Introdução
O ex-presidente americano Jimmy Carter afirmou em 2018 que, nos Estados Unidos, houve 226 anos de guerras desde a sua independência, que ocorreu há 242 anos, restando apenas 16 anos de paz. Desde a Segunda Guerra Mundial, ocorreram 32 conflitos militares entre os Estados Unidos e dezenas de países. Alguns desses conflitos duraram mais de vinte anos, enquanto outros ainda estão em curso. Em outras palavras, os EUA são um país em guerra perpétua.
Fonte: Global Research – Autor, Dr. Joseph H. Chung
A guerra é uma atividade humana terrivelmente destrutiva. Milhões de seres humanos foram sacrificados. Dezenas de trilhões de dólares em moradias, escolas, fábricas, hospitais e outras infraestruturas foram destruídos nos países que foram alvo de ataques militares americanos.
O estado de guerra perpétua destruiu os próprios alicerces da liberdade e da democracia; impediu o desenvolvimento econômico saudável e equitativo do mundo; levou à violação dos direitos humanos; arruinou os valores tradicionais de muitos países e, acima de tudo, causou sofrimento humano duradouro.
A guerra perpétua multibilionária dos Estados Unidos negou e privou milhões de americanos de renda digna, moradia adequada, alimentos necessários, assistência médica essencial, segurança nas ruas, infraestrutura confiável, educação fundamental e outros bens e serviços necessários para uma vida humana digna.
Antes de prosseguir, gostaria de citar a declaração histórica do Presidente Dwight Eisenhower .
“Cada arma fabricada, cada navio de guerra lançado, cada foguete disparado significa, em última análise, um roubo daqueles que têm fome e não são alimentados, daqueles que têm frio e não são vestidos. Este mundo em armas não está apenas gastando dinheiro, está gastando o suor de seus trabalhadores, o gênio de seus cientistas, a esperança de suas crianças.” (Discurso do Presidente Dwight Eisenhower à Sociedade Norte-Americana de Editores de Notícias, 16 de abril de 1953)
Neste artigo, levanto as seguintes seis questões:
- Quantas guerras os EUA travaram desde a Segunda Guerra Mundial?
- Como são organizadas as guerras americanas?
- Qual é o propósito das guerras americanas?
- Quem são os beneficiários das guerras americanas?
- Quais são os impactos negativos das guerras americanas?
- As guerras americanas vão continuar?

1-Quantas guerras os EUA travaram desde a Segunda Guerra Mundial?
Existem, sem dúvida, várias maneiras de definir o que é a guerra. Neste artigo, defino guerra em termos de intervenções militares americanas. Com base nessa definição, contabilizei 32 guerras travadas pelos EUA desde a Segunda Guerra Mundial.
Classifiquei essas guerras nas seguintes categorias:
- invasão (23 casos),
- “guerra civil” (7 casos), e
- guerra multialvo (2),
o que resulta em 32 guerras que ocorreram desde a Segunda Guerra Mundial, no decorrer do chamado “período pós-guerra”.
Há razões para acreditar que ainda existem muitas intervenções militares não declaradas, conduzidas por empresas mercenárias e unidades de Forças de Operações Especiais, espalhadas por quase 1.000 bases militares em 191 países. A seguir, apresenta-se a lista das guerras americanas depois de 1945:
Invasões ,
- Guerra da Coreia (1950-1953),
- Guerra do Vietnã (1955-1975);
- Cubano, Baía dos Porcos (1961),
- Líbano (1982-1984),
- Granada (1983),
- Bombardeio na Líbia (1984),
- Guerra dos Petroleiros – Golfo Pérsico (1984-1987),
- Panamá (1989-1990),
- Guerra do Golfo (1989-1991),
- Guerra do Iraque (1991-1993),
- Guerra da Bósnia (1992-1995),
- Haiti (1994-1999),
- Kosovo (1998-1999),
- Afeganistão (2001-2021),
- Iêmen (2002-presente),
- Iraque (2003-2011),
- Paquistão (2004-2018),
- Somália (2007-presente)
- Líbia (2011),
- Níger (2013-presente)
- Iraque (2014-2021),
- Síria (2014-presente),
- Líbia (2015-2019).
- [Ucrânia, ainda a ser categorizada]
Guerras Civis :
- Indochina (1959-1975),
- Indonésia (1958-1961)
- Líbano (1958),
- República Dominicana (1968-1966),
- Coreia DMZ (1966-1969),
- Camboja (1967-1975)
- Somália (1991-presente).
Guerras com múltiplos alvos :
Operação Ocean Shield: localização, Oceano Índico (2008-2016), Operação Observant Compass: localização, Uganda e África Central (2011-2017).
