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O que está por trás da polêmica decisão de Trump sobre Jerusalém

Posted by on 09/12/2017

Trump prometeu em campanha e cumpriu: Jerusalém foi reconhecida pelos Estados Unidos como a capital de Israel. A decisão, anunciada nesta quarta-feira, provocou reações críticas de líderes políticos e religiosos de todo o mundo – do Papa Francisco ao governo chinês. Apesar de o controvertido anúncio do presidente Trump ter sido recebido com euforia por muitos da comunidade judaica e comemorado pelo primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, existem israelenses que acreditam ser uma má ideia os EUA reconhecerem Jerusalém como capital de Israel e transferir a embaixada dos EUA de Tel Aviv para a velha cidade.

Edição e imagensThoth3126@protonmail.ch

O que está por trás da polêmica decisão de Trump sobre Jerusalém. Os israelenses que se opõem à decisão dos EUA de reconhecer Jerusalém como a capital de Israel

O temor generalizado é que a medida dificulte – e até inviabilize – os históricos esforços de negociação de paz entre Israel e Palestina. Mas especialistas ouvidos pela BBC Brasil acreditam que Trump não levou em conta esse conturbado cenário regional ao tomar a decisão.

O que estaria em jogo seriam assuntos domésticos dos próprios EUA. Especialmente a tentativa do presidente americano de agradar suas bases eleitorais. A mais importante delas é a dos evangélicos conservadores, que advogava pelo reconhecimento de Jerusalém como a capital de Israel.

“Trump foi movido por uma pressão da direita evangélica republicana. Não tem nada a ver com aproximar Israel e Palestina de um acordo. Pelo contrário, essa decisão só os separa ainda mais”, afirma J.J. Goldberg, editor da Forward, revista americana voltada para a comunidade judaica.

Evangélicos

O papel dos evangélicos na política internacional americana a respeito de Israel é cada vez maior, explica Kenneth Wald, professor de ciência política da Universidade da Flórida. O grupo teria começado a ter relevância política nos anos 1980, e hoje já representaria uma das maiores e mais leais bases do Partido Republicano.

“Qualquer presidente quer manter sua base contente. Mas precisa estar atento às consequências. Por isso, os antecessores de Trump, inclusive os que eram comprometidos com Israel, viram essa medida como imprudente”, continua Wald.

A influência dos evangélicos na decisão de Trump teria sido maior até que a dos judeus americanos. Primeiro, porque Trump não tem uma boa interlocução com a comunidade judaica nos Estados Unidos. Segundo, porque os judeus representam um grupo muito menor na sociedade americana que os evangélicos.

E terceiro, porque apenas os judeus ortodoxos estariam interessados na solução adotada por Trump. Os judeus mais ao centro e à esquerda prefeririam uma solução negociada. “A decisão de Trump também não tem a ver com a comunidade judaica, que é majoritariamente liberal”, diz Goldberg.

‘Política por impulso?’

Já Michael Barnett, professor de assuntos internacionais da Universidade George Washington, discorda que os evangélicos tenham sido tão relevantes na decisão de Trump. Para ele, é difícil encontrar uma explicação razoável. “Não faz sentido fazer isso. Parece ser uma política dirigida por impulso. Trump decide ignorar as recomendações e fazer o que tem na cabeça. Não há uma estratégia internacional.”

Contribui para essa visão o fato de que o reconhecimento de Jerusalém como capital de Israel, e a futura transferência da embaixada dos EUA, foram apresentados como medidas isoladas. Parecem não fazer parte de uma estratégia política mais ampla.

Se por um lado o anúncio do presidente foi uma surpresa para o mundo, por outro não destoa de outras das suas polêmicas posturas internacionais, como a saída dos EUA do Acordo de Paris sobre Mudanças Climáticas, o rompimento da Parceria Transpacífico e até as ameaças públicas a Kim Jong-un, da Coreia do Norte.

“Trump mostra nenhum interesse em considerar qualquer tipo de opinião mundial”, avalia Goldberg.

A decisão de Trump vai na mesma direção de uma medida aprovada em 1995 pelo Congresso dos Estados Unidos, prevendo a transferência da Embaixada americana em Israel para Jerusalém. No entanto, isso nunca havia sido posto em prática, porque era necessária aprovação da Presidência dos Estados Unidos.

Desde então, em todos os semestres, o ato do Congresso foi encaminhado aos presidentes americanos, mas a praxe sempre foi renunciar a mudança. Apesar de parecer contraditório, foi o que o próprio Trump fez – o replubicano também assinou a renúncia, para que haja tempo de iniciar a transferência da embaixada.

Por que evangélicos querem Jerusalém como capital de Israel?

Nos Estados Unidos, as razões para o apoio dos evangélicos ao reconhecimento de Jerusalém como capital são principalmente religiosas. “Há muita diversidade no mundo evangélico, mas há uma ideia comum de que o destino de Israel é importante para o futuro religioso dos evangélicos”, afirma Wald.

