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Maria Madalena e o Santo Graal: A Mulher do Vaso de Alabastro (IV) – O despertar do século XII

Posted by on 12/08/2019

O “cristianismo” institucional, que tem alimentado (envenenado) a civilização ocidental há mais de dois mil anos, pode ter sido construído sobre uma gigantesca falha em sua história: a Negação do feminino. Durante muitos anos convivi com uma vaga sensação de que algo estava radicalmente errado com o meu mundo. Sentia que, por um período longo demais, o feminino em nossa cultura vinha sendo desprezado e desvalorizado. Mas foi somente em 1985 que encontrei provas documentais de uma devastadora fratura na história cristã e nos ensinamentos da igreja de Roma. Em abril daquele ano, sabendo do meu grande interesse pelas Escrituras judaico-cristãs e pela origem do cristianismo, uma amiga me indicou o livro The Holy Blood and the Holy Grail”(O Santo Graal e a Linhagem Sagrada).

Edição e imagens Thoth3126@protonmail.ch

Livro “Maria Madalena e o Santo Graal: A Mulher do Vaso de Alabastro”, de Margaret Starbird

https://pt.scribd.com/

CAPÍTULO IV – O DESPERTAR do SÉCULO XII

A versão da história cristã à qual me refiro não é ensinada  “oficialmente” nas igrejas, embora esteja mais próxima da verdade do que a versão ortodoxa (dogmática). O fato é que houve muitas outras correntes anteriores de cristianismo que não sobreviveram (aparentemente). Por exemplo, a Igreja de Jerusalém – da qual Tiago, o irmão de Jesus, foi o primeiro líder – permaneceu bastante judaica em sua orientação e não igualava Jesus a Deus. A comunidade cristã em Jerusalém continuou leal ao Templo e à Tora do judaísmo. Tiago e Pedro, dois dos mais importantes líderes da comunidade de Jerusalém, mostraram-se claramente abalados pela versão do cristianismo ensinada por Paulo. Nas Epístolas de Paulo e nos Atos dos Apóstolos encontram-se evidências de que ambos repudiaram alguns desses ensinamentos.

Os seguidores da doutrina pregada por Paulo começaram até a falar com desprezo sobre a família de Jesus e o grupo original de apóstolos, que, segundo eles, não haviam compreendido (Cristo em) Jesus inteiramente. Essa visão é sugerida em Marcos 3:21, relato segundo o qual a família e os amigos de Jesus achavam que ele havia enlouquecido. Os autores do Evangelho afirmaram também que Jesus repreendeu os apóstolos por terem se mostrado pouco inteligentes. Pedro, em especial, é citado por não ter entendido a necessidade da crucificação e por ter negado Jesus três vezes na noite de sua prisão. Diferentes cristianismos se desenvolveram nos primórdios da Igreja, e acalorados debates entre facções prosseguiram por vários séculos. Após a debandada da comunidade cristã de Jerusalém em decorrência da Revolta Judaica de 66-74 d.C., não havia nenhuma versão autorizada de cristianismo que pudesse se declarar a única fé autêntica.

Com o passar do tempo, algumas seitas foram banidas da Igreja, enquanto outras conseguiram se estabelecer. Os ebionitas, cuja doutrina espiritual se assemelhava à da primitiva comunidade de Jerusalém de Tiago e Pedro, foram mais tarde considerados hereges porque a sua “precária” cristologia não atribuía divindade ao Jesus de Nazaré histórico. Os documentos e ensinamentos das seitas e facções divergentes não sobreviveram aos séculos. Em muitos casos, a única menção aos preceitos heréticos é encontrada na polêmica de um ou outro padre da Igreja que desejava expor o seu erro. Os quatro primeiros séculos da Igreja foram marcados por tumultos, perseguições e interpretações heterodoxas.

Em 325 d.C., o Concílio de Nicéia (*) proclamou que Jesus era o “Filho Unigênito de Deus, Luz da Luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, consubstancial ao Pai”. Isso se tornou o Credo ortodoxo do Império Romano e nenhuma variação era tolerada. Missionários partiram para converter tribos pagãs nas esquinas mais remotas da Europa, pregando o Evangelho como determinado por seu Mestre Jesus e batizando em nome da Trindade: o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Após o decreto do imperador Teodósio que estabeleceu o cristianismo como religião oficial do Império Romano em 380 d.C., as versões que não coincidiam com a recém-empossada hierarquia de bispos foram cruelmente perseguidas e seus ensinamentos destruídos.


{(*) O Primeiro Concílio de Niceia foi um concílio de bispos cristãos, reunidos na cidade de Niceia da Bitínia (atual İznik, província de Bursa, Turquia) pelo Imperador Romano Constantino I em 325 d.C.. Constantino I organizou o concílio nos moldes do senado romano e o presidiu, mas não votou oficialmente. Este concílio ecumênico foi a primeira tentativa de alcançar um consenso na Igreja através de uma assembléia representando toda a cristandade. Ósio, bispo de Córdoba, pode ter presidido suas deliberações. Seus principais feitos foram a resolução da questão cristológica da natureza divina de Jesus e sua relação com Deus Pai; a construção da primeira parte do Credo Niceno; a fixação da data da Páscoa  e a promulgação da lei canônica em sua primeira forma.}


A Idade das Trevas

Por causa dos saques e tumultos ocorridos entre os séculos IV e X na Europa, perpetrados pelas tribos bárbaras – francos, visigodos, celtas, hunos e, mais tarde, nórdicos (Vikings) -, os documentos escritos dessa época tornaram-se relativamente escassos. Há também evidências de que os textos que existiram foram intencionalmente omitidos durante o período que hoje denominamos Idade das Trevas. A maioria das tribos bárbaras da Europa do Leste converteu-se à heresia ariana, uma forma de cristianismo articulado por um indivíduo nascido em Alexandria, Egito,  no século IV; que foi condenado com veemência pelo Concílio de Nicéia. A heresia ariana negava as doutrinas da Santa Trindade e a divindade de Jesus, pregando, em vez disso, a existência de um Deus Todo-Poderoso e de seu filho, um Jesus inteiramente humano. Essa versão do cristianismo se difundiu em toda a Europa do Leste durante os séculos V e VI.