2-Como as guerras americanas são organizadas?
Para compreender a natureza e as implicações do estado de guerra perpétua nos EUA, é necessário introduzir o conceito de Comunidade Americana Pró-Guerra (APWC).
Na literatura e na mídia, usamos a noção de Complexo Industrial Militar- (CIM) para descrever o vasto sistema que sustenta e lucra muito com as guerras perpétuas dos EUA. Mas, na verdade, o sistema de guerra perpétua envolve muito mais indivíduos e organizações do que apenas os grandes conglomerados industriais do Complexo Industrial Militar- (CIM).

A APWC é uma comunidade muito unida que promove seus interesses em detrimento do bem-estar dos cidadãos americanos comuns e dos interesses dos povos dos países visados. Ela é tão bem organizada, tão enraizada e tão poderosa dentro da sociedade dos EUA que é praticamente impossível dissolvê-la.
O núcleo do AWPC é composto pelas empresas ligadas ao setor bélico e pelo governo federal, liderado pelo Pentágono, o Congresso, o Senado e outras agências governamentais. Existem dois grupos de apoio que englobam todos os tipos de instituições e organizações.
Existe um grupo que apoia a produção e o fornecimento de bens e serviços para a guerra. Depois, há o grupo que apoia a criação de demanda por bens e serviços bélicos.
A eficiência de todo o sistema de produção e venda de bens em munições, armamentos e serviços bélicos depende de como o grupo central e os grupos de apoio conseguem trabalhar em harmonia para atingir os objetivos das guerras, ou seja, a maximização do lucro e a partilha desse lucro dentro da APWC.
Fornecimento de bens e serviços de guerra
O desenvolvimento, produção e fornecimento de bens e serviços bélicos é assegurado por grandes corporações do Complexo Industrial Militar- (CIM) que desenvolvem e produzem armas e munições, empreiteiras que constroem e administram também todos os tipos de edifícios, empresas de serviços de alimentação que fornecem alimentos e bebidas para os soldados, empresas de informação que oferecem as informações necessárias para as guerras e até mesmo acadêmicos que oferecem ideias e tecnologias.
Nos Estados Unidos, 40 grandes corporações bélicas têm vendas anuais de quase 600 bilhões de dólares.
A tabela a seguir mostra a importância das cinco principais corporações bélicas dos EUA.
Tabela 1. Cinco grandes corporações bélicas: Vendas anuais (em bilhões de dólares) em 2022 e crescimento (anos recentes: %)

Nota: LM (Lockheed Martin), NG (Northrop Grumman); Fonte GD (General Dynamics)
O faturamento anual combinado das cinco principais empresas em 2022 foi de US$ 241,8 bilhões, dos quais US$ 183,3 bilhões corresponderam à venda de bens e serviços militares, ou 75,8% do total.
O fornecimento de bens e serviços bélicos depende de uma extensa cadeia produtiva que envolve fornecedores nacionais e estrangeiros de matérias-primas e produtos intermediários. Além disso, instituições acadêmicas, empresas de tecnologia da informação, petroleiras oferecem informações, tecnologia, combustíveis e outros serviços necessários para a produção de armamentos.
Segue abaixo uma lista das universidades mais conhecidas que estão profundamente envolvidas nas guerras americanas. Cada uma dessas universidades produz, para a indústria bélica, uma variedade de produtos, mão de obra e serviços para a guerra.
Neste artigo, para cada instituição acadêmica, é mencionado apenas um produto ou serviço típico.Nada menos que 70% dos projetos de pesquisa universitária são financiados pelo Pentágono [também pela CIA e DARPA]:
- O Boston College auxilia a Força Aérea.
- A Universidade de Massachusetts Lowell desenvolve tecnologia monolítica para o Exército.
- A Universidade Tufts aprimora o desempenho cognitivo e físico dos soldados.
- O MIT produz tantos bens e serviços bélicos que é conhecido como uma “corporação de guerra”.
- A Universidade Columbia e a Universidade Brown desenvolvem, para a DARPA (Agência de Projetos de Pesquisa Avançada de Defesa), o sistema de engenharia neural.
- A Universidade de Princeton produz hardware para o projeto e verificação de circuitos integrados de código aberto.
- A Universidade de Dartmouth vende aprendizado de máquina.
- A Universidade da Pensilvânia desenvolve inteligência artificial.
- A Universidade de Stanford desenvolve tecnologia para guerra química e tantos outros bens e serviços bélicos que é considerada parceira de corporações militares.
- A Universidade de Harvard desenvolve materiais educacionais para a guerra e é a principal fonte de recursos humanos para as indústrias bélicas. Aliás, foi lá que produziu a bomba de napalm, amplamente utilizada na Guerra da Coreia, na Guerra do Vietnã e em outros conflitos.
