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Maria Madalena e o Santo Graal: A Mulher do Vaso de Alabastro (Prólogo)

Posted by on 21/07/2018

O cristianismo institucional, que tem alimentado a civilização ocidental há mais de dois mil anos, pode ter sido construído sobre uma gigantesca falha em sua história: a Negação do feminino. Durante muitos anos convivi com uma vaga sensação de que algo estava radicalmente errado com o meu mundo. Sentia que, por um período longo demais, o feminino em nossa cultura vinha sendo desprezado e desvalorizado. Mas foi somente em 1985 que encontrei provas documentais de uma devastadora fratura na história cristã e nos ensinamentos da igreja de Roma. Em abril daquele ano, sabendo do meu grande interesse pelas Escrituras judaico-cristãs e pela origem do cristianismo, uma amiga me indicou o livro The Holy Blood and the Holy Grail”(O Santo Graal e a Linhagem Sagrada).

Edição e imagensThoth3126@protonmail.ch

Livro “Maria Madalena e o Santo Graal: A Mulher do Vaso de Alabastro”, de Margaret Starbird

https://pt.scribd.com/

PRÓLOGO – Miriam do Jardim

{Neste relato fictício da Noiva Perdida, os nomes hebraicos de Yoshua, Miriam e Yosef são usados para Jesus, Maria (irmã de Lázaro de Betânia) e José de Arimatéia.}

Ela sentiu um calafrio ao enrolar-se no manto e cobrir o corpo delgado. O tempo estava frio. O sol flamejante já havia se escondido além do muro do jardim, atrás do Templo do Monte Sião. As fragrâncias no ar a acalentavam, suavizando seus nervos retesados, enquanto permanecia sentada no banco de pedra sob a amendoeira. O brilho prateado do luar lançava sombras na passagem que levava até o portão. Ela esfregou os dedos dos pés na areia macia, formando pequeninos montes de terra seca. Um leve barulho de passos a assustou. Tentou distinguir de quem era o vulto cujo rosto estava na sombra e que tinha o corpo coberto por um manto escuro. O homem a observou em silêncio por alguns instantes. “Como um passarinho. Tão vulnerável”, pensou ele. O homem falou num sussurro, tentando não assustá-la.  

– Shalom, Miriam. Sou eu, Yosef. A figura esguia à frente de Yosef relaxou visivelmente ao ouvir aquela voz familiar.

– Oh, Yosef – sua voz ficou embargada. Ele a olhou intensamente, com enorme compaixão. Ela estava pálida e emocionada, mergulhada em imensa dor. Ele ergueu a mão, um gesto involuntário para transpor a escuridão perfumada que os separava naquele jardim à luz da lua.

– Yosef – sussurrou ela -, não sei se vou conseguir suportar. Ele tentou me prevenir, e eu pensei que havia entendido. Ela tremia. Seu corpo estremecia na escuridão. Yosef tomou-a pelos ombros e segurou-a com firmeza. Ele não havia percebido a profundidade de sua própria dor até aquele momento. O cabelo longo e escuro da moça refletia a luz da lua, as lágrimas faziam seus olhos brilharem.

– Miriam – disse ele, suavemente. Mas parou de falar, hesitante. Será que ela já não estaria angustiada demais? Mas ele prometera ao amigo que a protegeria. E só havia uma maneira de fazê-lo: precisavam sair dali imediatamente, aproveitando a escuridão da noite. Ninguém poderia prever quando as autoridades apareceriam para buscá-la.

– Miriam, eu recebi um aviso. Temos que sair de Jerusalém esta noite. Não é seguro você continuar aqui. Pilatos e Herodes Antipas podem estar à sua procura. Ela se virou de costas para Yosef, os olhos perdidos na escuridão. Lentamente, voltou-se de novo para ele.

 – Você acha mesmo que preciso fugir? – sua voz era quase inaudível. Ele hesitou.

– Precisa, sim, Miriam. É a única maneira. Prometi a Yoshua que a protegeria com a minha vida. Não há outra escolha. Ela fez um gesto, demonstrando compreender.

– Está certo, Yosef. Eu sei. Ele leu para mim as palavras de Miquéias, o profeta. Eu compreendo. É por causa da promessa. Vou fazer como você me pediu. Mas o que faremos com Marta e Lázaro? Yosef balançou a cabeça.

– Eu não lhes contei para onde iremos. Disse apenas que vou escondê-la na cidade. Até que o perigo acabe, ninguém deve saber que vamos partir. Por enquanto, Marta e  Lázaro ficarão aqui. Eles dirão que você está doente, para que não sintam sua falta. Mais tarde, mandaremos buscá-los.

