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Maria Madalena e o Santo Graal: A Mulher do Vaso de Alabastro (III) – O Sangue Real e a Videira

Posted by on 30/07/2018

O cristianismo institucional, que tem alimentado a civilização ocidental há mais de dois mil anos, pode ter sido construído sobre uma gigantesca falha em sua história: a Negação do feminino. Durante muitos anos convivi com uma vaga sensação de que algo estava radicalmente errado com o meu mundo. Sentia que, por um período longo demais, o feminino em nossa cultura vinha sendo desprezado e desvalorizado. Mas foi somente em 1985 que encontrei provas documentais de uma devastadora fratura na história cristã e nos ensinamentos da igreja de Roma. Em abril daquele ano, sabendo do meu grande interesse pelas Escrituras judaico-cristãs e pela origem do cristianismo, uma amiga me indicou o livro The Holy Blood and the Holy Grail”(O Santo Graal e a Linhagem Sagrada).

Edição e imagens Thoth3126@protonmail.ch

Livro “Maria Madalena e o Santo Graal: A Mulher do Vaso de Alabastro”, de Margaret Starbird

https://pt.scribd.com/

CAPÍTULO III – O Sangue Real e a Videira 

O quarto Evangelho afirma com muita clareza que a mulher que ungiu Jesus em Betânia era Maria, a irmã de Lázaro. O nome de Maria Madalena não aparece vinculado à cena da unção, mas é ela que, nas Escrituras do Novo Testamento, acompanha Jesus ao calvário, colocando-se ao lado da cruz, e também é ela que, na manhã de Páscoa, vai terminar a unção para o enterro, o que começara a fazer vários dias antes. Nós já examinamos as tradições da Igreja ocidental segundo as quais Maria de Betânia e Maria Madalena são a mesma pessoa. Mas por que Maria de Betânia foi chamada de “a Madalena”? Por que foi forçada a fugir de Jerusalém? E o que aconteceu à linhagem sagrada que ela carregava consigo?

O Casamento Secreto

Passei a suspeitar de que Jesus fizera um casamento dinástico secreto com Maria de Betânia e que ela era descendente da tribo de Benjamim, cuja herança ancestral era a terra ao redor de Jerusalém, a Cidade Santa de Davi. Saul, o primeiro rei ungido de Israel, pertencia à tribo de Benjamim, e sua filha Micol foi esposa do rei Davi. Ao longo da história de Israel, as tribos de Judá e de Benjamim foram as aliadas mais próximas e mais leais. Seus destinos se entrelaçaram. O casamento dinástico de uma descendente de Benjamim, herdeira das terras em torno da Cidade Santa, com o messiânico filho de Davi, teria exercido grande influência sobre a facção fundamentalista zelote da nação judaica ocupada – um abençoado signo de esperança para o povo durante o período mais sombrio de Israel.

Em seu romance “King Jesus” (Rei Jesus), de 1946, o mitógrafo do século XX Robert Graves sugere que a descendência e o casamento de Jesus foram mantidos em segredo, e deles só tinha conhecimento um seleto círculo de líderes leais. Para proteger a descendência real, o matrimônio teria sido ocultado dos romanos e dos tetrarcas de Herodes; e a segurança da esposa e da família de Cristo, depois de sua crucificação, confiada aos poucos que conheciam suas identidades. Todas as referências ao casamento de Jesus, supõe Graves, foram deliberadamente obscurecidas, editadas ou destruídas. Mas a esposa grávida do filho ungido de Davi teria sido a portadora da esperança de Israel – o Sangraal, a descendência real.

Magdal-eder, a Torre do Rebanho

No capítulo 4 do profeta hebreu Miquéias há uma bela profecia sobre a restauração de Jerusalém no momento em que todas as nações transformarem suas espadas em relhas de arado e se reconciliarem com Deus. Dizem os versículos 8, 9 e 10:

“E a ti, ó [Magdal-eder] torre do rebanho, Outeiro da filha de Sião, A ti virá, sim, a ti virá o primeiro domínio, O reino da filha de Jerusalém. E agora, por que fazes tão grande pranto? Não há em ti rei? Pereceu o teu conselheiro, De modo que se apoderaram de ti dores, como da que está de parto, Sofre dores e trabalha, ó filha de Sião, Como a que está de parto; Porque agora sairás da cidade E morarás no campo”.

