Neste ano, a produção brasileira de cana-de-açúcar e seus subprodutos deverá atingir o valor de US$ 22 bilhões (R$105,6 bilhões de reais). O Brasil é o maior produtor mundial de cana-de-açúcar com aproximadamente 38% da produção mundial. Maior produtor e exportador de açúcar do mundo com 22% da produção mundial. Sendo também o segundo maior produtor de etanol do planeta com 28% da produção mundial, atrás apenas dos Estados Unidos.
Fonte: Global Research
As implicações econômicas e geopolíticas para o Brasil sobre sua tecnologia de biocombustível etanol são de grande alcance. (Global Research)
No Brasil, impressionantes 92% dos carros novos vendidos utilizam etanol, um biocombustível renovável produzido a partir da cana-de-açúcar. Essa ampla adoção reforça o compromisso do Brasil com a energia sustentável, reduzindo sua dependência de combustíveis fósseis e diminuindo as emissões de carbono. O sucesso do etanol derivado da cana-de-açúcar destaca o Brasil como líder global em biocombustíveis para o transporte urbano.
A jornada do Brasil rumo aos veículos movidos a etanol começou décadas atrás, aproveitando a abundância terras férteis para produção de cana-de-açúcar no país. O etanol, produzido a partir da cana, provou ser eficiente e ambientalmente amigável, oferecendo uma alternativa viável à gasolina. Esse biocombustível renovável desempenhou um papel crucial na redução das emissões de gases de efeito estufa, tornando o setor de transportes brasileiro um dos mais sustentáveis do mundo.
Um fator significativo para a ampla adoção do etanol no Brasil é a popularidade dos veículos flex. Esses carros podem funcionar com qualquer mistura de gasolina e etanol, proporcionando flexibilidade e economia para os consumidores. De acordo com a Associação Brasileira da Indústria Automotiva (Anfavea), os carros flex representaram 84,5% de todas as vendas de automóveis em junho de 2023, segundo a Bloomberg. Essa predominância de veículos movidos a etanol demonstra a preferência do Brasil por biocombustíveis em relação aos motores a gasolina tradicionais.

Apesar do sucesso do etanol, o Brasil enfrenta desafios significativos na adoção de veículos elétricos (VEs). Um dos principais obstáculos é a falta de infraestrutura de recarga, também devido ao gigantesco tamanho do território brasileiro. No final de 2020, o Brasil tinha apenas um carregador público para cada 12,9 VEs, em comparação com um para cada 5,4 na China e um para cada 3 na Holanda [um país minúsculo]. Essa lacuna na infraestrutura dificulta a adoção em larga escala de VEs, já que os consumidores consideram mais conveniente manter os veículos movidos a etanol.
“O Brasil precisa sair da sua zona de conforto se não quiser ficar isolado do resto do mundo”, disse Lourenço Faria, pesquisador da Universidade de Copenhague.
A indústria sucroalcooleira é uma força econômica poderosa no Brasil, contribuindo significativamente para o PIB do país. A produção de etanol sustenta o setor do agronegócio e oferece uma proteção econômica contra as flutuações do preço global do petróleo. Essa dependência econômica do etanol complica o cenário político, dificultando o comprometimento total do governo com a transição para veículos elétricos sem perturbar o equilíbrio econômico existente.
Os carros movidos a etanol apresentam emissões de carbono significativamente menores ao longo de sua vida útil, em comparação com os veículos tradicionais a gasolina. Pesquisas indicam que as emissões totais dos carros movidos a etanol no Brasil giram em torno de 16,7 toneladas de dióxido de carbono cada, contra 40 a 50 toneladas para modelos de combustão similares em todo o mundo. Essa redução substancial nas emissões ajudou o Brasil a alcançar níveis relativamente baixos de poluição atmosférica, colocando-o à frente de muitos países ditos de “economias desenvolvidas” em termos de desempenho ambiental.
A Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (EPA) reconheceu o etanol de cana-de-açúcar brasileiro como um biocombustível avançado devido à sua redução de 61% nas emissões de gases de efeito estufa. Esse reconhecimento reforça os benefícios ambientais do programa de etanol do Brasil e valida seu papel como líder mundial em transporte sustentável.
O governo brasileiro busca equilibrar o apoio ao etanol com a crescente demanda por veículos elétricos. Para apoiar a indústria açucareira, o governo continua incentivando o etanol por meio de impostos mais baixos e programas federais de créditos de carbono. Simultaneamente, atrai fabricantes de carros elétricos da China, oferecendo incentivos como a proximidade com depósitos locais de metais de terras raras para baterias e o acesso aos mercados de toda a América Latina.
“Não se trata de negar os veículos elétricos, mas o etanol ainda tem um papel importante na trajetória do Brasil pelos próximos 10 a 15 anos, principalmente porque os híbridos aumentam a eficiência”, afirmou Paula Kovarsky, diretora de estratégia da Raízen, maior processadora de cana-de-açúcar do Brasil.
O programa brasileiro de etanol combustível continua inovando, utilizando tecnologia agrícola moderna e bagaço de cana para atender à demanda energética do país. Como o segundo maior produtor mundial de etanol, atrás apenas dos EUA, o Brasil está bem posicionado para manter sua liderança em biocombustíveis, ao mesmo tempo em que explora novas oportunidades no mercado de veículos elétricos. Embora as projeções indiquem que os veículos elétricos a bateria representarão cerca de 7% das vendas de veículos leves no Brasil até 2030, o compromisso do país com o etanol permanece firme.
“O etanol é um ótimo combustível, mas, atrelado a esse tema, está o desejo de muitos de não encarar os verdadeiros desafios que temos pela frente”, disse Robson Cruz, sócio da Barassa & Cruz Consulting e defensor da eletrificação dos veículos. “Combater as emissões de carbono com etanol é mais barato para as montadoras, mas isso não significa que seja a melhor opção para o Brasil.”



