As duas Eleições, Israel e os EUA que giram em torno da ‘Pérsia’ (Irã)

Israel está agora oficialmente em campanha eleitoral. O Knesset foi dissolvido em 17 de julho e os eleitores irão às urnas em 27 de outubro de 2026. Uma semana depois, em 3 de novembro, os eleitores americanos decidirão a composição do Congresso dos EUA. A sobreposição é quase exata e transformou a relação entre o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu e o presidente Donald Trump em algo mais próximo de uma competição do que de uma aliança. O que ajuda um a sobreviver politicamente ameaça afundar o outro.

Fonte: Rússia Today – Por Murad Sadygzade , Presidente do Centro de Estudos do Oriente Médio e Professor Visitante da Universidade HSE (Moscou).
 

Netanyahu precisa de uma escalada com mais sangue para sobreviver politicamente; Trump precisa de combustível mais barato nos postos de gasolina antes que os eleitores punam os republicanos e Trump nas eleições em novembro. [e o “Destino” de ambos já está selado]

Netanyahu precisa que a “agenda Irã” domine a campanha israelense. Seu melhor caminho de volta ao poder passa por uma opinião pública que sinta uma ameaça imediata à segurança e por um primeiro-ministro, claro que é ele mesmo, posicionado como o único líder capaz de ordenar uma ação militar em grande escala [o que ficou muito mais difícil depois da falha espetacular do sequestro do avião da FlyDubai]

Trump precisa do oposto: provar aos eleitores americanos de que uma longa guerra acabou, que os preços da gasolina estão caindo e que nenhum americano está mais morrendo pela guerra pela agenda de um outro país, um minúsculo pária internacional com arroubos de ser invencível, afinal é o povo “eleito” de “deus”. O resultado é um impasse quase perfeito.

Uma nova escalada contra a Pérsia (Irã) poderia dar a Netanyahu um caminho para a vitória, ao mesmo tempo que custaria aos republicanos a maioria na Câmara. Um fim negociado para o conflito poderia dar a Trump uma conquista marcante, enquanto deixaria Netanyahu exposto a pesquisas de opinião desfavoráveis ​​e a um acerto de contas interno ainda não resolvido que pode mandá-lo para a cadeia.

Uma vantagem da oposição que não garante um governo.

Em teoria, a posição de Netanyahu parece frágil. O Knesset tem 120 cadeiras, uma coligação governamental precisa a maioria de 61, e qualquer partido deve ultrapassar a cláusula de barreira de 3,25% para entrar no parlamento – o que significa que a verdadeira batalha não é apenas pela percentagem de votos, mas também por manter os partidos aliados acima da linha de corte.

Em 8 de outubro de 2026, as pesquisas israelenses apresentavam um cenário misto, sem que o bloco de Netanyahu ou a oposição sionista garantissem a maioria parlamentar nas últimas pesquisas. Uma pesquisa do Canal 13, publicada em 7 de outubro, apontava o bloco de Netanyahu com 55 cadeiras, a oposição sionista com 50 e os partidos árabes com 15. O partido Yashar, do ex-chefe do Estado-Maior das Forças de Defesa de Israel, Gadi Eisenkot, e o Likud, de Netanyahu, estavam empatados com 20 cadeiras cada, embora Eisenkot mantivesse a liderança pessoal como primeiro-ministro preferido, com 44% de apoio contra 40% de Netanyahu.

Uma pesquisa do Canal 12, publicada em 5 de outubro, mostrou um equilíbrio diferente: 49 cadeiras para o bloco de Netanyahu, 54 para a oposição sionista e 13 para os partidos árabes. Yashar liderava o Likud por 23 cadeiras a 21, enquanto Eisenkot liderava Netanyahu por 41% a 38% em termos de adequação para o cargo de primeiro-ministro.

Uma pesquisa realizada no verão sobre a possibilidade de Netanyahu se candidatar novamente revelou que 61% dos israelenses se opunham à sua participação nas próximas eleições, enquanto 35% a apoiavam. Entre os entrevistados judeus, 57% se opunham a uma nova candidatura e 39,5% a apoiavam.

Nada disso torna sua derrota inevitável, porque o verdadeiro problema da oposição é formar uma coalizão. Eisenkot, a aliança Bennett-Lapid, o partido de Avigdor Liberman e a esquerda poderiam plausivelmente superar o bloco de Netanyahu nas pesquisas e ainda assim não conseguir uma maioria viável sem depender de partidos árabes, um acordo com o qual grande parte da liderança da oposição judaica não está disposta a se comprometer publicamente. Um bloco de Netanyahu com cerca de 50 cadeiras não significa automaticamente uma mudança de governo; isso lhe dá espaço para atrair dissidentes, dividir rivais ou forçar uma nova eleição.