- A Universidade Johns Hopkins desenvolve ferramentas necessárias para a avaliação de capacidades ofensivas alternativas para batalhas aéreas, navais e cibernéticas.
A triste realidade é que as universidades americanas dependem tanto de verbas destinadas à guerra que estão perdendo sua missão original.

O autor Christian Sorensen ( autor do livro Understanding the War Industry, Clarity Press 2022) tem algo a dizer sobre esse problema. Ele parece acreditar que as universidades estão negligenciando sua missão original de produzir e difundir conhecimento e a verdade.
“Mas seus laços intrincados com o Departamento de Guerra mostram a verdadeira face das universidades [da “academia” de um modo geral], que se preocupa mais com o financiamento governamental do que com a nobreza da academia.” (Sorenson: p. 221)
Aliás, encontrei muitas informações, dados e ideias úteis no livro de Sorensen, que certamente é uma contribuição significativa para a literatura crítica sobre guerras perpétuas. As empresas de tecnologia da informação também participam ativamente das guerras americanas. De fato, Amazon, IBM, Microsoft e Google fornecem, para os militares, poder computacional que facilita a redução dos custos humanos e materiais das guerras.
Demanda por produtos e serviços bélicos
O que distingue a economia de guerra da economia de paz é o fato surpreendente de que a oferta [a criação do estado permanente de GUERRA] gera a demanda.
Na economia de guerra americana, a demanda final por bens e serviços bélicos é determinada pelo Pentágono (o Departamento de Guerra) e por alguns países estrangeiros, especial e principalmente, Israel. No entanto, o Pentágono não possui todas as informações necessárias para estimar a demanda por guerras, de modo que depende das informações fornecidas pelas empresas bélicas.
Portanto, as corporações bélicas, fornecedoras de bens e serviços de guerra, desempenham o papel crucial de determinar a demanda. Dessa forma, no mercado de bens e serviços bélicos, a oferta determina a demanda. Essa é a raiz da natureza perpétua das guerras americanas e da obtenção de lucro para a APWC.
Ora, para haver guerra, é preciso ter inimigos [ou fabricá-los]. Mas as corporações bélicas não têm capacidade de pesquisa para encontrar inimigos reais ou fabricar inimigos. A tarefa de encontrar ou fabricar inimigos cabe aos centros de estudos, que são generosamente financiados por essas corporações.
Quando os grupos de reflexão encontram ou fabricam inimigos, novas guerras ou a continuação de guerras antigas são justificadas. Por outro lado, os grupos de pressão pressionam os legisladores e formuladores de políticas para que reconheçam as identidades dos inimigos produzidas pelos think tanks; isso é feito por meio de lobby (oferta de subornos).
Quanto às pre$$tituta$ da mídia, eles tem o papel de preparar a mente e a alma dos americanos programando-os para aceitarem o monstruoso orçamento de defesa [atualmente em torno de US$ 1,5 trilhões anuais] sem que tenham consciência das consequências destrutivas das guerras perpétuas.
É evidente que tanto os grupos de pressão quanto a mídia são financiados pelas corporações bélicas. A demanda por bens e serviços bélicos criada por esses indivíduos e organizações pró-guerra se traduz no orçamento anual de defesa dos EUA, que, em 2023, chegou a US$ 886 bilhões.
Imagine isto: o orçamento de defesa de Washington para 2023 corresponde a 50% do PIB da Coreia do Sul para o mesmo ano, estimado em US$ 1,8 trilhão. O orçamento de defesa americano representa 40% do orçamento global de defesa, que totaliza US$ 2,2 trilhões.
As cinco grandes empresas do Complexo Industrial Militar- (CIM) — Lockheed Martin, Raytheon Technologies, Boeing, Northrop Grumman e General Dynamics — recebem até $ 150 bilhões de dólares do orçamento de defesa.
Grupos de reflexão
Os think tanks desempenham um papel fundamental na perpetuação das guerras americanas. Sua função é produzir relatórios e documentos que demonstrem a “gravidade da crise” e a necessidade de aumentar o orçamento militar para que a crise possa ser enfrentada pela força militar.
O texto a seguir mostra como alguns dos principais centros de estudos são generosamente financiados por empresas ligadas à guerra. Os dados foram extraídos de um artigo da Global Research (Amanda Yee: Seis centros de estudos que gerenciam guerras e as empresas contratadas pelo setor militar que os financiam , 7 de março de 2023).
