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As Digitais dos deuses (45) – Obras de Homens e de Deuses

Entre os inumeráveis templos arruinados do antigo Egito, há um excepcional não só pelo seu estado maravilhoso de conservação, que (na verdade, algo muito raro!) inclui um telhado intacto, mas pela fina qualidade de muitos hectares de belos altos-relevos que lhe decoram os majestosos muros. Em Abidos, a 144km do curso atual do Nilo, encontramos o Templo de Seti I, monarca da famosa 19ª. Dinastia, que reinou de 1306-1290 a.C. Seti é conhecido principalmente como pai de um filho famoso, Ramsés II (1290-1224 a.C.), o faraó do Êxodo bíblico. Por mérito próprio, contudo, ele foi uma grande figura histórica, líder de grandes campanhas militares além das fronteiras do Egito, inspirador da construção de vários excelentes templos e, cuidadosa e conscientemente, responsável pela remodelação e reforma de muitos outros, mais antigos. 

Edição e imagens:  Thoth3126@protonmail.ch

Livro “AS DIGITAIS dos DEUSES”, uma resposta para o mistério das origens e do fim da civilização

Por Graham Hancock, livro “AS DIGITAIS DOS DEUSES”, Tradução de Ruy Jungmann, editora Record 2001.

CAPÍTULO 45 – Obras de Homens e de Deuses

Seu templo em Abidos, conhecido evocativamente como “A Casa de Milhões de Anos”, foi dedicado a Osíris, o “Senhor da Eternidade”, sobre o qual dizem os Textos da Pidmide:

Tu foste embora, mas retornarás, tu dormiste, mas despertarás, morreste, mas viverás. (…) Segue pelo curso d’água, subindo o rio (…) viaja para Abidos na tua forma espiritual, que os deuses ordenaram que fosse a tua.

Templo de Abydos, Seti I

A Coroa de Atef

Eram 8h da manhã, hora ensolarada e fresca nessas latitudes, quando entrei na escuridão silenciosa do Templo de Seti I. Algumas seções de suas paredes eram iluminadas na parte inferior por lâmpadas elétricas fracas. A não ser isso, a única iluminação era a planejada pelos arquitetos do faraó: alguns isolados raios de luz que penetravam através de frestas nas pedras de cantaria externa, como se fossem feixes de radiação divina. Pairando entre os pontos de poeira que dançavam nesses feixes e infiltrando-se no ar parado e denso entre as grandes colunas que sustentavam o telhado da Galeria das Colunatas, era fácil imaginar que a forma espiritual de Osíris ainda poderia estar ali presente. Na verdade, isso era mais do que apenas imaginação, porque Osíris estava fisicamente presente na espantosa sinfonia de altos-relevos que adornavam as paredes – altos-relevos que descreviam o antigo e futuro rei civilizador em seu papel de deus dos mortos, entronizado e servido por ÍSIS, sua bela e misteriosa irmã e esposa.

Nessas cenas, Osíris usava grande variedade de diferentes e refinadas coroas, que estudei com toda atenção, enquanto ia de um alto-relevo a outro. Coroas semelhantes a essas foram, sob muitos aspectos, adereços importantes no guarda-roupa dos faraós do Egito antigo, pelo menos se consideramos como prova disso os altos relevos que os mostram. Curiosamente, porém, em todos esses anos de intensas escavações, arqueólogos jamais encontraram um exemplo sequer de uma coroa real, um fragmento e, ainda menos, um espécime dos complicados adereços cerimoniais de cabeça ligados aos deuses dos Primeiros Tempos. A coroa de Atef revestia-se de um interesse especial. Incluindo a uraeus, o símbolo da serpente real (que no México era a cascavel, mas, no Egito, a cobra-de-capelo pronta para dar o bote), o núcleo central dessa estranha criação era reconhecível como um exemplo do hedjet, o capacete de guerra branco, em forma de garrafa, do alto Egito (mais uma vez, conhecido apenas através de altos-relevos).

