Guiana Francesa se Mobiliza pela sua independência da França ? 

Aumento do contingente militar brasileiro na região norte pode tensionar ainda mais relações entre Brasil e França, vizinhos amazônicos. A Sputnik Brasil conversou com especialistas para saber o que a França esconde no seu território ultramarino. Nesta quarta-feira (7), o vice-presidente executivo da União Europeia, Maros Sefcovic, declarou que “as condições necessárias para a conclusão do tratado com o Mercosul não foram atendidas”, dificultando ainda mais a conclusão das negociações do acordo de livre comércio entre os blocos.

Guiana Francesa se Mobiliza pela sua independência da França ? 

Fonte: Sputnik

Em meio a protestos de agricultores franceses, o primeiro-ministro do país Gabriel Attal, afirmou ser categoricamente contra o acordo com o Mercosul, cuja agricultura é mais competitiva do que a de seus nacionais.

“Não há discussão para a França sobre aceitar ou não o acordo com o Mercosul. A questão é clara: é não e ponto”, publicou Attal na rede social X.

As negativas francesas ao acordo são um golpe para a diplomacia brasileira, que investiu recursos humanos e materiais em cerca de 25 anos de negociações. O estremecimento das relações entre França e Brasil carrega dimensão ainda maior, considerando que os países são vizinhos na selva amazônica, região cada vez mais sensível geopoliticamente, especialmente pela descoberta de grandes jazidas de petróleo.

“A Guiana Francesa tem um valor estratégico para a França por estar no norte da América do Sul, mas principalmente por estar na Amazônia”, disse o professor de Relações Internacionais da Universidade Federal do Amapá (UNIFAP), Paulo Gustavo Pellegrino Correa, à Sputnik Brasil. “Fora as possibilidades de prospecção de petróleo, o interesse geopolítico é claro.”

O fato de a Guiana Francesa ser um território relativamente isolado e com população pequena, de cerca de 302 mil habitantes, pode ser resultado de uma política deliberada por parte da França.

“A França enxerga o território como uma zona de segurança, e não como um local de povoamento”, disse o professor de história da UNIFESP, Iuri Cavlak, à Sputnik Brasil. “As autoridades francesas controlam bastante o território e não me parece que têm interesse em povoar a região, muito menos com população não francesa.”

Segundo o especialista em história das Guianas, cidadãos brasileiros precisam obter visto especial para entrar no território amazônico francês e justificar a sua viagem, “enquanto para ir para Paris basta entrar em um avião”.

O zelo francês em relação ao território também está ligado sobretudo à instalação do Centro Espacial de Kourou, uma base de lançamento espacial estratégica. Criada em 1968, a base é realiza lançamentos da Agência Espacial Europeia (ESA) e de empresas como a Arianespace.

Plataforma de lançamento do Porto Espacial Europeu, no Centro Espacial da Guiana em Kourou, Guiana Francesa. - Sputnik Brasil, 1920, 10.02.2024
Plataforma de lançamento do Porto Espacial Europeu, no Centro Espacial da Guiana em Kourou, Guiana Francesa. © AFP 2023 / Jody Amiet

A economia da Guiana Francesa é totalmente dependente da base, tanto pelo recebimento de royalties, tanto pela atividade que gira em torno da base”, disse Cavlack. Segundo ele, “a base espacial é um mundo a parte. É um condomínio fechado, com shoppings exclusivos, no qual vivem e trabalham muitos especialistas estrangeiros, a maioria franceses”.

“É um mar de riqueza, e os guianenses ficam de fora, vendo o contraste. Isso é um ponto de descontentamento social”, disse Cavlack. “A modernidade da base aeroespacial deveria se espraiar para abarcar toda a sociedade.”

A população franco-guianense é composta por cidadãos franceses e estrangeiros, em parte ilegais, que imigram para o território em busca de pagamento em moeda europeia.

“Mas mesmo os cidadãos plenos muitas vezes se sentem discriminados em relação aos franceses metropolitanos“, relatou Cavlack. “Eles reivindicam maior presença do estado francês, mais escolas, hospitais, incentivo ao trabalho.”

Barcos fluviais através do rio Maroni realizam a conexão entre a cidade de Albina no Suriname e o bairro Charbonniere de Saint-Laurent du Maroni, na Guiana Francesa, 13 de outubro de 2022.  - Sputnik Brasil, 1920, 10.02.2024
Barcos fluviais através do rio Maroni realizam a conexão entre a cidade de Albina no Suriname e o bairro “Charbonniere” de Saint-Laurent du Maroni, na Guiana Francesa, 13 de outubro de 2022. © AFP 2023 / Jody Amiet

As tensões sociais levaram a uma sublevação popular significativa na Guiana Francesa, em 2017, que levou ao bloqueio temporário do território. Na ocasião, a população reivindicou maiores investimentos do Estado francês, além de autonomia para gestão de recursos orçamentários.

“O ocorrido nos lembra muito eventos como a Primavera Árabe: começou com uma reivindicação sobre violência contra os jovens periféricos em Caiena, mas gerou greves de várias categorias profissionais e até da população carcerária”, lembrou Cavlack. Os manifestantes requisitaram que autoridades de Paris fossem ao território negociar um novo status para a Guiana Francesa, e alguns levantaram a bandeira da independência, disse o especialista.

“Tem movimentos de independência, apesar de serem minoritários”, asseverou o historiador. “A ênfase agora é de maior autonomia dentro do sistema francês. Há uma crença de que a França tem uma dívida histórica com o território, uma vez que nunca investiu no seu desenvolvimento.”