O Centro de Estudos Estratégicos Internacionais (CSIS)
Em 2022, o CSIS recebeu US$ 100.000 ou mais das seguintes empresas do setor bélico: Northrop Grumman, General Dynamics, Lockheed Martin, SAIC, Bechtel, Cummings, Hitachi, Hanhwa Group, Huntington Ingalls Industries, Mitsubishi Corp., Nippon Telegraph and Telephone, Raytheon e Samsung.
O Centro para uma Nova Segurança Americana (CNAS)
Em 2021, o CNAS recebeu US$ 50.000 ou mais das seguintes empresas do setor bélico: Huntington Ingalls Group, Neal Blue, BAE Systems, Booz Allen, Hamilton Intel Corp e General Dynamics.

Instituto Hudson (HI)
Em 2021, o HI recebeu US$ 50.000 ou mais das seguintes empresas do setor bélico: General Atomics, Linden Blue, Neal Blue, Lockheed Martin, Northrop Grumman, Boeing e Mitsubishi.
O Conselho Atlântico (AC)
Em 2021, a AC recebeu US$ 50.000 ou mais das seguintes empresas do setor bélico: Airbus, Neal Blue, Lockheed Martin, Raytheon e SAIC.
O Instituto Internacional de Estudos Estratégicos (IISS)
Em 2021, o IISS recebeu doações de US$ 25.000 ou mais das seguintes empresas do setor bélico: BAE Systems, Boeing, General Atomics, Raytheon, Rolls-Royce e Northrop Grumman.
Houve um caso em que um think tank expressou uma “opinião especializada” para proteger os interesses de seu patrocinador (uma corporação bélica). Isso aconteceu em 12 de agosto de 2021.
A gigante empreiteira militar CACI, que tinha um contrato de 907 milhões de dólares por 5 anos no Afeganistão, ficou desapontada com a retirada dos EUA do país, o que significou perda de lucros.
Seu grupo de reflexão era o Instituto para o Estudo da Guerra (ISW). A presidente do ISW, Kimberly Kagan, declarou que a retirada dos EUA transformaria o Afeganistão em um segundo campo de atuação do jihadismo. Aliás, o general aposentado Jack Keane é membro do ISW.
Grupo de Pressão
Os grupos de pressão são liderados por indivíduos com fortes ligações a empresas bélicas, ao Pentágono e ao Congresso. Segue abaixo uma lista parcial desses grupos.
- A Associação da Indústria Aeroespacial (AIA): Seu CEO é o ex-vice-presidente de uma empresa fabricante de foguetes. A AIA representa mais de 340 empresas aeroespaciais e de defesa.
- A Associação Nacional da Indústria de Defesa (NDIA) possui 1.600 membros.
- O Comitê de Ação Política
- Associação do Exército dos Estados Unidos (AUSA): Ela produz um Guia da Indústria para empresas do setor bélico.
- A Business Executives for National Security (BENS) é uma organização sem fins lucrativos composta por 450 executivos que discutem questões de segurança.
- A Associação dos Velhos Corvos (AOC, na sigla em inglês) é uma irmandade de veteranos da guerra eletrônica e líderes militares. Ela recebe apoio de corporações bélicas como a AECOM e a Raytheon.
- O Instituto Americano de Aeronáutica e Astronomia (AIAA)
- O Conselho Nacional de Recursos de Segurança
- Conselho de Política de Defesa do Departamento de Guerra
Mídia pró-guerra
A maior parte das pre$$tituta$ da mídia americana é a favor da guerra. Existem várias razões pelas quais a mídia não critica a guerra perpétua, ou até mesmo a defende abertamente.
Em primeiro lugar, sendo meios de comunicação corporativos, estão principalmente preocupados em ganhar dinheiro em vez de se preocuparem com o bem-estar coletivo da sociedade americana. Os grandes meios de comunicação, incluindo CNN, MSNBC e Fox News, atribuem prioridade aos programas na avaliação da audiência.
Eles não têm opinião sobre as consequências terrivelmente destrutivas da guerra perpétua. Mesmo que tenham algumas opiniões úteis, não se atrevem a expressá-las. Quando expressam uma opinião, geralmente estão se referindo à opinião da classe dominante.
Em segundo lugar , existe uma longa tradição nos EUA de que a mídia não critique o governo.
Terceiro , o governo censura os meios de comunicação, especialmente os meios de comunicação offline.
Em quarto lugar , os números da mídia estão diretamente relacionados à indústria bélica. Por exemplo, no Defence News, T. Michael Mosely, general de quatro estrelas aposentado da Força Aérea, escreveu em abril de 2019 que a Força Aérea estava lamentavelmente mal equipada.
Existe uma longa lista de meios de comunicação pró-guerra, em sua maioria relacionados às forças armadas.