É provável que as referências originais a Maria Madalena na tradição oral, as “perícopes” do Novo Testamento, tenham sido mal interpretadas antes de serem transformadas em texto. Suspeito de que o epíteto “Madalena” era uma alusão ao “Magdal-eder” de Miquéias, a promessa de restauração de Sião que se seguiria ao seu exílio. Talvez as primeiras referências verbais ligando o epíteto “Magdala” ao nome de Maria de Betânia não tivessem nenhuma relação com uma obscura cidade da Galiléia, como já se sugeriu, mas fossem alusões intencionais a essas linhas de Miquéias, à “torre” ou “outeiro” da filha de Sião obrigada ao exílio político. O topônimo Magdal-eder significa literalmente “torre do rebanho”, no sentido de um lugar elevado usado pelo pastor como posto de observação, de onde ele toma conta de suas ovelhas.

Em hebraico, o epíteto Magdala significa literalmente “torre” ou “elevado, grande, magnificente”. Essa denotação ganharia especial relevância se a Maria assim denominada fosse de fato a esposa do Messias. Seria o equivalente a chamá-la, em hebraico, de “Maria, a Grande” e, ao mesmo tempo, uma referência à profética restauração da soberania da “filha de Jerusalém” (Miquéias 4:8). Numa antiga lenda francesa, a exilada “Magdal-eder”, a Maria refugiada que busca asilo na costa meridional do país, é Maria de Betânia, a Madalena. A lenda francesa primitiva conta que Maria “Madalena”, Marta e Lázaro de Betânia chegaram em um barco ao litoral de Provença.

Outras histórias creditam a José de Arimatéia o papel de guardião do Sangraal, que, eu sugeri, talvez fosse a descendência real de Israel, e não um cálice propriamente dito. O receptáculo que continha o Rei Ungido Jesus. A imagem de Jesus que surge de nossa versão é a de um líder carismático que encarna os papéis de profeta, cura e Rei/Messias condenado e executado pelo Exército Romano de Ocupação -, cuja esposa e descendência foram retiradas em segredo de Israel por amigos leais e transferidas para a Europa Ocidental à espera da culminação da profecia na plenitude dos tempos. Os amigos de Jesus que tão ardentemente acreditavam ser ele o Messias, o Ungido de Deus, teriam considerado a preservação de sua família um dever sagrado. O receptáculo, o cálice que materializava a promessa do Milênio, o Sangraal da lenda medieval era, eu concluí, a própria Maria Madalena.

A Videira do Senhor

Muitas passagens bíblicas usam a palavra “videira” como uma metáfora para o povo escolhido por Deus: “Trouxeste do Egito uma videira” (Salmos 80:9). “Pois a videira do Senhor dos exércitos é a casa de Israel, e os homens de Judá são a planta de sua predileção” (Isaías 5:7). Várias passagens referem-se à videira no feminino, comparando-a a uma mulher: ”A tua mulher será como a videira frutífera” (Salmos 128); “Tua mãe era como uma videira plantada  junto às águas; ela frutificou e encheu-se de ramos… Mas foi arrancada com furor… e agora está plantada no deserto… não há mais nela ramo forte, não há mais o Cetro real” (Ezequiel 19:10). Essa videira real transplantada é compreendida pelos estudiosos da Bíblia como uma referência à linhagem real davídica de Judá, a linhagem dos príncipes.

A Noiva dos Cânticos zela com cuidado pelas videiras. Em Isaías 5, a videira rebelde produz uvas ruins. O salmo 80 é uma oração para sua restauração: “O Deus dos exércitos, volta-te, nós te rogamos; visita esta videira, a videira que a tua destra plantou.” No Evangelho de Marcos, Jesus conta a parábola dos podadores de videiras, os que zelavam pelas vinhas (Israel), que agridem os serviçais do mestre quando eles vão inspecionar as condições dos vinhedos e, depois, matam o filho desse mestre. Ninguém que conhecesse Jesus de Nazaré e que tivesse “ouvidos para ouvir” duvidaria da identidade daquele “filho fiel”. Ele era o herdeiro legítimo da “Videira de Judá”. Transplantar a “Videira” davídica não teria sido surpresa para os zelotes, amigos fundamentalistas de Jesus. Eles sabiam que isso fora profetizado (Ezequiel 17). Já acontecera antes, quando o povo de Israel foi escravizado e levado à Babilônia. Mas poderia acontecer outra vez. Diante do perigo que sofria a Videira de Judá, a linhagem real, é provável que os amigos de Jesus tomassem medidas drásticas e talvez desesperadas para proteger sua família. Teria sido sua mais importante prioridade.