Yosef havia planejado tudo: viajariam como pai e filha, evitando ao máximo atrair a atenção. Ninguém deveria saber qual era a identidade da jovem que o acompanhava. As autoridades pensavam que eles tentariam fugir pelo mar, por isso os portos seriam os locais mais perigosos. Em vez disso, preferiu seguir com ela por terra, atravessando o deserto. Ele havia separado alguns artigos de primeira necessidade para a jornada, mas dependeriam de amigos para ajudá-los até que chegassem ao destino planejado. Fugiriam para o Egito – para Alexandria. Ele sorriu, um sorriso abatido. A juventude e a beleza de Miriam eram tão cativantes… A Magdal-eder, a fortaleza da filha de Sião, a “torre do rebanho”. Ela precisava partir, aventurar-se pelos campos, viver no exílio. Exatamente como o profeta Miquéias prenunciara. Mas, por meio dela; a soberania seria devolvida a Sião.

Mais uma vez, ele se sentiu maravilhado ao se lembrar do amigo que lhes mostrou os versículos da profecia de Miquéias, falando do exílio, do retorno e do restabelecimento da casa real de Davi{ E a ti, ó torre do rebanho, fortaleza da filha de Sião, a ti virá; sim, a ti virá o primeiro domínio, o reino da filha de Jerusalém. – Miquéias 4:8}. Ele, Yosef de Arimatéia, recebera a responsabilidade (de Cristo) de zelar pela segurança de Miriam. E não decepcionaria o amigo.

– Vamos partir agora – disse ele, suavemente.

 Deixei os jumentos amarrados no portão. Falei com Lázaro e Marta. Vamos mandar buscá-los quando o perigo cessar. Prometo.

Ela sabia que o amigo estava certo. Ficara o dia inteiro pensando que seria preciso fugir do ódio e da inveja de Herodes Antipas, tão inseguro do próprio trono ao ponto de não tolerar nenhum rival. E dos romanos também. Eles temiam uma insurreição da nação judaica. O ódio dos judeus pelas forças romanas de ocupação era intenso. E seu amor e entusiasmo pelo Filho de Davi (Jesus), que fora tão brutalmente executado, poderia iniciar uma revolução a qualquer momento. Era melhor que fugisse, para que os rumores sobre o desaparecimento do corpo não gerassem um confronto suicida do povo contra o poder das legiões romanas. Mesmo sendo ainda tão jovem, ela sabia disso. Seu marido lhe havia explicado tudo, segurando-a gentilmente enquanto ela derramava lágrimas no aconchego de seus ombros. Ele tentou confortá-la; e, pelo bem do homem a quem amava, ela tentara ser corajosa. Mas não conseguiu e pôde ver nos olhos dele toda a angústia que sentia pelo destino da mulher.

– Estou pronta, Yosef. Vamos partir.

Sem dizer mais nenhuma palavra, ela olhou fixamente para o jardim, sentindo um  perfume de visco e lírios, a poeira no ar. “Estou deixando a minha casa”, pensou. “Talvez para sempre”. Meu irmão e minha irmã, a casa onde cresci, o jardim onde brincávamos. O jardim onde, pela primeira vez, encontrei o meu Senhor. Nosso jardim reservado. Ela fez uma pausa, perdida em meio às lembranças. Levando Miriam pela mão, Yosef caminhou lentamente até o portão da casa. A areia fria da pequena passagem pressionava seus pés, pois as sandálias abertas não eram capazes de protegê-las.

Ele ajudou a viúva do amigo a montar no jumento e desamarrou-o. Andando devagar, o cajado na mão, ele conduziu o animal, levando-o para longe da vila. De vez em quando, olhava para Miriam. Ela parecia mergulhada em seu mundo interior e não percebia mais a presença do homem que a acompanhava. Ele seguia ao lado dela em silenciosa comunhão, conduzindo-a pela estrada sinuosa distante da casa onde ela vivera a infância, afastando-se de Betânia e do Monte das Oliveiras, mergulhando no deserto, no caminho iluminado pela luz da lua. Ela podia sentir o cheiro e o gosto da areia que, transportada pelo vento do deserto, se lançava contra o seu corpo. Os lábios entreabertos, os olhos queimando. Miriam os mantinha quase fechados para protegê-los do sol ardente e da areia que esfolava.

Enrolou-se mais no manto, formando um casulo de lã branca que a protegia da hostilidade da natureza. Yosef caminhava ao seu lado em silêncio, perdido em seus próprios pensamentos. De vez em quando, ele procurava saber se ela estava muito cansada, incomodada com a aridez que os envolvia – zelava pelo seu conforto, embora ciente de que precisavam seguir em frente e sem demora. Sentada no jumento, Miriam balançava suavemente de um lado para o outro, e os pensamentos se tornavam difusos, como acontecera tantas vezes nos últimos dias. Os devaneios não se deixavam perturbar por distrações exteriores, uma vez que a paisagem era sempre igual.