Erguendo-se de ambos os lados dessa parte central, havia o que pareciam duas finas folhas de metal e, na frente, um dispositivo sob a forma de duas lâminas encurvadas, que os estudiosos descrevem geralmente como um par de chifres de carneiro. Em vários altos-relevos do Tempo de Seti I, Osíris é mostrado usando a coroa de Atef, que parecia ter cerca de 60cm de altura. De acordo com o Ancient Egyptian Book of the Dead, a coroa lhe fora dada por Rá:

“Mas, no primeiro dia em que a usou, Osíris teve muitas dores de cabeça e, quando Rá voltou à noite, estava zangado e com a cabeça inchada devido ao calor da coroa de Atef. Rá, em seguida, fez uma punção para drenar o pus e o sangue.”

Tudo isso era contado de forma simples, embora – quando paramos para pensar no assunto -, que tipo de coroa era essa que irradiava calor e fazia a pele verter sangue e romper-se em feridas pustulentas?

Dezessete Séculos de Reis

Representação de Osiris com a Coroa de Atef.

Penetrei na escuridão ainda mais profunda e acabei encontrando o caminho para a Galeria dos Reis. Ela começa na borda oeste da Galeria das Colunatas, a cerca de 60m da entrada do templo. Cruzar a galeria era como cruzar o próprio tempo. Em uma parede à direita, vi uma lista de 120 deuses do Egito antigo, juntamente com os nomes dos principais santuários. À direita, cobrindo uma área de talvez 3m x 1,80m, estendia-se a lista dos 76 faraós que haviam precedido Seti I no trono. Todos esses nomes eram esculpidos em hieróglifos dentro de cartuchos ovais. Esse quadro em pedra era conhecido como “A Lista Real de Abidos”.

Brilhando na cor de ouro derretido, devia ser lido da esquerda para a direita e era dividido em cinco registros verticais e três horizontais. A lista cobria uma grande extensão de tempo, de quase 1.700 anos, começando com o ano 3000 a.C., iniciando-se com o reinado de Menés, o primeiro rei da Primeira Dinastia, e terminando com o reinado do próprio Seti, por volta do ano 1300 a.C. Na extrema direita, duas figuras em pé refinadamente entalhadas em alto-relevo: Seti e o jovem filho, o futuro Ramsés II.

Hipogeu

Pertencendo à mesma classe de documentos históricos que o Papiro de Turim e a Pedra de Palermo, a lista falava eloqüentemente da continuidade da tradição. Parte inerente à tradição era a crença, ou memória, nos Primeiros Tempos, há muito, muito tempo, quando os deuses haviam reinado no Egito. O principal entre esses deuses fora Osíris e era, por conseguinte, apropriado que a Galeria dos Reis desse acesso a um segundo corredor, levando aos fundos do templo, onde se localiza um prédio maravilhoso – ligado a Osíris desde o começo da história documentada do Egito e descrito por Estrabão, o geógrafo grego (que visitou Abidos no século I a.C.), como “uma estrutura notável, construída de pedra maciça… [contendo] uma fonte de grande profundidade, à qual se pode descer através de galerias com teto abobadado, construídas com monólitos de extraordinário tamanho e trabalho artesanal. Há um canal que chega até o local, vindo do grande rio Nilo…”

Algumas centenas de anos após a visita de Estrabão, quando a religião do antigo Egito fora suplantada pelo novo culto do cristianismo, o lodo do rio e as areias do deserto começaram a entrar no Osireion, enchendo-o gradualmente, um século após outro, até que seus monólitos verticais e imensos lintéis foram sepultados e esquecidos. E assim permaneceram, longe da vista e do conhecimento de todos, até o começo do século XX, quando os arqueólogos Flinders Petrie e Margaret Murray iniciaram escavações. Na etapa de escavação de 1903, eles descobriram partes de um corredor e passagem, situados no deserto, a uns 60m a sudoeste do Templo de Seti I e construídos no estilo arquitetônico característico da 19ª. Dinastia. Espremidos entre esses restos e os fundos do Templo, porém, encontraram ainda sinais inconfundíveis de que havia ali enterrado um grande prédio. “Esse hipogeu”, escreveu Margaret Murray, “pareceu ao professor Petrie ser o mesmo lugar mencionado por Estrabão, geralmente conhecido como Poço de Estrabão”.

