Entre ou
Cadastre-se

Compartilhe
Receba nosso conteúdo

BRICS no divã: quais os desafios do bloco que concentra mais de 30% do PIB e 42% da população mundial?

Há exatos 14 anos, em 16 de maio de 2008, foi realizada a I Reunião de Ministros das Relações Exteriores do bloco de países do BRICs (Brasil, Rússia, Índia e China), em Ekaterinburgo, na Rússia. De lá para cá, esse grupo de países, que, à época, não contava com a África do Sul, realizou vários encontros, se institucionalizou e criou mecanismos e projetos em conjunto. O valor bruto da produção agropecuária dos Brics passou de 24% para 42% do total mundial desde 1960. 

BRICS no divã: quais os desafios do bloco que concentra mais de 30% do PIB e 42% da população mundial?

Fonte: Sputnik News

Para Flavio Soares de Barros, doutor em relações internacionais e fundador da consultoria Cromabrasil, o BRICS é uma fragmentação da multipolarização. Embora o conflito na Ucrânia e a pandemia de COVID-19 tenham dado uma atuação independente a cada país, o agrupamento tende a ser visto como uma forma de alternativa aos países do G-7 [Alemanha, Canadá, Estados Unidos, França, Itália, Japão e Reino Unido, o Hospício ocidental comandado por marionetes e psicopatas], argumenta ele.

“As principais conquistas do grupo são o Novo Banco de Desenvolvimento (NBD) e o Arranjo Contingente de Reservas (CRA, da sigla em inglês), fundo que pode ser usado em caso de necessidade de liquidez no curto prazo, ambos criados em 2014”.

“Quanto às dificuldades que o grupo enfrenta, o pós-pandemia e o atual conflito na Ucrânia tornam as perspectivas nebulosas, pois os países do bloco têm sido obrigados a enfrentar questões internas, relacionadas com a retomada das cadeias de produção e os impactos inflacionários dos dois eventos”.

“Privilegiou-se, assim, a atuação independente. Por outro lado, tanto China como Rússia poderão buscar a aceleração da atuação do grupo, que já demonstrou certa coincidência de posições em relação à não participação nas sanções econômico-financeiras propostas por Estados Unidos e União Europeia à Rússia. Essa coalizão do BRICS poderia ser vista como uma forma de alternativa ao G7“, indica.

Maria Elena Rodriguez, professora do Instituto de Relações Internacionais da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) e pesquisadora do BRICS Policy Center, concorda com o colega: a criação do banco é a principal conquista material do grupo nesse período de diálogo entre os países, com a aprovação de mais de 70 projetos, totalizando uma cifra acima de US$ 30 bilhões (R$ 151,7 bilhões).

Ela lembra que há diversos mecanismos de cooperação que foram estabelecidos, sobre variadas temáticas e com a participação de diferentes atores — caso do Conselho Empresarial do BRICS, que reúne a comunidade de empresários dos cinco países e vem realizando encontros e reuniões frequentes, além de dialogar com os governos. Mas nem tudo são flores nas relações entre as nações do grupo.

“As dinâmicas de cooperação na área de saúde e no desenvolvimento de vacinas não receberam incentivo suficiente, apesar dos países do BRICS, separadamente, participarem ativamente da produção mundial de vacinas contra COVID-19. Nesse sentido, pode-se avaliar desafios internos e em questões específicas que acabam gerando entraves. As tensões militares e as rivalidades entre China e Índia, além do posicionamento da política externa [do governo Bolsonaro] contra a China, apresentam dificuldades na coordenação e na implementação de projetos mais amplos e coesos, demonstrando um limite das discussões na arena econômica”, avalia Rodriguez.

Reorientação geopolítica

A bússola brasileira dentro das relações com o BRICS mudou de orientação algumas vezes, segundo Barros. Até o governo Temer, o BRICS foi considerado pelo governo brasileiro como uma forma de aumentar o protagonismo internacional do Brasil, com uma redução da importância do grupo no início do governo Bolsonaro.

Quando houve a cúpula do BRICS do Brasil, em 2019, essa percepção já havia se alterado, de acordo com o especialista, pois o governo brasileiro identificou que o bloco seria um caminho de acesso para o país se projetar como ator político global.

