A China quer incorporar o PIX enquanto os EUA atacam o sistema brasileiro

O vice-presidente do Bank of China [Banco da China], Hsia Hua Sheng, afirmou nesta terça-feira (9) que empresas chinesas têm interesse em incorporar o sistema PIX de transferências automáticas às suas plataformas. O anúncio ocorre em contraste aos ataques feitos pelos Estados Unidos ao sistema brasileiro público de pagamentos instantâneos.

Fonte: RTBrasil

Para executivo do Bank of China, plataforma do PIX representa oportunidade de crescimento e aproximação entre as economias de Brasília e Pequim.

Em entrevista ao portal Brazil Economy, Sheng citou o PIX ao comentar as disputas comerciais e destacou o interesse em ampliar parcerias ao invés de impor dificuldades. “Enquanto os EUA criticam o PIX, os chineses querem incorporá-lo às suas plataformas”, declarou.

O executivo explicou que empresas chinesas que atuam no Brasil já vêm adaptando seus serviços para integrar o sistema. “Basta observar que grandes companhias chinesas, como AliExpress, 99, Keeta e outras, vêm se adaptando a essa realidade”, afirmou.

O vice-presidente do Bank of China também avaliou que as tensões comerciais entre Brasil e Estados Unidos podem abrir espaço para uma aproximação maior entre brasileiros e chineses em áreas como tecnologia, inovação e serviços financeiros.

BRICS e Sul Global

Ao aprofundar a análise de conjuntura, Sheng destacou a relevância crescente do Sul Global e dos países do BRICS em meio às transformações da economia mundial.

“O BRICS desempenha um papel fundamental na multipolaridade econômica, pois amplia as possibilidades de transações comerciais e reduz a dependência de um único país, afirmou.

Para o Executivo, a cooperação entre os países do grupo cria novas oportunidades de negócios e fortalece os laços econômicos entre mercados emergentes.

Em conversa com o BRAZIL ECONOMY, Hsia Hua Sheng falou sobre as oportunidades de aproximação entre China e Brasil diante da crise geopolítica com os Estados Unidos

Hsia Hua Sheng é uma das maiores autoridades globais para falar sobre o relacionamento entre Brasil e China. Nascido em Taiwan, Sheng mudou-se para o Brasil aos 12 anos e acompanhou de perto como a abertura econômica chinesa iniciada na década de 1970 impactou o mercado brasileiro, contribuindo para que a China se tornasse o maior parceiro comercial do Brasil a partir de 2009. Professor da FGV há mais de 20 anos, Sheng assumiu o cargo de CFO do Bank of China em 2020 e, pouco depois, foi nomeado vice-presidente da instituição.

Enquanto os EUA e o Brasil travam uma disputa em torno das tarifas comerciais, o país asiático vê o cenário como uma oportunidade para estreitar ainda mais o relacionamento com o Brasil, considerado estratégico na América Latina. Esse foi o principal tema da entrevista concedida pelo executivo ao BRAZIL ECONOMY, que também abordou assuntos como a percepção chinesa sobre a instabilidade política brasileira, transição energética e inovação tecnológica. Confira a entrevista completa:

Como a China tem a ganhar com a guerra de tarifas entre EUA e Brasil?

De certa forma, os EUA utilizam as tarifas para se proteger e favorecer a própria economia. A prova disso é que produtos como carne e café, que podem interferir na inflação americana, ficaram de fora da taxação. Por outro lado, as tarifas focam em tecnologia e serviços financeiros, por exemplo. Sob essa perspectiva, esse tipo de medida pode atrapalhar o desenvolvimento tecnológico no Brasil, já que restringe a exportação de inovação por meio de produtos de alto valor agregado. Isso faz com que o Brasil precise buscar outros parceiros para exportar tecnologia a novos mercados. É aí que a China entra.

De que maneira?

A China tem investido fortemente em tecnologia, e-commerce, energias renováveis, carros elétricos, híbridos e baterias solares, entre outros setores. Vamos analisar especificamente a questão automotiva. No caso dos biocombustíveis, área em que o Brasil é referência, basta observar as empresas chinesas que vieram para o mercado brasileiro. Elas já chegaram entendendo a importância de estabelecer joint ventures voltadas à tecnologia. GWM e BYD, por exemplo, adaptaram seus motores porque, na China, predominam os modelos híbridos movidos a gasolina e eletricidade. Ao operar no Brasil, precisaram se adequar ao etanol. É uma forma de combinar a tecnologia brasileira com a chinesa.

Isso afeta a cadeia de suprimentos como um todo também?

