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As Digitais dos deuses: (14) O Povo da Serpente

Posted by on 14/05/2019

Depois de passar tanto tempo mergulhado nas tradições do Viracocha, o deus barbudo dos Andes distantes, fiquei intrigado ao descobrir que Quetzalcoatl, a principal divindade do panteão mexicano, era descrito em termos que me pareciam muito conhecidos. Um mito pré-colombiano recolhido no México por Juan de Torquemada, historiador espanhol do século XVI, por exemplo, afirmava que Quetzalcoatl era “um homem louro e corado, com uma longa barba”. Outro mito referia-se a ele dizendo “era Hombre blanco; homem alto, de testa larga, olhos enormes, cabelos compridos, e uma barba espessa e redonda – la barba grande y redonda”. Outro descrevia-o ainda como uma pessoa misteriosa (…) um homem branco de corpo possante, testa larga, olhos grandes e barba ondulante. Vestia um manto longo e branco que lhe chegava aos pés.

Edição e imagens:  Thoth3126@protonmail.ch

Livro “AS DIGITAIS dos DEUSES”, uma resposta para o mistério das origens e do fim da civilização

Por Graham Hancock, livro “AS DIGITAIS DOS DEUSES”, Tradução de Ruy Jungmann, editora Record 2001.

CAPÍTULO 14: O Povo da Serpente

Ele condenou os sacrifícios, exceto de flores e frutos, e era conhecido como o deus da paz… Conta-se que, quando lhe falaram sobre o assunto guerra, ele tapou os ouvidos com os dedos. De acordo com uma tradição particularmente notável da América Central, esse “sábio instrutor” veio do outro lado do mar em um barco que se movia por si mesmo, sem remos. Ele era um homem branco, alto, barbudo, que ensinou o povo a usar o fogo para cozinhar. Construiu também casas e mostrou a casais que poderiam viver juntos como marido e mulher e, uma vez que pessoas freqüentemente brigavam naqueles dias, ele lhes ensinou a viver em paz.

O Gêmeo Mexicano de Viracocha.

O leitor certamente se lembra que Viracocha, em suas jornadas pelos Andes, era conhecido por diversos nomes. O mesmo aconteceu com Quetzalcoatl. Em algumas partes da América Central (notamente entre os maias quiche) era chamado de Gucumatz. Em outros locais, como, por exemplo, em Chichen Itza, tinha o nome de Kukulkan. Quando as duas palavras foram traduzidas para o inglês, descobriu-se que significavam exatamente a mesma coisa: Serpente Emplumada (ou de Penas). Este era também o significado da palavra Quetzalcoatl. Havia outras divindades, especialmente entre os maias, cuja identidade parecia fundir-se estreitamente com a de Quetzalcoatl. Uma delas, Votan, um grande civilizador, era descrito também como de pele clara, barbudo e vestido com um longo manto.

Chichen Itza

Os estudiosos não conseguiram descobrir uma tradução para seu nome, embora seu símbolo principal, tal como o de Quetzalcoatl, fosse uma serpente. Outra figura muito parecida atendia pelo nome de lzamana, o deus maia da cura, um indivíduo barbudo, vestido com um manto e cujo símbolo também era a cascavel. O que emergiu de tudo isso, como concordaram as principais autoridades nesse particular, foi que as lendas mexicanas compiladas e passadas adiante pelos historiadores espanhóis à época da conquista eram, com freqüência, produtos confusos e fundidos de
tradições orais extremamente antigas. Por trás de todas elas, contudo, parecia que teria que haver alguma sólida realidade histórica. Na opinião de Sylvanus Griswold Morley, decano dos estudos sobre os maias:

O grande deus Kukulkan, a Serpente Emplumada, foi a contrapartida maia do Quetzalcoatl asteca, o deus mexicano da luz, dos conhecimentos e da cultura. No panteão maia, ele era considerado como tendo sido o grande organizador, o fundador de cidades, o elaborador de leis e o criador do calendário. Na verdade, seus atributos e biografia são tão humanos que não é improvável que ele possa ter sido um personagem histórico real, algum grande legislador e organizador, persistindo, após sua morte, as recordações de seus atos de benemerência, e cuja personalidade acabou por ser divinizada. Todas as lendas diziam inequivocamente que Quetzalcoatl/Kukulkan/Gucumatz/Votan/Izamana chegara à América Central procedente de algum lugar muito distante (do outro lado do “Mar Oriental”) e que, em meio a grande tristeza, ele viajara novamente na direção de onde viera.