Quinto , as corporações bélicas pressionam abertamente as pre$$tituta$ da mídia americana para que estas não mencionem a origem da guerra. Por exemplo,
“A General Dynamics quer que a mídia corporativa nunca questione a causa principal da guerra.” (Sorensen, p. 72)
Sexto , a Lei de Modernização Smith-Mundt de 2012 permite maior propaganda nos meios de comunicação corporativos.

Em resumo, a demanda por guerra é formada pelas opiniões pró-guerra coordenadas, criadas pelas corporações bélicas, pelos centros de estudos, pelos grupos de pressão e pelas pre$$tituta$ da mídia americana.
Essas opiniões são transmitidas ao Pentágono, que determina o tamanho dos recursos financeiros e humanos a serem alocados para a guerra.
- A notável coordenação entre esses indivíduos e organizações assemelha-se a uma orquestra sinfônica bem azeitada.
- Os grupos de reflexão tocam violino para produzir um som agradável para as corporações bélicas;
- Os grupos de pressão tocam trombetas para amplificar o som;
- Os meios de comunicação usam alarde e a propaganda para chamar a atenção do público para a necessidade e a justificação das guerras.
- Todos esses atores são controlados pelas corporações de guerra.
3-Qual é o propósito das guerras americanas?
A guerra pode ter propósitos defensivos e ofensivos . Os propósitos defensivos podem incluir a proteção do território nacional e de valores nacionais, como a religião, a “democracia” e o patrimônio nacional que representa a tradição nacional.
Além disso, as guerras podem ter propósitos ofensivos, incluindo a invasão imperialista de um país estrangeiro com o objetivo de alterar o regime político e econômico, mudar a religião, apropriar-se dos recursos naturais desse país e manter a hegemonia americana.
Existe ainda um outro propósito ofensivo, a saber, Com toda a probabilidade, os objetivos defensivos não são relevantes. Nenhum país ousaria desafiar atacar diretamente o território americano e seus valores. Por outro lado, todos os objetivos ofensivos são relevantes.
Contudo, nenhum dos “objetivos” ofensivos das guerras americanas parece ter sido alcançado.
- O cristianismo manteve sua presença oculta por muito tempo.
- A democracia americana está em rápido declínio.
- A guerra de mudança de regime acabou com a destruição do regime.
- A hegemonia global dos Estados Unidos precisa superar diversos desafios.
Quanto à expropriação de recursos naturais de países estrangeiros [Venezuela], o imperialismo americano deveria ter sido um sucesso, viabilizado pela cadeia de valor global. Seus principais beneficiários são as corporações multinacionais americanas.
Agora, no que diz respeito ao impacto da guerra perpétua americana na economia dos Estados Unidos , o modelo de análise usual é o keynesianismo militar . Uma série de estudos econômicos demonstra que ela pode ter um efeito positivo no curto prazo sobre a economia nacional, mas, no médio prazo, prejudica o potencial de crescimento econômico. Em outras palavras, a guerra é prejudicial à economia nacional (civil).
“Após o estímulo inicial à demanda, o efeito do aumento dos gastos com defesa torna-se negativo em cerca de seis anos. Após 10 anos de maiores gastos com defesa, haveria 464.000 empregos a menos do que no cenário base com gastos menores.” ( Dean Baker , economista citado em journals.openedition.org) Resumindo, as guerras americanas não são necessárias para a concretização de objetivos defensivos.
Tampouco são meios úteis para a materialização de fins ofensivos, com exceção da expropriação de recursos naturais e qualquer riquezas de países estrangeiros. Então, por que os EUA continuam suas guerras?
Se a guerra continuar apesar de seus resultados duvidosos, deve haver algumas pessoas que encontram nela algum benefício. A conclusão inevitável é que essas mesmas pessoas são os membros da Comunidade Americana Pró-Guerra (APWC).
4-Quem são os beneficiários das guerras americanas?
Para que a AWPC se beneficie das guerras, o lucro das corporações bélicas deve ser maximizado de forma anormal . De fato, o lucro das corporações bélicas precisa ser muito alto devido a esses motivos.
Em primeiro lugar , as empresas bélicas recebem subsídios para pesquisa do Pentágono e incentivos fiscais do governo federal.
Em segundo , a utilização de sistemas de produção baseados em Inteligência Artificial pode reduzir significativamente os custos de produção de bens e serviços bélicos pelas corporações militares.
Terceiro , as corporações bélicas desfrutam de um status quase monopolista por meio de fusões corporativas no setor de produção de armamentos altamente especializados. A fusão da Lockheed com a Martin Maritta é um exemplo típico.
Em quarto lugar , numa situação de conluio entre o Pentágono e as empresas militares, a aceitação, por parte do Pentágono, de um preço contratual elevado é significativa.