Foi um bom palpite de parte de Petrie e Murray. Falta de dinheiro, porém, fez com que a teoria de ambos, de um prédio sepultado sob a areia, só fosse submetida a teste na temporada de escavações de 1912-13. Nessa ocasião, sob a direção do professor Naville, do Fundo de Exploração do Egito, foi escavada uma longa câmara transversal, ao fim da qual, na direção nordeste, os arqueólogos encontraram um maciço portal de pedra, construído com ciclópicos blocos de granito e arenito. Na temporada seguinte, 1913-14, Naville e sua equipe voltaram ao trabalho com 600 trabalhadores locais e diligentemente limparam todo o imenso prédio subterrâneo:

O que descobrimos (escreveu Naville) foi uma obra gigantesca, de cerca de 30m de comprimento por 18m de largura, construída com as pedras de maior tamanho que podem ser vistas no Egito. Nos quatro lados dos muros circundantes, encontramos celas, em número de 17, da altura de um homem e sem ornamentação de qualquer tipo. O prédio em si é dividido em três naves, com a central mais larga do que as laterais. A divisão entre elas é obtida por intermédio de duas séries de colunatas feitas de imensos monólitos de granito, que sustentam arquitraves de igual tamanho.

Com certo espanto, Naville comentou as dimensões de um bloco, que mediu no canto da nave norte do prédio, um bloco de mais de 7,5m de comprimento. Igualmente surpreendente era o fato de que as celas cortadas nas paredes circundantes não tinham piso, descobrindo-se, à medida que prosseguiam as escavações, que estavam cheias de areia cada vez mais úmida:

As celas são ligadas por uma laje estreita de 60cm e 90cm de largura. Há outra laje, no lado oposto da nave, mas nenhum piso, absolutamente, e, ao escavar até uma profundidade de 3,5m, encontramos infiltração de água. Até mesmo embaixo do grande portal não existe piso e, quando houve água diante dele, as celas eram provavelmente alcançadas com auxílio de um pequeno bote.

O Mais Antigo Edifício de Pedra do Egito

Água, água por toda parte – esta parecia ser a constante do Osireion, que se encontra no fundo da imensa cratera que Naville e seus trabalhadores escavaram em 1914. O prédio se situa a cerca de 15m abaixo do nível do chão do Templo de Seti I, quase na mesma altura do lençol freático, e o acesso a ele é feito através de uma escada moderna, que se curva para baixo na direção sudeste. Tendo descido, Passei por baixo das lajes do lintel do grande portal descrito por Naville (e Estrabão) e cruzei uma estreita ponte de madeira – mais uma vez, moderna – que me levou a um grande pedestal de arenito. Medindo 24 x 12m de largura, esse pedestal é feito de enormes blocos de pavimentação e inteiramente cercado de água. Dois tanques, um retangular e, o outro, quadrado, foram cortados no pedestal ao longo do centro de seu eixo longo e, em cada extremidade, escadas levam a uma profundidade de cerca de 2,60m abaixo do nível da água.

Ruínas do Templo Osireion

O pedestal sustenta também as duas colunatas maciças que Naville mencionou em seu relatório, ambas de cinco grossos monólitos de granito cor-de-rosa de 7,5m por 3,60m de altura e pesando, em média, por volta de 100 toneladas. As partes superiores dessas imensas colunas eram ligadas por lintéis de granito e há prova de que toda a estrutura teve um telhado constituído de uma série de monólitos ainda maiores. Para compreender bem a estrutura do Osireion, achei conveniente erguer-me, pela imaginação, diretamente sobre ela, de modo a poder olhar para baixo.