A história da Idade das Trevas já foi incansavelmente reconstruída com o auxílio de documentos encontrados em monastérios e clausuras e também de numerosos achados arqueológicos. Por meio deles, a trágica história dos obscuros reis merovíngios da França veio à luz: Childerico III, o último dos legítimos monarcas dessa linhagem, foi deposto em 751 d.C. por Pepino, cujos descendentes, por intermédio de seu neto Carlos Magno, se tornaram conhecidos como carolíngios. No Natal de 800 d.C., o Papa conferiu o título de Sagrado Imperador Romano ao rei franco  Carlos Magno, que, durante o seu reinado, encorajou as artes e as letras, incluindo a cópia e preservação de manuscritos. Os que viveram nesse período não o chamavam de Idade das Trevas. Os grandes centros da civilização européia eram então a Irlanda celta, a Espanha moura e a costa mediterrânea ao sul da atual França – esta última foi o berço das lendas e da heresia do Sangraal. Essa região era conhecida como Occitânia, Languedoc ou Midi. Atualmente, chama-se Provença.

O Berço do Despertar

Um grande número de estudantes da história européia concorda que o primeiro despertar verdadeiro da Idade das Trevas na Europa não foi marcado pelo Renascimento no século XV, como é costume (os acadêmicos eruditos) afirmar, mas por alguns eventos que ocorreram no Sul da França no século XII. Muitas obras foram escritas sobre a influência das Cruzadas, a troca de idéias entre Oriente e Ocidente, o impacto da arte e do pensamento muçulmanos na região e a ascensão dos artesãos e da burguesia. A região da Occitânia, Languedoc (atual Provença), no entanto; já era uma área de relativos conhecimentos e progresso, muitos séculos antes das Cruzadas, um lugar onde existia um vivo interesse pela arte, pela literatura e pelas religiões islâmica e judaica, além de tolerância em relação a novas idéias científicas e filosóficas.

Essa abertura proporcionou à região da Occitânia, Languedoc uma sofisticação sem paralelo no Norte da Europa continental. Talvez a mais importante de todas as numerosas e profundas mudanças sociais na Europa do século XII tenha sido uma crescente valorização do feminino. Essa transformação radical teve início nesta região, onde as práticas em nada se pareciam com as do resto do mundo medieval, que adotava, basicamente, uma atitude misógina e patriarcal. A hostilidade em relação às mulheres baseava-se na posição firmada pelos padres da Igreja, que era, em parte, originária da história de Adão e Eva no paraíso (Gênesis 1:2).

Os escritos dos patriarcas cristãos, sobretudo os dos “santos” do século V – Agostinho de Hipona (354-430) e Jerônimo (342-420) -, retratavam a mulher como um ser inferior, tanto no aspecto moral quanto espiritual. Teólogos posteriores chegaram até a discutir se a mulher teria ou não uma alma. Mulheres, sexo e corpo humano, assim como todos os prazeres terrenos, foram oficialmente considerados distrações e tentações que poderiam atrair o homem para outras atividades, desviando-o do caminho espiritual. Nos tempos medievais, a maior parte do mundo cristão tinha crenças radicalmente dualistas sobre as mulheres.

A existência material, a carne, o diabo e o sexo feminino eram colocados juntos como a fonte do mal, que impedia os homens de alcançarem a união espiritual com Deus. Para libertar a alma e permitir que ela se dedicasse às atividades espirituais, esses males precisavam ser negados e vencidos. Desejos da carne deviam, se possível, ser repudiados e ignorados. As idéias de Santo Agostinho exerceram enorme influência nas posturas em relação às mulheres e ao sexo e parecem refletir a heresia maniqueísta, assim denominada por ter sido fundada por Mani, que morreu em 227 d.C. Agostinho foi um adepto dessa doutrina até à sua conversão ao cristianismo, aos 39 anos, depois de uma juventude de libertinagem. Mani havia ensinado que o Deus do Antigo Testamento era um deus pela metade, criador do mundo e de todos os males, que retinha os espíritos puros na “prisão” da carne. As mulheres, obviamente, eram consideradas agentes principais dessa perpetuação de desgraças do mundo físico, e a concepção de crianças era desestimulada.  Após a sua conversão, Agostinho tornou-se um importante intérprete da “doutrina” e das Escrituras católicas, trazendo consigo resíduos de sua antiga visão de mundo dualista e misógina.

Na Europa medieval, as mulheres não tinham direitos legais e viviam sob a tutela dos pais ou maridos. Excluídas da vida civil e também impedidas de possuir propriedades, eram meras servas. A única exceção significativa era a atitude que o povo do Sul da França mantinha em relação a elas. Nessa região, desde antes do século X, as mulheres recebiam feudos e domínios por direito de herança. As razões para isso podem ter sido os fortes laços do povo com as práticas romanas igualitárias ou com tradições tribais ainda mais antigas. Contudo, suspeito de uma razão ainda mais óbvia. Desde o alvorecer da cristandade, essa região teve uma expressiva história de honra ao sexo feminino. Nos séculos XI e XII, as mulheres de Provença eram alvo de consideração especial. Um exemplo clássico de “mulher liberada” no mundo medieval era Eleanor de Aquitânia (1122-1204), cuja notoriedade e poder como esposa e mãe de reis abalou a Europa por várias décadas.

As Cruzadas são sempre citadas como catalisadoras do novo despertar da cultura européia, após o longo período da Idade das Trevas. Contudo, centenas de anos antes dessas expedições, Provença havia mantido uma iluminada relação com centros de estudos mouros e  judaicos na Espanha e no Norte da África, o que fez com que sua próspera cultura sofresse a influência do modo de vida liberal e tolerante desses povos. Na verdade, grande parte da área de Provença fora incluída no reino judaico de Septimânia, no século VIII, sob o comando de Guillem de Gellone, um príncipe judeu descendente dos merovíngios. E essa região também fora, por vários séculos, o centro de um culto de Maria Madalena (culto ao Feminino sagrado), como pode ser confirmado no grande número de capelas, fontes, nascentes e outros marcos que exibem o seu nome. Madalena era a santa padroeira de jardins e vinhedos, a mediadora da fertilidade e da beleza, a alegria da vida. Eram seus os antigos domínios das Deusas do Amor da Antiguidade. Não foi por acidente que o culto da Rosa (rose, em francês, um anagrama de Eros) floresceu e se desenvolveu no jardim de Provença.

