Brasil: Imprensa internacional vê favoritismo de Flávio no 2º turno

A vantagem de Flávio Bolsonaro (PL) sobre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no primeiro turno da eleição presidencial ocorrida neste domingo (04/10) foi destaque nos principais veículos da imprensa europeia, que vê o filho do ex-presidente Jair Bolsonaro fortalecido e com boas chances de vitória. Leia, abaixo, um panorama da cobertura de alguns veículos internacionais das eleições no Brasil.

Fonte: Deutschewelle

Candidato de direita ameaça reeleição de Lula e “pode ter consequências profundas muito além das fronteiras do país”, ampliando esfera de influência dos EUA [e Israel] na América Lat(r)ina.

The New York Times: “Eleição pode ter consequências profundas muito além das fronteiras do país”

O americano NYT destaca que um triunfo de Flávio no segundo turno representaria “a maior vitória da direita ascendente na América Latina até agora”, e colocaria na Presidência “um aliado entusiasmado do governo Trump [e de Israel], que já sinalizou estar disposto a ajudar Washington em sua meta de dominar a região”.

O jornal lembra que aliados da Casa Branca em temas como o “combate às facções do narcotráfico e à chamada ‘ideologia woke’ venceram as últimas sete eleições na região, sendo o Brasil o maior prêmio ainda em disputa”.

Caso Lula prevaleça no segundo turno, porém, isso “desaceleraria a impressionante marcha da direita pelo continente e complicaria os planos de Trump”. “Embora não tenha declarado apoio a Bolsonaro, seu governo trabalhou para fortalecê-lo de maneiras mais sutis”, afirma o NYT, citando a classificação de CV e PCC como grupos terroristas e a tentativa da Casa Branca de enviar uma delegação para investigar as urnas eletrônicas.

Tagesschau: “Brasil se desloca ainda mais para a direita”

“O Brasil se deslocou mais para a direita. Ciente disso, Flávio Bolsonaro se apresentou confiante em Brasília à imprensa”, escreveu o portal Tagesschau, da emissora pública de TV ARD, líder de audiência na Alemanha. O resultado de domingo o “consolidou como um candidato forte, embora até poucos meses atrás lhe fosse atribuído pouco carisma” e uma desvantagem nas pesquisas.

Já Lula discursou para “uma plateia de derrotados”. “Atrás deles aplaudiam políticos visivelmente abalados, que em sua maioria já perderam suas eleições. O Partido Liberal [da família] Bolsonaro obteve amplas maiorias tanto no Senado quanto na Câmara e nos governos estaduais.”

O site destacou ainda a eleição da ex-primeira dama Michelle Bolsonaro e de Carlos Bolsonaro ao Senado, e de Jair Renan à Camara dos Deputados.

Der Spiegel: “O clã Bolsonaro triunfa”

A revista alemã disse que “o último bastião da esquerda na América do Sul está prestes a cair” e que o bolsonarismo “varreu o Brasil como um tsunami”. “Candidatos de partidos moderados e de esquerda foram arrastados pela onda; o PT de Lula encolheu a ponto de se tornar uma legenda regional; e candidatos conservadores tradicionais foram relegados ao papel de figurantes no cenário político.”

“Já não se pode confiar muito nos institutos de pesquisa; essa também é uma das lições deste domingo. Ao que parece, quem vota na direita gosta de manter isso em segredo”, afirma a reportagem, arrematando que a vitória “torna-se ainda mais saborosa quando o resultado da eleição” contraria as previsões.

Segundo a revista Der Spiegel, Lula foi “punido” porque, na visão da maioria dos eleitores, tem poucos resultados positivos a mostrar. A ele restará a “tarefa hercúlea” de mobilizar no segundo turno os mais de 20% que se abstiveram de votar nessa eleição porque estariam desiludidos com o sistema político e a corrupção abrangente, que abrange todo o tecido da sociedade brasileira.

Sueddeutsche Zeitung: “Flávio Bolsonaro — e não Lula — é o favorito no 2º turno”

O diário alemão afirma que o resultado da eleição no primeiro turno mal surpreende, se considerada a revelação, nas últimas semanas da campanha, dos elos do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Master.

Com isso, diz o SZ, Flávio “conseguiu fazer com que sua própria ligação com Vorcaro fosse esquecida”.

Para o periódico, Flávio também teria sido beneficiado pela polêmica sobre Nossa Senhora de Aparecida. A fake news do PT contra o candidato, escreve o SZ, foi um dos “pontos mais baixos” da campanha em termos de conteúdo.

O jornal destaca que o resultado do segundo turno “terá relevância muito além do Brasil”, já que o país é o único peso-pesado latino-americano, ao lado do México, a ainda ser governado pela esquerda. “Mesmo que não vença a Presidência no segundo turno, a família Bolsonaro se firmou como uma dinastia na política do Brasil.”