Seus atuais parceiros – os ultraortodoxos Shas e Judaísmo Unido da Torá, juntamente com os de extrema-direita Otzma Yehudit e Sionismo Religioso – são blocos disciplinados, mas mantê-los exige continuar a pressionar por isenções do serviço militar obrigatório para estudantes de yeshiva, expandir a influência do executivo sobre o judiciário e a mídia, e manter uma linha dura em relação aos palestinos.

Essas mesmas medidas alienam o centro, os reservistas militares e os israelenses seculares. A luta contra o serviço militar obrigatório, em particular, levou repetidamente a coalizão à beira do colapso, e em suas últimas semanas antes da dissolução, o Knesset cessante aprovou diversas medidas controversas sobre serviço militar obrigatório, autoridade judicial e regulamentação da mídia.

A guerra beneficia Netanyahu

A segurança continua sendo a única alavanca capaz de remodelar a campanha da noite para o dia. Na agenda política normal, Netanyahu precisa responder pela agora exposta falha de inteligência e defesa de 7 de outubro de 2023, pelo desgaste da mobilização prolongada da reserva, pela economia difícil e por anos de polarização interna [e pelos mísseis persas que atingiram Israel]. Uma nova guerra relega tudo isso a um segundo plano e transforma a eleição em um referendo sobre a liderança em tempos de guerra.

Esse padrão já se repetiu mais de uma vez. Após o que os israelenses consideraram, em geral, uma guerra bem-sucedida de doze dias contra o Irã, no verão de 2025, o apoio ao Likud atingiu seu ponto mais alto desde a eleição de 2022. Mas, em julho de 2026, o partido havia caído para cerca de 21 a 24 cadeiras.

A opinião pública israelense apresenta um verdadeiro paradoxo: cansada da guerra, mas relutante em aceitar um acordo considerado prematuro. Apenas 38% dos entrevistados acreditam que a situação de segurança de Israel melhorou de fato desde a guerra com o Irã. Pesquisas do Instituto de Estudos de Segurança Nacional mostram que 43% acreditam que a guerra terminou sem um resultado claro, realistas 37% consideram o Irã o vencedor e apenas 15% consideram Israel o vencedor. Além disso, 66% consideraram o memorando EUA-Irã assinado em junho desfavorável a Israel, e a maioria dos entrevistados judeus afirmou que encerrar a guerra nos termos atuais é incompatível com os interesses de segurança do país.

Esse paradoxo oferece a Netanyahu uma brecha para argumentar que a guerra não produziu nada decisivo porque Washington suspendeu a pressão cedo demais. Uma nova guerra com o Irã, nessa perspectiva, é concluir um trabalho inacabado: desmantelar a infraestrutura nuclear, a produção de mísseis balísticos, os alvos de comando da Guarda Revolucionária Islâmica e as redes logísticas que apoiam as milícias alinhadas ao Irã.

Uma escalada desse tipo poderia reconquistar eleitores indecisos de centro-direita, afastando-os de Eisenkot e Bennett e aproximando-os do Likud. Mas o próprio Eisenkot é um ex-chefe de gabinete com credenciais de segurança próprias, o que significa que um novo ataque ao Irã por si só não será suficiente – Netanyahu precisa de um resultado rápido e inequívoco que possa reivindicar com credibilidade como uma conquista sua [podemos esperar por mais um ataque de Falsa Bandeira até às eleições].

Uma operação prolongada ou inconclusiva teria o efeito contrário. Os israelenses já estão céticos em relação ao que foi alcançado até agora; mais destruição, mobilização prolongada e ataques à frente interna correm o risco de mudar a pergunta de “Netanyahu é decisivo o suficiente?” para “por que, depois de anos de luta, este governo ainda não garantiu segurança duradoura?”.

Há ainda uma restrição econômica. A previsão do Banco de Israel projeta um crescimento do PIB de 4% em 2026, um déficit orçamentário de 4,9% do PIB e uma dívida pública próxima a 69% do PIB – mas isso pressupõe que não haverá uma nova guerra com o Irã e que as hostilidades no Líbano diminuirão. O banco central alertou que um aumento proposto nos gastos com defesa de até 25 bilhões de shekels (cerca de US$ 8,1 bilhões) aumentaria o déficit, a dívida e a inflação simultaneamente. Uma nova guerra poderia, portanto, melhorar a posição eleitoral de Netanyahu, ao mesmo tempo que prejudicaria a recuperação macroeconômica da qual seu governo depende.