“A derrota de [Donald] Trump fez com que a política externa brasileira tivesse que se reorientar, com a necessidade da projeção para além do [hospício do] hemisfério ocidental. O BRICS, nesse contexto, permitiria uma maior inserção brasileira na Ásia e região do Pacífico, como forma de expandir as parcerias do país”, contextualiza o doutor em relações internacionais.

A professora Maria Elena Rodriguez lembra que o fortalecimento do bloco na arena internacional  permite que o Brasil esteja em diálogo com grandes economias emergentes e participe mais ativamente das discussões no âmbito das instituições internacionais, influenciando demandas e agendas.

A moeda do Brasil e da Rússia são as que mais se valorizaram em relação ao dólar dos EUA desde março de 2021

“A relação mais próxima do Brasil com a China e a Índia, por exemplo, proporciona maiores oportunidades comerciais e de investimentos. Ao mesmo tempo, o próprio grupo pode ser concebido como uma ferramenta para alavancar os interesses brasileiros na agenda internacional”, indicou.

Segundo ela, em um cenário de incertezas, o bloco tem a capacidade de propor alternativas “em meio a uma ordem global que esta entrando em [rápido] colapso” e diante dos “rearranjos de poder” na geopolítica global.

“Os países chamados de emergentes, precisarão ‘reemergir’ diante da pandemia de COVID-19 e suas crises correlatas. A capacidade de recuperação econômica dos países do BRICS em relação ao resto do mundo pode prenunciar o futuro do bloco”, apontou.

Substituição do dólar

Flavio Soares de Barros diz que o BRICS tenta estimular o uso de moedas nacionais para investimentos, projetos e outras formas de cooperação. Em sua visão, embora a intenção seja cada vez mais substituir o dólar por moedas dos países do bloco, o euro tem ganhado força no lugar da moeda norte-americana na maior parte das transações no grupo.

“As sanções impostas contra a Rússia, que envolveram a suspensão do país do sistema SWIFT, de transferências internacionais, foi seguida de rumores de que um sistema alternativo, chinês, poderia ser expandido. No entanto, até o momento, não há perspectiva de um aumento do comércio em moedas nacionais”, explicou.

Para Maria Elena Rodriguez, as transações comerciais realizadas em moedas nacionais é uma característica e uma demanda dos países BRICS, com o intuito de reduzir a dependência do dólar e diminuir a relevância da moeda norte-americana no cenário internacional.

“O fluxo comercial entre a Rússia e a China se destacam neste quesito, uma vez que a utilização do rublo e do yuan já vem ocorrendo há alguns anos. Além disso, diversos projetos do NBD utilizam moedas locais como meio de pagamento, principalmente em financiamentos para a China e a para a África do Sul”, destacou.

Posição neutra dos membros em relação ao conflito Rússia-Ucrânia

O especialista em relações internacionais afirma que os membros do bloco, em face do conflito na Ucrânia, invocaram os princípios da “soberania” e da “não-intervenção” e reconheceram que a Rússia, de fato, tinha preocupações legítimas em relação à sua segurança.

“Trata-se de uma demonstração clara de ação coletiva como forma de desafio à ordem global, baseada na coesão do grupo, mas também em interesses econômicos de cada um dos países do bloco. A atitude reforça o sentido da cooperação do grupo, como forma de buscar maior protagonismo no cenário mundial”, avaliou.

A professora da PUC-Rio, por sua vez, destaca que as eventuais divergências políticas em relação ao conflito não afetam a relação econômica entre os membros do bloco. Segundo ela, as discussões econômico-financeiras são a prioridade do grupo.

Argentina no BRICS?

No início de fevereiro deste ano, o presidente da Argentina, Alberto Fernández, fez uma visita à Rússia, onde se reuniu com seu homólogo, Vladimir Putin. Além de discutir questões relacionadas ao Fundo Monetário Internacional (FMI), devido à grande dívida argentina com a organização, Fernández teria sugerido ao líder russo para avaliar a possibilidade de a Argentina aderir ao BRICS, conforme noticiou a rádio RFI.

Alguns dias depois, Fernández fez a mesma sondagem a Xi Jinping, em visita à Pequim. Mesmo sem fazer parte do grupo, a Argentina participará da próxima cúpula do BRICS, entre os dias 20 e 24 de maio, a convite da China, atual presidente do bloco.