Lembrou-se de quando conheceu Yoshua. Ela estava sozinha no banco do jardim de sua casa, em Betânia. Seu irmão Lázaro levou Yoshua até o jardim, e os dois caminharam um pouco na sombra fria, falando em voz baixa, sem perceberem a presença dela. Miriam já ouvira falar daquele homem – quem não ouvira? Ele era aclamado por toda a Judéia. Ela sabia o quanto seu irmão o admirava. Agora, vendo-o de perto, também se sentiu atraída. Era um homem mais alto do que a média, de feições magras e alongadas e lindas mãos. O cabelo e a barba estavam cuidadosamente aparados, os olhos eram escuros e intensos. Mas a característica que mais a impressionava era a segurança tranqüila, um ar de autoridade e integridade que lhe realçava a estatura. Então, Lázaro a descobriu, silenciosa, sob a amendoeira. Ele se aproximou com Yoshua e lhe disse o nome da irmã. Mas não foi preciso apresentá-los: quando se olharam pela primeira vez, ela percebeu que ele já a conhecia. Ele sorriu:

– Shalom.

– A paz esteja convosco – ela respondeu àquele cumprimento ancestral. O olhar que ele lhe lançou a fez sentir-se linda. Podia perceber isso nos olhos dele. E, naquele instante, Miriam soube que amaria para sempre Yoshua, o amigo de seu irmão. Confusa, ela desviou o olhar para o chão e corou, deixando as longas tranças negras cobrirem seu rosto.

– Vou pedir a Marta que prepare uma bebida para refrescá-los – murmurou ela. E saiu correndo do jardim, quase tropeçando de tanta pressa. Vários meses depois, eles se casaram. Um sorriso veio aos seus lábios quando se lembrou de como ficara surpresa ao ouvir de Lázaro que ele havia aceitado o forasteiro da Galiléia como cunhado. Herdeira das terras que faziam fronteira com Jerusalém, ela seria a mulher de Yoshua de Nazaré, descendente do rei Davi. O casamento teve importância dinástica, unindo as famílias de dois grandes amigos: Davi, filho de Jessé, e Jônatas, filho de Saul. A história da amizade entre os dois era contada havia vários séculos nas casas dos judeus. Como Lázaro explicara à irmã, o casamento dela com Yoshua também envolvia questões políticas. Mas era, acima de tudo, a realização de uma profecia.

Lázaro e seus amigos zelotes membros da seita e do partido político judaico Zelote, uma facção fundamentalista – estavam convictos de que os tetrarcas herodianos que colaboraram com os romanos haviam usurpado o trono de Davi. Estavam convencidos, ainda, de que Deus enviaria um Messias davídico que libertaria a nação da tirania de Roma, dando início à era de paz e prosperidade prometida pelos profetas. O forasteiro da Galiléia tinha a genealogia correta. E não era, também, um fazedor de milagres e prodígios, curando doentes e exorcizando demônios?

Ele era, claramente, uma escolha de Deus. Agora, deveria optar por uma noiva na tribo de Benjamim, pois estava escrito no primeiro livro da Tora que o cálice de prata encontrava-se escondido na saca de Benjamim. De acordo com seus inspiradores mestres, isso queria dizer que uma mulher da tribo de Benjamim seria o instrumento para a  reconciliação e o restabelecimento de Israel. Nada disso tinha importância para Miriam. Os mais velhos podiam apresentar os motivos que quisessem para a decisão que tomaram. Mas não eram capazes de ouvir o sangue cantarolando em suas veias, não tinham como escutar a música silenciosa do seu coração: “Não faz diferença por que ele me escolheu, o importante é que fui a escolhida!” Refletindo sobre tudo isso, ela procurou refúgio no jardim murado, no banco que ficava à sombra da amendoeira. Mais tarde, Yoshua a encontrou ali.

De pé ao lado dela, em completo silêncio, ele lhe estendeu a mão. Miriam olhou-o fixamente, hesitante e com certa timidez, e então se aproximou para aceitá-la. E, naquele toque, todas as feridas que conhecera até aquele instante foram curadas. O casamento foi realizado na casa de Simão, o leproso. Somente alguns amigos íntimos e suas famílias foram convidados. Era necessário manter o fato em segredo para que Herodes Antipas não descobrisse que uma herdeira de Benjamim unira-se em matrimônio a um filho da casa de Davi. Miriam não se incomodava por não ser reconhecida em público como a mulher de Yoshua. Só lhe importava o fato de ser ela a noiva do homem alto da Galiléia, cujos olhos escuros a acariciavam, fazendo com que se sentisse feliz e completa. Os convidados estavam tomados de alegria, acreditando que a linhagem de Davi se restauraria e Sião seria libertado. Assim, todas as nações poderiam ir a Jerusalém adorar o Deus Único em seu Templo, e a Palavra de Deus, proferida pelos profetas hebreus, seria consumada.