Esse exercício foi facilitado pela ausência do telhado original, o que tornou mais fácil imaginar, em um nível plano, todo o edifício. Útil também era o fato de que água se infiltrara e enchera todos os tanques do prédio, celas e canais, até uma profundidade de algumas polegadas abaixo da borda do pedestal central, como aparentemente fora a intenção dos projetistas originais. Olhando para baixo dessa maneira, era claramente visível que o pedestal formava uma ilha retangular, cercada nos quatro lados por um fosso cheio de água, de uns 3m de largura. O fosso era delimitado por um muro enorme, retangular, de nada menos de 6m de espessura, feito de blocos muito grandes de arenito vermelho, assentados em um padrão de quebra-cabeça poligonal.

Na enorme espessura do muro haviam sido abertas as 17 celas mencionadas no relatório de Naville. Havia seis delas a leste, seis a oeste, duas ao sul e três ao norte. Saindo da cela que ficava no centro das três celas do norte estendia-se uma longa câmara transversal, com cobertura de pedra calcária. Uma câmara transversal semelhante, também de pedra calcária, mas sem telhado intacto, começava imediatamente ao sul do grande portal. Finalmente, toda a estrutura era fechada dentro de um muro externo de pedra calcária, completando, dessa maneira, uma seqüência de retângulos que se encaixavam, isto é, da parte externa para dentro, muro, parede, fosso, pedestal. Outro aspecto notável e surpreendentemente incomum do Osireion é que o prédio não se encontra nem mesmo aproximadamente alinhado com os pontos cardeais.

Em vez disso, tal como o Caminho dos Mortos, em Teotihuacán, no México, é orientado para leste do norte verdadeiro. Uma vez que o antigo Egito foi uma civilização que podia, e geralmente    conseguia, fazer alinhamentos precisos de seus prédios, parecia-me improvável que essa orientação, aparentemente torta, tivesse sido acidental. Além do mais, embora 15m mais alto, o Templo de Seti I estava orientado exatamente de acordo com o mesmo eixo – e, mais uma vez, não por acaso. A questão era: qual deles era o prédio mais antigo? Teria o eixo do Osireion sido predeterminado pelo eixo do templo, ou vice-versa? Essa dúvida, conforme descobri, foi outrora objeto de acesa controvérsia, desde então esquecida. Em um debate que teve muitas semelhanças com o que cerca a Esfinge e o Templo do Vale, em Gizé, arqueólogos eminentes haviam inicialmente argumentado que o Osireion era um edifício de uma antiguidade realmente imensa, opinião esta manifestada pelo professor Naville, no Times, de Londres, no dia 17 de março de 1914:

Esse monumento sugere várias questões importantes. Quanto à sua data, a grande semelhança que revela com o Templo da Esfinge [como o Templo do Vale era então conhecido] demonstra que a estrutura foi da mesma época, quando prédios eram construídos com pedras enormes, sem qualquer ornamento. Esse fato é característico da arquitetura mais antiga do Egito. Eu diria mesmo que poderemos considerá-lo como o edifício de pedra mais antigo do Egito.

Descrevendo a si mesmo como tomado de profundo respeito pela “grandiosidade e simplicidade severa” da galeria central do monumento, com seus notáveis monólitos de granito, e pelo “poder desses povos antigos, que podiam trazer de lugares distantes e assentar esses blocos gigantescos”, ele fez uma sugestão sobre a finalidade para a qual o Osireion poderia ter sido originariamente construído:

“Evidentemente, essa imensa construção constituía um grande reservatório, onde era armazenada água durante a cheia do Nilo. (…) É curioso que aquilo que poderíamos considerar como o início da arquitetura nem é um templo nem uma tumba, mas uma piscina gigantesca, uma obra de hidráulica…”

Vista aérea do Osireion

Curioso realmente e merecedor de mais estudo, algo que Naville tinha esperança de fazer na temporada seguinte. Infelizmente, estourou a Primeira Guerra Mundial e nenhum trabalho ulterior de arqueologia pôde ser feito no Egito durante vários anos. Em conseqüência, só em 1925 é que o Fundo de Exploração do Egito pôde enviar outro grupo, nessa ocasião não mais dirigido por Naville, mas por um jovem egiptólogo chamado Henry Frankfort.

Os Fatos de Frankfort

Mais tarde professor de antiguidade pré-clássica da Universidade de Londres, Henry Frankfort passou várias temporadas procedendo a uma nova limpeza e escavando exaustivamente o Osireion entre os anos de 1925 e 1930. No curso desse trabalho, ele realizou descobertas que, no que o interessava, “fixou conclusivamente a data do prédio”:

  1. Um encaixe de granito em posição no alto do lado sul da principal entrada do corredor central, gravado com o do cartucho de Seti I.
  2. Um encaixe semelhante em posição, no interior da parede leste do corredor central.
  3. Cenas e inscrições astronômicas de autoria de Seti I, entalhadas em alto-relevo no teto da câmara transversal norte.
  4. Restos de cenas semelhantes na câmara transversal sul.
  5. Uma ostracon (peça de cerâmica quebrada) encontrada na passagem da entrada, com a legenda: “Seti é útil a Osíris”.

O leitor lembrará o comportamento de lemingue que resultou em uma mudança espetacular da opinião acadêmica sobre a antiguidade da Esfinge e do Templo do Vale (devido à descoberta de algumas estátuas e de um único cartucho que pareciam sugerir algum tipo de ligação com Khafre). As descobertas de Frankfort em Abidos causaram uma volte-face semelhante sobre a antiguidade do Osireion. Em 1914, a estrutura era “o edifício de pedra mais antigo do Egito”. Em 1933, ele havia sido promovido no tempo ao reinado de Seti I – por volta do ano 1300 a.C. -, que, nesse momento, passou a ser considerado como o cenotáfio desse faraó. Dentro de uma década, os textos egiptológicos padrão começaram a atribuir a Seti I a construção do monumento, como se fosse um fato inquestionável, verificável através de experiência ou observação.

Mas não há nenhum fato desse tipo, apenas a interpretação que Frankfort deu à prova que encontrou. Os únicos fatos inegáveis são que certas inscrições e motivos decorativos deixados por Seti aparecem em uma estrutura, sob outros aspectos, inteiramente anônima. Uma explicação plausível é que ela tenha sido construída por Seti, como sugeriu Frankfort. A outra, que as decorações, cartuchos e inscrições medíocres por ele encontradas poderiam ter sido colocadas no Osireion como parte de restauração e reparos iniciados no tempo de Seti (o que implicaria que a estrutura já era, por essa época, antiga, como Naville e outros pesquisadores sugeriram): Quais os méritos dessas proposições mutuamente contraditórias, que identificam o Osireion como,

a) o prédio mais antigo do Egito e

b) uma estrutura relativamente recente do Novo Reino?

A proposição b – o prédio como cenotáfio de Seti – é a única aceita pelos “egiptólogos”. Examinando-se bem o assunto, verifica-se que ela repousa sobre a prova circunstancial dos cartuchos e inscrições, que nada provam. Na verdade, parte dessa prova parece contradizer o argumento de Frankfort. A ostracon com a legenda “Seti é útil a Osíris” parece menos um elogio às obras do construtor original do que o elogio a um restaurador que talvez tenha acrescentado alguma coisa a uma estrutura antiga, identificada com o deus Osíris, dos Primeiros Tempos. Outra pequena questão incômoda foi também ignorada. As “câmaras transversais” norte e sul, que contêm detalhadas decorações e inscrições de Seti I, ficam no lado de fora do muro externo que, de modo tão claro, define o núcleo imenso, sem decoração alguma, do edifício.