“Existe um antigo interesse da Argentina de ingressar no BRICS. Mas isso não indica necessariamente que Argentina esteja perto de entrar no grupo. Outras cúpulas já tiveram participações de países que não fazem parte do BRICS, como em 2016, quando Bangladesh, Nepal, Si Lanka e Butão estiveram presentes a convite da Índia. Em 2017, a China convidou Egito, Quênia, Tadjiquistão, México e Tailândia e lançou a proposta do ‘BRICS plus’, versão ampliada que serviria para a cooperação Sul-Sul”, recordou a professora Maria Elena Rodriguez.

A ideia da plataforma não foi à frente, brecada sobretudo pela oposição da Índia à entrada do Paquistão, e pelo receio dos demais membros de ter seu poder diluído caso o grupo se ampliasse, explicou. A intenção argentina de ingressar no bloco não agrada o Brasil, por exemplo, segundo os especialistas.

“A chancelaria brasileira não vê com bons olhos a entrada de nosso vizinho no grupo, pois isso evidentemente reduziria o poder do Brasil, que, enquanto membro único do continente sul-americano no bloco, opera como liderança regional”, apontou Barros.

Ele destaca ainda que, com eventual adesão de outros países, surgirá a possibilidade de ingresso de integrantes de outros continentes, “diluindo ainda mais a fatia de poder brasileiro“. Por isso, ele considera “pouco provável” um sucesso argentino em entrar para o bloco. “O presidente Bolsonaro tem manifestado diversas ocasiões que não concordaria com seu ingresso ao grupo”, concordou Rodriguez.

Futuro do bloco com Bolsonaro ou Lula

As eleições de outubro no Brasil não só definirão os rumos da política nacional, como projetarão as relações exteriores brasileiras para os próximos quatro anos. Para Barros, um segundo governo do presidente Jair Bolsonaro “parece mais propenso a manter o relacionamento vacilante com o BRICS, ora aproximando-se, ora afastando-se”.

Nesse cenário, ele não crê em um aprofundamento das iniciativas brasileiras em relação ao bloco. Já no caso de uma vitória de Lula, o especialista avalia ser possível um esforço maior do Brasil para expandir a cooperação no bloco, “tendo em vista a importância dada à chamada cooperação Sul-Sul e ao multilateralismo nos governos do Partido dos Trabalhadores [PT]”.

“Nos dois casos, no entanto, é preciso levar em conta os interesses chineses e russos. O momento atual torna difícil avaliar quais serão os impactos da crise econômica, da pandemia e do conflito nas ações de curto e médio prazo desses países”, disse Barros.

Rodriguez lembra que Bolsonaro e Lula convergem quando o assunto é o conflito entre Rússia e Ucrânia, já que ambos discordam das tentativas ocidentais de isolar a Rússia. Por um lado, segundo ela, se Bolsonaro for reeleito, o peso do BRICS na política externa brasileira “continuará sendo pequeno“.

Ela afirma que as iniciativas devem ser mantidas, mas “sem esforços consideráveis”. Em sua visão, com Lula, a plataforma terá um peso maior nas decisões de política externa, “uma vez que a parceria estratégica do Brasil com as potências emergentes foi e continua sendo uma pauta relevante” para o ex-presidente.

“O BRICS ganhou relevância enquanto Lula era presidente. Foi uma das pautas mais importantes de seu governo. Talvez esta seria a possibilidade de o Brasil retomar protagonismo na esfera internacional”, afirmou.


“Precisamos URGENTEMENTE do seu apoio para continuar nosso trabalho baseado em pesquisa independente e investigativa sobre as ameaças do Estado [Deep State] Profundo, et caterva, que a humanidade enfrenta. Sua contribuição, por menor que seja, nos ajuda a nos mantermos à tona. Considere apoiar o nosso trabalho. Disponibilizamos o mecanismo Pay Pal, nossa conta na Caixa Econômica Federal   AGENCIA: 1803 – CONTA: 000780744759-2, Operação 1288, pelo PIX-CPF 211.365.990-53 (Caixa)” para remessas do exterior via IBAN código: BR23 0036 0305 0180 3780 7447 592P 1


Mais informação adicional:

Permitida a reprodução, desde que mantido no formato original e mencione as fontes.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *