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De Santos Dumont à Embraer: Brasil incomoda G-7 quando o assunto é Aviação

Terra do pai da aviação, o Brasil também se destaca como um dos principais atores no setor da aeronáutica — comercial e militar — em todo o mundo. Em 23 de outubro de 1906, o mineiro Santos Dumont realizava primeiro voo do 14-Bis. Hoje, exatos 117 anos depois, o país celebra o Dia do Aviador, em homenagem ao inventor, e figura também como um dos principais atores no setor da aviação, comercial e militar, em todo o mundo, graças à Empresa Brasileira de Aeronáutica (Embraer).

De Santos Dumont à Embraer: Brasil incomoda G-7 quando o assunto é Aviação

Fonte: Sputnik

Em entrevista à Sputnik Brasil, o especialista em aeronáutica e professor de Economia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Marcos José Barbieri, afirma que o espaço ocupado pelo Brasil no segmento é uma exceção na estrutura de produção nacional.

Ele ressalta que a Embraer é reconhecida como a maior empresa de alta tecnologia em território brasileiro e também se destaca internacionalmente, tornando-se uma exceção na indústria aeronáutica global, já que países do Atlântico Norte — como EUA, Canadá ou França [G-7], por exemplo — costumam figurar entre os grandes do mercado.

O especialista também destaca que países da Ásia, até mesmo a China, apesar de seu crescimento, ainda estão aquém do Brasil no setor comercial de aviação.

Segundo ele, o sucesso da empresa não é um acontecimento recente, mas sim o resultado de décadas de políticas industriais contínuas e investimentos estatais, começando com a criação do Centro Técnico Aeroespacial (CTA) e do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) para formar engenheiros e pessoal qualificado.

A Embraer não começa hoje, é resultado de um projeto de longo prazo, um planejamento contínuo de políticas industriais, realizadas ao longo dos últimos quase 70 anos.”

Que tipo de empresa é a Embraer?

A Embraer foi estatal desde sua criação, em 1969, até 1994, quando foi privatizada na gestão do então presidente Itamar Franco.

Para o professor Marcos José Barbieri, mesmo após o processo de desestatização, a empresa teve ganhos. “Ela conseguiu se manter apesar de privatizada, sempre com um suporte muito forte do Estado, uma política pública estatal contínua ao longo do tempo.”

A privatização da Embraer, na década de 1990, concedeu ao governo federal uma “golden share”, pela qual as decisões estratégicas da empresa, como processos de parceria com companhias estrangeiras, precisariam do aval governamental para ocorrerem.

“É um processo de longo prazo, um aprendizado. Tanto na indústria quanto dentro da empresa, que vai avançando. Com acertos, fracassos pontuais ou retrocessos.”

Segundo o especialista, o diferencial da Embraer está no projeto, desenvolvimento e produção de aeronaves, destacando-se na integração de sistemas e produção eficiente. A empresa optou por se concentrar no vértice superior da indústria aeronáutica, e essa estratégia tem sido fundamental para o seu sucesso.

A Embraer depende dos EUA?

Reduzir a dependência externa, como a dos Estados Unidos, que pode proibir a venda de aeronaves com componentes norte-americanos, é um desafio complexo. “É muito difícil um país produzir tudo, ainda mais um país emergente, com limitações estruturais.”

Entretanto, ele explica que há muitas peças e matérias primas que vêm do próprio Brasil, diferente de uma ideia de que há uma falta de autonomia por completo. “Se eu imaginar essa lógica, nem os americanos são assim, totalmente independentes”, exemplifica.

Ele explica que o trunfo da Embraer está em integrar os diferentes sistemas com precisão e qualidade técnica. Além disso, caso haja eventuais restrições de compras, é possível obter peças de fornecedores de outros lugares do mundo. “Se você tem capacidade de integrar, tem capacidade de escolher.”

Ele ressalta que aeronave comercial ou militar é produto de alta complexidade, e carrega consigo diversos conjuntos de sistemas, relacionados, por exemplo, às turbinas, trens de pouso, assentos, dentre outros. “É uma quantidade muito grande de sistemas, que por sua vez, são união de outros subsistemas. Há um nível de complexidade muito grande, mesmo uma relativamente simples.”

