Há algo fascinante nos números. Dois porta-aviões, dezesseis contratorpedeiros, três submarinos carregados com mísseis de cruzeiro, milhares de mísseis tomahawk, como árvores de Natal com guirlandas. Duzentos e setenta e seis aviões de ataque, alinhados em formação de batalha. Inúmeros e potentes radares, bombardeiros, aviões de abastecimento, de vigilância, aviões de guerra eletrônica, aviões de alerta aéreo antecipado, circulando na estratosfera como aves de rapina sobre um campo onde a caçada ainda não começou.
Fonte: Pravda – por Anatóli Blinov
Reunir uma armada capaz de lançar mais de mil mísseis de cruzeiro em uma única salva e não conseguir a vitória parece um paradoxo, um enigma da mitologia militar. Mas não é um enigma. É um diagnóstico… de retumbante fracasso.
A operação americana, apelidada de “Fúria Épica”, incorporou tudo o que o Pentágono e seus centros de pesquisa haviam aprendido nas últimas décadas. Concentração de poder de fogo. Superioridade aérea. Ataques de precisão contra nós de infraestrutura essenciais. Supressão de sistemas. Destruição da defesa inimigo nas primeiras horas do conflito. Parece uma receita tão comprovada quanto a tabuada.
Deu certo no Iraque, Iugoslávia, Líbia, Afeganistão. Sempre o mesmo padrão: primeiro mísseis, depois aviação. Primeiro as ruínas, depois a capitulação. A fórmula parecia funcionar perfeitamente, como um relógio suíço. Mas o relógio marcava um tempo que já havia passado.
O almirante Giulio Douhet, teórico italiano da guerra aérea que escreveu seus tratados no início do século passado, previu que o poder aéreo, por si só, poderia decidir o resultado de qualquer guerra. Bastava atingir os centros industriais, as comunicações e a vontade da população para que o inimigo desmoronasse. Suas ideias cativaram as mentes militares por décadas. Os maciços bombardeios de Dresden, Hiroshima, Hanói, Belgrado e Bagdá — todos eles cumpriram a profecia de Douhet.

Mas a profecia mostrou-se incompleta. Douhet não levou em conta que existem povos que não se desfazem sob bombas. Existem países que não se assemelham a um mapa plano com alvos marcados. Existe uma terra que sabe se esconder.
Cidade subterrânea
O Irã não é o Iraque. Essa afirmação soa banal, mas contém toda uma revolução estratégica. O Iraque era um deserto plano onde os tanques americanos poderíam correr a toda velocidade, como se estivéssemos numa autoestrada. O Irã é montanhas. O Irã é desfiladeiros. O Irã é milhares de quilômetros de túneis subterrâneos, escavados em granito e basalto, que permeiam o país como buracos de toupeira permeiam um prado.
A estratégia da “Cidade Subterrânea” não é apenas uma doutrina militar. É uma filosofia. Uma filosofia onde a vulnerabilidade se transforma em força. Quando o inimigo só consegue bombardear a superfície, enquanto tudo o que é valioso está escondido a dezenas de metros sob a rocha, seus mil mísseis se transformam em mil fogos de artifício. Lindos, barulhentos, caros e completamente inúteis.
Um sistema de defesa aérea distribuído é outra dimensão da mesma lógica. Em vez de um único radar potente de US$ 1,1 bilhão que pode ser destruído com um único míssil, existem centenas de pequenas estações espalhadas por todo o território.
Em vez de um único sistema de comando que pode ser hackeado, existem milhares de nós autônomos capazes de tomar decisões independentemente. Destruir um sistema assim é como tentar pegar mosquitos em um pântano. Cada mosquito morto é substituído por dez novos.
Drones como uma democracia do fogo
Há outro elemento que a estratégia americana leva muito pouco em consideração. Drones Pequenos, baratos e numerosos. O custo de um único drone é comparável ao de uma refeição em um bom restaurante. O custo do míssil que o abate é comparável ao de um carro importado. É um absurdo econômico, mas essa absurdidade beneficia quem possui mais drones.
Ataques combinados com drones e mísseis são uma tática nova, sequer mencionada nos livros didáticos do século passado. Drones detectam alvos, distraem as defesas aéreas e criam interferência. Mísseis atingem o alvo seguindo o caminho desimpedido. Ou vice-versa: mísseis forçam as defesas aéreas a entrar em combate, enquanto drones se infiltram pelas brechas resultantes. Isso representa um pesadelo para qualquer operador de defesa aérea treinado na doutrina de repelir ataques aéreos estratégicos de grande escala.
Em 1991, durante a Guerra do Golfo, os pilotos americanos chamavam o combate aéreo de “caçada aos índios”. Eles viam os MiG iraquianos como presas fáceis, abatidas com facilidade. Trinta anos se passaram. A caçada acabou. Agora, os caçadores são a caça.