The Guardian: “Flávio Bolsonaro vai ao segundo turno como forte favorito”

Assim como a Spiegel, o Guardian também reportou que as pesquisas “falharam em prever a escala do triunfo da direita”, destacando a liderança de Flávio e a eleição de 34 dos 54 senadores. “Bolsonaro parecia ter o vento a seu favor nos últimos dias da campanha, em meio à frustração do público com a crise do custo de vida e a violência urbana.”

O jornal britânico vê o candidato do PL como favorito no segundo turno, afirmando que ele deve herdar os votos de outros candidatos de direita no segundo turno, como Ronaldo Caiado (PSD) e Renan Santos (Missão).

Além disso, o Guardian aponta que a ultradireita está de olho no Senado porque a instituição é a única com poderes para remover ministros da Suprema Corte de seus cargos — “uma demanda entre bolsonaristas desde que o STF prendeu o ex-presidente Jair Bolsonaro por tentativa de golpe“. 

El País: “Direita mais perto de voltar ao poder no Brasil”

“O herdeiro político do clã ultradireitista liderou a apuração do início ao fim, superando um dos políticos mais influentes da América Latina neste século, que governou o Brasil durante 11 anos”, escreveu o jornal espanhol ao se referir à vitória de Flávio sobre Lula. “Com esse resultado, o bolsonarismo exibe músculo e se coloca a um passo de voltar ao poder na primeira potência latino-americana.” 

“O fiasco deste primeiro turno se desenha como devastador para a esquerda, porque Lula já concorreu como o único candidato do campo progressista. Ele tem, portanto, pouca margem para conquistar novos apoios no segundo turno, a menos que consiga mobilizar os eleitores que se abstiveram de votar. Seu adversário tem praticamente garantidos os votos dos candidatos de direita eliminados da disputa.”

Para o diário espanhol, o resultado do primeiro turno é um “triunfo pessoal” para Flávio, “visto como candidato fraco e que é investigado por corrupção”, e para a família Bolsonaro, “pois fortalece o bolsonarismo como a referência incontestável da direita brasileira”.

“É ainda uma vitória para Jair Bolsonaro, que cumpre em prisão domiciliar uma pena de 27 anos por liderar uma conspiração golpista destinada a mantê-lo no poder após sua derrota para Lula nas eleições de 2022. Seu filho mais velho prometeu conceder-lhe indulto caso chegue à Presidência.”

O jornal também elenca vitórias da direita conservadora, por exemplo, no governo de São Paulo com a reeleição de Tarcísio de Freitas (Republicanos) e o avanço do PL no Congresso, nas duas casas, “o que abre caminho para a destituição de ministros do STF e para a anistia dos condenados pelos atos golpistas de Brasília”.

Die Zeit: “Brasil sofre da síndrome de Joe Biden”

“Até pouco tempo, muitos brasileiros ainda achavam que a era Bolsonaro havia acabado […]. Mas o primeiro turno da eleição presidencial mostrou: a ameaça autoritária está de volta”, escreveu o jornal alemão ao se referir às chances de Flávio Bolsonaro de assumir a Presidência. “Há muito em jogo, a democracia do Brasil está em risco.”

Ao reproduzir uma declaração de Lula, que afirmou a apoiadores estar convencido de que venceria no primeiro turno, o Zeit afirma que a frase “denuncia que a certeza de que ele é o mal menor para muitos brasileiros já não basta mais para ganhar eleições”.

Com quase 80 anos e quase meio século na política, o atual presidente é para o jornal o sinal evidente da falta de renovação política no PT [na esquerda]. “De certa forma, o Brasil sofre, com Lula, da síndrome de Joe Biden. O projeto político inteiro da esquerda democrática no Brasil depende dele. E em vez de personificar a mudança, o ex-líder sindicalista, ao estar sempre ali, se transformou para muitos brasileiros em um símbolo de estagnação política.”

Financial Times: “Tremenda reviravolta política no maior país da América Latina” 

O jornal britânico, que manchetou em seu site a vitória de Flávio, também decretou o favoritismo do candidato à Presidência, afirmando que ela significaria “uma tremenda reviravolta política no maior país da América Latina”. 

O FT escreveu que a disputa “vem sendo acompanhada de perto” pelos EUA, que buscam ampliar sua influência no hemisfério ocidental. 

“Uma vitória de Bolsonaro representaria um impulso para o governo Trump, que tem defendido uma abordagem muito mais militarizada para o combate ao narcotráfico.” 

O jornal também cita investidores otimistas com uma vitória de Flávio, “dada a possibilidade de políticas fiscais mais restritivas sob Bolsonaro e reformas que poderiam impulsionar o crescimento econômico”. 

ra/le (ots)


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