Os cântaros de pedra do judaísmo estavam, naquele dia, cheios de um novo vinho: a esperança messiânica no futuro. Miriam sentou-se em silêncio ao lado do marido, esguia e bela, os olhos negros brilhando. Ela compreendera os objetivos políticos do irmão e de seus amigos zelotes, mas não os considerava relevantes. Tudo o que importava era aquele homem alto e bonito com quem agora estava casada. A promessa do salmista estava guardada em seu coração: “Tua mulher será em teu lar como uma videira fecunda”. Amém. Shalom. Naquela noite, ele a tomou em seus braços. Chamou-a de “amada” e seu regozijo foi incomensurável. A brisa matinal levou ao quarto o perfume do visco do jardim, e eles adormeceram. Yosef falou mais uma vez, interrompendo os pensamentos dela.

– Miriam, Miriam. Por favor, beba um pouco d’água. Num instante ela retomou ao presente, tirando a areia dos olhos com cuidado. Yosef estava lhe oferecendo água do cantil.

– Obrigada, Yosef. Você é muito amável. Ele sorriu. Sentia enorme ternura por sua rainha.

A segurança dela era sua missão sagrada. Prometera a Yoshua. Era um tributo que pagava com alegria ao amigo. Por meio dela, a Magdal-eder, a soberania, seria restaurada. Mas agora ela precisava correr pelos campos, expiar no exílio, como o profeta Miquéias dissera. Sentiu-se tomado de solidariedade por seu sofrimento. Miriam fora escolhida para tal papel, mas como teria sido mais fácil se não o tivesse sido!

– Chegaremos ao delta do Nilo amanhã, ao cair da noite – disse ele, tentando dar-lhe algum alento. Ele estava muito preocupado com o silêncio de Miriam, rezando para que não estivesse mergulhada na lembrança dos horrores daqueles últimos dias em Jerusalém. Ele queria que ela tivesse ficado em Betânia, com Marta, depois que os soldados do Sinédrio levaram Yoshua, mas ela insistiu em acompanhar os passos do marido até ele chegar ao Gólgota. Muitas outras mulheres permaneceram com Miriam o dia inteiro, oferecendo apoio enquanto ela se mantinha ao lado da cruz. Mas a crueldade daquela execução romana certamente deve ter causado uma enorme ferida em seu coração, a qual permanecia aberta. “Como a lança do centurião que atravessou o corpo de Yoshua, causando a sua morte”, pensou Yosef, com pesar.

Os amigos tinham a esperança de poder reanimá-lo após retirá-lo da cruz, antes do pôr-do-sol, mas era tarde demais. Poderia Jeová ter interferido? De certa forma, ele deixara que seu plano fosse frustrado por um centurião romano com uma lança. Ou teria sido um plano dos homens que terminou mal? De qualquer maneira, Yoshua morrera por causa dos ferimentos. Agora, a única esperança que restava para o reino de Deus na Terra parecia ser a mulher exausta, montada no jumento, bebendo de seu cantil e tentando proteger o rosto do causticante sol do deserto. Pensou: “Ela é a esperança de Israel, porque carrega no ventre o filho dele.” Miriam enrolou-se no manto, tentando abrigar-se do sol implacável. Na boca, o gosto da areia que lhe alfinetava a pele. Os lábios ressecados estavam inchados.

Uma onda de ternura tocou o coração de Yosef quando olhou para aquela mulher. Como ele havia implorado a Deus que a abençoasse com uma criança saudável, fruto de seu casamento com Yoshua!… A promessa dos profetas – de que o Senhor restituiria o trono de Israel à casa de Davi – um dia deveria ser cumprida. “Do tronco de Jessé sairá um rebento, e das suas raízes, um renovo”, previra Isaías. Seria um rei piedoso e justo, que levaria a efeito o sereno reino de Deus da Terra. As esperanças que tiveram foram tão grandes! Que terrível choque fora ver Yoshua ser levado à crucificação, lutando sob o grotesco fardo da pesada barra da cruz, caindo e tentando levantar-se para prosseguir no seu caminho pelas ruas de Jerusalém. Os sonhos de todos eles foram destruídos quando os soldados romanos pregaram o Filho de Davi na cruz. E o horror foi aumentado quando o centurião cravou a lança, rasgando Yoshua e perfurando seu coração. Agora, a esperança dos nacionalistas de Israel atravessava as areias abrasadoras do deserto do Sinai, montada num jumento, envolvida pela dor e por um manto branco.