Quando Pedro, o Eremita, monge que estimulou a primeira Cruzada, pregou nas cidades da Europa na última década do século XI, declarou que era hora de uma “guerra santa” para recuperar Jerusalém, que estava sob o domínio dos sarracenos. Ele estava, figurativamente, carregando uma ampulheta. Um milênio havia se passado desde a destruição do Templo de Jerusalém pelos romanos, que o queimaram no século 70 d.C, arrasando toda a cidade. Pedro anunciou aos centros da Europa que havia chegado a hora de restaurar a Cidade Santa e reconstruir o Templo. Seu plano secreto e de seus influentes amigos era colocar no trono de Jerusalém um descendente da casa de Davi e, dessa maneira, “ajudar” Deus a cumprir a profecia do milênio de paz profetizada nas Escrituras hebraicas. Todos os cavaleiros da Europa capazes de empunhar armas embarcaram para a Terra Santa, alguns a pé, outros em navios. No ano de 1099, seu sonho finalmente se concretizou: os sarracenos foram vencidos e Godofredo de Lorena, um nobre que, como vimos, era provavelmente de origem merovíngia, recebeu o título de rei de Jerusalém.

O grupo que havia orquestrado esse plano parecia satisfeito com os resultados de seu golpe político. Com um descendente de Davi finalmente no trono, muitas histórias, poesias e canções – e também as próprias lendas sobre o Graal – começaram a proliferar. Por toda a cristandade, uma cultura emergente exaltava o popular herói Godofredo, os cruzados e Nossa Senhora. As sementes dessa cultura, originariamente levadas para o sul da Europa por Maria Madalena, haviam germinado no solo fértil de Provença. Um dos aspectos mais importantes do período das primeiras Cruzadas é a história da rápida ascensão e seu eclipse mais tarde da amplamente poderosa Ordem dos Cavaleiros Templários. Essa organização de monges-guerreiros, formada oficialmente nas primeiras décadas do século XII, após a reconquista de Jerusalém, foi prestigiada por papas e reis por quase dois séculos, antes de ser aniquilada sob a acusação de heresia na primeira década do século XIV.

Os autores de O Santo Graal e a linhagem sagrada pesquisaram exaustivamente as origens e a história dessa ordem. Concluíram que ela esteve intimamente envolvida com as seitas heréticas da cristandade que acreditavam que Jesus era completamente humano, que havia se casado, que seu sangue real ainda fluía nas veias das famílias nobres de Provença e que as promessas messiânicas das Escrituras hebraicas um dia seriam cumpridas por um descendente dele. Muitos desses cavaleiros pertenciam a famílias nobres de Provença, uma área que sempre se mantivera afastada das doutrinas oficiais da igreja de Roma.

Os Hereges de Provença

O Evangelho alternativo – a heresia ariana e, mais tarde, as heresias cátara (Cátaros, catarismo, do grego καϑαρός, katharós, “puro”) e valdense – floresceu em Provença nos primeiros 12 séculos da cristandade. Embora os dogmas dessas doutrinas apresentassem diferenças, um aspecto sempre ficou claro: essa região nunca aceitou a versão ortodoxa e a doutrina do catolicismo romano e o seu credo. E tinha seus motivos. O termo “albigense” foi cunhado em 1165 d.C., após a realização de um concílio da Igreja na cidade de Albi, para promulgar um decreto condenando os hereges do Midi – em particular, a seita dos cátaros. Com base nessa determinação, os hereges de toda a região foram, de maneira indiscriminada, denominados albigenses, sem que se levassem em conta os dogmas da heresia da qual eram adeptos. Os habitantes desse lugar mostravam-se tolerantes em relação às culturas judaica e moura, desejando compartilhar de suas tradições filosóficas e misteriosas e criticar a hierarquia da Igreja oficial romana, da qual vários sacerdotes, como é amplamente admitido, eram culpados de corrupção e abusos de todos os tipos praticados nos séculos XI e XII.

Com freqüência, parecia haver uma lacuna entre seus ensinamentos e sua prática dos Evangelhos. Toda a costa sul da Provença banhada pelo Mediterrâneo fermentava com a estimulante troca de informações da época, e “liberdade” era o grito de guerra. As famílias de Provença não eram aliadas do rei da França nem desejavam estar submetidas a Roma. Sua característica principal era a independência.

A Fé dos Cátaros

Os cidadãos da região, sobre os quais a heresia cátara teve uma influência ainda maior no século XII, eram simples agricultores e camponeses. Essas pessoas ouviam os sermões dos pregadores itinerantes, os cataris, denominados “os puros”, que iam até elas e trabalhavam (algo que os padres da igreja de Roma não tinham como hábito, o trabalho) em seus campos, compartilhavam de seu pão e doutrinavam, estimulando-as a levar uma vida simples e segundo o espírito de humildade de Jesus. Conhecidos como “os crentes”, eles acreditavam que a sua versão do cristianismo era mais pura e mais antiga do que a corrente ortodoxa dogmática de Roma, além de estar mais próxima dos ensinamentos de Jesus e dos apóstolos.

Eram, em sua maioria, vegetarianos e pacifistas, adeptos de um tipo de cristianismo carismático, similar ao descrito nos primórdios da Igreja em Atos dos Apóstolos. Os poucos documentos que sobreviveram à censura da Inquisição comprovam que a prática cátara do cristianismo tinha raízes remotas e puras, refletindo o vigor dos cristãos primitivos em seu desabrochar. As acusações de maniqueísmo e dualismo radical dirigidas pela Inquisição contra essa seita eram, com toda certeza, exageradas. Não há nenhuma menção a Mani nos documentos cátaros remanescentes. Parece mais provável que as verdadeiras raízes do catarismo estejam na prática cristã do primeiro século e que elas tenham se desenvolvido com base no mesmo dualismo apocalíptico das seitas judaico-cristãs e da comunidade do deserto de Qumran.