A Fuga para o Egito

Em decorrência das condições da ocupação romana de Israel, a Sagrada Família teria sido mantida em segredo e protegida a todo custo pela facção monárquica da Palestina. Após a crucificação de Jesus, sabe-se que Maria Madalena não permaneceu em Jerusalém. Não há menção a Maria, a Marta e a Lázaro no Livro Atos dos Apóstolos nem nas epístolas de Paulo. De qualquer maneira, Maria jamais seria identificada como a viúva de Jesus. O perigo teria sido grande demais. É provável que aqueles amigos especiais de Jesus não mais fizessem parte da comunidade de Jerusalém quando as cartas de Paulo foram escritas (51-63 d.C.), mas a partida deles não foi explicada.

Se fizessem parte da comunidade após a ascensão de Jesus, seus nomes teriam sido mencionados nos últimos trabalhos do Novo Testamento que foram declarados canônicos. Em vez disso, referências a Maria Madalena após a ascensão ocorrem apenas nos Evangelhos gnósticos (manuscritos dos Novos Testamentos coptas que foram encontrados, em 1945, em Nag Hammadi e em outros lugares do Egito), textos que confirmam que ela era uma companheira íntima de Jesus.

O Evangelho de Felipe diz: “Três mulheres seguiam Jesus em todos os momentos: sua mãe Maria, a irmã dela e Madalena, a que é chamada de sua companheira”. Segundo esse Evangelho, Maria Madalena teria despertado o ciúme dos apóstolos porque era a companheira mais próxima, ou “consorte” do Senhor, a quem ele sempre beijava na boca. Os quatro Evangelhos canônicos deixam claro que Maria Madalena gozava de especial importância na comunidade dos fiéis por ter sido a primeira pessoa a ver Jesus e a falar com ele no domingo de Páscoa – ela correu à sua tumba às primeiras horas da manhã para realizar os ritos de embalsamamento do corpo.

Há sete listas nos quatro Evangelhos que citam as mulheres que acompanhavam Jesus. Em seis delas, o nome de Maria Madalena é o primeiro – antes mesmo do de Maria, a mãe. Os escritores dos Evangelhos, a começar por Marcos, estão, provavelmente, indicando a posição de Madalena na comunidade cristã: o papel de primeira-dama. Os manuscritos coptas foram descobertos em Nag Hammadi em aproximadamente 400 d.C., um período em que a Igreja cristã de orientação ortodoxa (declarada a Igreja oficial do Império Romano pelo imperador Teodósio) começou a procurar e destruir os documentos das seitas que considerava heréticas. Esses textos foram conservados em vasos similares àqueles que continham os Pergaminhos do Mar Morto, nas cavernas perto de Qumran, no deserto da Judéia.

Encontrados nas décadas de 1940 e 1950, eles abriram uma nova área de pesquisas sobre os primeiros séculos da cristandade. A importância atribuída a Maria Madalena nos quatro Evangelhos canônicos é intensificada em vários desses documentos apócrifos. Os manuscritos coptas – muitos dos quais pergaminhos do segundo e terceiro séculos – são bem mais antigos do que as cópias dos Evangelhos canônicos. E, milagrosamente, sobreviveram ao expurgo da Igreja primitiva, assim como os Pergaminhos do Mar Morto resistiram à destruição imposta pelas legiões romanas durante a revolta judaica ocorrida entre 66 e 74 d.C., quando a nação de Israel foi virtualmente exterminada, o segundo templo destruído e a comunidade cristã de Jerusalém, aniquilada.

Jesus e a Facção dos Zelotes

Vou falar rapidamente sobre a natureza das acusações contra Jesus que fizeram com que Pilatos, o procurador romano da província, ordenasse sua crucificação – uma sentença que colocou sua mulher, Maria, em grande perigo. Se Jesus tivesse sido acusado apenas de blasfêmia por ter se proclamado filho de Deus, como sugere a Bíblia, sua mulher não correria nenhum perigo. Contudo, se ele fosse condenado por suas filiações políticas, como pretendo demonstrar, ela teria sido, sem dúvida, forçada a fugir para salvar a própria vida. Existem fortes evidências que comprovam a teoria de que Jesus era simpático aos ativistas de direita de Israel. Vários de seus apóstolos, por exemplo, eram conhecidos militantes extremistas, e o mais citado entre eles é Judas Iscariotes. O nome Iscariotes é interpretado por muitos como um indicativo de que ele pertencia, como disse anteriormente, à irmandade radical de assassinos políticos, os Sicarii, ou “Filhos do Punhal”. (Esse epíteto vem da palavra latina sica, uma pequena adaga que os homens escondiam sob seus mantos Sicarius significa “aquele que mata com uma sica”).

