O objetivo seria obter controle indireto/direto sobre as enormes reservas de petróleo e gás do Irã para que elas possam ser usadas como alavanca contra a China por coagi-la a um acordo comercial desequilibrado que atrapalharia a ascensão à uma superpotência e, portanto, restauraria a unipolaridade liderada pelos EUA.
Fonte: Escrito por Andrew Korybko
Trump afirmou que a campanha militar dos EUA contra o Irã visa “defender o povo americano”, enquanto muitos críticos alegaram (seja em tom de brincadeira ou não) que o objetivo é desviar a atenção dos Arquivos Epstein, mas poucos observadores percebem que, na verdade, tudo gira em torno da China.
Foi explicado aqui que Trump 2.0 “decidiu privar gradualmente a China do acesso a mercados e recursos, idealmente por meio de uma série de acordos comerciais, a fim de conferir aos EUA a influência indireta necessária para impedir pacificamente a ascensão da China como superpotência”.
Para explicar melhor, “Os acordos comerciais dos EUA com a UE e a Índia podem, em última instância, resultar na restrição do acesso da China aos seus mercados, sob pena de tarifas punitivas caso se recusem. Paralelamente, a operação especial dos EUA na Venezuela, a pressão sobre o Irã e as tentativas simultâneas de subordinar a Nigéria e outros importantes produtores de energia podem restringir o acesso da China aos recursos necessários para impulsionar sua ascensão como superpotência.”
A dimensão dos recursos que é relevante para o Irã constitui uma parte importante da “Estratégia de Negação” dos EUA.
Essa é uma ideia original do Subsecretário de Guerra para Políticas, Elbridge Colby, e foi detalhada nesta análise do início de janeiro.
Conforme foi escrito, “a influência dos EUA sobre as exportações de energia da Venezuela e, possivelmente em breve, sobre as do Irã e da Nigéria, bem como sobre as relações comerciais com a China, poderia ser instrumentalizada por meio de ameaças de restrição ou cortes, em paralelo com a pressão sobre seus aliados do Golfo para que façam o mesmo, em busca desse objetivo”, que é coagir a China a um status de parceiro júnior indefinido em relação aos EUA por meio de um acordo comercial desequilibrado.

A maioria dos observadores não percebeu, mas a nova Estratégia de Segurança Nacional prevê, em última instância, o “reequilíbrio da economia chinesa em direção ao consumo das famílias”. Trata-se de um eufemismo para a reestruturação radical da economia global por meio dos métodos já descritos, ou seja, restringindo o acesso da China aos mercados e recursos necessários para sua ascensão como superpotência, de modo que ela deixe de ser “a fábrica do mundo” e, assim, encerre sua era como única rival sistêmica dos EUA. A unipolaridade liderada pelos EUA seria então restaurada.
Voltando ao Irã, “[ele] representa cerca de 13,4% do total de 10,27 milhões de barris de petróleo por dia [que a China] importou por via marítima” no ano passado, segundo Kpler, razão pela qual os EUA querem controlar, restringir ou interromper completamente esse fluxo. O ‘Plano A’ era alcançar isso por meios diplomáticos, replicando o modelo venezuelano que entrou em vigor após a prisão de Maduro. O Irã flertou com essa ideia, mas não se comprometeu, pois isso implicaria a rendição estratégica do país; por isso Trump iniciou uma guerra para atingir esse objetivo.
Em busca desse objetivo, Trump prometeu à Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC), em seu vídeo de anúncio da campanha militar de seu país contra o Irã, que eles teriam imunidade se depusessem as armas. Isso reforça a alegação mencionada anteriormente de que os EUA querem replicar o modelo venezuelano, uma vez que sugere fortemente que ele prevê uma IRGC recém-alinhado aos EUA governando o Irã no período de transição política antes de novas eleições, assim como os serviços de segurança venezuelanos, também recém alinhados aos EUA, governam seu próprio país durante seu atual período de transição política.
Tal cenário evitaria a possível “balcanização” do Irã, preservando o Estado para que pudesse retomar seu papel anterior como um dos principais aliados regionais dos EUA, o que poderia auxiliar os esforços do Eixo Azeri-Turco em projetar influência ocidental ao longo de toda a periferia sul da Rússia.
Nesse caso, os EUA obteriam simultaneamente uma influência sem precedentes sobre a China por meio do controle indireto das indústrias de petróleo e gás iranianas, ao mesmo tempo que intensificariam seu cerco à Rússia, o que representaria um duro golpe para a multipolaridade.



