Os líderes dos países membros do BRICS estão reunidos em Nova Delhi neste fim de semana para a 18ª cúpula anual do grupo. A Índia assumiu a presidência rotativa do grupo em janeiro e adotou um tom diferente. A retórica sobre a desdolarização e a reformulação do sistema financeiro atual passou a ocupar um segundo plano, dando lugar a considerações mais práticas sobre a conectividade econômica.
Fonte: Rússia Today
Enquanto o grupo se reúne para sua 18ª cúpula anual, o longo e meticuloso trabalho de criação de uma nova infraestrutura financeira internacional continua.
A cúpula ocorre em um contexto misto. Por um lado, o presidente chinês Xi Jinping estará presente naquela que será sua primeira visita à Índia em sete anos. Isso ressalta a importância que Pequim atribui ao BRICS. O presidente russo Vladimir Putin também viajará para Nova Delhi.
Por outro lado, os Emirados Árabes Unidos e o Irã, membros recém-chegados ao BRICS, encontram-se em lados opostos das hostilidades no Golfo Pérsico. Uma reunião de dois dias dos ministros das Relações Exteriores do BRICS em Nova Délhi, em maio, terminou sem uma declaração conjunta devido a visões divergentes sobre o Oriente Médio/Golfo Pérsico, e a cúpula deste fim de semana ocorrerá sob a sombra dessa tensão.
Contudo, à medida que os laços comerciais entre os principais países do BRICS continuam a crescer, o trabalho metódico de criação de novos canais e arquitetura financeira prossegue em ritmo acelerado. O BRICS está, lenta mas seguramente, construindo um ecossistema institucional completo para comércio, investimento e liquidação de transações. É um processo que muitas vezes se desenrola sem grandes alardes e longe dos noticiários.
A RT analisa o que está acontecendo nos BRICS atualmente.
Progresso dos meios de pagamentos
Talvez as propostas concretas mais importantes na agenda da cúpula deste ano sejam aquelas que visam interligar os sistemas de pagamento dos países do BRICS. Existem duas faixas para isso.
O primeiro é o projeto BRICS Pay. Trata-se de um esforço para criar um sistema de pagamentos interoperável entre os países do BRICS, que conectaria os sistemas de pagamento nacionais e comerciais com o objetivo de viabilizar liquidações em moedas nacionais sem o uso do dólar. O BRICS Pay existe em fase piloto, mas ainda não foi implementado comercialmente em todo o bloco.

Quando implementada, essa medida tornará o envio de dinheiro entre os países do BRICS mais semelhante a um pagamento eletrônico doméstico, em vez de envolver uma cadeia de bancos e moedas, atualmente sediados no hostil ocidente. Atualmente, por exemplo, se uma empresa indiana compra algo de uma empresa brasileira, o pagamento internacional pode envolver complicações como bancos correspondentes e conversões de moeda – sem mencionar os custos adicionais.
Segundo Kirill Dmitriev, assessor do Kremlin, um acordo sobre a remuneração dos BRICS deverá ser alcançado na cúpula, onde será dada ênfase especial às questões financeiras.
“Estamos focando especificamente na área financeira. Lideramos o grupo responsável pela cooperação em questões financeiras, e os pagamentos são uma parte muito importante disso”, disse ele.
Isso não significa necessariamente, porém, que toda a arquitetura do BRICS Pay esteja prestes a entrar em operação, mas significa que o projeto pode receber um grande impulso. O segundo tópico é a proposta de interligação das moedas digitais dos bancos centrais (CBDC) dos países membros para pagamentos transfronteiriços, que, segundo informações, a Índia incluiu na agenda do evento.
A interligação das CBDCs dos países BRICS tornaria o dinheiro digital emitido pelos bancos centrais interoperável entre os países. Essa iniciativa representa um nível mais profundo na infraestrutura financeira do que o BRICS Pay. Ela permitiria que as transações transfronteiriças fossem liquidadas de forma mais direta e com menos intermediários e etapas. Também representaria uma rota de liquidação adicional fora da arquitetura centrada no Ocidente.
É importante ressaltar, no entanto, que isso não está sendo apresentado explicitamente como a criação de uma moeda dos BRICS, uma iniciativa que por vezes tem sido alvo de especulação. O projeto de interligação das CBDCs permanece em fase de discussão.