Simão, o Cananeu (Qu’anan), é outro seguidor de Jesus mencionado em Mateus 10:4. A nota de rodapé da Bíblia que consultei afirma que “cananeu” é a raiz da palavra “zelote”. Lembrando que os relatos do Evangelho foram difundidos oralmente durante muitas décadas antes de serem escritos em pergaminhos, é possível que o casamento em Canaã tenha sido, na verdade, o “casamento dos zelotes”. Talvez essa união tenha significado um evento de grande importância para os judeus – ou seja, o casamento de Jesus e Maria Madalena. A mudança da água para o vinho poderia, então, ser compreendida como a atribuição simbólica de uma “nova vida” de esperança e alegria messiânicas renovadas.

Histórias sobre a vida e os ensinamentos de Jesus circularam por mais de trinta anos antes que a primeira versão – o Evangelho de Marcos – fosse escrita, aproximadamente em 70 d.C. O estudo lingüístico da etimologia popular confirma que detalhes de uma história são modificados involuntariamente à medida que são transmitidos oralmente. Algumas vezes, expressões, coloquialismos e nomes próprios são interpretados ou escritos de maneira errada. Se Simão, o Cananeu, significa Simão, o Zelote (fato sobre o qual parece não haver nenhuma dúvida), então Canaã também poderia ser uma referência à festa zelote. Muitos estudiosos do Novo Testamento acreditam que a acusação feita a Jesus não era de blasfêmia, mas de insurreição. Os argumentos para se compreender Jesus como uma figura política – o Messias davídico judeu que assumiu uma atitude de ameaça à estabilidade da província romana da Palestina – são claramente delineados por S. G. F. Brandon em “Jesus and the Zealotes” (Jesus e os zelotes).

O movimento popular espontâneo que foi se expandindo, estimulado pelas atitudes de Jesus e seu ministério, representou um desafio direto à autoridade política de Roma. Jesus foi acusado de incitar o povo ao terror, e o castigo romano tradicional reservado para as insurreições praticadas pelos zelotes era a crucificação. Na verdade, no período de 6 d.C. a 70 d.C, quando se deu a queda de Jerusalém, centenas de patriotas judeus foram crucificados. As multidões seguiam Jesus de cidade em cidade durante o seu ministério, e, uma ou duas vezes, os Evangelhos relatam que o povo desejava fazer dele o seu rei. Mas a ação que levou à sua prisão imediata pelas autoridades em Jerusalém foi a derrubada das mesas dos mercadores judeus no Templo de Jerusalém durante o festival da Páscoa judaica. Todos os anos,  judeus de todas as partes do Império dirigiam-se a essa cidade para fazer ofertas no Templo. A atitude que Jesus tomou, espalhando moedas do Império por todo o chão do Templo, foi um ataque radical ao sistema religioso formado pelos sacerdotes e aos saduceus judeus, a elite que (sempre) colaborava com as autoridades romanas para manter a tranqüilidade e a ordem na província.

A comunidade do deserto, que escreveu vários dos Pergaminhos do Mar Morto, há muito tempo caracterizava o culto do Templo e seus sacerdotes como perversos e mentirosos em relação aos ensinamentos da Tora e dos profetas. Essas pessoas diziam que o próprio Templo era impuro e que a adoração que acontecia ali estava maculada pela associação com os pagãos. Ligações entre o primeiro movimento cristão – a comunidade Qumran, e Massada – a última fortaleza dos zelotes – contra as legiões romanas estão bem documentadas. Essa comunidade, que era radicalmente anti-romana, antiestablishment, apocalíptica e messiânica, esperava a restituição da linhagem davídica ao trono de Israel. No Pergaminho de Guerra, encontrado em um dos vasos, esse Messias davídico é chamado de “o Cetro”.

