Durante milênios, a humanidade esteve certa de que o fim do mundo aconteceria por ação de divindades ou forças da natureza. Muito antes dos relatos bíblicos, ao menos desde 1800 a.C., os mesopotâmios já narravam um grande dilúvio enviado para exterminar a humanidade. Nas tradições zoroastrianas da antiga Pérsia [hoje o Irã], por exemplo, um cometa chamado Gochihr colide com a Terra e desencadeia uma destruição em escala global. No século 18, o físico Isaac Newton recorria a interpretações bíblicas para sugerir que o apocalipse poderia ocorrer por volta de 2060.
Fonte: Revista Galileu
Pandemias, mudanças climáticas, guerras, terremotos, fome, tensões políticas, vulcões, revoluções, tsunamis, quebra de mercados, colocam à prova a capacidade humana de enfrentar grandes crises. Enquanto cientistas, especialistas e outros avaliam os riscos, mais pessoas recorrem ao sobrevivencialismo para se preparar para possíveis emergências inesperadas
Mas essa lógica mudou em 16 de julho de 1945. Naquele dia, o teste da primeira bomba atômica, Trinity, no deserto do Novo México (EUA), inaugurou uma nova era: pela primeira vez, a humanidade parecia ter o poder de provocar a sua própria extinção.
O segredo durou poucas semanas. Em agosto, os bombardeios de Hiroshima e Nagasaki, no Japão, revelaram ao mundo o potencial devastador da nova arma. O impacto foi tamanho que levou o biólogo Paul Ehrlich, em 1968, a afirmar em seu livro The Population Bomb que a fome, os conflitos e a guerra nuclear varreriam o mundo ainda na década de 1970.
Desde então, a lista de ameaças fabricadas pelo próprio ser humano só cresceu. Guerras nucleares, pandemias, mudanças climáticas e uma guerra das máquinas, viabilizada por inteligências artificiais (IA) fora de controle, estão entre os cenários possíveis. E esses cenários mobilizam cientistas, governos e centros de pesquisa dedicados ao estudo dos chamados riscos existenciais — aqueles capazes de comprometer a existência da humanidade.
Para o filósofo australiano Toby Ord, pesquisador da Universidade de Oxford, na Inglaterra, vivemos justamente o período mais perigoso da história da nossa espécie. Em seu livro The Precipice: Existential Risk and the Future of Humanity (O Precipício, 2020), ele descreve o momento atual como um “precipício”: uma fase em que a humanidade acumulou poder suficiente para comprometer seu próprio futuro. “Dos riscos naturais que sempre nos acompanharam aos riscos criados por nós mesmos, passando pelas novas ameaças que despontam no horizonte, cada passo nos levou para mais perto do precipício”, escreve.
Mas quão perto estamos, de fato, desse precipício? Qual é, afinal, a probabilidade de um desastre extinguir ou comprometer o futuro da humanidade? A resposta está longe de ser um consenso.

Ameaças no radar
Um dos termômetros mais conhecidos para medir quão próximos estamos de nossa própria extinção é o Relógio do Juízo Final, uma criação do Bulletin of the Atomic Scientists, grupo fundado por cientistas do Projeto Manhattan (que desenvolveu as primeiras armas nucleares). O relógio usa a distância até a meia-noite — que simboliza uma catástrofe global — para representar o grau de ameaça enfrentado pela humanidade. Na atualização mais recente, os ponteiros permaneceram a apenas 85 segundos desse horário simbólico, a menor distância desde sua criação, em 1947.
Outra estimativa, do relatório do Escritório das Nações Unidas para a Redução do Risco de Desastres, calcula que a probabilidade de um desastre existencial até o fim deste século varia de 3,7% a 50%, a depender do cenário considerado. Já o extinto Instituto para o Futuro da Humanidade, da Universidade de Oxford (Inglaterra), que encerrou suas atividades em 2024, estimava esse risco em aproximadamente uma chance em seis — uma probabilidade comparável à de um jogo de roleta russa.