– Miriam, você deve estar se sentindo desconfortável depois de tantas horas. Vamos parar para descansar? – Yosef quebrou o silêncio. Um pálido sorriso surgiu no rosto dela. Compreendia a preocupação do amigo, mas não se importava com o próprio desconforto físico. O sofrimento não conseguia mais penetrar o seu nível consciente. As feridas da longa jornada fundiram-se em uma única dor que a tomou por inteiro. Miriam mergulhou novamente nos devaneios, embalada pelo incansável balanço das lentas passadas do jumento que seguia pelas infinitas dunas do deserto. Ela sabia que seria um casamento dinástico. Não esperava que Yoshua o visse com outros olhos. E sorria, agora, ao se lembrar da ternura do marido, da gentil preocupação com sua timidez. Ela não podia enfrentar as memórias amargas daqueles últimos dias. Yoshua não gostaria que ela revivesse tamanho horror e agonia. Em vez disso, seus pensamentos voltaram a um tempo mais remoto.

Eles não tiveram muitas oportunidades de estar juntos. “Não posso demorar, minha amada”, dissera ele. ”As pessoas estão feridas e oprimidas. Estão aleijadas e cegas. Elas acreditam que Deus as abandonou em sua própria desgraça. Preciso voltar às ruas, tratar de suas feridas e curar seus corações partidos.” E ela o deixava ir. No início, ele parecia surpreso com seu poder de curar. Uma vez, disse à esposa que sentia esse poder sair dele quando alguém tocava suas vestes. Mas compreendeu que não era o “seu” poder, mas o poder de Deus que fluía por meio dele e de suas palavras, de seu semblante. Sua presença inspiradora encantava os amigos e seduzia as multidões. Miriam ficava profundamente agradecida quando ele voltava a Betânia, depois de várias semanas percorrendo os lugares mais distantes da Galiléia e da Judéia. Para ela, era suficiente sentar-se aos pés do marido, sorvendo suas palavras e sua presença, ocasionalmente atraindo sua atenção ou mesmo recebendo um sorriso. Não conseguia separar-se dele e ficava ali, muda, comprazendo-se com sua Luz.

Certa vez, sua irmã Marta ficara zangada por ter que assumir sozinha todas as tarefas necessárias para organizar uma refeição que seria oferecida a um numeroso grupo de discípulos. Yoshua compreendeu-a e acalmou-a com palavras gentis, mas Miriam sentiu-se culpada e afastou-se do marido para ajudar a irmã no trabalho. Nos últimos dias, Yoshua havia falado várias vezes sobre sua morte iminente. O povo começara a dizer que ele era o tão esperado Messias, o Filho de Davi. As pessoas aglomeravam-se nas ruas, com folhas de palmeira nas mãos, como sinal de reconhecimento das profecias messiânicas de Miquéias e Isaías. Ele sabia que as autoridades romanas não tolerariam aquele tumulto entre as massas e que a violência seria inevitável. Um confronto com o tetrarca e o governador romano levaria à agitação civil e ao derramamento de sangue. Ele precisava entregar-se aos romanos antes que conflitos ocorressem nas ruas, tirando a vida de inocentes. Yoshua falara a Miriam da profecia de Isaías sobre o servo sofredor. Ele tentou alertá-la. Depois, tomou-a nos braços para reconfortá-la, e a dor da esposa foi aplacada.

Nesse instante, algo despertou sua memória. “O salmo, é claro!” Agora, ela se lembrava por que ficara tão estarrecida quando vira os soldados romanos repartirem entre si as vestes de Yoshua, enquanto ele pendia da cruz, agonizando. Estava tudo nos salmos. Era contado há séculos: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonastes? Traspassaram minhas mãos e meus pés. Repartem entre si as minhas vestes e lançam sorte sobre a minha túnica.” As palavras lhe feriam a alma quando ela se lembrava dos detalhes da crucificação no Gólgota. Um gemido escapou de seus lábios, e Yosef olhou para cima, mas algo no semblante dela impediu-o de falar. Não poderia importuná-la. Ela parecia estar em um lugar além do consolo, além do limiar da angústia, onde não poderia ser alcançada. “Ele sabia”, pensou Miriam. “Sempre soube.” Foi por isso que me mostrou aquelas Escrituras – para que eu soubesse que as profecias de nosso povo foram cumpridas com a vida dele e para que nós reconhecêssemos que ele fora enviado por Deus.