Sim. A cadeia de suprimentos é impactada quando os veículos passam a rodar com etanol e exigem ajustes tecnológicos que não podem simplesmente ser importados da China. Mesmo trazendo a tecnologia de eletrificação, é necessário adaptá-la às condições brasileiras. Isso também vale para ônibus e caminhões movidos a biocombustíveis, que precisaram passar por adaptações. E tudo isso ocorre independentemente das tarifas impostas pelos EUA. Aliás, as tecnologias desenvolvidas aqui podem ser levadas para a China ou para outros países, o que abre mercado para o etanol e o biodiesel brasileiros. Assim, enquanto os EUA tentam impor barreiras ao Brasil, a China pode contribuir para ampliar o acesso das commodities brasileiras a novos mercados.

O senhor citou o caso da BYD. A companhia vem ampliando seus investimentos por aqui e recentemente inaugurou uma unidade na Bahia. Isso gerou críticas de parte do agronegócio brasileiro, que considera que o país deveria focar mais no etanol do que nos carros elétricos, dadas as elevadas possibilidades de produção de cana-de-açúcar.

Essa preocupação não faz sentido. Como eu disse, se você observar os carros chineses vendidos no Brasil, verá que eles estão adotando motores híbridos, já que a dimensão territorial brasileira dificulta uma expansão mais ampla dos veículos exclusivamente elétricos. Assim, o consumidor ganha flexibilidade para escolher como abastecer seu carro. O agronegócio brasileiro precisa entender que, se os elétricos ganham espaço aqui, surgem oportunidades para que o etanol seja exportado em volumes cada vez maiores.

E como o Pix brasileiro entra nessa disputa tarifária?

A área financeira vem sendo alvo de medidas dos EUA por causa dessa questão do Pix. Enquanto os EUA criticam o Pix, os chineses querem incorporá-lo às suas plataformas. Basta observar que grandes companhias chinesas, como AliExpress, 99, Keeta e outras, vêm se adaptando a essa realidade, enquanto os prestadores de serviços são cada vez mais demandados nesse sentido. Além disso, a internacionalização do próprio Pix, por meio de integrações com diferentes formatos em diversos países, representa uma excelente parceria tanto para investidores quanto para consumidores.

Como o Brasil pode aprender com as inovações tecnológicas desenvolvidas na China e que já se tornaram tendências globais?

Para responder a essa pergunta, vou citar o exemplo de Hangzhou, um polo tecnológico próximo a Xangai e cidade onde nasceu a Alibaba. É lá que ocorrem algumas das principais movimentações de venture capital e private equity da China. O segredo do sucesso foi a criação de um ecossistema de inovação que integra universidades, empresas de tecnologia e capital de risco para desenvolver novas soluções.

Mas o Brasil também tem boas universidades públicas…

Acredito que o Brasil precisa aproximar suas principais universidades públicas desse movimento de inovação tecnológica. Muitas instituições exigem dedicação exclusiva dos professores à atividade acadêmica, mas também precisam abrir espaço para laboratórios voltados ao desenvolvimento de patentes. Ultimamente fala-se muito sobre inteligência artificial. No entanto, na China, ela não se limita a aplicações em nuvem, como ocorre predominantemente no Brasil. Lá existe uma aplicação comercial muito mais ampla, com robôs atuando em fábricas, por exemplo. O Brasil possui muitos talentos, mas precisa criar esse ecossistema. Uma forma de fazer isso é estimular a participação de professores no setor privado e incentivar o desenvolvimento de patentes.

Hsia Hua Sheng: “A internacionalização do Pix representa uma parceria para investidores e consumidores”

Como o senhor analisa o atual momento do Sul Global, mais especificamente do BRICS, diante do governo Donald Trump?

O bloco desempenha um papel fundamental na multipolaridade econômica, pois amplia as possibilidades de transações comerciais e reduz a dependência de um único país. O BRICS cria uma agenda econômica entre seus integrantes. Quando ministros desses países viajam para a Ásia, não vão apenas para a China, mas também para a Índia e outras nações do Sudeste Asiático.

Desde que a China se tornou o maior parceiro comercial do Brasil, em 2009, o país atravessou períodos de forte instabilidade política, incluindo impeachment, grandes protestos e até uma tentativa de golpe de Estado. Isso afugenta, de alguma forma, os investidores chineses?

Não. A China mantém um relacionamento muito consolidado com o setor privado brasileiro, e o Brasil oferece segurança jurídica. A prova disso é que os chineses investiram no setor elétrico brasileiro, um segmento cujos retornos são projetados para horizontes de 20 a 30 anos. Portanto, existe confiança, e mudanças políticas internas não afastam o investidor chinês.

O senhor se arriscaria a dizer se o governo chinês, ou os investidores locais, têm algum candidato preferido nas eleições brasileiras de 2026?

A China sempre acreditou no setor privado brasileiro. Independentemente de quem esteja no governo, Pequim mantém o compromisso de continuar construindo uma parceria de ganhos mútuos com o Brasil. O melhor exemplo é a transição energética brasileira, um tema de interesse global que continuará avançando tanto sob um governo de direita quanto de esquerda, porque se trata de uma tendência de longo prazo.


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