Para Otto Barten, físico, engenheiro especializado em energia sustentável e diretor do Observatório de Riscos Existenciais, na Holanda, é muito mais provável que a humanidade sobreviva ao século 21, embora “a probabilidade de não sobrevivermos a este século seja significativamente maior do que em qualquer outro período da história”. Sua principal preocupação atual é o desenvolvimento de uma inteligência artificial geral (AGI), capaz de fazer qualquer tarefa intelectual desempenhada por humanos. Em 2014, quatro anos antes de morrer, o físico Stephen Hawking já alertava, em entrevista à BBC, que uma tecnologia desse tipo poderia representar uma ameaça à sobrevivência da nossa espécie.
Hoje, empresas como Google DeepMind, OpenAI, Anthropic e xAI lideram a corrida para desenvolver sistemas de IA cada vez mais avançados. E isso também já envolve garantir que essas tecnologias permaneçam sob controle humano. Um alerta vermelho veio em julho de 2026: durante testes de segurança, sistemas autônomos de IA da OpenAI, criadora do ChatGPT, conseguiram “escapar” e fazer um ciberataque de forma autônoma sem autorização. Na ocasião, eles se conectaram à internet de forma autônoma para invadir a biblioteca de modelos de IA Hugging Face em busca de informações — um sinal claro de insubordinação. A empresa afirmou que suspendeu os avanços na área para encontrar uma maneira de confinar suas IAs a ambientes de testes, que funcionam sem conexão à internet.
Além da AGI, Barten cita entre os principais riscos pandemias provocadas pela ação humana em laboratórios de elevado risco biológico, mudanças climáticas e tecnologias que nem sequer foram inventadas. Em contrapartida, ameaças naturais, como supervulcões, mega terremotos, tsunamis e impactos de asteroides, ocupam uma posição menos preocupante entre os pesquisadores da área. “Os riscos existenciais de origem natural merecem menos atenção relativa, pois suas probabilidades são menores e seu comportamento é comparativamente mais bem compreendido”, explica, em entrevista à GALILEU.
Isso não significa, porém, que essas ameaças sejam ignoradas. Organizações como o Serviço Geológico dos Estados Unidos [USGS] monitoram continuamente a atividade de supervulcões em regiões como o Anel de Fogo do Pacífico, uma das áreas vulcânicas mais ativas do planeta, e a caldera de Yellowstone, nos Estados Unidos, onde está localizado um dos maiores sistemas vulcânicos conhecidos do planeta, senão o maior. Estima-se que a probabilidade anual de uma supererupção em Yellowstone é de apenas cerca de 1 em 730 mil.
“Isso pode dar à sociedade a impressão de que estamos vivendo um pré-fim do mundo, como se, a qualquer momento, pudesse haver um conflito atômico” – Igor Lucena, sobre a rivalidade entre países orientando as relações internacionais
O mesmo ocorre com os asteroides. Agências espaciais rastreiam de perto milhares de objetos próximos da Terra, e a NASA afirma já ter identificado mais de 90% daqueles com mais de 1 quilômetro de diâmetro, nenhum deles com risco significativo de colisão nos próximos 100 anos.
Em 2022, a agência realizou a missão DART (Double Asteroid Redirection Test), o primeiro teste bem sucedido de defesa planetária, ao colidir uma espaçonave contra a lua do asteroide Dimorphos e alterar sua trajetória. Em março de 2026, um estudo reforçou que a técnica pode ser uma estratégia eficaz para desviar asteroides potencialmente perigosos.
A corrida pelos bunkers subterrâneos
Se os riscos naturais hoje são considerados relativamente mais previsíveis, o mesmo não ocorre com as ameaças criadas pelo próprio ser humano, especialmente uma guerra nuclear. A invasão da Ucrânia pela Rússia, em 2022, reacendeu esse temor por envolver uma das maiores potências atômicas do mundo. Nos anos seguintes, novos focos de tensão — como o confronto entre Índia e Paquistão e os ataques de Israel e dos Estados Unidos a instalações nucleares iranianas — reforçaram a percepção de grave instabilidade geopolítica.
A preocupação também aumentou com a modernização dos arsenais de países como Estados Unidos e China e o enfraquecimento dos acordos de controle de armas. Em fevereiro de 2026, expirou o tratado New START, último tratado que limitava o número de ogivas nucleares estratégicas de Moscou e Washington.
