Surgiu uma gravação na qual Donald Trump afirma ter ameaçado a Rússia e a China com ações militares. O áudio, que aparentemente captura Trump dizendo a doadores que alertou os principais líderes mundiais sobre as consequências que enfrentariam se cruzassem as linhas geopolíticas, está circulando pelo mundo todo. Em meio a especulações sobre sua autenticidade, é impossível ignorar as implicações públicas e diplomáticas de tal gravação. Seria apenas mais um trecho da bravata habitual de Trump – ou o estilhaçamento de um novo conflito global?
Fonte: The Exposé News
O que Trump disse
Publicado pela CNN e citado em uma próxima publicação por jornalistas do Washington Post, Trump pode ser ouvido fazendo ameaças explícitas:
“Com Putin, eu disse: Se você entrar na Ucrânia, vou bombardear Moscou. Estou te dizendo que não tenho escolha”. Então ele respondeu: “Não acredito em você”. Ele disse: “De jeito nenhum” e eu disse: “De jeito nenhum”. Ele acreditou em mim 10%. Eu te disse isso, ele acreditou em mim 10%.
Então, eu estava com o presidente Xi da China. Eu disse a mesma coisa para eles, eu disse, sabe, “se vocês entrarem em Taiwan, eu vou bombardear Pequim pra caramba”. Ele achou que eu estava louco e disse: “Pequim?! Vocês vão bombardear…”. Eu disse: “Não tenho escolha. Eu tenho que bombardear vocês”. Ele também não acreditou em mim e disse 10%. E 10% é tudo o que vocês precisam. Aliás, 5% também teria sido o suficiente.
A gravação completa pode ser ouvida aqui: CNN
Esses comentários foram feitos durante um evento privado em 2024, em uma sala de doadores de campanha — e aparentemente não tinham a intenção de serem declarações diplomáticas oficiais. Portanto, embora isso não seja uma garantia presidencial de conflitos futuros, pode ser uma janela para a mente do homem mais poderoso errático do mundo.
É real a gravação?
A existência da gravação foi confirmada pela CNN, e os jornalistas que a obtiveram afirmam que ela foi examinada e posteriormente verificada. Apesar das óbvias dúvidas sobre o aprimoramento da IA, ela parece genuína para a imprensa. Mas o Kremlin não tem tanta certeza, com o porta-voz Dmitry Peskov dizendo aos repórteres que “não está claro se a reportagem é falsa“, e a China publicamente não se pronunciou sobre ela.
Se verdadeiras, as citações constituiriam algumas das ameaças de política externa mais agressivas e diretas já feitas por um presidente dos EUA – mesmo em particular. Considerando que essas alegações foram supostamente feitas a doadores políticos, e não a líderes estrangeiros ou oficiais militares, acrescenta-se mais uma camada de controvérsia.
Imprudência ou Doutrina?
Ao longo de sua carreira política, Trump sempre adotou uma estratégia de imprevisibilidade. Alguns diriam que esses comentários ameaçadores reforçam o que está se tornando conhecido como a doutrina de dissuasão de Trump — dura, dramática e, às vezes, teatral:
- Os defensores argumentam que os comentários gravados demonstram força e impedem novos conflitos
- Os críticos de Trump dizem que são imprudentes, pouco diplomáticas e correm o risco de uma escalada desnecessária com líderes estrangeiros.
Sejam insights sobre políticas genuínas ou simplesmente retórica improvisada capturada secretamente em um evento privado, as declarações agora se espalharam pelo mundo todo.
Risco estratégico e instabilidade crescente
O vazamento ocorre em um momento geopolítico delicado. Além do envolvimento recente dos EUA em Israel, Irã e outros países, devemos lembrar que há outras situações em andamento:
- A guerra entre a Rússia e a Ucrânia continua sem uma resolução aparente à vista [e Trump declarou que acabaria com ela em 24 horas]
- A pressão da China sobre Taiwan continua a aumentar, tendo já provocado duras advertências por parte de responsáveis da defesa dos EUA
Embora não tenham sido emitidas respostas diretas de Pequim ou Moscou, estas revelações recentes – e a forma como podem ser interpretadas por várias potências – podem ainda alimentar suspeitas ou posturas estratégicas.
Ecos de ex-presidentes: Nixon, Reagan e a arte da ameaça
A abordagem característica de Trump não é nova. Ele é criticado hoje pelo que alguns consideram uma atitude nunca vista antes em posições de poder, mas há algumas décadas vimos um comportamento semelhante:

Em 1984, Reagan brincou que os EUA “começariam a bombardear a Rússia em cinco minutos”, em um comentário sem contexto que posteriormente vazou. A União Soviética chamou a declaração de “hostil sem precedentes”, evidência da falta de sinceridade dos Estados Unidos em tentar melhorar o relacionamento entre os dois países e abuso do poder presidencial.
Nixon seguiu uma “estratégia do louco”, com o objetivo de fazer os adversários acreditarem que ele era irracional o suficiente para usar armas nucleares, dissuadindo assim líderes de nações hostis de provocar os Estados Unidos. A ideia era criar uma vantagem psicológica nas relações internacionais, já que os oponentes seriam mais cautelosos em suas relações com um líder percebido como instável.
No entanto, sua eficácia tem sido debatida, com críticos argumentando que, na verdade, aumentou as tensões e levou a consequências não intencionais, minando os esforços diplomáticos. Embora possa ter tido algum sucesso em influenciar as percepções soviéticas, não ajudou no Vietnã e pode ter garantido que o Vietnã do Norte permanecesse resoluto em resposta às ameaças de Nixon.
Pensamento final
Sejam as palavras de Trump uma postura ou uma política, as implicações podem ter consequências graves. Como vimos em exemplos presidenciais anteriores, há diferentes maneiras pelas quais comentários como esses podem ser interpretados e levados à prática. No entanto, na era atual em que a percepção impulsiona a ação, é possível que declarações tão ousadas como essas possam intensificar as ameaças que visam dissuadir.