A privatização da guerra. A cultura da corrupção que perdura.
Uma vez assegurado o elevado lucro corporativo, o próximo passo para manter as guerras perpétuas é a partilha desse lucro entre as empresas dentro da AWPC.
Isso é feito por meio de subornos. Tendo recebido subornos, os formuladores de políticas e legisladores pró-guerra são obrigados a concordar com o lobby das corporações bélicas em favor de “mais guerras”.
Subornos são oferecidos aos formuladores de políticas e legisladores para que aceitem o que as corporações bélicas exigem. Este é o início de uma cultura de corrupção que perdura. Os casos a seguir ilustram algumas das dimensões da cultura da corrupção:
Em 2012, as empresas ligadas ao setor bélico doaram 30 milhões de dólares e, em 2014, doaram 25,5 milhões de dólares ao Comitê de Serviços Armados do Senado. Christian Sorensen mostra em seu livro a origem dos fundos corporativos doados aos 25 membros do Comitê de Serviços Armados do Senado. Seguem alguns exemplos.
- John McCain (Republicano) : General Electric, Raytheon e várias outras corporações bélicas.
- Jeanne Shaheen (D) : Boeing General Electric
- Lindsey Graham (R) : Northrop Grumman, Raytheon
- Bill Nelson (D): Lockheed Martin, Raytheon
Um ex-lobista da CIA fez uma declaração importante sobre o estado da corrupção envolvendo o aparato de guerra dos EUA:
“Anos de suborno legalizado me expuseram aos piores elementos do funcionamento político do nosso país. Nem mesmo meu salário de meio milhão por ano conseguia pesar minha consciência… Hoje, a maioria dos lobistas está envolvida em um sistema de suborno, mas é um suborno legalizado, o tipo que corre solto nos corredores de Washington.” (Sorensen: p. 65)
Na última eleição presidencial, a Lockheed Martin doou US$ 91 milhões aos políticos. Cinquenta e oito membros da Comissão de Serviços Armados da Câmara dos Representantes receberam, em média, US$ 79.588 do setor (indústria bélica), ou seja, três vezes mais do que os demais representantes. Os gastos com lobby por parte dos membros da comunidade belicista totalizaram US$ 247 bilhões durante as duas últimas eleições presidenciais dos EUA.
A relação de porta giratória
No entanto, além do sistema de subornos, existe a relação de influência mútua entre a indústria bélica e o Pentágono.
As relações de “porta giratória” resultam na participação direta da indústria na formulação de políticas de defesa. De fato, os tomadores de decisão no Pentágono e os tomadores de decisão na indústria bélica são as mesmas pessoas.
A primeira porta giratória permite o tráfego bidirecional entre os líderes corporativos e os líderes do Pentágono. Aqui estão alguns exemplos do sistema de tomada de decisões baseado na porta giratória.
- Ryan McCarthy, assistente de Robert Gate , Secretário de Guerra, retornou à Lockheed Martin. Atualmente, ele é Subsecretário do Exército.
- O General James Mattis agora faz parte do Conselho de Administração da General Dynamics, depois tornou-se Secretário da Guerra e, em seguida, retornou à General Dynamics.
- Um Subsecretário de Guerra era presidente da Goldman Sachs, com foco em petróleo e gás.
- Um administrador do Centro de Informação Técnica de Defesa (DTC) ocupa cargos de direção em diversas empresas.
- O Subsecretário de Guerra responsável pelas finanças do Pentágono era sócio da Kearney, uma empresa de contabilidade que mantém fortes relações comerciais com o Pentágono.
- Lester Lyle , diretor-geral da General Dynamics, era o Comandante Nacional da Força Aérea.
- Wilbur Ross, Secretário de Comércio dos EUA, tinha os seguintes membros em seu grupo consultivo: CEOs da Apple, Visa, Walmart, Home Depot, IBM, Câmara de Comércio dos EUA e Associação de Faculdades Comunitárias.
Existem também o que poderíamos descrever como as “ portas giratórias de três vias” , a saber:

“A tríade Corporações, Pentágono e Think Tanks”
Alguns dos membros-chave do campo bélico de Washington trabalham para corporações militares, o Pentágono e centros de estudos. Nessa dinâmica, o Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS) é frequentemente implicado.
O sistema de suborno e o mecanismo de influência mútua na formulação de políticas necessariamente sustentam a cultura da corrupção.
“As empresas americanas, em geral, também estavam corrompendo corações e mentes, entorpecendo o público com entretenimento e inundando-o com comercialismo.” (Sorensen: p. 60)
5-Quais são os impactos negativos das guerras americanas?
