Em duas décadas, a China saiu de ser conhecida por ser origem de mão de obra barata e de produtos de qualidade duvidosa, para se tornar a maior potência mundial em tecnologia e produtos de alto valor agregado. Um parceiro estratégico, o Brasil vive um momento ímpar para aprender com as estratégias chinesas.
Fonte: Sputnik
Esta é a opinião do autor dos livros “A China e a Nova Rota da Seda“ e “Quem Tem Medo da China“, doutor em Ciência Política pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Diego Pautasso, e Gustavo Alejandro Cardozo, doutor em desenvolvimento regional e pesquisador sênior do Observa China. Eles abordaram o tema no podcast da Sputnik Brasil Mundioka desta sexta-feira (30).
Desde sistemas de inteligência artificial, desenvolvimento de chips, de infraestrutura de computação, engenharia aeroespacial, energia, à produção de baterias, trens de alta velocidade, aeronáutica, satélites, o gigante asiático não cessa de surpreender quando o assunto é velocidade em inovação.
Ao lembrar que a partir dos anos 1980 o país recebeu multinacionais ocidentais que se utilizaram da grande oferta de mão de obra barata, Pautasso destacou que o regime chinês mobilizou políticas industriais, comerciais e tecnológicas que internalizaram a cadeia produtiva, agregando valor a sua produção, com qualificação da mão de obra e mobilidade social.
“É exatamente esse processo, ao longo dos últimos 30, 40 anos, que fez a China sair de uma produção de baixo valor agregado, de produtos simples e primários […] para se transformar no país que lidera a fronteira tecnológica”, disse ele, que é Co-criador do projeto Fios da China nas redes sociais.
O “grande pulo do gato da China”, frisou, foi criar uma trajetória nova no mercado automobilístico, com investimento em carros elétricos, tornando-a líder nesse mercado.
“Eles dominam das terras raras, passando pelas baterias, imãs e chegam até os veículos elétricos. E com isso eles conseguem, em um só movimento, fazer uma transição na sua mobilidade, por uma mobilidade elétrica e mais limpa, e ao mesmo tempo dominar todo o circuito tecnológico relacionado aos carros elétricos.”
Já o pesquisador do Observa China lembrou que há poucos anos, os carros elétricos chineses não entravam no Mercosul devido à qualidade e atualmente a tecnologia automotriz da China é imbatível. Ele destacou o investimento nas universidades como crucial para alcançar a vanguarda da tecnologia:
“A China está praticamente liderando em áreas estratégicas como ciências dos materiais, químicas, engenharia, energia da computação e inteligência artificial. É um dos maiores emissores de estudantes internacionais do mundo. Os chamados Hai Gui, que estudaram fora, já voltam para a China com esse know-how, esse conhecimento. Então, também colocam as universidades chinesas na fabricação de novas ideias.”
Capacidade de coordenação, investimentos públicos robustos possibilitaram que o país, que tinha 80% da população vivendo no campo em 1980, superasse a réplica de tecnologias estrangeiras para aperfeiçoá-las e criar produtos competitivos, ponderou Pautasso:
“Aqueles que achavam que se tratava simplesmente de pirataria ou de fabricar bugigangas, logo viram a China liderar a inovação em várias áreas […] E, nesse sentido, o papel do planejamento público, do investimento, da visão de longo prazo, do investimento em inovação, ciência e tecnologia cumpriram um papel articulado nesse projeto de desenvolvimento nacional.”
O sucesso chinês, no entanto, é difícil de ser replicado, segundo os entrevistados, pois demanda um governo que não é refém das leis do mercado, tem soberania tecnológica e consegue concluir políticas industriais, comerciais e tecnológicas como política de Estado:
“A China tem um agenda do desenvolvimento tecnológico, que é planificado, e esse planejamento fica de quatro a cinco anos, e eles vão fazendo, digamos, fixando objetivos para alcançar durante esse processo. Eles destinam um pressuposto, esse pressuposto não é alterado, não é que muda o governo, e eles tiram esse pressuposto, ele fica. Então eles têm resultados muito importantes durante esses quatro, cinco anos que vão trabalhando”, explicou Cardozo.
Para Pautasso essa capacidade tecnológica é fundamental para a soberania da tecnologia digital, um dos gargalos aos quais muitos países são submetidos, inclusive o Brasil, cuja ingerência das Big Techs ficou evidente durante as eleições deste ano.