As lendas acrescentavam que ele prometera solenemente que voltaria um dia – uma clara reedição da história de Viracocha que seria quase uma maldade atribuir à coincidência. Além disso, vale a pena lembrar que a partida de Viracocha através das ondas do oceano Pacífico era descrita nas tradições andinas como um fato milagroso. A partida de Quetzalcoatl, ao deixar o México, teve também uma estranha conotação, dizendo as lendas que ele se fora em “uma jangada feita de serpentes”. Tudo bem pesado, acho que Morley teve razão ao procurar um ambiente histórico factual subjacente aos mitos maia e mexicano. O que as tradições pareciam indicar era que o estrangeiro de pele clara chamado Quetzalcoatl (ou Kukulkan, ou o que quer que fosse) não fora uma única pessoa, mas provavelmente várias, ali chegadas procedentes do mesmo lugar e pertencentes a um tipo étnico que evidentemente nada tinha de índio (barbudo, pele branca, etc.). Esse fato foi sugerido não só pela existência de uma “família” de deuses obviamente aparentados, embora ligeiramente diferentes, que compartilhavam o símbolo da serpente.

Quetzalcoatl/ Kukulkan/Izamana era claramente descrito em numerosas histórias mexicanas e maias como tendo chegado acompanhado de “atendentes”, ou “assistentes”. Alguns mitos mencionados nos textos maias religiosos antigos conhecidos como Livros de Chilam Balam, por exemplo, diziam que “os primeiros habitantes de Yucatán constituíam o ‘Povo da Serpente’, que chegara em barcos, do outro lado do mar, encabeçados por Izamana, a ‘Serpente do Leste’, um curador que podia salvar vidas com imposição das mãos e ressuscitar os mortos”. “Kukulkan”, dizia outra tradição, “chegou com dezenove companheiros, dois dos quais eram deuses dos peixes, dois outros, deuses da agricultura, e, um, deus do trovão… Eles permaneceram dez anos no Yucatán. Kukulkan elaborou leis sábias, fez-se ao mar em seguida e desapareceu na direção do sol nascente…”.

De acordo com Las Casas, historiador espanhol, “os nativos afirmavam que, nos tempos antigos, chegaram ao México vinte homens, cujo chefe era chamado Kukulkan (…) Eles usavam mantos ondulantes e sandálias, tinham longas barbas e cabeças calvas… Kukulkan instruiu o povo nas artes da paz e foi responsável pela construção de vários edifícios importantes…”. Entrementes, Juan de Torquemada registrava a tradição seguinte, muito específica e anterior à conquista, a respeito dos estrangeiros imponentes que haviam chegado ao México em companhia de Quetzalcoatl:

Eles eram homens de boa presença, bem vestidos, usavam mantos de linho preto, abertos no peito, sem pelerine, gola baixa no pescoço, com mangas curtas que não chegavam aos cotovelos. (…) Esses seguidores de Quetzalcoatl eram homens de grande saber e artistas hábeis em todos os tipos de obras finas.

Como se fosse algum gêmeo, há longo tempo perdido, de Viracocha, a divindade andina branca e barbuda, Quetzalcoatl era descrito como tendo trazido para o México todas as perícias e ciências necessárias para criar uma vida civilizada, dando assim início a uma idade áurea. Acreditava-se, por exemplo, que ele tivesse introduzido a arte da escrita na América Central, inventado o calendário e sido o mestre construtor que ensinou ao povo os segredos da cantaria e da arquitetura. Foi o pai da matemática, da metalurgia, da astronomia e se dizia que havia “medido a terra”. Fundou ainda a agricultura produtiva e descobriu e introduziu o milho – literalmente a cultura alimentar básica nessas antigas terras. Grande médico e mestre no uso de remédios, foi o patrono dos curadores e adivinhos “e revelou ao povo os mistérios das propriedades das plantas”. Além disso, era reverenciado como legislador, protetor dos artesãos e patrono de todas as artes.

Como se poderia esperar de indivíduo tão refinado e culto, ele proibiu o horrendo costume dos sacrifícios humanos durante o período de sua ascendência no México. Após sua partida, os sanguinolentos rituais voltaram com redobrada fúria. Não obstante, até os astecas, os cultores mais ferrenhos de sacrifícios que jamais existiram na longa história da América Central, lembravam-se “com uma espécie de nostalgia” dos tempos de Quetzalcoatl. “Ele foi um mestre”, lembrava uma lenda, “que ensinou que nenhuma coisa viva devia ser prejudicada e que não deviam ser feitos sacrifícios de seres humanos, mas apenas de aves e borboletas.”

Guerra Cósmica

Por que Quetzalcoatl teria ido embora? Qual foi o problema? As lendas mexicanas forneceriam respostas a essas perguntas? Diziam elas que o esclarecido e benevolente governo da Serpente Emplumada foi encerrado por Tezcatlipoca, cujo nome significava “Espelho Esfumaçado” e cujo culto exigia sacrifícios humanos. Parece
que uma guerra quase cósmica entre as forças da luz e das trevas ocorreu no México antigo e que estas últimas triunfaram… Não se acredita que o suposto palco desses acontecimentos, ora conhecido como Tula, tenha sido muito antigo – teria não muito mais de 1.000 anos -, muito embora as lendas que os contam estejam ligadas a uma época infinitamente mais remota. Nesses tempos, à margem da história, o local era conhecido como Tollan. Todas as tradições concordam que foi em Tollan que Tezcatlipoca derrotou Quetzalcoatl e obrigou-o o abandonar o México.

Serpentes de Fogo – Tula, província de Hidalgo

Eu me encontrava nesse momento sentado no cume plano de uma pirâmide denominada, sem nenhuma imaginação, de Pirâmide B. O sol de fins da tarde brilhava forte em um claro céu azul. De frente para o sul, olhei em volta. Na base da pirâmide, nos lados norte e leste, vi murais mostrando jaguares e águias, banqueteando-se com corações humanos. Imediatamente às minhas costas, quatro pilares alinhados e quatro assustadores ídolos de granito, todos eles com 1,90m de altura. À minha frente e à esquerda, vi a parcialmente escavada Pirâmide C, um monte coberto de cacto, de uns 12m de altura, e, mais adiante, mais montes ainda não estudados por arqueólogos. À direita, estendia-se uma arena de jogos. Nesse local comprido, em forma de L, terríveis lutas de gladiadores haviam sido realizadas nos tempos antigos. Equipes, quando não apenas dois indivíduos, lutavam pela posse de uma bola de borracha. Os derrotados eram degolados. Uma aura solene e intimidadora envolvia os ídolos da plataforma, às minhas costas.

Levantei-me e examinei-os com mais atenção. O escultor lhes dera faces duras, implacáveis, narizes aduncos e olhos rasos que pareciam destituídos de qualquer simpatia ou emoção. O que mais me interessava, porém, não era a aparência dos ídolos, mas o que eles seguravam nas mãos. Arqueólogos, embora reconhecessem que não sabiam realmente o que eram esses objetos, ainda assim identificaram-nos provisoriamente. A identificação “pegou” e hoje é aceita como indiscutível que lançadores de dardos, conhecidos como atl-atls, eram os objetos que os ídolos seguravam na mão direita, e “dardos ou flechas e sacolas de incenso”, na mão esquerda. Pouco importava que os objetos em nada se parecessem com atl-atls, lanças, flechas, ou sacolas de incenso.

As fotografias tiradas por Santha  ajudarão o leitor a formar uma idéia sobre esses objetos peculiares. Enquanto estudava os objetos em si, senti a clara impressão de que eles se destinavam a representar dispositivos que, originalmente, haviam sido feitos de metal. O dispositivo na mão direita, que parecia sair de uma bainha ou guarda de mão, tinha forma de um losango com borda inferior curva. O dispositivo da mão esquerda poderia ter sido um instrumento ou arma de algum tipo. Lembrei-me de lendas que diziam que os deuses do antigo México usavam os xiuhcoatl ou “serpentes de fogo”, como armas. Elas, aparentemente, emitiam raios capazes de queimar, perfurar e desmembrar corpos humanos. Seriam “serpentes de fogo” os objetos que os ídolos de Tula tinham nas mãos? O quê, por falar nisso, eram essas tais serpentes de fogo? O que quer que fossem, ambos os dispositivos pareciam produtos de tecnologia. E ambos, de certas maneiras, lembravam os objetos igualmente misteriosos que os ídolos da Kalasasaya, em Tiahuanaco, têm nas mãos.

O Santuário da Serpente

Santha e eu tínhamos vindo a Tula/Tollan porque o local estivera estreitamente associado a Quetzalcoatl e a seu arquiinimigo, Tezcatlipoca, o Espelho Esfumaçado. Sempre jovem, onipotente, onipresente e onisciente, Tezcatlipoca aparecia, nas lendas, ligado à noite, às trevas e ao jaguar sagrado. Ele era “invisível e implacável, aparecendo algumas vezes ao homem sob a forma de uma sombra voadora, quando não como monstro pavoroso”. Freqüentemente representado como uma caveira brilhante, diziam as lendas que fora dono de um objeto misterioso, o Espelho Esfumaçado, que acabou por lhe dar o nome, e que o usava para observar a distância as atividades de homens e deuses. Estudiosos supõem, com lógica irrepreensível, que a tal coisa deve ter sido uma obsidiana, usada para fins divinatórios: “A obsidiana revestia-se de uma santidade toda especial para os mexicanos, como se comprova com as facas sacrificiais usadas pelos sacerdotes. (…)

Segundo Bernal Dias [historiador espanhol], os nativos davam a essa pedra o nome de ‘Tezcat’. Com ela eram feitos também espelhos com finalidades divinatórias, usados por feiticeiros.” Representando as forças das trevas e da maldade rapace, Tezcatlipoca, segundo as lendas, esteve envolvido em conflitos com Quetzalcoatl que se prolongaram durante um número imenso de anos. Às vezes, um parecia estar vencendo a luta e, em certas ocasiões, o outro. Finalmente, a guerra cósmica chegou ao fim na ocasião em que o bem foi derrotado pelo mal, com o resultado de que Quetzalcoatl foi expulso de Tollan. Daí em diante, sob a influência do culto aterrador de Tezcatlipoca, os sacrifícios humanos reapareceram na América Central. Conforme vimos acima, acreditavam os nativos que Quetzalcoatl fugira para a costa e fora levado para longe em uma jangada feita de serpentes.

Diz uma lenda: “Ele queimou suas casas, feitas de prata e de conchas, enterrou seu tesouro e viajou pelo Mar do Leste, precedido por seus acólitos, que haviam sido transformados em aves de cores brilhantes”. Pensa-se que esse momento amargo da partida ocorreu em um local chamado Coatzacoalos, palavra que significa “O Santuário da Serpente”. No lugar, antes de despedir-se, Quetzalcoatl prometeu a seus seguidores que voltaria um dia para acabar com o culto de Tezcatlipoca e dar início a uma era em que os deuses voltariam a aceitar “o sacrifício de flores” e deixariam de clamar por sangue humano.


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