As guerras americanas têm impactos negativos internos e externos. Os impactos negativos internos incluem custos humanos e custos econômicos. O custo humano da guerra perpétua americana é alto. Ninguém sabe ao certo quantos americanos são mortos ou feridos. Mas algumas estimativas apontam para um número de feridos que chega a 50.000, além de dezenas de milhares de soldados americanos mortos em decorrência dessas guerras intermináveis.
“Não há uma prestação de contas honesta sobre onde, como e por que estamos matando – como os cidadãos dos Estados Unidos estão sendo protegidos e quais benefícios de segurança os Estados Unidos realmente obtêm com a continuidade do estado de guerra perpétua.” ( William M. Arkin : Newsweek )
Os custos econômicos e sociais são elevados. A destruição do potencial de crescimento econômico dos Estados Unidos é atribuída a investimentos insuficientes em educação, saúde e infraestrutura.
Os EUA investem quase US$ 1 trilhão por ano para sustentar suas guerras perpétuas, obrigando os americanos a contribuir com US$ 2.200 por ano por habitante (em impostos) para financiar essas guerras.
O custo de oportunidade das guerras americanas é alto. Custo de oportunidade significa investimentos que foram evitados devido às guerras. Aqui estão alguns exemplos de “custos de oportunidade”:
- 70 bilhões de dólares para combater a pobreza;
- US$ 42 bilhões para reparar 43.586 pontes deficientes;
- US$ 10,6 bilhões para o programa proposto para o Centro de Controle de Doenças-CDC;
- US$ 11,9 bilhões para a Agência de Proteção Ambiental-EPA;
- 17 bilhões de dólares para crianças que passam fome.
Além disso, Washington precisa de dinheiro para salvar os cerca de 100 mil americanos que morrem todos os anos de overdose de drogas.
Washington precisa encontrar uma maneira de eliminar os assassinatos nas ruas, que acontecem em média quatro mortes por dia.
Mais de 10% dos americanos não possuem plano de saúde. Mesmo aqueles que possuem, o custo do seguro saúde está fora do alcance da maioria dos americanos.
Outro impacto negativo interno grave da guerra é o aumento da dívida pública.
Em 2023, a dívida pública dos EUA era de US$ 31 trilhões, contra US$ 27 trilhões do seu PIB. Isso significa que a dívida pública era 14,8% maior que o PIB. [Hoje a dívida atingiu US$ 40 trilhões]
Boa parte dessa dívida é atribuível às guerras. De fato, a guerra do Iraque gerou uma dívida pública americana de 3 trilhões de dólares. Essa é uma situação muito perigosa, porque com esse nível de dívida pública, a política fiscal do país se torna completamente inútil.
Agora, quanto ao impacto negativo externo das guerras americanas, os impactos são indescritíveis. Quase 1,3 milhão de pessoas foram mortas somente no Iraque, Afeganistão e Paquistão, sem mencionar o fluxo de milhões de refugiados.
Ao longo dos anos, as guerras americanas perpétuas arruinaram as economias nacionais; minaram as religiões e os valores tradicionais; e roubaram a esperança de uma vida melhor para os povos dos países que foram alvos dessas guerras. O que é realmente perturbador é o seguinte: as guerras americanas deveriam promover e manter o mundo mais seguro. Mas, na realidade, elas pioraram a segurança global e a proteção dos civis.
“Após duas décadas de combates, na verdade, nenhum país no Oriente Médio – nenhum país no mundo – pode argumentar que está mais seguro do que antes do ataque [False Flag Attacka] 11 de setembro ás torres gêmeas de N. York. Todos os países que agora fazem parte do crescente campo de batalha de uma guerra perpétua estão em uma situação de desastre ainda maior do que há uma década.” (newsweek.com ibid).
Então, quem se beneficia das guerras americanas? Sorensen oferece uma resposta.
“As únicas pessoas que, em última análise, se beneficiam da guerra militarizada contra as drogas são pérfidosboficiais de alta patente das forças armadas, os executivos do regime de Washington, as grandes corporações bélicas e alguns elementos das elites americanas.” (Sorenson: p. 298)
Posso ir mais longe. Afirmo que os beneficiários são os membros da APWC.

6-As guerras americanas vão continuar?
SIM! Apesar do seu impacto terrivelmente negativo, estas guerras irão continuar, porque são benéficas para a APWC. A guerra perpétua exige as seguintes estratégias: a existência perpétua de inimigos, por um lado, e, por outro, a adoção de uma guerra invisível e livre de política.
Se não houver demanda por guerra, não haverá guerra, e nem venda de armamento e munições. Portanto, para que a guerra se perpetue, deve haver uma demanda constante por guerra.