A tentativa frustrada dos EUA de tentar boicotar a produção de semicondutores chineses é exemplo dessa soberania, disse:
“O tiro ianque saiu pela culatra, porque por ser uma economia grande, com capacidade de planejamento, de investimento público, de realização de compras governamentais, com ecossistema de empresas de inovação muito forte, que forma grande quantidade de engenheiros técnicos e especialistas nessa área, acabou por precipitar o desenvolvimento chinês na área de semicondutores”, opinou. “No final das contas, os Estados Unidos tinham maior dependência de produtos críticos da China do que a China de produtos críticos dos Estados Unidos”.
Cardozo também chamou a atenção para a questão milenar da cultura da sociedade chinesa
“A visão chinesa é uma visão muito comunitária, não uma visão individualista como a nossa visão aqui ocidental, por isso, quando um fala com um chinês de democracia, ele não compreende, porque essa obrigação do chinês é para com o seu grupo social e político, eles têm uma obrigação, primeiro com sua sociedade e depois com seu grupo político.”

As estratégias estadunidenses de boicote ao crescimento chinês favoreceram a diversificação do comércio da China, principalmente, em direção ao sul global, na opinião do analista.
Mais recentemente, o país asiático também revelou o avanço vertiginoso no setor de defesa com produção de mísseis hipersônicos, drones, veículos não tripulados, aeronaves, submarinos, porta aviões, entre outras armas de alta tecnologia, bem como modernização das forças armadas que possui o maior exército do planeta.
Com isso, a China criou alternativas sistêmicas no campo econômico, no campo comercial, no campo tecnológico e no campo da governança ao domínio do Atlântico Norte EUA/OTAN/ISRAEL, opinou o Pautasso.
“Relações que obviamente podem ser atravessadas por contradições e assimetrias mas que não são baseadas ou não têm sido baseadas na mesma lógica imperial e do recurso à força. A China não tem interesse em alterar substantivamente as regras do jogo, a não ser no sentido de criar um mecanismo, uma governança mais efetiva, mais participativa, com maior representação dos países do Sul Global.”
A avaliação de Cardozo sobre esse aspecto é similar:
“A Big Data é um aspecto de segurança nacional. Quem controla esse segmento do mercado tem informação muito importante nessa competição ou nesse enfrentamento com outros países de similares características.”
A China, afirmou ele, representa essa alternativa também por compartilhar novas tecnologias que permitem a muitos países que têm outras características socioeconômicas, a incorporar esse know-how.
Brasil como exemplo
Segundo Pautasso, quando a China ainda tinha um Produto Interno Bruto (PIB) abaixo da média mundial e enfrentava sérios problemas sociais e econômicos, na década de 1980, o Brasil era exemplo de país com o maior crescimento industrial no hemisfério sul em ritmo acelerado.
“A China extraiu lições da experiência brasileira, que obviamente também estava atravessada por contradições, mas era um processo bastante virtuoso de conversão de um país agrário num país industrializado de nível médio”, observou ele.
Agora, cabe ao Brasil extrair as lições do atual processo de desenvolvimento chinês, defendeu o entrevistado.
“Cabe ao Brasil também se debruçar um pouco sobre a experiência chinesa […], estudando as melhores práticas para que a gente também possa iluminar um pouco os desafios que temos pela frente.”
Ele ressaltou que a cooperação sino-brasileira com transferência de tecnologia avançou em alguns setores importantes, e destacou o da saúde:
“O Brasil tem o SUS [Sistema Único de Saúde], que garante grande quantidade de compras governamentais. O Brasil se viu fragilizado no seu complexo industrial da saúde. E essa é uma fronteira que a gente pode, a um só tempo, reindustrializar e, ao mesmo tempo, estabelecer cooperação, transferência tecnológica, joint ventures, inclusive aprender com as lições da China”.
Ele também citou os setores ferroviário, rodoviário e metroviário, em que a China teria muito a contribuir e fortalecer em parcerias de transferência de tecnologia.
Cardozo corroborou com a importância da visão de longo prazo para o sucesso de qualquer desenvolvimento e disse que o Brasil tem neste momento uma oportunidade ímpar, principalmente nas áreas de minerais raros, painéis solares, baterias de hidrogênio verde. Para ele, o Brasil, assim como a China faz, precisa focar em investimento tecnológico e industrial articulado com pesquisa acadêmica de forma coordenada::
“O Brasil tem muitas condições para ser uma potência muito importante a nível global em muitas áreas estratégicas. Acho que é a melhor economia neste momento da América do Sul, muito importante […] tem todas as condições para poder criar uma situação que torne, digamos, esse processo muito mais positivo em quanto à absorção desse know-how proveniente da China. Tem muitos pesquisadores brasileiros que vão para a China e voltam, mas muitas vezes as instituições acadêmicas não estão trabalhando nas universidades, ou em centros de pesquisa, não estão trabalhando conjuntamente com as políticas do governo brasileiro”.