O Brasil se preocupa em projetar a aeronave, desenvolver modelos, integrar os sistemas. Pode parecer simples, mas é aí que está a dificuldade. Como eu integro a turbina para que ele voe adequadamente? Qual o tipo de trem de pouso, qual o tipo de sistema? Vou ter que integrar tudo isso em conjunto, funcionando de maneira harmônica, segura e fazer funcionar. Essa dificuldade da integração de sistemas é o que a Embraer buscou até hoje.”

Boeing versus Embraer

Em 2020, a Boeing desistiu de comprar a divisão comercial da Embraer, em negócio avaliado em US$ 5,2 bilhões (R$ 26 bilhões). Recentemente, a gigante estadunidense passou a avançar sobre a multinacional brasileira contratando dezenas de engenheiros e funcionários qualificados, principalmente em São José dos Campos (SP), berço da Embraer e do setor aeroespacial e de defesa do Brasil.

O jato de nova geração Embraer E190-E2 (foto de arquivo)

Para o professor Marcos Barbieri, o que é mais valioso para a Embraer é a capacitação e competência humana que o Brasil conseguiu desenvolver, de maneira integrada e organizada. E é exatamente isso que atrai os olhos de grandes empresas de fora.

Segundo ele, Mitsubishi e Bombardier também tiraram profissionais da empresa brasileira. No entanto, ele avalia que a Boeing realiza tais procedimentos de forma “predatória”. “Não foram pontuais, foram predatórias, pelo volume que estão contratando.”

Segundo publicou o site InfoMoney, o foco são engenheiros de nível sênior, principalmente da área de estratégia e aviônica, que têm anos de experiência, chefiam importantes áreas de desenvolvimento de aeronaves e possuem informações privilegiadas de projetos com segredos industriais.

Tem que regular, existir regras. Não pode vir uma empresa de fora e tirar o principal ativo das nossa empresa, os engenheiros, pessoas da área administrativa, e fazer contratação predatória. Teria de ter, no mínimo, se não a proibição, uma regulação. Contratar a partir de um determinado período, ou um número pequeno por vez”, opina Barbieri.

As contratações começaram em 2022 e envolvem funcionários também de outras empresas do polo aeroespacial brasileiro. Das mais de 200 contratações já feitas pela empresa americana nos últimos meses, mais de 90 foram de funcionários da Embraer.

Militarização

O coronel reformado da Força Aérea Brasileira (FAB) e professor da Fundação Mineira de Educação e Cultura (Fumec), Deusdedit Reis, ressalta que a Embraer também tem muito destaque no setor militar da aviação.

“Atualmente, ela está produzindo para a FAB um cargueiro militar biturbina [KC-390] de performance invejável”, exemplifica.

Ele comenta que os bons resultados também são fruto de investimentos contínuos e pessoal especializado. “Até pouco tempo, tínhamos a segunda maior frota de aviação executiva do mundo. Também éramos o segundo país em número de aeródromos do mundo.”

Nossos pilotos são bem recebidos para voarem em todos os continentes, pois são considerados bons profissionais. E esse reconhecimento não se dá apenas com os pilotos. Temos engenheiros formados pelo ITA em todas as grandes fabricantes de aeronaves como a Boeing, Airbus e Bombardier.”

Para ele, a dependência de peças de fora é explicada pela complexidade da indústria aeronáutica. “A presença de componentes estrangeiros na composição de uma aeronave é comum em praticamente todas elas. Sejam as turbinas, a aviônica, os componentes estruturais, etc.”

É muito difícil para uma única nação produzir todo tipo de aviação que atenda os seus diferentes empregos que os conflitos demandam, como: patrulha marítima, caça, ataque e transporte em asas rotativas, guerra eletrônica, transporte de tropas, etc.”

Ele observa que o melhor caminho para ampliar a produção de peças seria alto investimento estatal. Além disso, para manter os bons profissionais nas empresas também seria necessário manter uma economia estável e crescente. “Uma saída que se pode adotar como solução rápida são as alianças comerciais que podem ser feitas com outros países.”


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