Esse fato despertou uma razoável suspeita na mente de Naville (embora Frankfort tivesse resolvido ignorá-la), de que as duas câmaras em questão “não eram contemporâneas do resto do edifício”, mas haviam sido acrescentadas muito depois, durante o reinado de Seti I. “provavelmente quando ele construiu seu próprio templo”. Para resumir, por conseguinte, tudo a respeito da proposição b baseia-se, de uma maneira ou de outra, na interpretação não necessariamente infalível de Frankfort no tocante a vários fragmentos de evidência possivelmente intrusa. A proposição a – de que o edifício central do Osireion foi construído milênios antes do tempo de Seti – repousa sobre a natureza da própria arquitetura. Conforme observou Naville, a semelhança do Osireion com o Templo do Vale, em Gizé, “mostra que é da mesma época, quando as construções eram feitas com pedras enormes”. De idêntica maneira, até o fim da vida, Margaret Murray continuou convencida de que o Osireion não era absolutamente um cenotáfio (e ainda menos que tudo, construído por Seti). Disse ela:

A estrutura foi construída para a celebração dos mistérios de Osíris e é até agora excepcional entre todos os prédios remanescentes do Egito. É evidentemente antiga, uma vez que os grandes blocos de que foi construída são do estilo do Antigo Reino. A simplicidade do prédio sugere também que ele é de data muito antiga. A decoração foi acrescentada por Seti I que, dessa maneira, arrogou-se o direito sobre o prédio, mas, sabendo-se com que freqüência um faraó apropriava-se do trabalho de seus predecessores, a de acrescentando seu nome, esse fato não tem muito valor probatório. No Egito, é o estilo do prédio, o tipo de cantaria, o trabalho feito nas pedras, e não o nome de um rei, que lhe fixam a data.

Complexo de templos em Abydos: Osireion e Templo de Seti I

Havia aí uma advertência à qual Frankfort deveria ter dado mais atenção, porquanto ele mesmo observou, confuso, a respeito de seu “cenotáfio”: “Temos de admitir que nenhum edifício semelhante é conhecido na 19ª. Dinastia.” Na verdade, não se trata simplesmente de uma questão da 19ª. Dinastia. À parte o Templo do Vale e outros edifícios ciclópicos existentes no platô de Gizé, nenhum outro prédio que lembre mesmo remotamente o Osireion é conhecido como de qualquer outra época da longa história do Egito. Esse punhado de estruturas supostamente do Velho Reino, construídas com megálitos gigantescos. parece incluir-se em uma categoria sem igual, única. Lembram umas às outras muito mais do que lembram qualquer estilo conhecido de arquitetura e, em todos os casos, há pontos de interrogação sobre sua identidade.

  • Não seria isso exatamente o que esperaríamos de prédios não construídos por qualquer faraó do período histórico, mas retroagindo a tempos pré-históricos?
  • Não confere sentido à maneira misteriosa como a Esfinge e o Templo do Vale, e agora também o Osireion, parecem tornar-se vagamente ligados aos nomes de determinados faraós (Khafre e Seti I), sem jamais produzir uma única indicação que, clara e inequivocamente, prove que esses faraós construíram a estrutura em causa?
  • Os laços muito tênues não indicariam muito mais o trabalho de restauradores, que procuraram ligar seus nomes a monumentos antigos e veneráveis, do que dos arquitetos originais desses monumentos – quem quer que possam ter sido e em que época possam ter vivido?