Um dos reflexos mais visíveis desse cenário é o crescimento da indústria de bunkers. Com cerca de 8,8 milhões de habitantes, a Suíça concentra a maior densidade de abrigos nucleares: são mais de 370 mil estruturas — o equivalente a um bunker para cada 24 moradores. Desde 1963, uma lei determina que novos edifícios tenham um abrigo próprio ou, quando isso não é possível, que seus proprietários contribuam financeiramente para a manutenção de estruturas públicas.
Em junho de 2026, a empresa francesa de tecnologia Momentum Technologies fez barulho ao anunciar sua versão de cápsula de sobrevivência adaptada a contextos extremos. Feita de uma liga metálica naval de alta resistência e mais fácil de transportar do que rivais, a LifePod promete proteger contra ameaças balísticas, estilhaços, terremotos e ataques armados. A tecnologia ainda passa por testes de validação, mas deve chegar ao mercado em três versões, com preços que variam de R$ 170 mil a R$ 240 mil.

O mercado de sobrevivências a imprevistos [PREPPERS] também ganhou força nos Estados Unidos. Apenas no último ano, movimentou cerca de US$ 137 milhões (R$ 847 milhões). O tema chamou ainda mais atenção após a revista Wired revelar que o fundador do Facebook e da Meta, Mark Zuckerberg, estaria investindo cerca de US$ 270 milhões (R$ 1,4 bilhão) em um complexo subterrâneo fortificado na ilha havaiana de Kauai, equipado com sistemas independentes de energia, abastecimento de água e produção de alimentos.
Para o economista e doutor em Relações Internacionais Igor Lucena, esse movimento reflete uma transformação mais ampla no cenário geopolítico. Na sua avaliação, a ordem liberal, baseada na cooperação econômica e em instituições multilaterais, vem cedendo espaço a uma lógica “neorrealista”, na qual a rivalidade entre Estados volta a orientar as relações internacionais. “Isso pode dar à sociedade a impressão de que estamos vivendo um pré-fim do mundo, como se, a qualquer momento, pudesse haver um conflito atômico”, afirma.
No Brasil, porém, esse cenário é diferente. A probabilidade de um conflito nuclear é considerada baixa e, por isso, bunkers particulares continuam raros. Em 2020, a empresa RCI First estimou 63 em funcionamento no país, concentrados em bairros de alto padrão de São Paulo, como Morumbi, Jardins e Alto de Pinheiros. No mesmo ano, a arquiteta Isabella Cavallero mapeou 46 abrigos antiaéreos construídos no Rio de Janeiro durante a 2ª Guerra Mundial (1939–1945), no período do Estado Novo de Getúlio Vargas. Hoje, a maior parte dessas estruturas foi transformada em garagens.
Quem é que se prepara para o pior
É fato que crenças sobre o fim do mundo também mobilizam sobrevivencialistas — nome dado em português a quem se prepara para enfrentar não apenas guerras, mas diferentes tipos de emergências e cenários de colapso. Um estudo da Universidade da Colúmbia Britânica, no Canadá, com 3,4 mil participantes, mostrou que tanto pessoas religiosas como não religiosas refletem sobre o fim dos tempos e acreditam que as suas próprias ações terão papel decisivo nesse desfecho.
Outra pesquisa, da Universidade Estadual da Pensilvânia, que avaliou a percepção de risco terrorista entre 520 americanos, concluiu que práticas preppers são impulsionadas menos pelo medo do que pelo desejo de lidar com a incerteza. O apreço dos americanos pela preparação, aliás, tem uma razão de ser. O movimento de sobrevivência , afinal, remonta à 2ª Guerra, e ganhou força nos Estados Unidos com os programas de defesa civil da Guerra Fria.
Mas, ainda que siga associado a cenários apocalípticos e teorias da conspiração — popularizados por séries de zumbis como The Walking Dead e The Last of Us —, o fato é que as motivações costumam ser muito mais pragmáticas. Um estudo publicado na revista Futures em 2021, com preppers finlandeses, mostrou que suas principais preocupações são desemprego, problemas de saúde, falta de moradia, desastres naturais e colapsos sociais.