O interesse dos cátaros pela vida espiritual e a sua falta de entusiasmo pela instituição do casamento – união que condenaria o espírito a uma existência carnal – refletiam as crenças das comunidades apocalípticas judaico-cristãs daquele século. São Paulo e os primeiros adeptos do modo de vida cristão acreditavam que o fim dos tempos estava tão próximo que o casamento não fazia sentido. Famílias nobres que aderiram abertamente à fé cátara e que conseguiram sobreviver refutaram as acusações dos inquisidores de que os membros da Igreja herética tentavam desvalorizar a instituição da família, condenando o matrimônio e a concepção de filhos. É mais provável que eles se recusassem a se casar em cerimônias da igreja romana  por julgarem que tais celebrações não eram válidas ou necessárias. Pelo mesmo motivo, essas pessoas não aceitavam o batismo da igreja romana.

Os cátaros pregavam um estilo de vida simples e uma fé radical na presença e orientação permanentes de Deus. Não era preciso ter laços com o maniqueísmo para acreditar que o demônio era um “Príncipe deste mundo”. Palavras de Jesus demonstram que essa também era a sua crença (João 12:31). Os cátaros não parecem ter sido maniqueístas, mas adeptos dos textos literais dos Evangelhos, dos quais cada família possuía uma cópia. Para esses hereges albigenses, a fé não era uma doutrina em que se devia acreditar, mas uma vida a ser vivida. Eles chamavam a si mesmos de cristãos. Fundamental aos ensinamentos da Igreja do Amor – outro nome para a Igreja alternativa – era uma profunda devoção a Jesus, o Portador da Luz, à sua mãe e aos seus amigos.

Enquanto a Igreja de Roma ensinava obediência às regras por ela estipulada e a observância rigorosa de suas leis, dgmas, doutrinas e proibições, a Igreja do Amor (“Roma” de trás para frente!) ensinava que a vida de cada indivíduo deveria ser transformada em algo sagrado pela ação do Espírito Santo na sua mente e no seu coração. Seus adeptos honravam Jesus como profeta, sacerdote, rei e Messias – um agente totalmente humano e o Filho Ungido de Deus. Mas entendiam o seu próprio papel como recipientes terrenos desse mesmo Espírito Santo. Tinham consciência do conteúdo mitológico e místico dos ensinamentos de Jesus como um caminho para a santidade e a transformação, bem como das conexões desse conteúdo com todo o fluxo de revelação e pensamento religioso do mundo clássico. Para eles, o mergulho na água batismal e a presença na missa aos domingos não eram suficientes para a salvação.

Sua religião era uma prática da presença de Deus e do crescimento diário das virtudes da caridade, humildade e serviço ao próximo, cujos modelos eram a vida e os ensinamentos do próprio Jesus. No Midi, o antagonismo com a Igreja Católica era amplo e profundo. Em Provença e em muitos outros lugares, sabia-se que a hierarquia da Igreja institucional não vivia segundo a mensagem do Evangelho. Freqüentemente, os clérigos exploravam os pobres e levavam uma vida de relativo luxo, nunca trabalhavam enquanto os paroquianos passavam fome. As seitas albigenses eram claramente anticlericais e antieclesiásticas. Os cátaros formaram a sua própria Igreja em oposição ao que acreditavam ser falsos os ensinamentos de Roma. Eles repudiavam o ritual da missa e também a cruz, que consideravam um instrumento de tortura, que não poderia ser alvo de veneração. Afirmavam que a sua Igreja havia conservado o Espírito Sagrado, conferido aos apóstolos originais no Pentecostes e passado adiante por meio da imposição de mãos, o único ritual que julgavam autêntico.

Sua oração fundamental era o Pai-Nosso, presente no Evangelho de Mateus. O ritual cátaro, sobre o qual há dois textos remanescentes, demonstra que os adeptos dessa seita possuíam documentos antigos diretamente inspirados pela comunidade cristã primitiva. Os cátaros não precisavam de um sacerdote para realizar cultos nem de um espaço físico para guardar artefatos e relíquias. Sua fé era praticada nas casas e nos campos. Desprezavam a necessidade de igrejas, relíquias e sacramentos. Entre eles, homens e mulheres eram considerados iguais, e a mulher tinha o direito de herdar e possuir propriedades. As mulheres também podiam pregar, uma prática que havia começado na comunidade cristã primitiva mas que foi abandonada pelo catolicismo romano.

A fortaleza Cátara de Montsegur (estivemos lá)

Isso refletia a consideração que as mulheres, inclusive Maria Madalena, já haviam merecido quando a igreja romana ainda engatinhava. Os pregadores cátaros, de ambos os sexos, viajavam pelos campos aos pares, exatamente como faziam os discípulos de Jesus na Palestina, partilhando a comida, trabalhando lado a lado com os pobres e pregando a vida simples e pura dos espiritualmente iluminados. São Domingos e, mais tarde, São Francisco de Assis ficaram tão impressionados com os métodos cátaros de evangelização que os tomaram como exemplo para seus frades mendicantes, determinando que fizessem votos de pobreza e caridade. Uma característica extraordinária dos cátaros era a sua insistência em ver a Bíblia traduzida para o seu dialeto, denominado língua d’oc, e fazer com que as pessoas aprendessem a ler os Evangelhos de Jesus em seu próprio idioma. Para isso, diversas fábricas de papel foram instaladas em toda a região, impulsionando o ressurgimento da arte, do pensamento e das letras em toda a Europa. As crianças cátaras eram alfabetizadas, e as meninas tornavam-se mais letradas do que os meninos. Provença era uma região iluminada.

Em 1209, a igreja romana lançou uma cruzada contra a Provença, inclusive contra os nobres que ali viviam, muitos dos quais eram adeptos da heresia cátara. Aliados do rei da França, os exércitos do Papa, devastaram o Midi por toda uma geração, e sua vitória culminou em um massacre no castelo de  Montségur, um seminário cátaro. Nesse lugar, em 1244, um grupo de hereges sitiados acabou vencido, e as mais de duzentas pessoas que se recusaram a repudiar suas próprias crenças foram queimadas vivas. A espinha dorsal do que fora conhecido como catarismo acabou sendo quebrada pela Cruzada Albigense, denominação desse terrível episódio, e a florescência que havia começado no século XII foi arrancada ainda em botão. A Inquisição, instituída formalmente em 1233, interrogou com crueldade e condenou os hereges, executando milhares deles. Os registros desse tribunal eclesiástico nem sempre esclarecem quais eram as crenças heréticas consideradas tão ofensivas pelos padres de Roma. Na verdade, a maior parte dos documentos da heresia albigense foi destruída.