Ela não compreendera isso totalmente, até aquele momento. Deus é tantas vezes desprezado e torturado por seus profetas. Deus está ferido: “Com um cajado, eles acertam o rosto do Rei de Israel”, disse Miquéias. Ao ser crucificado, Yoshua mostrou a eles uma dimensão extrema do sofrimento de Deus. Várias vezes, o marido repetira para ela as palavras do Cântico dos Cânticos, o hino do Casamento Sagrado. “Pois o amor é mais forte do que a morte”, lembrava-se agora. É claro! Nos antigos cultos de sua terra, o Noivo-Deus morre em sacrifício e é enterrado. Então, três dias depois, ele ressuscita entre palavras de glória entoadas por aqueles que esperavam seu retorno. Ele trouxe fertilidade à terra, renovando-a por meio da morte e do renascimento. Uma noite, enquanto Yoshua estava à mesa com seus amigos, Miriam pegou um pequeno vaso de alabastro contendo espicanardo, um bálsamo aromático que fazia parte de seu dote, e derramou-o sobre a cabeça dele. Afinal, não era ele o Filho de Davi, o Ungido, o verdadeiro rei de Israel, o Messias escolhido por Deus? Yoshua não fez objeção àquela atitude.

Os discípulos murmuraram que Miriam estava desperdiçando o caro perfume, mas Yoshua havia entendido. Ao ungi-lo, ela o proclamou rei e noivo. “Ela me ungiu para o enterro”, disse ele. Miriam chorou e ajoelhou-se ao lado dele, secando, com o cabelo, as lágrimas que caíram nos pés do amado. Mesmo agora, ela ainda podia sentir a ternura do olhar de Yoshua. Lágrimas brotaram de seus olhos, e um enorme peso oprimiu-lhe o coração. “Preciso tentar não pensar nos momentos tristes”, refletiu. E então adormeceu, ainda montada no jumento conduzido por Yosef. Depois de quase um mês de viagem, eles chegaram ao seu destino ao cair da noite, quando as sombras começavam a se estender pela cosmopolita cidade de Alexandria. Yosef levou o jumento pelas ruas sinuosas da cidade apinhada, procurando o bairro dos judeus. O alívio e a gratidão infinitos renovaram suas energias. Estavam, finalmente, salvos. Não seriam reconhecidos naquela cidade estrangeira, distante das garras dos usurpadores do trono de Israel, longe dos sacerdotes do Templo de Jerusalém e do governador romano da Judéia. A verdadeira rainha e seu filho, herdeiro do trono de Davi, encontrariam refúgio ali.

Um dia, por meio dela, a soberania seria devolvida a Sião, como Miquéias prometera. Mas, por enquanto, ela estava a salvo no exílio. O “Cetro” da ramificação de Jessé seria preservado e a linhagem continuaria por intermédio do filho de Miriam. Depois de algum tempo, o herdeiro de Davi retomaria a Jerusalém para reclamar o trono que lhe pertencia por direito. Seu reinado, então, seria instituído, como Deus prometera, pela voz dos profetas. Assim Yosef de Arimatéia acreditava. Ele encontrou a rua que procurava, encaminhou-se para a casa de seu amigo e bateu à porta. Miriam acordou com o barulho de pancadas. O som ecoava em seus ouvidos como o do martelo que batia nos enormes pregos de ferro, perfurando os pulsos de Yoshua. “Não! Não!”, ela gritou, desesperada, afastando-se de onde vinha o barulho, sem despertar totalmente. Lutou para abrir os olhos e fugir daquelas lembranças.

A luz do exterior atravessou as rachaduras da porta, anunciando o amanhecer. Sentiu-se grata. Agora estava completamente acordada. A gravidez deixara seu corpo pesado, mas os braços e as pernas continuavam magros. Alguns meses haviam se passado desde a viagem pelo deserto. Os amigos de Yosef cuidavam bem dela, fazendo de tudo para oferecer-lhe conforto e consolá-la pela perda da família e da terra natal. Mas Miriam procurava consolo nos próprios pensamentos. Sentia-se mais feliz quando estava sozinha. Os odores e o panorama de Alexandria não a atraíam. Ela ficava feliz quando se sentava no jardim, observava os passarinhos e admirava as plantas que floresciam. Muitas vezes, ajudava a cozinhar ou tecer, tarefas que lhe davam prazer. Estava bem-disposta. Tentava não pensar em Jerusalém, nos dias traumáticos que precederam sua partida.