Foi justamente uma crise econômica que levou o mestre escoteiro paulista Márcio Andrade, conhecido como “Batata”, a se preparar para o pior. Em 2008, ele e a mulher perderam quase todos os clientes da empresa de marketing que mantinham. “Num dia estávamos vendo um carro zero para comprar; no outro, sem dinheiro para pagar a conta de luz”, lembra. Pouco depois, veio a notícia de que a esposa estava grávida do primeiro filho.
A partir daí, o sobrevivencialista começou a cultivar uma horta e a instalar sistemas de autossuficiência, registrando tudo em um blog, que mais tarde tornou-se o canal de YouTube Guia do Sobrevivente, que conta hoje com mais de 1,1 milhão de inscritos. Ele também ergueu um bunker com uma porta blindada de 400 kg em um terreno em Monte Alto, no interior paulista. Ao redor do abrigo subterrâneo, Batata mantém hortas, árvores frutíferas, galinheiro, tanque de peixes e sistemas próprios de geração de energia, água e comunicação.
Na prática, porém, os cenários esperados variam bastante, a depender dos riscos de cada região. O receio de eventos climáticos extremos é o que motiva, por exemplo, Julio Lobo e Tiago Azzolini, de 36 e 39 anos, fundadores do canal de YouTube sobre Sobrevivencialismo. Eles relatam sua rotina para quase 3 milhões de inscritos em um rancho em Antônio Carlos (SC), onde construíram casas adaptadas para emergências, uma oficina de concreto que serve de abrigo e um contêiner com suprimentos.
A dupla de amigos também mantém um estoque de lenha suficiente para pelo menos cinco anos e uma rede de comunicação offgrid entre famílias da região para ser usada em casos de queda de energia e/ou interrupção da internet. “Pensamos muito no conceito de abrigo contra tempestades, especialmente por estarmos em Santa Catarina e já termos vivido eventos como um ciclone bomba”, diz Lobo, psicólogo.
Tiago, que atua como socorrista e bombeiro comunitário, especifica que a preparação serve também para casos de deslizamentos de terra e enchentes. Para ele e Lobo, porém, o sobrevivencialismo vai além da resposta a desastres: a vida no meio rural e a busca por autonomia também proporcionam qualidade de vida, ar puro e uma alimentação orgânica saudável para suas respectivas famílias. “A nossa linha de pensamento é sobre viver melhor, não ficar pensando apenas no fim”, resume Azzolini.
Ameaça biológica
A pandemia de Covid-19 deu novo fôlego ao sobrevivencialismo, ainda que por um período limitado. Raphael Cozzi, de 41 anos, líder do grupo Preppers Brasil (“Preparados do Brasil”) lembra que o grupo, que hoje conta com cerca de 2 mil membros, chegou a receber quase 80 pedidos de entrada por dia, vindos de todo o país. “Muita gente ainda leva isso na brincadeira. Mas existe uma grande maioria que passou a se preparar mais [depois da Covid]”, afirma.

Pouco antes do agravamento da crise da pandemia por vírus, em janeiro de 2020, o carioca ampliou seu estoque de alimentos de um para quatro meses.
O sobrevivencialista Batata conta que também se antecipou à chegada do coronavírus: comprou 100 máscaras N95 e reforçou os estoques de álcool em gel e luvas. Para ele, porém, a Covid-19 pouco mudou a visão estereotipada da sociedade sobre o sobrevivencialismo. “Tem esse papo do hype de atirar no zumbi, de virar um Rambo”, diz. Ele avalia que a pandemia foi “apenas um treino básico” para quem já segue esse estilo de vida. Contudo, o preparador conta que seu maior medo continua sendo o que a OMS (Organização Mundial da Saúde) chama de “Doença X” — uma condição hipotética que pode ser 20 vezes mais mortal do que a Covid-19. Em 2024, durante a Cúpula Mundial de Governos, em Dubai, o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom, afirmou que uma ameaça desse tipo é “uma questão de quando [for liberado o vírus de um laboratório], e não de se”.