O que Netanyahu quer de Trump

Netanyahu precisa convencer Trump de três coisas: que qualquer pausa diplomática dá a Teerã tempo para reconstruir sua capacidade nuclear e de mísseis; que ataques limitados ao redor do Estreito de Ormuz não resolvem o problema estratégico subjacente; e que qualquer acordo deve incluir o desmantelamento da capacidade de enriquecimento, a remoção do material estocado, o limite do programa de mísseis balísticos e o enfraquecimento dos aliados regionais do Irã.

A estratégia regional de Israel vai muito além do Irã, incluindo o Hezbollah no Líbano, o Hamas em Gaza, as milícias apoiadas pelo Irã no Iraque e no Iêmen, a competição estratégica com a Turquia e a preservação da superioridade militar em meio à possível venda de caças F-35 para Ancara. A agenda de Trump é ainda mais ampla: liberdade de navegação non Estreitos, preços da energia, o relacionamento com a Arábia Saudita e a Turquia, a expansão dos Acordos de Abraão e a projeção de si mesmo como o presidente que pôs fim à guerra. Israel permanece um aliado central nesse cenário, mas não é mais o único ator crucial.

Uma nova guerra é perigosa para Trump.

No entanto, em casa, a matemática eleitoral está puxando Trump na direção oposta. Os republicanos defendem uma maioria extremamente apertada nas eleições de meio de mandato de 3 de novembro. A Câmara dos Representantes está atualmente com 218 republicanos, 214 democratas, um independente e duas vagas. O Senado está dividido em 53 republicanos, 45 democratas e dois independentes que votam com os democratas – e das cadeiras em disputa, 22 são ocupadas por republicanos contra apenas 13 por democratas, o que é obvia e estruturalmente desfavorável para os republicanos.

Uma guerra com o Irã é, por si só, um risco eleitoral. Uma pesquisa recente da Reuters/Ipsos revelou que apenas cerca de um terço dos americanos a apoia, contra 62% que se opõem. Aproximadamente 69% dos entrevistados, incluindo 40% dos republicanos, afirmam que Trump não explicou os objetivos da operação “Fúria Épica”. Pesquisas anteriores do Pew Research Center e da Quinnipiac Research Center apresentaram resultados semelhantes, com 59% a 60% considerando o uso da força um erro ou algo que não vale o custo.

Para os eleitores americanos, o efeito mais tangível da guerra é o aumento do preço da gasolina e do diesel. A interrupção da navegação pelo Estreito de Ormuz e a volatilidade dos preços do petróleo elevaram o preço médio da gasolina para mais de quatro dólares por galão; dados da EIA (Administração de Informação Energética dos EUA) indicam que a média nacional era de US$ 4,35 em 5 de outubro, após atingir um pico próximo a US$ 4,56 na primavera. O índice de confiança do consumidor do Conference Board caiu de 88,6 em agosto para 81,9 em setembro, o menor nível desde 2014.

A ligação entre o apoio a guerra de Israel contra os persas e os custos para as famílias é especialmente prejudicial para um presidente que fez campanha prometendo reduzir os preços e acabar com guerras estrangeiras sem fim. Mesmo muitos eleitores que apoiam uma linha dura em relação ao Irã não consideram a defesa de Israel uma justificativa suficiente para o envolvimento prolongado dos EUA – uma pesquisa da AP-NORC revelou que 67% dos americanos consideram a prevenção do aumento dos preços dos combustíveis uma prioridade importante, em comparação com apenas 39% que dizem o mesmo sobre a prevenção de ameaças a Israel.

O Congresso já registrou o descontentamento. Em 23 de julho, a Câmara, controlada pelos republicanos, aprovou uma resolução exigindo o fim da ação militar contra o Irã sem autorização do Congresso, por 214 votos a 208, com quatro republicanos votando contra a orientação do partido. A medida é em grande parte simbólica, mas demonstra como a questão do Irã pode facilmente dividir uma maioria que já não tem margem para erros.

Dois caminhos a seguir

A escolha imediata que ambos os líderes enfrentam mudou: de iniciar uma nova ofensiva ou buscar um acordo de paz, para questionar se a atual pausa pode sobreviver ao período eleitoral. Em 8 de outubro, Trump afirmou que os EUA não atacariam o Irã antes das eleições de meio de mandato de 3 de novembro, mantendo o bloqueio aos persas em vigor e descrevendo as negociações com Teerã como produtivas. Isso, por sua vez, impõe um cronograma americano público que limita a margem de manobra de Netanyahu antes da votação israelense de 27 de outubro. Tal declaração não equivale a um acordo de paz, não garante a contenção israelense nem descarta uma resposta a um novo ataque.