Naturalmente, não era e nunca foi do interesse do Vaticano e do seu braço forte, a Inquisição, guardar escritos que poderiam divulgar exatamente as doutrinas que eles tentavam, a todo custo, destruir. Ao examinarmos a Cruzada Albigense, fica bastante claro que ela foi uma tentativa de forçar uma região inteira a aceitar a ortodoxia de Roma e de destruir as famílias que resistissem. Desde que o pensamento, a cultura e as crenças de Provença foram considerados divergentes da versão ortodoxa da fé, houve numerosas tentativas de eliminá-los. A verdade é que a região inteira se opunha, por motivos diversos e de muitas formas, à hegemonia da Igreja de Roma. Nós já discutimos um aspecto fundamental desse profundo desencanto com a Igreja oficial: a crença de que Jesus era casado e tinha herdeiros era natural na região de toda a Provença. Acreditava-se que Maria Madalena vivera naquela terra e fora enterrada ali com seu irmão, sua irmã e vários amigos próximos. O mesmo aconteceu com as genealogias secretas das famílias nobres locais.

Após a Cruzada Albigense, filhas sobreviventes das famílias nobres do Midi foram forçadas a casar-se com pessoas do Norte, provavelmente para dissipar as reivindicações de certos clãs do Sul de que eram os únicos a carregar em seu sangue a linhagem dos reis merovíngios (descendentes de Maria Madalena e de Jesus). Isso não era novidade, uma vez que, para consolidar sua pretensão ao trono dos francos, o próprio pai de Carlos Magno havia desposado uma princesa merovíngia. O florescimento do princípio feminino em Provença tinha uma causa específica, amplamente negligenciada pelos historiadores (os “eruditos” de sempre), que sugeriram que os cruzados restabeleceram as novas tendências do Oriente Médio: os adeptos da oculta Igreja do Graal acreditavam que era hora de reclamar sua herança e tornar pública a sua versão da fé cristã.

O rei de Jerusalém era um descendente de Davi. O ungido davídico recebera a oferta do trono de seus pais, na pessoa de Godofredo de Lorena, em 1099. Depois que o herdeiro de Godofredo de Lorena foi nomeado rei de Jerusalém, poetas tornaram-se mais livres para falar das histórias e lendas do Santo Graal, e um grande número de contos sobre o assunto começou a surgir. Os poetas que viviam nas cortes da Europa sentiam-se, finalmente, livres para expor suas narrativas, procurando mencionar o prestígio e o importante papel da Família do Graal. As histórias de Parsifal e sua busca pelo Santo Graal eram ouvidas em todas as cortes. As lendas do rei Artur, escritas pela primeira vez por Nennius, um clérigo galês do século IX, começaram a se disseminar em todas as direções – sempre com a busca pelo Graal como assunto subjacente.

Entre os poetas da corte do século XII que criaram os primeiros épicos sobre o tema estão Guiot de Provins, Robert de Boron, Chrétien de Troyes, Walter Map e Wolfram von Eschenbach. Para alguns, a primeira versão da história do Graal já era conhecida dos mouros, na Espanha, e, mais tarde, chegou à França. Mas o Sangraal original das lendas do francês antigo é um mito cristão distinto, bem anterior à presença moura na Espanha e até à fé islâmica. É natural de Provença. Como vimos, as primeiras lendas indicam que o Santo Graal foi conduzido a Les-Saintes Maries-dela-Mer, na costa mediterrânea, em 42 d.C. Tempos depois, ele pode ter sido associado às histórias celtas, também nativas da Europa, sobre o mágico caldeirão de Bran; porém, esse recipiente não é chamado de Santo Graal – nome que é reservado especificamente ao cálice ou “receptáculo” que guardou o sangue de Cristo.

Os Trovadores

Um interessante aspecto da Cruzada Albigense de Roma contra os sectários Cátaros de Provença é o destino dos trovadores. Esses cantores e compositores dos séculos XII e XIII enalteciam as virtudes de sua “Senhora” – uma mulher que era, sob todos os aspectos, bela e adorável, cujos servos eles desejavam ser, cujos favores desejavam obter e cujas qualidades eles não poderiam deixar de cantar. Ela era freqüentemente chamada de Dompna nas canções, palavra em língua d’oc para Domina, que, em latim, é o feminino de Dominus, ou “Senhor”. (O título mais comum dado a Jesus nas liturgias latinas da Igreja Católica é Dominus.) A Dompna (Senhora) dos trovadores era a fonte da alegria e do entusiasmo de suas vidas, seu objetivo para tomar nas mãos a cruz dos cruzados e devolver a Terra Santa à cristandade. Ela era sua mentora e patrona. Várias vezes apresentavam-na como um amor secreto, embora cantassem suas qualidades em voz alta! E tudo o que sabiam sobre ela era mantido em segredo, inclusive o seu nome. Tratava-se, simplesmente, da “Senhora”. O trovador mostrava-se como seu vassalo humilde e obediente, aquele que lhe jurou segredo e fidelidade. Sua única remuneração: tornar-se enobrecido por sua associação com a sua Senhora. Exemplos desse sentimento são freqüentes nas poesias dos trovadores, como podemos ver nesses versos de uma canção do poeta Arnaut Daniel, do século XII:

A cada dia sou melhor e mais puro, pois sirvo à senhora mais nobre do mundo, e a venero, digo isso a todos.

Os sentimentos de adoração a Dompna eram tão comuns que alguns estudiosos já sugeriram que talvez estivessem todos cantando louvores à mesma Senhora ou a um ideal “feminino”, e não a uma mulher em particular (embora muitos poemas fossem claramente endereçados a uma mentora ou amada específica). Estudiosos modernos que se dedicaram ao gênero das canções de amor dos trovadores de Provença chegaram a dizer que os poetas eram cátaros não-declarados e que essa Senhora era o próprio culto ou a heresia, a Igreja do Amor que lhes dava consolo e inspirava suas obras. Denis de Rougemont, em particular, é citado como um indicativo dessa tese.