Os sectários de Qumran denunciavam a elite dos saduceus, que controlava a adoração corrupta no Templo e explorava os pobres com exigências de sacrifícios e dízimos. Eles acreditavam ser os únicos remanescentes puros de Israel. Seus membros praticavam ritos semelhantes ao batismo das primeiras comunidades cristãs e marcavam os iniciados na testa com o sinal que, em Ezequiel 9, é mencionado como o que distinguia os verdadeiramente iluminados – aqueles que se angustiavam com as abominações praticadas em Jerusalém. (O uso posterior da letra greca Chi (X) pelos cristãos foi atribuído ao fato de ser essa a inicial da palavra grega referente a Christos, mas a prática de marcar os iniciados como “eleitos” era a mesma.) A comunidade de Qumran mantinha-se afastada daqueles que colaboravam com os romanos.

Muitas de suas crenças e doutrinas, escondidas em vasos por quase dois mil anos, ecoam o teor radicalmente dualista e apocalíptico dos escritos do Novo Testamento. Cópias de alguns desses manuscritos também foram encontradas em Massada, a fortaleza zelote que acabou vencida pelos romanos em 73 d.C., após o suicídio em massa dos que a defendiam. Somente nas últimas décadas, desde a descoberta desses documentos em 1947, os estudiosos da Bíblia tiveram acesso às valiosas informações ali contidas sobre as origens do movimento cristão. Os partidários em Qumran teriam, sem dúvida, aplaudido a atitude radical de Jesus virando as mesas de dinheiro no Templo durante as festas da Páscoa judaica.

Jesus de Nazaré, Rei dos Judeus

Com base nos textos encontrados nas Escrituras gregas canônicas do Novo Testamento, há bons motivos para acreditar que muitos judeus aceitaram Jesus como o prometido Messias da linhagem de Davi. As mais antigas afirmações do fato de que ele era admitido como tal na comunidade cristã são encontradas na Epístola de Paulo aos Romanos (1:3), que foi escrita aproximadamente em 57 d.C. Ela se refere a Jesus da seguinte maneira: “Acerca de seu Filho, nasceu da descendência de Davi quanto à natureza humana.” O Evangelho de Marcos (71-75 d.C.) relata a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém, quando o povo espalhou folhas de palma (João 12:13) diante do rei que montava um jumento. A imagem da palmeira, um símbolo para a nação judaica, aparece em moedas cunhadas nos tempos romanos. O fato de Jesus ter sido considerado o Rei dos Judeus também é confirmado pela inscrição que Pilatos mandou colocar acima da cruz em que ele foi sacrificado pelos soldados romanos: “Jesus de Nazaré, Rei dos Judeus”, abreviado para “INRI”.

Reconhece-se hoje que a Galiléia, dita o berço de Jesus, foi um grande foco de atividades zelotes e anti-romanas durante o primeiro século, fato que pode ter sido relevante para a acusação de insurreição feita a ele. Existem amplas evidências de que Jesus não era apenas um pobre carpinteiro ou o filho de um carpinteiro de uma obscura vila na Galiléia. Os evangelistas Mateus e Lucas, que escreveram aproximadamente no mesmo período (entre 80 d.C. e 85 d.C.), mas que desconheciam o trabalho um do outro, incluíram genealogias de Jesus no início de seus Evangelhos. Apesar de pequenas variações entre elas, um fato pode ser deduzido: ele estava sendo proclamado o tão esperado Messias davídico. O testemunho das duas Escrituras é de que o governador romano e os líderes judeus colaboraram na prisão e crucificação de Jesus porque ele era visto pelas autoridades de ambas as partes como um rebelde perigoso. Sua morte significava uma necessidade política para evitar rebeliões posteriores na Palestina. Foi considerado um incendiário exatamente porque o povo acreditava que se tratava de seu prometido rei e messias, O Ungido de Deus, o “rei justo” anunciado pelos profetas.

Os Evangelhos nos fazem concluir que Jesus foi a escolha do povo porque seus milagres provaram a todos que ele era o eleito de Jeová. O poder do povo é, com freqüência, temido por um sistema repressor por ameaçar a estabilidade do status quo. De acordo com o que dizem os Evangelhos, escritos com o objetivo de converter cidadãos do Império Romano ao cristianismo, foi desejo das autoridades  judaicas que Jesus fosse crucificado. Mas a crucificação não era um castigo aplicado pelos judeus. Se a acusação tivesse sido de blasfêmia, como é sugerido nessas Escrituras, a punição seria o apedrejamento pela comunidade judaica (como ocorreu com seu discípulo Estêvão, em Atos dos Apóstolos 7).

A crucificação era o castigo reservado aos insurgentes. Tudo faz crer que a aclamação pública de Jesus como rei foi o que o levou à execução como inimigo de Roma. Os Evangelhos relatam que Jesus não era apenas uma figura política, o Rei dos Judeus, mas também um líder religioso que exortava seu povo a arrepender-se e preparar-se para o Reino de Deus. Ele desafiou repetidamente os ensinamentos e as interpretações que os líderes religiosos faziam das Escrituras. E promoveu curas. No livro Jesus, the Magician’’ (Jesus, o mago), fontes antigas do Oriente Médio são citadas numa tentativa de mostrar que Jesus foi um dos milagreiros errantes daqueles tempos.

Entretanto, segundo os relatos da época, é muito mais provável que ele tenha sido um curandeiro genuinamente carismático, que compreendia o fenômeno psíquico da cura como resultado da dinâmica da fé. E Jesus sempre dizia exatamente isto: ”A sua fé o fez inteiro”. Segundo o Evangelho de Lucas, ele visitou a sinagoga em Nazaré e leu para a congregação um trecho da profecia de Isaías 61:1-2: O Espírito do Senhor repousa sobre mim porque o Senhor me consagrou pela unção. Enviou-me a levar a boa nova aos humildes, curar os corações doloridos, anunciar aos cativos a redenção; aos prisioneiros, a liberdade. Há mais de dois mil anos, há um consenso por parte dos cristãos de que o homem que tomou para si essa passagem não era um simples mago. Ele era um recipiente terreno pleno do Espírito de Deus. E foi o seu poderoso carisma que levou, de maneira implacável, à sua crucificação como um incendiário político e à fuga imediata de sua família de Jerusalém.

O Cajado Florido e o Sangraal

O que diz a lenda sobre a fugitiva Sagrada Família? No Novo Testamento, o Evangelho de Mateus relata que a Sagrada Família fugiu para o Egito com o objetivo de evitar que seu filho fosse morto pelo rei Herodes, que estava preocupado com a sua reivindicação ao trono de Israel. José, o marido de Maria, recebeu uma mensagem em um sonho para fugir com ela e Jesus para o Egito (Mateus 2:13). Os modernos estudiosos da Bíblia acreditam que tudo isso é um mito usado pelo autor desse Evangelho para fazer cumprir as palavras do profeta: “…e do Egito chamei meu filho” (Oséias 11:1). A indicação da verdade nessa história é a forte tradição de perigo para a linhagem real de Judá.

Um Evangelho apócrifo é a fonte da tradição de que o cajado de São José floriu para indicar que Deus o escolhera para ser marido de Maria e pai terreno de Jesus. Mas o “cajado florido” – mostrado na mão de São José nas igrejas católicas de todo o mundo – também serve para nos lembrar de que José era o guardião da “muda”, que seria o próprio Jesus, com base em uma profecia de Isaías: “Então brotará um rebento do cepo de Jessé, e das suas raízes um renovo frutificará” (Isaías 11:1). Contudo, uma tradição derivada de uma antiga lenda francesa nos diz que… José de Arimatéia era o guardião do Sangraal e que a criança no barco era egípcia, o que significa, literalmente, “nascida no Egito”. Parece provável que depois da crucificação de Jesus, Maria Madalena tenha considerado necessário esconder-se no refúgio mais próximo para proteger seu filho ainda não nascido. José de Arimatéia, influente amigo de Jesus, pode ter sido o seu protetor.

Se nossa teoria está certa, a criança nasceu de fato no Egito, tradicional lugar de asilo para judeus cuja segurança se encontrava ameaçada em Israel. Alexandria era acessível a quem partia da Judéia e abrigava comunidades judaicas consolidadas na época de Jesus. É muito provável que tenha sido então o refúgio emergencial de Maria Madalena e José de Arimatéia. Anos mais tarde, eles teriam deixado Alexandria e buscado um lugar mais seguro no litoral da França. Estudiosos de arqueologia e lingüística descobriram que os topônimos e lendas de uma região contêm “fósseis” de seu passado remoto. Os fatos podem ser alterados e as narrativas abreviadas no decorrer do tempo, mas traços “fossilizados” da verdade permanecem enterrados sob os nomes de pessoas e lugares. Todo ano, de 23 a 25 de maio, realiza-se um festival na cidade de Les-Saintes-Maries-de-La-Mer, na França, no santuário dedicado a Santa Sara, a egípcia, também chamada de Sara Kali, a “Rainha Negra”.

