A Chefia de Polícia de Paris proibiu uma marcha de greve planejada para quinta-feira pelo centro da cidade e em direção à Assembleia Nacional, citando temores de nova violência após semanas de agitação nacional. Inicialmente desencadeados pela raiva dos estudantes relativamente aos custos da educação e às condições escolares, os protestos transformaram-se numa revolta nacional sobre a desigualdade, o aumento do custo de vida e os cortes nos serviços públicos.
Fonte: Le Figaro – Rússia Today
As autoridades proibiram uma importante rota de protesto devido ao receio de uma nova onda de violência, enquanto cerca de 700 mil pessoas se aderiam à greve nacional de quinta-feira
A violência atingiu o pico em 17 de outubro, quando centenas de milhares de franceses saíram às ruas de Paris em meio a saques generalizados, incêndios criminosos e confrontos com a polícia de choque. Os protestos continuaram nos dois fins de semana seguintes.
As autoridades esperavam que 500.000 a 700.000 pessoas se juntassem à greve e manifestações nacionais dessa quinta-feira, convocadas pelos sindicatos dos trabalhadores e pelo movimento Coletes Amarelos por melhores salários e empregos. Os manifestantes planejavam marchar da Place de la Bastille até a Place de la Concorde, dizendo que queriam “seguir em direção aos centros do poder político” A Assembleia Nacional Francesa está sediada no Palais Bourbon, do outro lado da praça do rio Sena.
Uso de canhão de água para tentar dispersar os black blocs que hostilizam o bloqueio da ponte Gallieni.
Utilisation du canon à eau pour tenter de disperser les black blocs qui harcèlent le blocus du pont Gallieni #lyon #5Novembre2026 pic.twitter.com/r0Eb9sVX3z
— Lyon Mag (@lyonmag) November 5, 2026
Na quarta-feira, a prefeitura de Paris proibiu a rota e autorizou uma marcha alternativa entre a Place de la Republique e a Place de la Nation, ao longo do Boulevard Voltaire, contornando totalmente o centro da cidade. O prefeito de polícia Patrice Faure citou o risco de nova desordem após 17 de outubro e um “contexto nacional e internacional de ameaça muito alta.”
Líderes sindicais denunciaram a proibição como uma “vergonha”, acusando as autoridades de minar o direito de manifestação popular. O grupo sindical Ile-de-France posteriormente contestou a proibição em tribunal, mas manteve a via alternativa na noite de quarta-feira, decidindo que ela era “nem inadequada nem desproporcional” e não violava ilegalmente as liberdades fundamentais.
Repressão massiva à segurança
Quase 250 reuniões estão planejadas como parte da greve geral em toda a França nessa quinta-feira, com as autoridades classificando a mobilização como “de alto risco”, informou a mídia francesa. Um relatório de inteligência de 3 de novembro alertou sobre um possível “nova explosão” de violência, particularmente nos centros das maiores cidades, levando o ministro do Interior, Laurent Nunez, a pedir aos prefeitos que mantivessem as marchas longe das áreas centrais.
Vídeos da capital francesa mostram manifestantes em confronto com a polícia.
Falando na quarta-feira à noite, Nunez anunciou o envio de 70.000 policiais e gendarmes para todo o país, além de unidades especializadas, caninas e montadas. As autoridades também restringiram o porte de armas, equipamento de protecção e pirotecnia, ordenaram controles ao longo das rotas de transporte e estações ferroviárias e autorizaram a intervenção policial sistemática em casos de ataques a pessoas ou bens.
As medidas estendem a repressão de segurança lançada após os distúrbios de 17 de outubro, com as autoridades mobilizando de 80.000 a mais de 100.000 policiais e gendarmes adicionais em todo o país nos fins de semana subsequentes, apoiados por veículos blindados, canhões de água e helicópteros. Marselha, Lyon e outras grandes cidades também proibiram manifestações específicas.
No final do mês passado, o Senado aprovou o controverso projeto de lei “Rioters Pay”, propondo multas de até €10.000 (US$ 11.000) para qualquer pessoa que participar conscientemente de uma reunião que se torne violenta, mesmo que não tenha causado nenhum dano. Desde então, o projeto foi transferido para a Assembleia Nacional para votação final.