O trovador Peire Vidal louvava e agradecia a certas cortes em Provença por sua generosa hospitalidade. Todas elas eram conhecidas por terem sido uma “casa-mãe” para a heresia cátara. É verdade que esses artistas foram interrogados por enviados especiais do Papa e, mais tarde, pela Inquisição, criada com o claro objetivo de identificar hereges em Provença, como de fato ocorreu com os menestréis. Em 1209, o trovador Gui D’Ussel recebeu de um emissário do Papa o aviso de que deveria parar de compor. Muitos trovadores foram exilados, enquanto outros modificaram suas canções. E a Senhora acabou se tornando idealizada e imortal, um princípio feminino eterno ou, freqüentemente, a “Virgem Santa Maria” (desde modo escapando da vigilância do Vaticano). Mas a Santa Maria original dos poetas da corte era, sem dúvidas, ao feminino sagrado, representado pela “Senhora” da região, onde capelas dedicadas a Maria Madalena são comuns e onde o seu culto começou a florescer no final do século VIII. Ela era a sua Domina, a contrapartida feminina de Dominus, o Senhor – não uma prostituta, mas uma Dama, uma Senhora.

O Culto Crescente da Virgem Mãe

A civilização que florescia no século XII, sob o pacífico abrigo de Nossa Senhora (do culto ao Feminino Sagrado), encorajou os estudos de astronomia e matemática, medicina e misticismo, arte e arquitetura. Essas áreas de conhecimento, que incluíam a antiga prática da geometria sagrada, foram enriquecidas pelo contato com a altamente desenvolvida civilização islâmica. Em breves 120 anos, entre a volta dos veteranos da primeira Cruzada até a Inquisição dar início à repressão, a civilização medieval prosperou e se desenvolveu. No século XIII, percebendo o perigo que correria caso permitisse a circulação de rumores sobre o casamento de Jesus e a existência de seus descendentes, a Igreja de Roma agiu com rapidez e firmeza para assegurar que a mulher venerada pelos fiéis fosse a mãe de Jesus, e não a sua esposa. Todos os cristãos honravam a Virgem Mãe e buscavam consolo em sua intervenção.

Entre os muitos santuários (disfarçadamente) a ela dedicados distingue-se a Catedral de Chartres -lugar de um antigo culto à Madona Negra -, erigida ao redor da estátua conhecida como “Nossa Senhora Subterrânea”, localizada em uma cripta. Peregrinos visitam o local (um antigo templo pagão) com o agora santuário de Nossa Senhora em Chartres desde os tempos que precederam o cristianismo. Hoje, eles continuam a afluir em busca das águas curativas do “Poço dos Fortes”, na cripta onde a estátua original da Madona, destruída no século XVI, fora entronizada. Segundo as lendas, esse santuário, dedicado à Deusa-Mãe, tão freqüentemente reverenciada em um poço ou fonte, foi considerado sagrado pelos druidas muito antes de surgirem os católicos e os cristãos o o adotarem. Sancionado pela Igreja de Roma, o culto de Nossa Senhora (incluindo misticismo, curas e transformação) floresceu na escola medieval em Chartres, que se tornou um importante centro de conhecimentos, lugar de um culto a “Maria-Sofia”, Deusa da Sabedoria. A catedral atual, construída entre 1194 e 1220 sobre a gruta sagrada onde estava a estátua, é um monumento gótico à doutrina do perfeito equilíbrio e da harmonia.

Louis Charpentier, um literato místico que estudou profundamente a Catedral de Chartres, acredita que os cavaleiros templários tenham sido os responsáveis por seu projeto e edificação, assim como por outras construções erguidas na França entre 1130 e 1250. A Ordem dos Cavaleiros Templários criou uma ampla rede de empreendimentos, incluindo edificações e fazendas, que impulsionou a economia das cidades francesas, promovendo uma grande prosperidade na região. Como o próprio nome indica, seu trabalho mais importante era a construção de monastérios, igrejas e catedrais. Acredito que essa atividade tenha sido a principal forma encontrada por eles para restaurar o princípio feminino na sociedade medieval.

Os Construtores dos Templos

Já foi sugerido que os cavaleiros templários tinham acesso à sabedoria esotérica do mundo clássico, provavelmente preservada em fontes islâmicas que os membros da ordem encontraram no Oriente Médio. O seu conhecimento de matemática e engenharia deu origem ao estilo gótico de arquitetura, que se disseminou por toda a Europa, quase da noite para o dia, como se cumprisse um planejamento, no período de 1130 a 1250. O delicado equilíbrio entre reentrâncias e ressaltos e a harmonia na utilização das pedras nessas catedrais, muitas das quais dedicadas a Nossa Senhora, revelam conhecimentos de geometria e de tecnologia de construção bastante superiores aos que haviam sido empregados anteriormente na Europa. Parece existir uma forte ligação entre os cavaleiros templários e o desenvolvimento das confrarias e associações maçônicas que edificaram as catedrais góticas da Europa. Esses cavaleiros planejavam e financiavam os templos, e várias corporações e associações de construtores eram formadas para erigi-los. Acredita-se que esses grupos tenham registrado os dogmas de sua fé no interior das edificações por meio da linguagem da matemática e da simbologia. O mais importante desses dogmas era o princípio cósmico da harmonia entre as energias masculina e feminina.

Muitos dos segredos dos templários ainda deverão ser descobertos com a análise das medidas e dos detalhes de suas edificações. As corporações que construíram Chartres e outras catedrais francesas desse período chamavam a si mesmas de “Filhos de Salomão”, uma referência clara ao filho do rei Davi, que ergueu o primeiro templo judaico de Jerusalém. Mas o nome tem associações mais profundas. Salomão era também conhecido por sua sabedoria, e é a ele que se atribui a autoria do Cântico dos Cânticos, a canção de amor do  hieros gamos do mundo antigo. O Livro da Sabedoria também afirma que Salomão buscou a Sabedoria como sua noiva. Assim, o nome da associação de construtores que erigiu a catedral nos remete à tradição de sabedoria do antigo povo hebreu. E sua atividade era a construção de templos que restaurariam o princípio feminino no mundo medieval. As impiedosas campanhas da Inquisição contra a heresia albigense e as importantes famílias de Provença, muitas das quais também eram templárias, rapidamente sufocaram o florescimento do feminino e de seus ramos na arte e na ciência.

Louis Charpentier, no livro The Mysteries of Chartres Cathedral (Os mistérios da Catedral de Chartres), observa que o espírito que inspirou a construção das autênticas catedrais góticas desapareceu misteriosamente após 1250, embora cópias gritantes e bem feitas desse estilo continuassem a ser erguidas. Talvez possamos explicar essa enigmática fuga do Espírito. O ano de 1250 corresponde ao crescimento do poder dos inquisidores, à tomada de Provença e à destruição da fortaleza cátara de Montségur. Não é de admirar que o Espírito tenha partido! As tentativas posteriores de resgatar, honrar e venerar o feminino sofreram uma repressão severa; e místicos, artistas e cientistas da Igreja herética foram forçados a buscar seus interesses dissimuladamente. Disciplinas como medicina, alquimia, astrologia e psicologia, que antes floresciam, viram-se obrigadas a se esconder, condenadas como “ocultas”.

Mas muitos monumentos dos séculos XII e XIII ainda dão o seu testemunho da iluminada mentalidade de seus arquitetos e construtores. Um livro de Fred Gettings discute um dos exemplos mais fascinantes da geometria “oculta”, encontrado na Igreja de São Miniato, construída em 1207, em Florença, na Itália. Essa igreja possui um mosaico zodiacal no chão de mármore e uma inscrição codificada que, segundo o autor, mostra que a edificação foi intencionalmente orientada em direção à rara stellium, uma conjunção dos planetas Mercúrio, Vênus e Saturno no signo de Touro, que ocorreu no fim de maio de 1207. O fato de ter sido possível representar esse alinhamento com tanta acuidade indica que a sabedoria secreta dos antigos estava à disposição do projetista de São Miniato. Além disso, esse alinhamento revela que a prática da astronomia era importante na Europa medieval. A astrologia era uma das artes ensinadas na escola de Chartres nos séculos XII e XIII.

O estudo da astronomia permitia que as pessoas cultas contemplassem as leis do universo e o grande desenho do Geômetra Divino, o Criador. A moldagem de “mapas de fundação” para as catedrais da Europa Ocidental foi uma tentativa de alinhar as estruturas e os planos para a cidade de Deus na Terra com a ordem eterna do cosmo, refletida nos movimentos dos planetas. A geometria sagrada, criada para refletir a ordem dos corpos celestes, era uma arte, uma ciência antiga, praticada abertamente na arquitetura dos templos durante vários séculos antes que a Inquisição a forçasse a se transformar em uma prática oculta. A fé dos templários celebrava o equilíbrio cósmico dos opostos, incorporando-o à construção das catedrais. Os magníficos vitrais com rosas são outro exemplo do feminino ressurgente entre os que desenhavam as igrejas medievais para honrar a Notre-Dame. Além disso, os ciganos dessa época acreditavam que as catedrais góticas do Norte da França haviam sido intencionalmente posicionadas para formar uma imagem espelhada da constelação de Virgem traçada no solo da França.

Embora a veneração da Noiva/ Esposa de Jesus tivesse sido oficialmente suprimida pela Igreja Católica, santuários dedicados à Virgem Maria continuaram a surgir, atraindo peregrinos de toda a Europa. O culto do feminino atingiu o apogeu ao nomear Maria a Rainha Virgem do Paraíso. Contudo, se por um lado a Virgem Maria representa de maneira adequada o aspecto maternal do feminino, a doutrina de sua virgindade perpétua nega, implicitamente, o aspecto de esposa. Por mais bela que seja essa mãe, fica claro que uma pessoa muito real e preciosa está faltando na história cristã. Essa pessoa é a Noiva/ Esposa.

O Templo da Noiva

O fascinante livro The Holy Place (O Lugar Sagrado), publicado em 1991 por Henry Lincoln, descreve a prática da geometria sagrada pelos templários medievais. O autor relata que, no berço da heresia – a área que cerca Rennes-Le-Château, em Provença -, existem cinco montanhas que formam uma estrela de cinco pontas perfeita, além de uma sexta montanha, localizada exatamente no centro dessa estrela. Segundo Lincoln, os habitantes da região consideravam tal formação um templo natural da Deusa do Amor. A configuração desse templo geográfico estimulou os proprietários de terras e a nobreza locais a construírem fortificações e capelas seguindo um alinhamento que forma perfeitas estrelas de cinco e seis pontas no chão. Isso pode ser constatado quando se desenham em um mapa as edificações ainda existentes, bem como as ruínas, exatamente o que Lincoln fez. Esse livro fornece impressionantes evidências da prática da geometria sagrada na região, no culto de sua Domina, a Madalena.

Quando o Vaticano e o rei francês Filipe IV resolveram acabar com a Ordem dos Cavaleiros Templários, em 1307, os poucos que conseguiram escapar se mantiveram incógnitos. Um grande número deles reapareceu, tempos depois, na Escócia. Quatro séculos mais tarde, muitas das doutrinas dessa ordem renasceram na fraternidade secreta dos maçons. Há numerosos fósseis da verdade que ligam os modernos maçons aos templários. Esse material é tão relevante na busca pela Noiva Perdida de Jesus que merece um exame mais cuidadoso.

A Maçonaria e os Templários

A moderna maçonaria baseia-se firmemente no simbolismo do templo que Salomão ergueu no Monte Sião, no século X a.C. Essa construção foi erigida com a ajuda de Hirão de Tiro, o artesão que criou as duas colunas gêmeas (Jaquim e Boaz, representando o masculino e o femino sagrados, os dois princípios criadores primordiais), os cálices sagrados e outras ornamentações registradas em 1 Reis 7:13-50. Hirão era o protótipo do alquimista medieval. Tais alquimistas eram conhecidos como “trabalhadores do metal”.

Seja qual for a ligação entre eles, os cavaleiros do Templo, o ofício da construção e o desenvolvimento posterior da maçonaria “especulativa”, o fato é que todos partilhavam os mitos e segredos ligados à restauração do equilíbrio e o plano de reconstruir o Templo aniquilado. A corporação dos pedreiros que construiu Chartres e outras catedrais góticas se autodenominava “Filhos de Salomão”, como vimos anteriormente. Outro epíteto similar, “filhos da viúva”, tem presença importante nos rituais da maçonaria moderna, fornecendo um dos fósseis que ligam os maçons modernos à heresia do Graal.