As pesquisas revelaram que esse festival, cuja origem remonta à Idade Média, homenageia uma criança “egípcia” que acompanhava Maria Madalena, Marta e Lázaro quando de sua chegada à região, num pequeno barco, por volta do ano 42 d.C. Parece que se difundiu entre os habitantes locais a suposição de que a criança, por ser “egípcia”, tinha pele escura. Como não se encontrou nenhuma outra explicação razoável para a sua presença, deduziu-se, posteriormente, que ela devia ter vindo de Betânia como serva da família. O nome Sara significa “rainha” ou “princesa” em hebraico. Essa Sara é também caracterizada nas lendas locais como uma “jovem”, não mais que uma criança. Existe, portanto, num pequeno povoado do litoral da França, um festival anual em homenagem a uma menina de pele escura chamada Sara.

O “fóssil” dessa lenda está no fato de a criança se chamar “princesa” em hebraico. Uma filha de Jesus nascida depois da fuga de Maria Madalena para Alexandria teria cerca de 12 anos na época da viagem à Gália referida na história. Ela, como os príncipes da linhagem de Davi, é simbolicamente negra , “não reconhecida nas ruas” (Lamentações 4:8). Madalena era ela própria o “Sangraal”, no sentido de ter sido o “cálice”, ou receptáculo, que um dia carregara in utero a descendência real. A negritude simbólica da Noiva dos Cânticos e dos príncipes davídicos das Lamentações se estende a essa Maria escondida e sua filha. O festival de Sara Kali, a Negra Sara, parece assim acontecer em homenagem a essa mesma criança simbolicamente negra. (No capítulo VIII, analisarei mais detalhadamente os santuários da Madona Negra na Europa Oriental.)

Acredita-se que as pessoas que, nos séculos posteriores, conheceram essa lenda e a identidade de Madalena como mulher de Jesus a equipararam à Noiva Negra dos Cânticos. Ela era a Noiva-Irmã e a Amada. Sua “negritude” teria sido simbólica de sua condição oculta. Tratava-se da rainha desconhecida – não declarada, repudiada e caluniada pela Igreja no transcorrer dos séculos, numa tentativa de negar a linhagem legítima e manter suas próprias doutrinas sobre a divindade e o celibato de Jesus. Fósseis da verdade permanecem enterrados em símbolos, nomes de pessoas e lugares, rituais e contos folclóricos. Ao entendermos isso, torna-se plausível que a fuga para o Egito tenha sido empreendida pelo “outro José”, José de Arimatéia, e a “outra Maria”, Maria Madalena, após a crucificação, para proteger dos romanos e dos filhos de Herodes o filho ainda não nascido de Jesus.

As discrepâncias na história e a óbvia lacuna de uma geração podem ser facilmente compreendidos à luz do perigo que rondava a linhagem exigindo todo o segredo possível quanto ao seu esconderijo – e em decorrência do tempo que transcorreu antes que o relato fosse redigido. Parece ser mais um caso de um mito que foi se formando, uma vez que a verdade era perigosa demais para ser contada.

A Conexão Merovíngia

Alguns indícios sugerem que o sangue real de Jesus e Maria Madalena acabou circulando nas veias dos monarcas merovíngios da França. O termo “merovíngio” talvez seja ele próprio um fóssil lingüístico. As tradições da família real dos francos mencionam um antepassado de nome Meroveu (Mérovée, em francês). Mas a palavra “merovíngio” se separa foneticamente em sílabas facilmente reconhecíveis: merevin, Maria e videira. Assim decomposta, seria possível considerá-la uma alusão  a “videira de Maria” ou talvez à “Videira da Mãe”. O emblema do rei merovíngio Clóvis era a flor-de-lis (íris, em inglês).

O nome latino da flor da íris, típica de países do Oriente Médio, é gladiolus, ou “pequena espada”. A flor-de-lis de três folhas (alusão à TRINDADE, DEUS PAI. DEUSA MÃE E DEUS FILHO) da casa real da França é um símbolo masculino, na verdade uma imagem gráfica do compromisso da circuncisão, no qual estão implícitas todas as promessas de Deus a Israel e à casa de Davi. Thomas Inman discute exaustivamente a natureza masculina da “flor de luz” em Ancient Pagan and Modern Christian Symbols (Símbolos cristãos modernos e pagãos antigos), do século XIX. Não deixa de ser engraçado que esse mesmo símbolo masculino, a “pequena espada”, seja hoje o emblema internacional do escotismo!