Mas de nada adiantava: o peso no coração era enorme. De vez em quando, ela refletia sobre a tumba vazia de Yoshua. O que poderia significar? Ainda estava confusa… e ferida. Desejara ungir o corpo dele, seguindo a tradição. À primeira luz da manhã do dia seguinte ao sabá, ela correu até à tumba no jardim de Yosef, onde o corpo torturado de Yoshua fora depositado. Mas ele não estava lá. Aterrorizada, ela fugiu. Confusa, tropeçou e caiu. Quando conseguiu se acalmar, olhou para cima e viu o  jardineiro caminhando em sua direção. Desesperada, gritou e implorou que lhe dissesse onde haviam colocado o corpo maltratado de Yoshua. De repente, percebeu que era o próprio Yoshua que se aproximava! Miriam gritou de alegria e quis jogar-se nos braços dele.

Sorrindo, Yoshua a ajudou a levantar-se, mas, ao mesmo tempo, balançou a cabeça. “Não me abrace”, disse ele. Então, com suavidade e firmeza, ele a soltou e, com um sinal de adeus, desapareceu tão repentinamente quanto surgira. Miriam ficou ali, parada, olhando para o nada, para o vazio do jardim. A criança se mexeu em seu útero. Olhando para baixo, ela sorriu. Não demoraria muito. Seu filho seria forte e belo, o cumprimento das profecias: um rei justo e honrado, o Ungido Filho de Davi. Ele seria um filho muito especial, a esperança de Sião. Ela esperaria pacientemente o dia em que as palavras de Deus seriam cumpridas. Sem muita agilidade, Miriam levantou-se da cama e vestiu-se para o dia, firme em sua fé.

O trabalho de parto foi longo e difícil. Várias vezes, ela quase se entregou, mas se esforçou para continuar. O tempo se arrastava. Finalmente, depois que longas horas se passaram e o dia virou noite, e a noite voltou a ser dia, Miriam começou a ter medo e pediu ajuda. A parteira banhou sua fronte com água fria, encorajou-a, sussurrou promessas nos seus ouvidos. Ela estava exausta. “Preciso chegar ao fim”, pensou, angustiada. Mas o sofrimento prosseguia, contração após contração. Muitas vezes ela percebeu os olhares preocupados que as mulheres trocavam. Elas também estavam perdendo o ânimo. Haviam feito tudo o que podiam. Miriam estava sozinha e completamente exausta. “Meu Deus! Meu Deus! Por que me desamparastes?”, as palavras de Yoshua na cruz ecoavam em seus ouvidos. Até que, de repente, ela se viu escapando da dor, distanciando-se dela. Nesse instante, sua impressão foi ter visto Yoshua aproximar-se, sorrindo, e tomar-lhe a mão.

Aos poucos, a força dele começou a fluir para ela, restaurando a vida em seu corpo, renovando suas energias. “Você precisa voltar”, disse ele. “Pela criança”. O sorriso dele a fez recuperar as forças. Uma onda de dor a atingiu quando voltou ao estado de consciência. Mas não sentia mais medo. Yoshua estava com ela – nunca a abandonara. Agora, Miriam conseguia entender. Ele estava tão próximo dela quanto as batidas de seu coração: “Pois o amor é mais forte do que a morte”. Um último momento de entrega à dor e tudo terminou. A parteira levantou a criança, finalmente livre do útero da mãe, deu uma palmada em suas costas e deixou escapar um leve grito de surpresa. “Seu bebê, Miriam. A criança vive”, anunciou ela, depois de tantas horas de desespero. “Um lindo bebê.” Uma filha? Espanto e incredulidade tomaram conta de Miriam. “Não pode ser”, pensou. “E as promessas, as profecias? Deve haver algum engano. Não pode ser uma menina. O Filho de Davi, o Cetro de Israel, não pode ser uma menina!” Completamente exaurida e confusa, Miriam caiu em sono profundo.

Horas depois, ela acordou. O quarto estava fresco e limpo, sem nenhum sinal de que ali havia acontecido um parto tão difícil. Alguém levara rosas vermelhas e as colocara em um vaso sobre a mesa, ao lado da cama. Uma mulher estava em pé, em silêncio, ao lado dela, segurando uma pequenina trouxa. – O que é isso? O que ela quer? – Miriam não conseguia lembrar-se de onde estava. Confusa, com um sorriso pálido, ela olhou para a estranha. – Miriam, eu lhe trouxe a criança. Você precisa olhar para ela. É um bebê perfeito e lindo. Não vire o rosto para a sua filha. A mulher parecia angustiada. Sua preocupação com a recém-nascida era verdadeira. Uma criança rejeitada pela mãe raramente sobrevivia. Miriam a olhou fixamente por alguns instantes, em silêncio, lembrando-se do que acontecera. A nuvem de dor e desilusão começou a envolvê-la outra vez. Ela virou o rosto para o outro lado e fixou o olhar na parede. – Miriam, pelo menos olhe para a sua filha. Está vendo? Está chorando baixinho. Ela precisa de você. Não abandone a sua filha. Pense um pouquinho: ela é inocente. Não fez nada para causar-lhe desgosto. Você tem coragem de rejeitar sua própria filha, seu próprio sangue?

