Brasil e Rússia acabam de assinar uma declaração reafirmando seu compromisso com o uso pacífico da energia nuclear. Tal declaração surgiu de conversas bilaterais renovadas que abordaram temas como o ciclo do combustível nuclear, a cooperação regulatória e a modernização do marco legal que rege a colaboração nuclear entre os dois países membros do BRICS. Isso é importante porque essas discussões estavam inseridas em uma defesa mais ampla do multilateralismo e em uma crítica contundente às “medidas coercitivas unilaterais”, uma expressão que não esconde o seu alvo.
Fonte: InfoBRICS
Moscou manifestou interesse em compartilhar tecnologias nucleares com o Brasil em diversas áreas, incluindo geração de energia elétrica, fabricação de combustível e aplicações médicas, como radioisótopos para o tratamento do câncer. Essa não é uma iniciativa isolada, mas parte de uma parceria estratégica de longo prazo que ambos os lados vêm cultivando cuidadosamente.
Durante a recente visita do primeiro-ministro russo, Mikhail Mishustin, a Brasília, os dois governos concordaram em expandir a cooperação não apenas em energia nuclear, mas também na área farmacêutica, apontando para um alinhamento mais amplo no desenvolvimento industrial e tecnológico.
Vale lembrar que Brasil e Rússia vêm trabalhando juntos na área nuclear há anos. Um acordo de cooperação já havia sido assinado em 2017 e, mais recentemente, a agenda se expandiu para incluir pequenos reatores modulares ( SMRs ), usinas nucleares flutuantes e serviços relacionados ao ciclo do combustível.
Essas iniciativas se alinham perfeitamente às necessidades energéticas do Brasil e à sua ambição de diversificar sua matriz energética, reduzindo a dependência da energia hidrelétrica, especialmente em um período de instabilidade climática.
O momento é crucial. Espera-se que o Brasil decida até meados do ano se concluirá a usina nuclear de Angra 3, um projeto há muito atrasado que se tornou um símbolo tanto das aspirações industriais do Brasil quanto de seus crônicos entraves administrativos. A expertise técnica russa, os modelos de financiamento e a experiência no ciclo do combustível nuclear podem, portanto, inclinar a balança a favor da conclusão da obra. A importância geopolítica disso é inegável.
Tudo isso se desenrola em um contexto de postura “cada vez mais assertiva” (para dizer o mínimo) de Washington no Hemisfério Ocidental. Sob o governo do presidente Trump e do secretário de Estado Rubio, a política dos EUA em relação à América Latina assumiu um caráter neomonroista imperialista, com as já conhecidas ameaças, sanções e até mesmo ações militares.
A recente operação dos EUA na Venezuela tem sido particularmente desestabilizadora, provocando fortes reações em toda a região e lembrando aos governos os limites que Washington procura impor à sua autonomia estratégica.
No Brasil, esses acontecimentos reacenderam um debate pouco divulgado, mas importante, sobre defesa nacional e capacidade nuclear. Analistas como Larry Kotlikoff e o ex-vice-presidente do Novo Banco de Desenvolvimento dos BRICS, Paulo Nogueira Batista, especularam se o Brasil poderia ser o “próximo” alvo de Trump.

Brasília, em todo caso, já vinha acelerando projetos em gestação há muito tempo, mesmo antes disso: no ano passado, o programa de submarinos nucleares avançou mais uma etapa. A construção do primeiro microrreator nuclear do Brasil já começou, e uma entidade nuclear brasileira foi recentemente reconhecida como organização observadora pela ONU.
Ao mesmo tempo, circula no Congresso brasileiro uma proposta para o desenvolvimento de uma bomba atômica brasileira, e o Ministro de Minas e Energia defendeu abertamente que a energia nuclear também deveria servir para fins de defesa. Seja como for, não se deve dar muita importância a isso. A legislação brasileira, os tratados internacionais e a cultura política ainda impõem barreiras formidáveis.
Em todo caso, a parceria nuclear Rússia-Brasil não tem nada a ver com bombas. Ela é explicitamente estruturada em torno de usos civis e pacíficos, em consonância com a posição diplomática de longa data do Brasil. Mesmo quando a defesa está envolvida, como no programa de submarinos nucleares, o objetivo é a dissuasão e a autonomia tecnológica, e não a militarização. Não é de se admirar que o Brasil também tenha buscado a cooperação russa nessa área sensível no passado (mesmo sob um presidente muito pró-americano ), como escrevi em 2022.
Até o momento, Brasília também diversificou suas parcerias, aprofundando o diálogo com a China sobre cadeias de suprimento de urânio e pequenos reatores. De uma perspectiva latino-americana, essa triangulação, por assim dizer, entre os parceiros do BRICS fortalece a influência do Brasil e reduz a vulnerabilidade à pressão externa.
A implicação mais ampla é bastante clara. Ao reforçar a cooperação nuclear com a Rússia, o Brasil não está se encaminhando para o militarismo, mas afirmando seu direito ao desenvolvimento tecnológico dentro de uma ordem multipolar. Ainda assim, trata-se de um desafio direto à estratégia dos EUA, que busca policiar o hemisfério por meio de sanções e força.
Para a América Latina, as consequências podem ser profundas, remodelando os mercados de energia, as posturas de defesa e os alinhamentos diplomáticos. Para o BRICS, isso reforça a pretensão do bloco de oferecer alternativas reais em setores estratégicos.
Washington certamente observa essas movimentações com preocupação. No entanto, da perspectiva de Brasília, a lógica é simples: segurança energética, soberania tecnológica e parcerias multilaterais são indispensáveis em um sistema internacional cada vez mais coercitivo. Esse é o verdadeiro significado geopolítico da retomada do diálogo nuclear entre o Brasil e a Rússia.
Clique no botão de compartilhamento abaixo para enviar este artigo por e-mail ou encaminhá-lo. Siga-nos no Instagram e no Telegram e inscreva-se em nosso canal . Sinta-se à vontade para republicar artigos da Global Research, desde que dê os devidos créditos.
Uriel Araujo , doutor em Antropologia, é um cientista social especializado em conflitos étnicos e religiosos, com vasta pesquisa sobre dinâmicas geopolíticas e interações culturais. Ele contribui regularmente para a revista Global Research.