Alguns acreditam que, por razões bíblicas, Israel é o lugar destinado a agregar os judeus. Outros creem que o messias pode retornar para Jerusalém, vista como a Terra Sagrada e, para isso, é importante que ela esteja nas mãos de Israel, e não dos muçulmanos. Assim, há uma espécie de ponte entre a história de Israel bíblico e a do Estado moderno de Israel.

Mas nem todos os evangélicos americanos compartilham dessa visão. “Muitos evangélicos, como eu, não gostam do romance recente entre a igreja e a política republicana, e se preocupam com a mudança da embaixada americana. Para nós, a construção da paz e a busca de Justiça são grandes virtudes”, escreveu o professor de estudos bíblicos Gary M. Burge, em artigo para a revista The Atlantic.

 

Quais as consequências para israelenses e palestinos?

O representante dos palestinos no Reino Unido, Manuel Hassassian, disse à BBC que a medida será o “beijo da morte” nas negociações de paz baseadas no reconhecimento de dois Estados. “Ele está declarando guerra no Oriente Médio contra 1,5 bilhão de muçulmanos e centenas de milhões de cristãos que não irão aceitar que os santuários sagrados estejam totalmente sob a hegemonia de Israel”, disse Hassassian.

Acadêmicos também estão em alerta. “Os riscos são inacreditáveis. Quem pensava que poderia haver uma solução negociada entre Israel e Palestina, que levasse à coexistência de dois Estados, não pensa mais nisso. O que sobra para os palestinos? Não sobra muito. Vão sentir que os EUA já determinaram o futuro de Jerusalém“, diz Barnett, da Universidade George Washington.

“Por isso, pode ser um ponto de inflexão na política palestina. Pode espalhar-se uma Terceira Intifada (insurreição de palestinos contra Israel). Além disso, uma medida como essa deixa os oponentes dos Estados Unidos mais dispostos a enfrentar riscos. Essa é a ferramenta de recrutamento (de militantes) que al-Qaeda, o autodenominado Estado Islâmico e Hezbollah adorariam usar”, completa Barnett.

Há ainda quem tenha uma visão mais moderada e acredite que a medida de Trump possa facilitar as negociações entre Israel e os líderes palestinos. É o caso de Jonathan Sarna, professor de história judaica americana na Universidade de Brandeis, Massachusetts.

“Muitas pessoas no mundo muçulmano acreditavam que o tempo estava ao lado deles. Por isso, não queriam sentar à mesa de negociação. Mas agora a situação se inverte. É a hora de negociarem com Israel”, afirma. Sarna não acredita no surgimento de um conflito, porque, na sua visão, Israel tem forças “capazes de conter a violência árabe”.


Os israelenses que se opoem à decisão dos EUA de reconhecer Jerusalém como capital de Israel

Israel afirma que Jerusalém é sua capital única e indivisível, enquanto palestinos reivindicam que Jerusalém Oriental seja a capital de seu futuro Estado. Ambos alegam razões históricas para fundamentar o pleito.

A decisão de Trump compromete décadas de diplomacia americana, que intermediava um acordo de paz entre árabes e judeus e agora passa a ser visto como um ator sem neutralidade nas negociações. Por isso, o anúncio do presidente americano foi duramente criticado pela comunidade internacional, incluído líderes aliados. A maioria dos países apoia a solução de dois Estados para resolver o confronto que se intensificou no início do século 20, com a disputa de judeus e palestinos pela capital Jerusalém.

Na tentativa de manter a neutralidade e não influenciar diretamente o já complicado acordo de paz na região, a comunidade internacional nunca reconheceu a soberania de Israel sobre a cidade. A maioria dos países, por exemplo, estabeleceu representações diplomáticas em Tel Aviv e arredores, mas não em Jerusalém.

À BBC Mundo, serviço em espanhol da BBC, Daniel Seidemann diz não ter dúvidas de que a decisão do presidente dos Estados Unidos será contraproducente por aumentar, potencialmente, a tensão na região. “Claramente, é uma decisão desestabilizadora”, disse Seidemann, que foi assessor do primeiro-ministro israelense Ehud Barak (1999-2001). Ele considera que “israelenses, palestinos e norte-americanos vão estar menos seguros”.

“O que é o mais importante para o verdadeiro interesse nacional de Israel? O reconhecimento não resolverá a questão fundamental”, acrescenta. Seidemann é diretor de uma organização não-governamental chamada Terrestrial Jerusalem, que se dedica a identificar o desenvolvimento dos assentamentos em Jerusalém – assentamentos são considerados ilegais pela comunidade internacional, posição que é contestada pelo governo israelense.

