Uma cepa rara e letal do vírus Ebola levou a Organização Mundial da Saúde-OMS a declarar uma emergência de saúde pública de interesse internacional. A maioria dos casos ocorreu na República Democrática do Congo, com pelo menos 131 mortes associadas ao surto. Houve 516 casos suspeitos e 33 casos confirmados no Congo, de acordo com um boletim diário publicado pelas autoridades de saúde, e dois casos confirmados na vizinha Uganda.
Fonte: BBC-Londres – Reuters
Surto de Ebola pode estar se espalhando mais rápido que o esperado, alerta médica da OMS
O chefe da Organização Mundial da Saúde expressou profunda preocupação na terça-feira com a velocidade e a escala do surto de Ebola, à medida que o número de casos aumenta.
Moradores próximos do epicentro do surto mortal de Ebola no continente africano confessaram seus temores à BBC, após o alerta da Organização Mundial da Saúde (OMS) de que os casos podem estar se espalhando com mais rapidez do que se pensava anteriormente.
Um homem da província de Ituri, na região nordeste da República Democrática do Congo (o epicentro do surto), contou que as pessoas infectadas estão morrendo “com muita rapidez”. “O Ebola está nos torturando”, lamenta ele.
O vírus teria matado 136 pessoas na República Democrática do Congo. As autoridades do país relatam mais de 514 casos suspeitos e uma morte no outro lado da fronteira, em Uganda. A médica da OMS Anne Ancia declarou à BBC que, à medida que a agência investiga o surto, fica cada vez mais claro que os casos de Ebola se espalharam para outras regiões.
Modelos publicados na segunda-feira (18/5) pelo Centro MRC de Análise de Doenças Infecciosas Globais, com sede em Londres, indicam que houve subnotificação “substancial” e não é possível descartar que já possam existir mais de mil casos. O estudo indica que o surto atual é “maior do que o avaliado atualmente” e sua “real magnitude permanece desconhecida”.
O atual surto de Ebola é causado por uma cepa rara do vírus conhecida como Bundibugyo, nomeada em homenagem à província de Bundibugyo, em Uganda, onde foi identificada pela primeira vez durante um surto em 2007-2008. Um segundo surto de Bundibugyo ocorreu em 2012 na RDC.
Bundibugyo é uma das quatro espécies do gênero ebolavírus que causam doenças potencialmente fatais em humanos. Todos os vírus Ebola são transmitidos através do contato direto com os fluidos corporais de animais infectados ou humanos ou objetos contaminados com tais fluidos.
O vírus Bundibugyo mata de 30% a 40% das pessoas infectadas, o que o torna menos letal do que a cepa mais comum do Zaire, que causa morte em até 90%, de acordo com um estudo global publicado em 2024. A transmissão de fluidos corporais é um risco particular para os trabalhadores hospitalares. Um médico norte-americano que trabalha na RDC foi infectado no surto atual.
De acordo com a Organização Mundial da Saúde, os ebolavírus causam inicialmente sintomas semelhantes aos da gripe, incluindo febre, fadiga, mal-estar, dores musculares, dor de cabeça e dor de garganta, que podem começar repentinamente, seguidas de vômitos e diarreia e, eventualmente, sangramento interno e externo e falência de múltiplos órgãos.

A Cruz Vermelha alertou que o surto pode se intensificar rapidamente se os casos não forem identificados no seu início, se as comunidades não tiverem informações e se os sistemas de saúde estiverem sobrecarregados. “Estamos observando todas estas condições” no surto atual, afirma a organização.
O presidente da República Democrática do Congo, Félix Tshisekedi, realizou uma reunião de crise na noite de segunda-feira (18/5). No dia seguinte, ele pediu “calma” e orientou seus cidadãos a permanecerem vigilantes.
O diretor da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, declarou o surto como emergência internacional na semana passada. Ele afirmou estar “profundamente preocupado com a escala e a velocidade da epidemia”.
Ghebreyesus declarou emergência no final da noite de sábado (16/5). O comitê de emergência da OMS deve se reunir em breve para avaliar a situação e recomendar intervenções médicas prioritárias. Mesmo contando com poucos recursos, a organização já liberou quase US$ 4 milhões (cerca de R$ 20,2 milhões) para o combate ao Ebola, mas muito mais dinheiro pode ser necessário.
O surto ocorre em uma região que já enfrenta anos de conflitos. Hospitais e clínicas foram danificados ou destruídos e milhões de pessoas fugiram de suas casas. A maioria delas mora em condições insalubres. Existem também mais de 11 mil refugiados que fugiram dos combates no Sudão do Sul e grandes movimentos populacionais entre as pessoas que procuram trabalho nas minas de ouro da região.
Rápida disseminação
O receio é que o surto possa ter se desenvolvido por várias semanas antes de ser detectado pela primeira vez, em 24 de abril. Não há vacina para a cepa do vírus de Ebola causadora do recente aumento dos casos. Mas a OMS está avaliando se outras medicações podem fornecer proteção às pessoas.
Em entrevista ao programa de rádio Newsday, do Serviço Mundial da BBC, Ancia declarou que a província de Ituri é uma “região muito insegura, com grandes movimentos populacionais”. Isso dificulta para a agência investigar e ajudar a controlar a doença. “Quanto mais investigamos este surto, mais percebemos que ele já se disseminou ao menos um pouco através da fronteira e também para outras províncias”, explica a médica da OMS.
Por enquanto, os esforços de resposta dependerão de medidas de saúde pública, como detecção rápida de casos, isolamento, rastreamento de contatos, prevenção e controle de infecções, enterros seguros e envolvimento da comunidade, disse a Dra. Daniela Manno, da Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres, em um comunicado.
“Estas medidas foram fundamentais para eventualmente controlar a epidemia de Ébola na África Ocidental de 2014–2016, o maior surto de Ébola alguma vez registado, e se implementadas de forma rápida e eficaz também podem ajudar a controlar este surto,” disse Manno.
Diversos países africanos estão tomando precauções, aumentando os controles nas fronteiras e preparando centros de saúde. A vizinha Ruanda fechou suas fronteiras com a República Democrática do Congo, enquanto Uganda orientou as pessoas a evitar abraços e apertos de mãos.
Um cidadão americano está sendo evacuado da República Democrática do Congo, depois de desenvolver sintomas no fim de semana passado (16-17/5).
O Ministério da Saúde da Alemanha informou à BBC que um cidadão americano estava sendo levado para tratamento no país. E os Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC, na sigla em inglês) declararam que estão trabalhando para evacuar pelo menos outros seis cidadãos americanos que foram expostos ao vírus.
A OMS e outras agências vêm trabalhando junto aos governos e comunidades locais para tentar impedir a difusão do vírus. Elas pedem aos moradores que adotem medidas de prevenção e informem a unidade de saúde mais próxima, caso apresentem qualquer sintoma.