A afirmação de que esse símbolo representa a Trindade é uma racionalização baseada em sua imagem de três elementos em um só. Esse “lírio” de três pontas é um antigo símbolo de Israel: os remates de duas colunas fálicas do Templo de Salomão, Jaquim (PODER MASCULINO) e Boaz (PODER FEMININO) foram entalhados com “trabalhos em forma de lírio” (1 Reis 7:22). O famoso trevo de São Patrício pode ser um símbolo legítimo da Trindade, mas penso que a flor-de-lis se refere especifica-mente à linhagem davídica de Israel e que tenha sido usada como emblema pelos reis merovíngios na Europa.

A tumba do rei merovíngio Childeric I (que morreu aproximadamente em 481 d.C.) foi descoberta em 1635, em Tournai, e continha trezentas abelhas de ouro. A abelha, o totem da linhagem dos reis merovíngios, era o símbolo sagrado da Deusa do Amor e também um símbolo egípcio de realeza. Colônias de abelhas são sociedades matriarcais que reconhecem a rainha como sua monarca. Acredito que o totem da abelha de ouro foi escolhido conscientemente para refletir a descendência merovíngia da casa real de Davi (e, portanto, de Jesus) por meio da linhagem feminina e que esse clã honrava a viúva real, Maria Madalena, e sua filha, a quem a lenda chama de Sara. A linhagem real de Israel deve ter sobrevivido à perseguição e, por fim, reapareceu nos reis merovíngios da Europa e em famílias aparentadas, que ocultaram sua genealogia durante vários séculos.

 A primeira Cruzada (1098 d.C.) poderia muito bem ter sido uma tentativa de restituir a um herdeiro da linhagem davídica o trono de Jerusalém por meio de Godofredo de Bouillon (também conhecido como Godofredo de Lorena), que era, segundo a lenda, um descendente merovíngio. Com a conquista de Jerusalém, em 1099, os líderes da Cruzada instalaram um patriarca na Igreja do Santo Sepulcro. E em seus preceitos litúrgicos encontramos o bizarro fato de que todas as festividades da Virgem Maria fossem marcadas por vestimentas negras.

Sugeriu-se que isso representava uma referência ao Cântico dos Cânticos, mas constituiu uma diferença significativa em relação ao costume universal da Igreja segundo o qual vestes brancas devem ser usadas em todas as liturgias nas celebrações relacionadas a Maria. Talvez os trajes negros sejam, mais uma vez, uma referência simbólica à “outra Maria”: a Maria oculta, a Noiva Perdida dos Cânticos dos Cânticos, (o poder feminino da deusa) ultrajada e repudiada pela corrente ortodoxa da Igreja – a rainha exilada, cuja verdadeira identidade foi mantida em segredo por vários séculos; primeiro, para protegê-la das autoridades romanas e dos herdeiros de Herodes e, depois, da hierarquia da Igreja Católica Romana.

Essa Maria “negra” seria um eco poético da Noiva Negra do cântico bíblico, a Noiva do sacrificado Rei-Pastor, o Noivo messiânico de Israel. Essas associações com a Noiva Negra podem ser o motivo da imensa popularidade de numerosos santuários dedicados à Madona Negra que se encontram por toda a Europa Ocidental. A imagem da Noiva-Irmã do mundo antigo foi facilmente associada à mulher de Jesus Cristo, o Ungido. Réplicas clássicas de Deusas da Terra, da Lua e do Amor (Ísis, Ártemis de Éfeso e outras) eram caracteristicamente negras.

Em suma, as duas fugitivas reais de Israel, mãe e filha, poderiam ser logicamente representadas na arte européia antiga como mãe e filha de pele escura, “aquelas que se ocultam”. As Madonas Negras dos antigos relicários da Europa (séculos V ao XII) talvez fossem veneradas, portanto, como símbolos dessa outra Maria e de sua filha, o Sangraal, que José de Arimatéia levou em segurança até o litoral da França. O símbolo do homem da casa real de Davi seria um cajado florido; o da mulher, um cálice – uma taça ou receptáculo – que contém o sangue real de Jesus. Exatamente o que se diz ter sido o Santo Graal!

Continua …


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