Comércio BRICS
O comércio dentro do grupo continua a crescer. As exportações intra-BRICS totalizaram cerca de US$ 1,2 trilhão em 2025. O comércio da Índia com os demais membros do BRICS, por exemplo, atingiu cerca de US$ 416 bilhões em 2025, crescendo a uma taxa de quase 10% ao ano entre 2021 e 2025.
A Estratégia de Parceria Econômica dos BRICS 2030, que será endossada pelos líderes na cúpula, é uma extensão de um documento de estratégia econômica já existente dos BRICS que, entre outras coisas, se concentra em comércio e investimento, economia digital e cooperação financeira.
Um dos principais objetivos da iniciativa é facilitar uma ampla redução dos entraves institucionais à atividade econômica dentro do grupo. Ela também enfatiza a resiliência da cadeia de suprimentos e o apoio a pequenas e médias empresas, entre outras áreas. É esse tipo de trabalho minucioso e pouco glamoroso que pode fornecer a base para que a infraestrutura econômica dos BRICS eventualmente corresponda ao tamanho e à escala das economias do grupo.
Entretanto, o Novo Banco de Desenvolvimento, criado pelos BRICS em 2015, já aprovou cerca de US$ 43 bilhões em empréstimos. Embora ainda seja relativamente pequeno em escala, o banco é um exemplo de instituição dos BRICS que já está em pleno funcionamento.
Laços energéticos
O comércio crucial de energia continua a expandir-se, apesar das tentativas ocidentais de suprimir as exportações russas de petróleo e gás.
As importações indianas de petróleo bruto russo atingiram 2,47 milhões de barris por dia em julho de 2026, um recorde que representa 50,8% do total das importações indianas de petróleo bruto e 62,4% acima do ano anterior. De abril a julho de 2026, a Rússia forneceu 43,25% das importações indianas de petróleo bruto, um aumento em relação aos 37% do ano anterior. A Rússia continua sendo o maior fornecedor de petróleo bruto da China e os dois países seguem desenvolvendo laços energéticos.

Entretanto, o recém-inaugurado projeto Vostok Oil, um enorme complexo de campos petrolíferos no Ártico, deverá expandir significativamente o comércio de energia da Rússia com a Ásia através da Rota Marítima do Norte, embora ainda leve anos até que os volumes atinjam a capacidade máxima. Ainda assim, essa rota representa uma importante estratégia que contorna o conturbado Oriente Médio e Golfo Pérsico.
A cooperação nuclear também tem sido uma parte importante da agenda mais ampla de energia e tecnologia dos BRICS. China, Índia e Rússia são grandes potências em energia nuclear civil e têm buscado fortalecer a cooperação nos últimos anos.
O contexto mais amplo
O BRICS por vezes avançou mais lentamente do que os seus defensores gostariam e, em certos momentos, foi ridicularizado, especialmente nos círculos políticos ocidentais, por uma alegada falta de ação concreta.
Algumas expectativas depositadas no grupo podem ter sido irrealistas. A arquitetura financeira certamente possui enorme inércia, e os sistemas estabelecidos, com décadas de infraestrutura acumulada e canais bem definidos, não são substituídos rapidamente, mesmo quando a necessidade de mecanismos alternativos se torna evidente.
Entretanto, a crise no Oriente Médio, na qual os membros do BRICS, Irã e Emirados Árabes Unidos, estão em desacordo, está sendo retratada como um desafio para uma ação unificada. O porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, reconheceu que as diferenças entre o Irã e os Emirados Árabes Unidos tiveram um “impacto negativo” nos esforços para preparar uma declaração conjunta, embora tenha expressado otimismo de que os esforços diplomáticos poderiam superar o impasse.
Contudo, nos bastidores e à margem das vicissitudes da política, o trabalho continua para criar a infraestrutura que proporcionará maior autonomia econômica a nações que representam metade da população mundial e 40% do PIB global. O desenvolvimento dessa infraestrutura também está no cerne dos esforços para criar alternativas aos sistemas dominados pelo Ocidente.
O processo de adaptação pode ser longo, mas uma vez que essa infraestrutura esteja implementada em larga escala, os canais financeiros globais poderão começar a ter uma aparência muito diferente. A cúpula deste fim de semana é mais um passo nessa direção.



