é um outro obstáculo à vida espiritual.

Sri Ramakrishna jamais ensinou a seus discípulos a odiarem uma mulher, ou as mulheres em geral. Isso pode ser visto claramente penetrando-se em todos os seus ensinamentos sob esse tema. O Mestre considerava todas as mulheres imagens da Mãe Divina do universo. Prestou a mais alta homenagem às mulheres, quando aceitou uma mulher como guia espiritual, enquanto praticava as profundas disciplinas espirituais do Tantrismo. Sua esposa, conhecida e reverenciada como Santa Mãe, foi sua companheira constante e a primeira discípula. No final de sua prática espiritual adorou-a como a Encarnação da Deusa Kali, a Mãe Divina. Com sua morte, a Santa Mãe tornou-se guia espiritual, não somente de um grande número de chefes de família mas também, de muitos membros monásticos da Ordem de Ramakrishna.
[3] O termo é usado de maneira geral no texto para denotar uma pessoa devotada a Deus, um adorador do Deus Pessoal, ou um seguidor do caminho do amor. Um devoto de Sri Ramakrishna é aquele que é devotado a Sri Ramakrishna e segue seus ensinamentos. A palavra “discípulo”, quando usada em conexão com Sri Ramakrishna, refere-se àquele que foi iniciado na vida espiritual por Sri Ramakrishna e que o considera seu guru.
[4] Posteriormente conhecido mundialmente como Swami Vivekananda.
[5] A história referida aqui está no Ramayana. Ravana recebeu uma graça pela qual só poderia ser morto por uma determinada arma celestial especial. Essa arma estava escondida no pilar de cristal de seu palácio. Um dia Hanuman, disfarçado de macaco comum, veio ao palácio e quebrou o pilar. Enquanto fugia com a arma, foi tentado com uma fruta por Mandodari, esposa de Ravana, a fim de que lhe devolvesse a arma. Logo assumiu sua forma e entoou a canção encontrada no texto.


“O néscio pode associar-se a um sábio toda a sua vida, mas percebe tão pouco da verdade como a colher do gosto da sopa. O homem inteligente pode associar-se a um sábio por um minuto, e perceber tanto da verdade quanto o paladar sabe do sabor da sopa”.   –  Textos Budistas


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3 Responses to Ramakrishna (01): Mestre e Discípulo

  1. JONAS

    O PANO DE FUNDO DA TELA É IMITANDO MADEIRA E FICA DIFÍCIL A LEITURA.
    ESTÁ TOM SOBRE TOM E SEM CONTRASTE.
    GRATO JONAS

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