“Muita gente ainda leva isso na brincadeira. Mas existe uma grande maioria que começou a se preparar mais [depois da Covid-19— Raphael Cozzi, líder do grupo “Preppers Brasil”, sobre como a pandemia ampliou o interesse pelo sobrevivencialismo
A organização alerta para a possibilidade desde 2018, quando incluiu a “Doença X” na lista de agentes prioritários para pesquisa, ao lado do ebola e da síndrome respiratória aguda grave (SARS). Embora seja impossível prever quando ocorrerá, a comunidade científica considera bastante provável o surgimento de uma nova pandemia. “Não tem como ninguém saber se será daqui 5, 50, 100 ou 200 anos, mas muito provavelmente vai ocorrer”, afirma o infectologista Rodrigo Farnetano, da Rede Mater Dei de Saúde.
A preocupação foi reforçada em maio de 2026, com um novo surto de ebola na África, na RDC-Congo. Na mesma época, casos de hantavírus registrados a bordo do cruzeiro MV Hondius, que percorria a Argentina, a Antártida e ilhas remotas do Atlântico Sul, também despertaram atenção. Especialistas, porém, avaliaram como baixo o risco de que qualquer um dos episódios evoluísse para uma pandemia, já que nenhuma das duas doenças se transmite com facilidade entre humanos. O ebola exige contato direto com fluidos corporais, enquanto o hantavírus é transmitido principalmente pela inalação de partículas de urina, fezes ou saliva de roedores infectados.
A mudança climática está, de certa forma, globalizando as doenças infecciosas — Rodrigo Farnetano, infectologista, sobre os riscos de novos surtos globais de doenças
Isso não significa, porém, que a ameaça de novas pandemias esteja diminuindo. Para Farnetano, o risco de surtos virais de grande escala cresce impulsionado pela globalização, pela queda das “coberturas” vacinais e pela crise climática. “A dengue na Europa era uma doença importada [de países tropicais]”, observa. “Hoje, há transmissão endêmica no Mediterrâneo e no sul da Europa, com casos até em Paris. A mudança climática está, de certa forma, globalizando as doenças infecciosas.”
Na avaliação do pesquisador Renato Cordeiro, do Laboratório de Inflamação do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz), o Brasil pode estar inclusive entre os principais epicentros de emergências sanitárias. Em artigo publicado no site The Conversation, ele destaca que a Amazônia abriga uma enorme diversidade de vírus ainda desconhecidos circulando na fauna silvestre — um risco potencialmente maior do que o representado por microrganismos preservados no permafrost (solo congelado da Sibéria).
Um estudo da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FM-USP) reforça esse alerta. A pesquisa, publicada em fevereiro, mostrou que o vírus Sabiá, causador de uma febre hemorrágica altamente letal, circula silenciosamente no Brasil há pelo menos 142 anos. Identificado pela primeira vez em Cotia (SP), é o único vírus brasileiro no nível máximo de risco biológico, ao lado do ebola e do causador da doença de Marburg. Transmitido principalmente por roedores, sua existência evidencia uma preocupação crescente entre cientistas: a de que a degradação ambiental e climática aumente o contato humano com agentes infecciosos desconhecidos.
Apocalipse climático?
O surgimento de doenças é apenas um dos impactos da crise climática. Segundo o especialista em riscos existenciais Otto Barten, as mudanças climáticas estão entre as principais ameaças atuais. Ele diz que o aumento das emissões de gases de efeito estufa e do desmatamento, aliado ao enfraquecimento do compromisso internacional, agrava o cenário. Limitar o aquecimento global a menos de 2 °C, afirma, exige metas climáticas mais ambiciosas. “O Acordo de Paris sobre mudanças climáticas, por exemplo, deveria ser fortalecido, e não abandonado, se quisermos nos aproximar de um cenário de segurança climática”, defende.
Os efeitos já aparecem nas perdas econômicas. Segundo o Escritório das Nações Unidas para a Redução do Risco de Desastres, os prejuízos diretos por desastres passaram de cerca de US$ 70 bilhões a US$ 80 bilhões por ano entre as décadas de 1970 e 2000 para aproximadamente US$ 202 bilhões anuais. Considerando os impactos indiretos e perdas em ecossistemas, o custo pode ultrapassar US$ 2,3 trilhões.

No Brasil, 95% dos municípios registraram ao menos um desastre nos últimos 13 anos, segundo a Confederação Nacional de Municípios (CNM). Nesse período, mais de 3,2 mil pessoas morreram e cerca de 494 milhões foram afetadas.