⁴¹ E, quanto ao que viste dos pés e dos dedos, em parte de barro de oleiro, e em parte de ferro, isso será um reino dividido; contudo haverá nele alguma coisa da firmeza do ferro, pois viste o ferro misturado com barro de lodo. ⁴² E como os dedos dos pés eram em parte de ferro e em parte de barro, assim por uma parte o reino será forte, e por outra será frágil. ⁴³ Quanto ao que viste do ferro misturado com barro de lodo, misturar-se-ão com semente humana, mas não se ligarão um ao outro, assim como o ferro não se mistura com o barro. ⁴⁴ Mas, nos dias desses reis, o Deus do céu levantará um reino que não será jamais destruído; e este reino não passará a outro povo; esmiuçará e consumirá todos esses reinos, mas ele mesmo subsistirá para sempre, ⁴⁵ Da maneira que viste que do monte foi cortada uma pedra, sem auxílio de mãos, e ela esmiuçou o ferro, o bronze, o barro, a prata e o ouro; o grande Deus fez saber ao rei o que há de ser depois disto. Certo é o sonho, e fiel a sua interpretação“. Daniel 2:36-45
Concessões para estudantes, austeridade para trabalhadores
As autoridades francesas anunciaram diversas concessões em resposta à agitação, particularmente aquelas relacionadas à educação. No final de outubro, os ministros franceses revelaram um pacote educacional multibilionário prometendo substituir a controversa plataforma de admissão Parcoursup, investir US$ 5,5 bilhões em escolas antigas, limitar as aulas a 28 alunos, criar novos cargos de ensino e acabar com os cortes planejados de orçamentos.
Os sindicatos estudantis consideraram as medidas positivas “passos iniciais”, mas prometeram continuar a pressionar pelo financiamento total.
O governo, no entanto, se recusou a atender às demandas financeiras dos sindicatos de trabalhadores, insistindo que primeiro deve aprovar o orçamento de austeridade que visa cortar gastos para lidar com a crescente dívida pública antes das eleições presidenciais de abril de 2027. Em resposta, sindicatos de todo o espectro político uniram-se em apelos a greves contínuas, reunindo controladores de tráfego aéreo, estivadores, profissionais de saúde, transportes e professores que exigem aumentos salariais em linha com a inflação.

A agitação espalha-se por toda a Europa
A França está longe de ser a única nação a enfrentar distúrbios populares e protestos em massa, com greves, protestos e motins a varrer mais de uma dúzia de países europeus e planejadas novas greves a nível nacional.
Na Alemanha, a greve liderada pela IG Metall atingiu os centros de manufatura, com o sindicato exigindo um aumento salarial de 5% após rejeitar uma oferta do empregador de apenas 1,3%, adiada até 2028. Os ataques de alerta ocorrem após manifestações contra o custo de vida em Berlim e outras 30 cidades. Em Itália, os protestos contra o financiamento da educação, a habitação e o aumento dos gastos militares abalaram mais de 40 cidades.
Mais greves regionais e setoriais são esperadas em meio a penalidades governamentais mais severas para manifestações perturbadoras.
A Espanha enfrenta uma greve geral nacional em 11 de novembro, após semanas de protestos contra o aumento dos aluguéis e despejos. Os manifestantes rejeitaram os limites governamentais de aluguel e as proteções temporárias contra despejos como inadequados. Na Irlanda, mais de 300 mil trabalhadores do setor público, incluindo professores, enfermeiros e médicos, deverão entrar em greve em 12 de Novembro, após o fracasso das negociações salariais. A paralisação coincide com uma importante cimeira europeia em Dublin, na qual participaram mais de 50 líderes fantoches governamentais.

Em outros lugares, os protestos pelo uso da terra na Albânia se transformaram em confrontos violentos exigindo a renúncia do primeiro-ministro. Bruxelas e Liège na Bélgica testemunharam protestos estudantis e confrontos por cortes na educação, enquanto Zurique e Basileia na Suíça testemunharam tumultos noturnos, barricadas em chamas e danos materiais.
Embora os políticos tenham culpado em grande parte questões localizadas, como a imigração ou facções políticas, os analistas apontam para queixas populares compartilhadas pelos países em toda a Europa, incluindo o aumento do custo de vida, a estagnação dos salários, a habitação inacessível e a deterioração dos serviços públicos.
Gastos bilionários com OTAN e Ucrânia alimentam onda de protestos que varre a Europa, avaliam analistas
Protestos massivos impulsionados pela alta no custo de vida, crise habitacional, precarização dos serviços públicos e falta de perspectiva em relação ao futuro tomaram os países da Europa nas últimas semanas. Iniciados na França, eles ganharam adeptos em outros países do continente encurralando lideranças políticas locais.