Escalada do confronto (carnificina) entre palestinos e judeus

Ele não é o único israelense que teme a escalada do confronto como impacto da decisão de Trump para a região. “Isso é nada mais nada menos do que o reconhecimento da realidade. Também é a coisa certa a fazer. É algo que tem que ser feito. Com o anúncio reafirmo o comprometimento da minha administração com um futuro de paz”, afirmou o presidente americano.

Ayman Odeh, líder do Lista Árabe Unida – um partido de árabes israelenses -, diz não saber precisar o vai acontecer exatamente, mas tende a esperar pelo pior. “De certa forma, é apenas uma questão de tempo para as coisas explodirem. Isso alimenta a desesperança”, diz.

“E quando as pessoas se sentem assim, mais delas sentem que não têm nada a perder e alguns podem recorrer à violência”, completa Odeh, que descreve Trump como “piromaníaco que poderia incendiar a região com sua loucura”. Odeh tem um assento no Knesset, o parlamento israelense .

‘Dia da raiva’

O grupo islâmico Hamas convocou uma nova intifada – termo usado para fazer referência à revolta palestina contra a política de expansão do governo de Israel. Ismail Haniyeh, eleito líder geral do grupo em maio, pediu que palestinos, muçulmanos e árabes se manifestem contra a decisão dos Estados Unidos. “Deixem 8 de dezembro ser o primeiro dia da intifada contra o ocupante”, disse Haniyeh, que chamou esta sexta de “dia da raiva”.

Pouco mais de 300 mil palestinos vivem em Jerusalém e representam 37% da população. A cidade é dividida entre o lado ocidental, que tem maioria judaica e onde está o Parlamento israelense, e o oriental, de maioria árabe, reivindicado pelos palestinos como capital de seu futuro Estado. Os EUA são o primeiro país a reconhecer Jerusalém (e talvez venham a ser os únicos) como capital de Israel desde a fundação do Estado israelense, em 1948.

“Não me importa ser una minoria”

Eran Tzidkiyahu, de 36 anos, é israelense e nasceu em Jerusalém Ocidental. Rodeado de aldeias árabes, ele se convenceu de que a cidade era uma só. “É muito difícil entender, é estúpido”, disse Tzidkiyahu ao comentar o anúncio de Trump. “Não melhora nada na região. Não vamos atingir um acordo”, diz o pesquisador do The Forum for Regional Thinking (Foro para o Pensamento Regional), um centro de análises israelense.

Segundo ele, na prática, a decisão de Trump apenas aumenta a tensão na região, mas não muda em nada a definição de fronteiras nem deve amentar o número de representações diplomáticas em Jerusalém – nem mesmo a embaixada americana tem data para se mudar de Tel Aviv.

O próprio presidente americano diz pediu que a cidade fique aberta para “todas as fés” – cristãos, judeus e muçulmanos veem Jerusalém como o berço de suas respectivas religiões. “Não vão eliminar nenhum ponto de controle, nenhum assentamento, não haverá um impacto real na vida dos palestinos”, diz Tzidkiyahu, que também organiza “tours geopolíticos” por Jerusalém Oriental, onde os árabes são maioria.

Jerusalém, afirma Tzidkiyahu, é “definitivamente parte do problema e deve ser parte da solução”. “Falo como israelense e em nome do interesse de Israel: não vejo lógica em que se deem passos que estimulem a violência e a desesperança”.

Tzidkiyahu sabe que faz parte de um pequeno grupo de judeus que fala abertamente contra a decisão de Trump. “Não me importa ser uma minoria. Me importa minha integridade intelectual”, observa.


Saiba mais, leitura adicional:

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4 Responses to O que está por trás da polêmica decisão de Trump sobre Jerusalém

  1. Maurício

    Agora como um turista , vai viajar a Jerusalém , vai todo mundo ficar com medo de homem bomba , porque pra lá é assim , mais sobre a cidade sou neutro , mais gostaria de conhecer um dia !

  2. Renato Bulhoes

    Também me assustei no primeiro momento em que soube da notícia sobre a embaixada dos EUA ser transferida. Trump está fazendo uma limpeza na CIA, com auxílio da Marinha, tudo o que o ex-presidente Kennedy desejava. Talvez seja uma estratégia de Trump “dar a criança o pirulito” para que se mantenha ocupada com seus problemas, especialmente os problemas advindos com esse “agrado” tipo cavalo-de-Tróia que, provará gerar mais problemas para Israel; e daí manter Israel bem ocupada ao invés de Israel ocupar-se de invadir a Síria e Iraque “por procuração”, e facilitar a faxina sobre a CIA. Simultaneamente deixa feliz sua base eleitoral evangélica. Um toque de gênio.

  3. Nilo

    acho que os Reptilianos estão comandando tudo que acontece no mundo ! e ninguém pode mudar nada !! pois o poder estão com eles !!!

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