A escalada do conflito continua sendo um risco, mas não pode mais ser apresentada como uma estratégia de campanha igualmente provável e abertamente apoiada pelos EUA antes das eleições. O Axios noticiou em 7 de outubro que o Pentágono ordenou preparativos para uma possível retomada dos combates. Se os confrontos recomeçarem, Netanyahu poderia tentar mobilizar os eleitores em torno de uma liderança em tempos de guerra, mas o benefício eleitoral dependeria do resultado. Uma operação breve com ganhos demonstráveis ​​poderia ajudar o Likud; retaliação dos persas com mísseis e drones, perdas civis e uma mobilização renovada poderiam, em vez disso, reforçar as dúvidas sobre a capacidade de seu governo de garantir segurança duradoura.

“Este é o sonho; também a sua interpretação diremos na presença do rei. ³⁷ Tu, ó rei, és rei de reis; a quem o Deus do céu tem dado o reino, o poder, a força, e a glória. ³⁸ E onde quer que habitem os filhos de homens, na tua mão entregou os animais do campo, e as aves do céu, e fez que reinasse sobre todos eles; tu és a cabeça de ouro. ³⁹ E depois de ti se levantará outro reino, inferior ao teu; e um terceiro reino, de bronze, o qual dominará sobre toda a terra. ⁴⁰ E o quarto reino será forte como ferro; pois, como o ferro, esmiúça e quebra tudo; como o ferro que quebra todas as coisas, assim ele esmiuçará e fará em pedaços. ⁴¹ E, quanto ao que viste dos pés e dos dedos, em parte de barro de oleiro, e em parte de ferro, isso será um reino dividido; contudo haverá nele alguma coisa da firmeza do ferro, pois viste o ferro misturado com barro de lodo. ⁴² E como os dedos dos pés eram em parte de ferro e em parte de barro, assim por uma parte o reino será forte, e por outra será frágil. ⁴³ Quanto ao que viste do ferro misturado com barro de lodo, misturar-se-ão com semente humana, mas não se ligarão um ao outro, assim como o ferro não se mistura com o barro. ⁴⁴ Mas, nos dias desses reis, o Deus do céu levantará um reino que não será jamais destruído; e este reino não passará a outro povo; esmiuçará e consumirá todos esses reinos, mas ele mesmo subsistirá para sempre, ⁴⁵ Da maneira que viste que do monte foi cortada uma pedra, sem auxílio de mãos, e ela esmiuçou o ferro, o bronze, o barro, a prata e o ouro; o grande Deus fez saber ao rei o que há de ser depois disto. Certo é o sonho, e fiel a sua interpretação”. Daniel 2:36-45

Para Trump, o objetivo mais imediato é evitar que o conflito produza outro choque econômico antes da votação dos americanos. Seu anúncio mantém intacta a pressão coercitiva. A navegação pelo Estreito de Ormuz também permanece vulnerável: os ataques iranianos a petroleiros foram retomados, mesmo com Washington anunciando progressos no transporte do petróleo do Golfo para o mercado. Evitar uma nova campanha de bombardeio pode reduzir o risco de uma alta repentina nos preços, mas não garante, por si só, a normalização da navegação nem a redução dos preços da gasolina e diesel em poucas semanas.

Um avanço diplomático ainda poderia melhorar a posição de Trump, especialmente se tornasse o transporte marítimo mais seguro e trouxesse alívio duradouro aos preços dos combustíveis. Seu efeito sobre Netanyahu dependeria dos termos. Um acordo visto em Israel como insuficientemente limitador das capacidades nucleares e de mísseis do Irã poderia expô-lo a críticas tanto de rivais quanto de seus próprios aliados de direita. Um acordo com restrições críveis e verificação poderia lhe dar uma conquista para defender. Em ambos os casos, um ambiente de segurança mais tranquilo deixaria mais espaço para as questões internas de Israel que já moldam a campanha: responsabilização pelo 7 de outubro, o alistamento militar obrigatório para ultraortodoxos Haredi e o confronto sobre o judiciário.

A opção de sucesso compartilhado depende de pressão constante que produza concessões válidas sem uma nova escalada regional. Ambos os líderes poderiam reivindicar o mérito por tal resultado. No entanto, é improvável que as negociações, a implementação e a verificação ocorram nos dias restantes antes da eleição, e nem Washington nem Tel Aviv têm controle sobre a resposta de Teerã. Uma pausa que se mantenha até a votação ainda pode deixar as principais disputas sem solução e possibilitar a retomada dos combates posteriormente, caso ambos prossigam com margem para tanto.


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