Mas, para que haja demanda por guerra, é preciso que hajam crises constantes, e que haja países ou indivíduos que criem crises. Esses países e indivíduos se tornam inimigos dos Estados Unidos.
Alega-se que ocorreram várias ondas de crises militares na visão da APWC.
A primeira onda de crise: a expansão do comunismo, 1950-1989
A segunda onda de crise: a ameaça do terrorismo, de 1990 até o presente.
A terceira onda de crise: o perigo da proliferação nuclear, de 1950 até o presente.
A quarta onda da crise: a guerra contra as drogas, de 1990 até o presente.
A quinta onda da crise: violações dos direitos humanos de 2001 até o presente.
Assim, existem diversas crises e inimigos em curso. Portanto, a APWC tem pouco com que se preocupar devido à falta de inimigos.
Segundo William M. Arkin, Washington bombardeou ou está bombardeando os seguintes países: Afeganistão, Iraque, Síria, Paquistão, Somália, Iêmen, Líbia, Níger, Mali e Uganda [isso em 2018]. Além disso, há mais dez países que podem ser bombardeados. Estes são, em sua maioria, países africanos, incluindo Camarões, Chade, Quênia e outros sete países.
Além disso, a APWC é usada para inventar inimigos. O próximo alvo provável de crise pode ser a “crise do Perigo Amarelo”, envolvendo a China e outros países asiáticos.
O presidente Joe Biden decidiu intervir em caso de “crise” em países estrangeiros, mesmo sem a autorização dos países envolvidos. Isso pode gerar muitos inimigos em potencial.
De qualquer forma, no que diz respeito à existência de inimigos, a AWPC não tem muito com que se preocupar. Haverá muitos deles, se não, a APWC os inventará. Por exemplo, não ser pró-EUA poderia ser tratado como uma crise e um fator causador de crises, sendo categorizado como inimigo da América.
O próximo obstáculo a ser superado pela APWC é enfrentar o movimento anti-guerra nos EUA e em outras partes do mundo.
A solução é encontrar maneiras de tornar as guerras invisíveis, salvando vidas americanas e, ao mesmo tempo, lucrativas. Isso pode ser feito através do uso de armas não tripuladas e da redução dos custos de produção com o uso de tecnologia baseada em inteligência artificial, que permite a guerra à distância por meio da estratégia de guerra “hub-spoke”, na qual é possível atacar o inimigo sem estar presente no campo de batalha.
Cada vez mais, a guerra é travada por um sistema de centros e ramificações. Na atual guerra contra o terrorismo, os centros estão localizados em diversos países do Oriente Médio, sendo o Kuwait o centro do Exército e o Bahrein o centro da Marinha [ambos destruídos pelo IRÃ em 2026]. As ramificações estão espalhadas pelo mundo, especialmente no Oriente Médio e na África.
William M. Arkin descreve a eficiência do modelo de guerra em forma de centro e raios. “É tão pouco compreendido, tão invisível, tão eficiente, que mesmo com quatro presidentes sucessivos prometendo e tentando acabar com a guerra, os raios cresceram e se expandiram.”
A razão para o desenvolvimento desse tipo de estado de guerra perpétuo é a necessidade de se libertar da opinião pública pacifista e das políticas anti-guerra.
“A guerra traz dinheiro”. O círculo vicioso da ganância humana.
Mas a razão mais importante para a perpetuação das guerras americanas é o círculo vicioso da ganância humana .
- A guerra traz dinheiro;
- O dinheiro fomenta guerras;
- As guerras geram mais dinheiro;
- Mais dinheiro leva a ainda mais guerras e assim por diante, ad aeternum, ad infinitum .
Este é o círculo vicioso da ganância humana. Como a ganância humana não tem limites, as guerras americanas permanecerão perpétuas. Assim, as guerras americanas podem continuar indefinidamente até que não haja mais inimigos valiosos.
Em outras palavras, a guerra continuará até a destruição total do mundo. Portanto, para salvar o mundo, as guerras americanas perpétuas devem ser interrompida,,, ou os EUA acabarem.
O autor, Dr. Joseph H. Chung foi professor de economia na Universidade do Quebec em Montreal (UQAM), membro do Centro de Pesquisa sobre Integração e Globalização (CEIM-UQAM) e pesquisador associado do Centro de Pesquisa sobre Globalização (CRG). Publicado originalmente em 12 de junho de 2023, este artigo incisivo e oportuno do falecido Professor Joseph Chung (que faleceu em outubro de 2024) nos fornece um histórico cuidadosamente documentado do estado de Guerra Perpétua dos Estados Unidos. Que o legado e o compromisso do Professor Chung com a PAZ perdurem para sempre.