Parsifal, o herói da poesia sobre o Graal, de autoria de Wolfram von Eschenbach, é chamado de “filho da senhora viúva”. Além de fazer alusão à desolada “Viúva Sião” no Livro das Lamentações, esse epíteto é encontrado como uma referência à linhagem real judaica do rei Davi. Na ascendência desse soberano, há Rute, a viúva moabita que acompanhou sua sogra à Judéia e, mais tarde, casou-se com um parente de Naomi, Boaz. O rei Davi era seu bisneto. É interessante observar que os devotos da deusa mediterrânea Ísis também eram denominados “filhos da viúva” em antigas referências.

Já falamos sobre a associação artística entre Maria Madalena e Ísis, a “Deusa do Paraíso na Terra”, que chorou sobre o corpo mutilado de Osíris e concebeu um filho dele. Aqueles que sabiam sobre o SanTo Graal parecem ter estendido o epíteto “filhos da viúva” a todos os descendentes da viúva de Jesus – que, por sua vez, era uma “muda, um renovo, um novo ramo” ou descendente de Davi. O mito da supremacia e do status da casa de Davi “floresceu” entre as famílias dos templários.

Hiram de Tiro e as Colunas Gêmeas

Hiram, o mestre arquiteto do Templo de Salomão, é também outro “filho da viúva” (1 Reis 7:13). Sua figura bíblica é importante no ritual da maçonaria, que, nos seus mitos fundamentais e nos seus ritos de iniciação do terceiro grau, o chama de Hiram Abiff. Hiram de Tiro, o filho da viúva, construiu as duas colunas de metal do Templo, denominadas Jaquim (“estabelecido”-princípio masculino), à direita, e Boaz (“força”-princípio feminino), à esquerda (1 Reis 7:21). Em hebraico, que é lido da direita para a esquerda, o significado das colunas é “estabelecido em força”. Em razão do seu simbolismo, ambas tornam-se muito importantes em nossa discussão sobre a viúva de Jesus e a videira da linhagem davídica. Elas sempre reaparecem e são encontradas entre as marcas-d’água dos hereges, que discutiremos no próximo capítulo. No ritual maçônico, o mito fundamental de Hiram é uma referência, sutilmente disfarçada, a outro mestre da arquitetura, que foi morto de maneira abominável e cujos planos para o Templo ou foram roubados ou perdidos. É necessário observar que o Novo Testamento grego não chama Jesus de carpinteiro, mas de tekton (Marcos 6:3).

Grota dos Druidas, fonte no subsolo da Catedral de Chartres, hoje fechada à visitação pública

Um tekton era um engenheiro construtor, alguém capaz de planejar e construir uma casa, uma ponte ou um barco, assim como móveis. Por associação, referências ao “mestre construtor” Hiram são menções a Jesus, que possuía o “plano mestre” para a Cidade de Deus, o qual desapareceu após a sua morte, quando a mensagem foi conspurcada. Talvez a palavra tekton tenha sido mal interpretada, traduzida precariamente como “carpinteiro” e, depois, empregada literalmente em referência a Jesus – e não figurativamente, como deveria ter sido. Talvez a intenção fosse que se tornasse uma alusão simbólica a ele como o mestre construtor e arquiteto do Novo Pacto.

A Senhora Matronit

A construção da catedral em homenagem a Nossa Senhora por associações de construtores da Europa medieval pode ser vista como paralela às tentativas dos cabalistas  judeus da Espanha do século XIII de restaurar o contraponto feminino de Jeová em seus próprios mitos. Chamada de Shekinah e Matronit, ela era a consorte de Jeová na mitologia dos cabalistas e ficara perdida desde a destruição do Templo em Jerusalém, em 70 a.C. Segundo esse mito, como a câmara nupcial de sua união conjugal não mais existia, Jeová deveria reinar sozinho no arco do paraíso, separado de sua  contraparte feminina (a deusa). Matronit, agora sem lar, permaneceu perambulando no exílio como seu povo, os judeus da Diáspora. Parece que muitos teólogos e filósofos da Idade Média tinham consciência da necessidade de devolver ao menosprezado poder feminino o paradigma celestial para restabelecer o equilíbrio da sociedade humana na sua plenitude. Eles empregaram o principio esotérico: “Assim na Terra como no céu.”

O Inválido Rei Pescador

O mito judaico da Idade Média de Jeová e Matronit ecoa o tema das lendas do Graal: o rei está incapaz sem sua consorte. É a perda da contraparte feminina do deus que causa a ferida que nunca cicatriza, e o infértil deserto reflete os ferimentos de Deus/Deusa. Nas lendas não se encontra a afirmação de que o Graal perdido é a Noiva. Mas a identidade do Rei Pescador da lenda de Parsifal, de Wolfram von Eschenbach, é bastante óbvia: o rei ferido chama-se Anfortas, uma corruptela de in fortis, que significa “em força” nome latino da coluna esquerda do Templo de Jerusalém, denominada Boaz, em hebraico. Esse nome, que é o mesmo do ancestral do rei Davi, é uma referência óbvia às promessas feitas à linhagem davídica – a dos príncipes da tribo de Judá – de que os seus domínios seriam estabelecidos para sempre “em força”, uma vez que Judá era o mais forte dos 12 filhos de Jacó, o patriarca de Israel.

O nome Anfortas está, dessa maneira, associado à coluna esquerda quebrada do Templo de Jerusalém, que é um símbolo da ruptura na sucessão de Davi. Na história, o Rei Pescador Anfortas – ou seja, o davídico Rei Pescador Jesus – só poderá ser curado quando o Graal for reabilitado, e isso acontecerá somente quando as perguntas certas forem feitas. A perda da sua contraparte feminina é a causa das feridas do rei, mas a história foi mal interpretada pelos que ouviram a lenda posteriormente, entendendo que o Graal era um artefato quando, na realidade, ele era a Noiva/Esposa repudiada, corrompida, prostituída e perdida.

Continua …


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