Pouco a pouco, as palavras foram penetrando a consciência de Miriam, despedaçando sua dor. “Meu bebê, a filha do meu amor”, refletiu. E lembrou-se: Yoshua quis que ela voltasse. Ele a mandou de volta pelo bem da criança. Miriam virou-se para a parteira e, hesitante, ergueu os braços lentamente para receber a filha. Olhou para o pequenino rosto avermelhado, os minúsculos dedos. O bebê parou de chorar. Uma enorme ternura inundou o coração de Miriam quando sentiu a criança descansando em seus braços. Cada uma das diminutas unhas estava perfeitamente formada. “Antes de formá-la no útero de sua mãe, eu a conhecia”, cantou o salmista. Deve ser o insondável desejo de Deus de que a criança da promessa seja uma menina. Talvez as profecias sobre o “renovo do tronco de Jessé” tivessem sido mal compreendidas pelos amigos de Yoshua. Quem sabe, não fosse o plano de Deus que um filho dela voltasse para reclamar o trono de Davi em Jerusalém. Isso pode ter sido apenas a manifestação do desejo dos homens, na esperança de serem salvos da opressão de Roma.

Ela sabia que, de alguma maneira, sua filha era a materialização do projeto divino. “Sara”, sussurrou. “Seu nome será Sara… Porque Sara acreditava, mesmo quando parecia não haver mais esperanças, que a promessa de Deus seria cumprida. Eu não compreendo tudo, mas disso eu tenho certeza. Minha filha é a resposta de Deus às nossas preces.” Miriam sorriu para o pequeno embrulho aninhado em seus braços. Um versículo do profeta Zacarias veio-lhe à mente: “Não por força nem por violência, mas pelo meu espírito, diz o Senhor”. Confortada, ela adormeceu segurando a filha nos braços. Yosef sentou-se ao lado da cama de Miriam e ficou observando mãe e filha dormirem. Ele havia ficado surpreso com a notícia. Nunca passara por sua cabeça a idéia de que a criança gerada por Yoshua pudesse ser uma menina. Sua crença no cumprimento literal das profecias sobre o restabelecimento de Sião não abria espaço para dúvidas. Mas a criança era uma menina! Ela não poderia liderar os exércitos do Senhor nas batalhas contra o exército romano.

Eles teriam que lançar mão de outros planos. Yosef refletiu sobre o dilema. Os outros planos não incluiriam Miriam e sua filha. Entretanto, ele prometera a Yoshua que as protegeria. Os amigos de Yoshua não aceitariam Miriam, uma vez que a criança não era um menino. Jamais entenderiam. Era melhor nem contar nada a eles, porque também correria o risco de ter que revelar onde as duas estavam escondidas. Ela estaria mais segura ali, em Alexandria, vivendo no mais completo anonimato. Melhor deixar que a esqueçam, que preguem sobre o reino do Messias sem ela. Yosef ouvira falar de uma terra do outro lado do Mar Mediterrâneo, onde árvores e grama cresciam em profusão, onde a neve cobria os campos no inverno e onde a areia escaldante do deserto seria apenas uma lembrança. “Talvez eu deva levar a criança para a Gália”, ponderou.

A “Videira de Judá” poderia florescer ali, protegida da dor e da opressão. Yosef olhou fixamente para a mãe adormecida e sua filha. “Isso mesmo.” Elas viajariam e construiriam um novo lar. Diziam que a terra era sempre verde do outro lado do mar e que as flores brotavam o ano inteiro. O Deus de Jacó, o Deus Único, as levaria ao lugar onde pudessem plantar sua videira em um novo jardim. Yosef sorriu pela primeira vez nos últimos dias. A videira de Yoshua e a videira de Miriam – seus descendentes floresceriam na terra fértil além-mar. E de lá, um dia, elas voltariam a Sião para reclamar sua herança, como o salmista prometera. Como seus ancestrais, que voltaram do cativeiro na Babilônia, elas seriam resgatadas do exílio: “Os que semeiam com lágrimas ceifarão com alegria. Vão andando e chorando ao levar a semente; em seu regresso, vêm cantando, carregando os seus feixes.” Amém. Shalom.

Continua …


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