Recentemente, o representante especial do presidente russo para o investimento e cooperação econômica com países estrangeiros, Kirill Dmitriev, afirmou que a Europa explode hoje por conta da decisão de seus líderes de seguir a agenda do ex-presidente estadunidense Joe Biden de pressão contra Moscou e por promoverem a ruptura irresponsável com o barato gás russo que abastecia o continente. O cenário europeu se agravou ainda mais com a crise no Estreito de Ormuz, iniciada após Israel e os EUA lançarem uma guerra contra o Irã.
Ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, Rodrigo Barros de Albuquerque, coordenador do Centro de Estudos sobre a União Europeia na Universidade Federal de Sergipe (UFS), explica que a perda do poder de compra que afeta a Europa reflete o aumento dos combustíveis, após a guerra de Israel e os EUA contra o Irã, que tem repercussão imediata em vários produtos, porque afeta toda a cadeia global de logística.
Um incêndio é aceso na Place de la Nation, em Paris. A polícia avança para permitir a intervenção dos bombeiros.
Un incendie est allumé sur la Place de la Nation à Paris.
— Luc Auffret (@LucAuffret) November 5, 2026
Charge de la police pour faire intervenir les pompiers.#grevegenerale #5novembre #Paris #greve5novembre pic.twitter.com/p7OKWW4tP9
“Quando a população percebe que o seu custo de vida ficou mais difícil, que os serviços antes ofertados agora estão em menor qualidade e ainda assim há algum tipo de aumento nos gastos militares, não tem como você não associar uma coisa à outra”.
Há ainda outros fatores que contribuem para o aumento no custo de vida na Europa, como o turismo em massa e o avanço do AirBnB, por exemplo, que torna os aluguéis insustentáveis e, no caso da Itália, protestos de agricultores e caminhoneiros no Sul por protestos relacionados ao aumento do preço do óleo diesel.
“A população percebe a perda de capacidade de compra, perda de poder de compra, e vê que o país está anunciando novos pacotes bilionários, porque há uma previsão de MAIS um pacote de ajuda à Ucrânia já aprovado na União Europeia, […] para o cidadão comum, isso é um ‘tapa na cara'”, avalia.
A desconfiança em relação às capacidades dos governos de responder às demandas da população também alimenta os protestos, conforme aponta professor de relações internacionais na Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado (FECAP), Rafael Miranda, onde é codiretor do Centro de Excelência Jean Monnet em Empresas e Direitos Humanos, financiado pela União Europeia (UE).
Ao podcast ele detalha que, mesmo quando os índices inflacionários diminuem, isso não significa uma redução dos preços, apenas que a taxa pela qual aumentam fica mais lenta. Ou seja, os preços não retornam aos patamares anteriores e uma família continua pagando mais caro por alimentação, energia, transporte e moradia.
O cortejo de manifestantes seguiu pelas ruas de Bordeaux. Ele se estende por quase 800 metros. Na frente, os organizadores interrompem a marcha regularmente para manter o grupo compacto.
Le cortège de manifestants s’est élancé dans les rues de Bordeaux. Il s’étire sur prés de 800 mètres. À l’avant, les organisateurs interrompent régulièrement la marche afin de maintenir un cortège compact.#manifestation #5Novembre2026 pic.twitter.com/ubnTHjRIS5
— Simon Pierre (@Simon_pierr2) November 5, 2026
“Acredito que existe também uma dimensão ainda mais profunda dentro desse cenário de conexão entre essas diferentes realidades, que é a percepção de ruptura de uma espécie de compromisso social que caracteriza boa parte da experiência europeia do pós-guerra.”
Uma das consequências de manifestações como as observadas na Europa costuma ser o fortalecimento de movimentos reacionários, o que influencia as respostas eleitorais, uma vez que há a percepção de que a democracia é incapaz de melhorar as condições materiais de vida da população.
“A insegurança econômica não produz automaticamente posições extremistas, mas quando a gente combina com desconfiança institucional, sentimento de perda de reconhecimento social, ausência de alternativas políticas também convincentes dentro do cenário europeu, isso pode criar situações favoráveis para o fortalecimento de discursos autoritários e nacionalistas”
Miranda considera que não basta que uma economia cresça ou que o Estado seja seguro, é necessário que a população perceba que ela possui condições materiais, oportunidades, perspectivas para construir o seu futuro.