Por outro lado, líderes independentistas como Maurice Pinard se reúnem em iniciativas coordenadas pelo movimento dos países não alinhados para reivindicar a separação da França, reportou a mídia do Azerbaijão, que presidiu o grupo em 2023.

“Na Guiana Francesa, cerca de 50 por cento da população vive na pobreza e 40 por cento está desempregada.  Os nossos recursos naturais estão sendo saqueados pela França. Os nossos funcionários também são nomeados pelo governo francês”, disse Pinard durante encontro do Movimento dos Países Não Alinhados.

A então primeira-ministra da França, Elisabeth Borne, com soldados durante visita ao acampamento militar de Dorlin, durante visita  à Guiana Francesa, em Maripasoula, em 1º de janeiro de 2024. - Sputnik Brasil, 1920, 10.02.2024
A então primeira-ministra da França, Elisabeth Borne, com soldados durante visita ao acampamento militar de Dorlin, durante visita à Guiana Francesa, em Maripasoula, em 1º de janeiro de 2024. © AFP 2023 / Jody Amiet

Em entrevista ao portal alemão Amerika21, Maurice Pinard notou a presença da OTAN no território franco-guianense e demais colônias caribenhas, com o objetivo de garantir o acesso ao Canal do Panamá.

“A Guiana é uma base operacional avançada da OTAN. Além disso, não só a França está presente na região, mas também os Países Baixos, que mantêm diversas bases militares nos seus territórios coloniais em Curaçao, Bonaire e Aruba, entre outros. Todas estas áreas servem a política da OTAN, ou seja, dos EUA, na América Latina. Mas a Guiana tem o maior número de militares coloniais per capita”, disse Pinard.

Segundo o Instituto Nacional de Estatística e Estudos Econômicos (INSEE) – organismo oficial francês – um quarto dos franco-guianenses vivem na extrema pobreza, com acesso a menos de 340 euros (R$ 1,815) por mês.

Para os especialistas ouvidos pela Sputnik Brasil, no entanto, a maioria da população ainda considera os laços com a França vantajosos. Para Cavlack, os movimentos por autonomia têm caráter predominantemente cultural, focado no uso de dialetos locais e igualdade de oportunidades para todos os grupos étnicos.

Política externa franco-guianense?

Uma das principais limitações que o território tem é não ter autonomia para conduzir política externa própria que a aproxime dos seus vizinhos sul-americanos. Por exemplo, a Guiana Francesa não esteve representada na Cúpula da Amazônia, celebrada em Belém, em agosto de 2023.

“A Guiana Francesa é uma coletividade da França, com status similar ao de um estado no Brasil. Por isso, eles têm uma limitação muito grande na sua diplomacia”, disse o professor da Universidade Federal do Amapá, Paulo Correa. Apesar disso, durante o início do século XXI, houve um aumento da participação do território em fóruns sul-americanos, como a UNASUL, na condição de observador.

“Os interesses dos países em se sul americanizar é acessar bens de consumo, integração econômica e cultural, que retirariam esses países de um relativo isolamento”, acredita Correa. “Mas a região [do escudo da Guiana] segue de costas para América do Sul, olhando sobretudo para o Caribe e para a Europa.”

Países sul-americanos muitas vezes podem olhar para a Guiana Francesa com certa desconfiança, justamente pela sua afiliação à França, uma potência nuclear considerada estranha à região.

“A França não participa do Tratado de Cooperação Amazônica, por exemplo, por uma decisão de países como o Brasil, que lideraram a negociação do tratado”, apontou Correa. “Eles entendiam que a França era uma potência europeia, que não deveria participar de um tratado pensado para pensar a Amazônia a partir das suas próprias necessidades.”

O temor, no entanto, pode ser recíproco. Segundo Cavlack, “há um medo da população guianense de uma eventual invasão brasileira, algo que ficou no inconsciente coletivo pela invasão portuguesa de 1809″.

“Ainda existem registros de planos de Jânio Quadros para anexar a Guiana Francesa, a fim de providenciar ao Brasil uma saída para o Caribe, mas que não foi levado a cabo”, relatou o historiador.

A grande influência sociocultural da diáspora brasileira na Guiana Francesa e a pujança econômica do maior país da América do Sul também geram desconforto entre muitos guianenses.

Militares brasileiros da Tropa Especial de Selva, Amazônia, 17 de maio de 2017 - Sputnik Brasil, 1920, 10.02.2024
Militares brasileiros da Tropa Especial de Selva, Amazônia, 17 de maio de 2017 CC BY 2.0 / Divulgação / Exército Brasileiro /

“O fato de o Brasil ser gigantesco e ter muitos imigrantes brasileiros na Guiana Francesa levam eles a temer que o Brasil hegemonize culturalmente o território, o que por vezes acaba em xenofobia”, lamentou Cavlack.

Os temores mútuos deverão ser controlados em meio a tensões na região de Essequibo, disputada por Venezuela e Guiana. Nesta semana, o Brasil enviou blindados para a fronteira amazônica, a fim de reforçar a segurança.

De acordo com o comandante general do Exército, general Tomás Paiva, a chegada dos blindados reflete o esforço da força para priorizar a região amazônica. Com mais veículos Cascavel, Guarani e Guaicuru, o Exército Brasileiro triplicou seu contingente militar na fronteira amazônica.


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