Navegando por Mares de Areia e do Tempo

Antes de deixar Abidos, havia outro enigma que eu queria investigar. O enigma estava enterrado no deserto, a cerca de um quilômetro a noroeste do Osireion, do outro lado de areias ondulantes coalhadas de cemitérios antigos, atravancados de túmulos. Entre esses cemitérios, muitos do quais datam de princípios dos tempos dinásticos e pré-dinásticos, os deuses chacais, Anúbis e Upuaut, reinaram supremos, segundo a tradição. Desbravadores de caminhos, guardiães do espírito dos mortos, eu sabia que eles haviam desempenhado um papel fundamental nos mistérios de Osíris, que tinham sido encenados todos os anos em Abidos – aparentemente durante todo o transcurso da antiga história egípcia. Eu achava que havia um sentido em que eles ainda guardavam os mistérios. Pois o que era o Osireion senão um enorme mistério sem solução, que merecia estudo mais atento do que recebera de “estudiosos” cujo trabalho consiste em examinar esses assuntos? E o que significava o sepultamento, no deserto, de doze barcos de proa alta, com capacidade para navegar no mar, se não um mistério que clamava por solução? E era para conhecer o local do sepultamento desses barcos que eu estava nesse momento cruzando os cemitérios dos deuses chacais:

The Guardian, Londres, em 21 de dezembro de 1991 publica uma notícia: Uma frota de 5.000 anos de idade de barcos reais foi encontrada enterrada a 130km distante do rio Nilo. Arqueólogos americanos e egípcios descobriram em Abidos doze grandes barcos de madeira. (…) Especialistas disseram que os barcos – que medem de 15 a 18m de comprimento – têm cerca de 5.000 anos de idade, o que os torna os barcos reais mais antigos do Egito e os mais velhos jamais encontrados em qualquer outro local. (…) Dizem ainda os peritos que os barcos, descobertos em setembro, foram provavelmente construídos para que fossem enterrados, de modo que a alma dos faraós pudesse ser neles transportada. “Nunca esperamos encontrar tal frota, especialmente tão longe do Nilo”, disse David O’Connor, o chefe da expedição e curador da Seção Egípcia do Museu Universitário da Universidade da Pensilvânia…

Os barcos haviam sido enterrados à sombra de um gigantesco espaço fechado, construído com tijolos de argila, supostamente o templo mortuário de um faraó da Segunda Dinastia, chamado Khasekhemwy, que reinou no Egito no século XXVII a.C. O’Connor, porém, tinha certeza de que os barcos não estavam ligados diretamente a Khasekhemwy, mas, sim, a um espaço fechado (na maior parte em ruínas) “construído para o faraó Djer (Zoser), em princípios da Primeira Dinastia. As sepulturas dos barcos não são provavelmente mais recentes do que esse tempo e podem, na verdade, ter sido construídas para Djer (Zoser), embora esse fato precise ainda ser provado”.

Uma forte e súbita pancada de vento varreu o deserto, espalhando lençóis de areia. Refugiei-me por algum tempo à sombra dos muros imponentes do espaço fechado de Khasekhemwy, perto do ponto onde os arqueólogos da Universidade da Pensilvânia haviam, por questões legítimas de segurança, reenterrado os doze misteriosos barcos que descobriram acidentalmente em 1991. Eles tinham esperança de voltar em 1992 para recomeçar as escavações. Mas surgiram vários contratempos e, em 1993, a escavação continuava ainda adiada. Durante minha pesquisa, O’Connor me enviara o relatório oficial da temporada de escavações de 1991, mencionando de passagem que alguns barcos poderiam ter até 22m de comprimento. Ele observou ainda que as sepulturas, revestidas de tijolos, em que estavam fechados os barcos, e que deveriam ter tido uma altura muito acima do nível do deserto circundante nos primeiros tempos dinásticos, deviam ter produzido um efeito extraordinário quando recentes:

Todas as sepulturas haviam sido originariamente revestidas com reboco de barro e cal, de modo que a impressão teria sido de doze (ou mais) enormes “barcos” ancorados no deserto, brilhando vivamente sob o sol egípcio. A ideia de que estavam ancorados foi levada tão a sério que um pequeno calhau de forma irregular foi colocado perto da “proa” ou da “popa” de várias das sepulturas. Esses calhaus não poderiam estar ali naturalmente ou por acaso. A colocação deles parece ter sido deliberada, e não obra do acaso. Podemos pensar neles como “âncoras” destinadas a ajudar a “amarrar” os barcos.