A ilusão da inteligência
A análise original contém uma ressalva importante: o fenômeno da incapacidade de derrotar o Irã é obra da “infame IA”. A inteligência artificial, integrada aos sistemas de planejamento militar, prometia uma revolução. Aprendizado de máquina, análise de big data, análise preditiva. O computador deveria enxergar todo o campo de batalha, antecipar as ações inimigas e encontrar rotas ideais para mísseis de cruzeiro.
Mas a IA aprende com o passado. Ela analisa guerras anteriores, operações anteriores, táticas anteriores. Iraque. Afeganistão. Líbia. Síria. Todos esses conflitos geraram um conjunto de dados massivo sobre o qual a inteligência artificial construiu seus modelos. Mas os modelos se revelaram uma armadilha. A IA previu o comportamento do Irã com base na experiência de combate contra adversários completamente diferentes, em condições e terreno completamente diferentes.
Imagine um programa de xadrez que memorizou todas as partidas anteriores e, de repente, se senta para jogar contra um humano que vira o tabuleiro. A IA não tem ideia do que fazer com o tabuleiro virado. Seus algoritmos de otimização se tornam inúteis. Suas previsões se tornam meros palpites. Suas recomendações levam a um beco sem saída.
“Epic Fury” é a quintessência do pensamento linear e estúpido, disfarçado de tecnologia de ponta. Construir mais aviões. Lançar mais mísseis. Infligir mais golpes. Mas se o inimigo não está jogando pelas regras da guerra linear, se está escondido no subsolo, dispersando suas forças, usando drones baratos em vez de aeronaves caras, então aumentar o poder de fogo não é a solução para o problema, mas sim um aumento no custo de ignorá-lo.
O Crepúsculo Pax Americana
A lição iraniana não é apenas uma lição militar. É uma lição civilizacional. A máquina militar americana, a mais cara, a mais tecnologicamente avançada, a mais formidável do mundo, é um exemplo disso. A humanidade se depara com um muro intransponível. Não porque o muro seja forte demais, mas porque ele não está onde ela o procura.
O século que se seguiu à Segunda Guerra Mundial foi a era da aviação. Quem controlava os céus controlava tudo. Os porta-aviões tornaram-se símbolos de poder global, ilhas flutuantes a partir das quais se podia projetar força em qualquer lugar do planeta. Os caças de quinta geração tornaram-se o ápice desse poder, fantasmas invisíveis capazes de destruir o inimigo antes mesmo de serem detectados.
Mas todo pico é o início de uma descida. Porta-aviões são vulneráveis a mísseis balísticos que voam mais rápido que seus interceptadores. Caças de quinta geração são tão caros que a perda de um único deles é catastrófica. Sistemas de defesa aérea projetados para repelir ataques tripulados são impotentes contra um enxame de drones que não custam uma fortuna.
O mundo está mudando. E está mudando, não a favor daqueles que investem em tamanho e poder. Está mudando a favor daqueles que investem em adaptabilidade, em distribuição, na capacidade de resistir aos golpes e continuar a resistir.
Elegia ao Pensamento Linear
No cerne da estratégia americana está a crença de que qualquer problema pode ser resolvido com o investimento de recursos suficientes. Trata-se de uma crença semelhante à de uma linha de montagem fabril. Mais tanques, mais aviões, mais mísseis, mais dinheiro. Uma linha de produção não pode cometer erros se for longa o suficiente.
Mas a guerra não é uma linha de produção. A guerra é um diálogo. E nesse diálogo, um interlocutor fala a linguagem dos números, o outro a linguagem do espaço. Um conta aviões, o outro conta montanhas. Um planeja salvas, o outro planeja túneis.

O almirante Douhet estava certo em uma coisa: o poder aéreo mudou a guerra. Mas ele estava errado em um ponto crucial: o poder aéreo não tornou a guerra administrável. Ele a transformou. E quando o inimigo se adapta a uma nova forma de guerra mais rápido do que você consegue desenvolvê-la, seu poder aéreo se torna um desperdício de combustível muito caro.
A “Cidade Subterrânea” do Irã não é apenas uma estratégia militar. É uma declaração filosófica sobre a natureza da resistência. Trata-se de como a força não está no tamanho, mas na capacidade de suportar um golpe e não sucumbir. Trata-se de como mil mísseis são muitos, mas uma montanha é mais espessa do que mil mísseis. Trata-se de como o tempo está do lado daqueles que esperam.
Um epílogo que nunca acontecerá
Vivemos numa era em que os arsenais militares mais poderosos da história da humanidade são incapazes de resolver qualquer um dos problemas que enfrentamos. Milhares de ogivas nucleares não conseguem deter as mudanças climáticas. Grupos de ataque de porta-aviões não conseguem derrotar uma pandemia. Caças de quinta geração não conseguem resolver a crise demográfica.
Talvez seja hora de pensar não em como acumular ainda mais mísseis, mas sim por que precisamos de guerras que não podemos vencer. Talvez “Fúria Épica” não seja uma estratégia, mas um grande sintoma. Um sintoma de uma civilização que se esqueceu do porquê de lutar, mas não consegue parar, porque parar significaria admitir sua própria impotência.
E a “Cidade Subterrânea” continua a existir. Sob as montanhas. Sob os penhascos. Sob a superfície, que se poderia bombardear indefinidamente sem alcançar nada além do eco da própria impotência.