A previsão de um Super El Niño entre 2026 e 2027 pode agravar esse cenário. Segundo Pedro Camarinha, diretor substituto do Cemaden (Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais), o fenômeno deve intensificar ondas de calor no centro-oeste, agravar crises hídricas e queimadas no sudeste e aumentar o volume de chuvas no sul. “O que sabemos é que eventos que antes ocorriam a cada 50 ou 100 anos estão acontecendo a cada 20 ou 10 anos”, afirma.
Apesar da frequência crescente desses eventos, o Brasil ainda investe muito mais em resposta do que em prevenção, segundo Paulo Ziulkoski, presidente da CNM. A confederação estima que, entre 2013 e 2025, os municípios acumularam R$ 785,4 bilhões em prejuízos provocados por desastres, enquanto os recursos federais somaram somente cerca de 1% desse valor (R$ 9,5 bilhões). “Manter o foco quase exclusivo na resposta e na recuperação significa agir apenas depois que o desastre já ocorreu, quando os custos são muito maiores e os danos à população, muitas vezes, irreversíveis”, diz.
As enchentes que devastaram o Rio Grande do Sul em 2024 mostraram essas fragilidades. Durante a tragédia, Mely Paredes, ex-docente da UniRitter e mestre em Políticas Públicas, ajudou a criar a plataforma “Salve RS”, que reuniu pedidos de socorro e auxiliou na coordenação de mais de 21 mil resgates. Para ela, o episódio mostrou que o país ainda precisa de planos de resiliência capazes de garantir respostas mais rápidas às crises climáticas. “Muitos voluntários estavam chegando, mas não existia uma forma de conduzi-los para as áreas de resgate, porque o GPS não funcionava. Não existiam mais ruas”, lembra.
Para o sociólogo Victor Marchezini, do Cemaden, a fragilidade das Defesas Civis municipais, a alta rotatividade das equipes e a desinformação dificultam a resposta aos desastres. Durante as crises, boatos e imagens antigas compartilhadas nas redes sociais sobrecarregam ainda mais as equipes de emergência. “É como se a Defesa Civil tivesse que lidar com a gestão da crise comunicacional e com a gestão do desastre ao mesmo tempo”, afirma.
Estamos prontos para a próxima crise?
Em diferentes partes do mundo, governos e instituições já se preparam para preservar sementes, informações e o patrimônio da humanidade diante de possíveis catástrofes globais. Na Noruega, o Cofre Global de Sementes de Svalbard reúne mais de 1,3 milhão de amostras de sementes agrícolas de diversos países. Na mesma região no Ártico, o Arctic World Archive e o GitHub Arctic Code Vault armazenam documentos históricos, dados governamentais e códigos de software em estruturas projetadas para resistir por séculos.
Para o especialista em Relações Internacionais Igor Lucena, a capacidade de resposta a uma calamidade global dependerá, sobretudo, da cooperação entre governos. Blocos econômicos podem facilitar o compartilhamento de recursos, enquanto países mais preparados tendem a responder melhor conforme suas características: a Nova Zelândia, pelo isolamento geográfico, favorece o controle de pandemias; Suíça, Suécia e Finlândia contam com maior solidez fiscal para enfrentar crises econômicas.
Já boa parte da América Latina, da África e do sudeste asiático enfrenta maiores dificuldades de coordenação institucional. O Japão, por sua vez, ilustra os benefícios do planejamento contínuo. “Se tiver um terremoto ou um maremoto gigantesco, em dois ou três dias está tudo resolvido [no território japonês]”, observa.
A nível individual, a realidade é outra. O sobrevivencialista Raphael Cozzi argumenta que a maioria das pessoas não está preparada nem mesmo para crises relativamente comuns, como greves que prejudiquem o abastecimento (como a de caminhoneiros, que aconteceu no Brasil em 2018 e teve extensão nacional). Julio Lobo, Tiago Azzolini e Batata concordam que o erro mais frequente é negligenciar o básico: “É comum a pessoa se encantar com uma faca incrível ou uma mochila maravilhosa e nem sequer ter duas semanas de comida em casa”, diz Lobo.