Tal como o barco oceânico de 140 pés encontrado enterrado ao lado da Grande Pirâmide de Gizé (ver Capítulo 33), uma coisa ficou imediatamente clara sobre os barcos de Abidos – eles eram de projeto avançado, capazes de cruzar as ondas mais altas e agüentar as piores condições de tempo em mar aberto. De acordo com Cheryl Haldane, arqueóloga especializada em assuntos náuticos, da Texas A & M University, eles exibiam “um alto grau de tecnologia, combinada com elegância”. Exatamente como acontecia com o barco da pirâmide (mas pelo menos 500 anos mais antigos), a esquadra de Abidos parecia indicar que um povo capaz de usar a experiência acumulada de uma longa tradição de viagens marítimas estivera presente no Egito desde o próprio início de sua história de antes de 5.000 anos.

Além do mais, eu sabia que os murais mais antigos encontrados no Vale do Nilo, datando talvez de 1.500 anos antes do enterro da frota de Abidos (por volta do ano 4500 a.C.), mostravam os mesmos barcos longos, esguios, de proa alta. Poderia uma raça experiente de antigos marinheiros ter mantido contato com os habitantes nativos do Vale do Nilo, em algum período indeterminado, antes do início oficial da história do país, por volta do ano 3000 a.C.? Esse fato explicaria a curiosa e paradoxal obsessão – mas ainda assim duradoura – do Egito com navios no deserto (e referências, ao que parecia, a barcos sofisticados nos Textos da Pirâmide, incluindo um que se dizia ter medido mais de 610m)? Ao fazer essas conjecturas, eu não tinha dúvida de que existira no Egito um simbolismo religioso no qual, como observaram incansavelmente especialistas, barcos eram designados como veículos para a alma do faraó.

Ainda assim, tal simbolismo não solucionava o problema criado pelo alto nível de progresso tecnológico dos barcos enterrados, uma vez que esses projetos evoluídos e sofisticados exigiam um longo período de desenvolvimento. Não valeria a pena estudar a possibilidade – mesmo que fosse apenas para excluí-la – de que os barcos de Gizé e Abidos pudessem ter sido partes de uma herança cultural e não de um povo agrícola amante da terra, morador de margem de rio, tal como os egípcios antigos, mas de uma nação marítima avançada? Seria de esperar que esses marinheiros fossem navegadores, que teriam sabido como estabelecer um curso pelas estrelas e que talvez tivessem desenvolvido as perícias necessárias para desenhar mapas e cartas exatas dos oceanos que tivessem cruzado.

Poderiam eles ter sido também os arquitetos e os pedreiros cujo material de construção característico tinha sido blocos megalíticos poligonais, como os encontrados no Templo do Vale e no Osireion? E poderiam eles ter sido ligados, de alguma maneira, aos deuses lendários dos Primeiros Tempos, que as lendas diziam ter trazido para o Egito não só a civilização, a astronomia, a arquitetura e o conhecimento da matemática e da escrita, mas também um grande conjunto de habilidades e dádivas úteis, a mais notável e mais importante das quais foi a agricultura? Há provas de um período extraordinariamente antigo de progresso e experimentação agrícola no Vale do Nilo, mais ou menos ao fim da última Era Glacial no hemisfério Norte. As características desse grande “salto à frente” sugerem que ele só poderia ter ocorrido com a chegada de novas idéias, procedentes de alguma fonte ainda não identificada.


Se voce REALMENTE tem interesse em saber QUEM construiu as Pirâmides, no EGITO e no MÉXICO, QUANDO, para QUAL FINALIDADE, e as CONSEQUÊNCIAS, por favor leia TODO O MATERIAL sobre o planeta MALDEK.


Mais informações, leitura adicional:

Permitida a reprodução desde que mantida na formatação original e mencione as fontes.

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