O Brasil [2ª maior reserva global] exigirá que parceiros estrangeiros processem minerais de Terras Raras internamente como condição para o acesso às suas reservas, disse esta semana um alto funcionário do governo, estabelecendo termos que poderão remodelar a forma como as empresas chinesas e ocidentais competem pelos recursos que o país exporta há muito tempo como matéria-prima.
Fonte: SCMP
A medida ocorre no momento em que Washington fecha acordo de US$ 565 milhões com a única mina de Terras Raras em operação no Brasil
“Nossas portas do Brasil para o investimento estrangeiro estão abertas, mas nossa posição amadureceu,” disse Leonardo Durans, alto funcionário do Ministério da Indústria do Brasil, em entrevista coletiva com a mídia internacional na segunda-feira.
“O compromisso que exigiremos de todos é o desenvolvimento tecnológico interno e a criação de empregos”. Questionado se a política forçaria o Brasil a escolher um lado na Rivalidade EUA-China sobre minerais críticos, Durans recuou.
“Estamos abertos aos Estados Unidos, à União Europeia e à China. Conversaremos com todos”, disse ele.
O Brasil detém cerca de 10% das reservas minerais críticas globais, sendo a segunda maior reserva mundial de terras raras e grafite, e a terceira maior de níquel.
A insistência no processamento doméstico, no entanto, colide com uma cadeia de suprimentos que a China passou décadas bloqueando.
A China controla cerca de 91% da separação e refino global de terras raras, de acordo com a Agência Internacional de Energia, e sua participação na produção de ímãs permanentes aumentou de aproximadamente 50% há duas décadas para 94% hoje. Pequim apertou essa pegada em outubro, com controles de exportação abrangendo materiais de terras raras, equipamentos de processamento e tecnologias.
As regras abriram novos caminhos ao afirmar jurisdição extraterritorial, exigindo licenças de exportação para produtos fabricados fora da China se contivessem terras raras de origem chinesa acima de um limite de valor de 0,1 por cento ou fossem fabricados utilizando know-how chinês. Esses controles foram suspensos até novembro, sob um acordo comercial mais amplo entre EUA e China, embora Pequim possa restabelecê-los sem elaborar uma nova regulamentação. No entanto, um regime de licenciamento separado para sete elementos de terras raras imposto em abril do ano passado ainda está em vigor.
Juntas, as medidas significam que qualquer instalação de processamento construída com equipamento ou know-how chinês poderá exigir a aprovação de Pequim para exportar a sua produção. O Brasil tentou fechar essa lacuna por conta própria com o MagBras, um programa liderado pela rede de pesquisa SENAI apoiada pelo governo federal, com o objetivo de construir a primeira cadeia de suprimentos doméstica de ímãs permanentes do país.

Tem feito parcerias com o setor privado, incluindo a gigante mineira Vale e a montadora holandesa Stellantis. A iniciativa produziu ímãs em escala piloto, mas a produção industrial ainda levará anos, e seu orçamento de US$ 73 milhões (US$ 12,6 milhões) é uma fração do que a China gastou para construir seu domínio de processamento de Terras Raras.
Julio Nery, diretor de assuntos de mineração do Instituto Brasileiro de Mineração, reconheceu o problema, dizendo que o equipamento necessário para o processamento de terras raras foi produzido “principalmente por um país”, acrescentando que os prazos de entrega eram longos.
Mauro Sousa, diretor-geral da Agência Nacional de Mineração do Brasil, foi mais direto. “Não podemos replicar o salto de 10, 15, 30 anos que a China deu em pouco tempo”, disse ele. Sem capacidade de processamento nacional, a própria matéria-prima está se tornando um prêmio e, ao mesmo tempo, Serra Verde, a única mina de terras raras em operação no Brasil, cuja concorrência se inclinou para Washington nos últimos meses.
A empresa encerrou contratos de fornecimento de longo prazo com compradores chineses em dezembro, abandonando acordos originalmente previstos para durar cerca de uma década. Em dois meses, a empresa também fechou um pacote de financiamento de US$ 565 milhões com o braço de investimentos estrangeiros de Washington, DFC, que inclui uma opção para o governo dos EUA adquirir uma participação minoritária.
Essa mudança não impediu que o capital chinês fluísse para o setor de forma mais ampla, embora a natureza desse investimento tenha mudado.
A mineração foi responsável por 13% do investimento chinês no Brasil em 2024, totalizando US$ 556 milhões, segundo o Conselho Empresarial Brasil-China. Mas cada acordo naquele ano foi uma aquisição de uma operação existente e não um projeto greenfield.
Sousa disse que o processo de licenciamento em si continua sendo um obstáculo para todo o investimento estrangeiro, não apenas para os chineses.
Ele citou mais de 3.500 pedidos pendentes para explorar depósitos de terras raras e descreveu um sistema espalhado por agências federais responsáveis pela proteção ambiental, direitos territoriais indígenas e patrimônio cultural, sem uma janela única para investidores.
“Temos uma cultura muito pesada de forte resistência judicial. Isso aumenta a percepção de risco para quem quer investir”, disse ele. “É um dever de casa que precisamos enfrentar para que possamos oferecer um ambiente mais previsível.”



