Testemunho PESSOAL da Tragédia que se abateu sobre o RS

Aos leitores do nosso Blog, damos um TESTEMUNHO PESSOAL sobre os trágicos eventos que estão acontecendo no estado do RS. Nos últimos 30 anos passei a viver como um cigano itinerante, sem residência fixa, tendo desapegado do sistema, quando resolvi trilhar a minha jornada do auto conhecimento. Mas as minhas origens estão no estado do RS, especificamente na Cidade de São Leopoldo, o berço da imigração alemã no Brasil, que neste ano faz 200 anos da chegada dos primeiros imigrantes alemães, da qual sou descendente pelo lado materno e espanhol pelo lado paterno.

Testemunho PESSOAL da Tragédia que se abateu sobre o RS

LHAS, direto de São Leopoldo, RS

Entre as minhas idas e vindas pelo Brasil e eventualmente pelo exterior, quis o destino que eu estivesse na minha cidade de origem, São Leopoldo, no seio da minha família, quando sobre o estado do RS e sobre a minha cidade, se abateu a maior catástrofe da história de um estado brasileiro, tamanha a abrangência da mesma, que atingiu cerca de 70% dos municípios gaúchos.

O RS tem 497 municípios, e 341 deles hoje estão em estado de Calamidade Pública, por causa dos graves eventos climáticos provocados por chuvas torrenciais que se abateu sobre as cidades afetadas com as chuvas começando no final de abril, quando começou a chover quase que ininterruptamente sobre várias regiões do RS.

Imagem do local, em foto tirada do piso superior da residência onde estávamos.

Em São Leopoldo, na região do Vale do Rio dos Sinos, a chuva teve início e se concentrou à partir de 30 de abril até 03 de maio, quando choveu ininterruptamente também na serra gaúcha, onde fica a nascente do Rio dos Sinos que além de cortar São Leopoldo, banha vários outros municípios do Vale do Sinos.

A partir do dia 02 de maio as águas do rio dos Sinos começaram a subir e no dia três o transbordamento do dique de retenção começou de forma lenta mas abrangente. A partir do momento em que as águas da cabeceira na Serra Gaúcha começaram a chegar na cidade tudo se transformou no mais absoluto caos, com a inundação começando de forma muito rápida à partir do fim do dia três.

A residência que me encontrava hospedado era a casa de minha irmã, que foi construída com dois pisos, justamente por causa do histórico de enchentes da cidade pelo transbordamento do Rio dos Sinos. Na madrugada do dia 4 de maio, após percebermos que a chegada da água era inevitável, todos os moradores do bairro expostos às águas que chegavam começaram a retirar todos os seus pertences e a procurar abrigo em locais mais altos, com a maioria elevando dentro de suas casas os seus pertences, moveis, geladeiras, fogões, etc, o máximo que podiam esperando pela enchente que chegava rápida.

Imagens aéreas mostram a dimensão da situação dramática vivida pelos moradores da cidade de São Leopoldo em diferentes bairros Foto: Digue Cardoso/Semae

À medida que o dia 4 transcorria e enquanto tomávamos as providências para a inundação que se aproximava, a água foi subindo rapidamente e em torno do meio dia já estava chegando na porta da residência em que eu estava hospedado. Após finalizar a retirada do que foi possível e transferir para o piso superior demais objetos, como roupas, calçados, alimentos, etc, também subimos, cinco pessoas para o piso superior, esperançosamente esperando uma inundação média, em torno de 50 cm dentro de casa.

Cedo percebemos que havíamos nos enganado quando vimos a velocidade com que o nível da água foi crescendo rapidamente e passando pela rua em grande velocidade, pois acompanhávamos a subida desde uma varanda do nível superior As nossas esperanças de um “prejuízo” razoável começou a se transformar em ansiedade e preocupação extremas quando a água, em torno das 16:30 horas já havia passado de 1,50 metros na sala de estar do piso térreo e que tudo que havia sido elevado já estava boiando e completamente inutilizado [sofá, mesa, cadeiras, armário de cozinha, pia, etc…

Com a noite chegando e sem que o nível de subida da água parasse, enquanto acompanhávamos inúmeros barcos pertencendo a civis e dos bombeiros resgatando pessoas ilhadas e em pânico, percebemos que teríamos que abandonar a residência em que estávamos antes que a água atingisse o segundo piso, enquanto já víamos algumas residências de um único nível com a água chegando em seus telhados, em apenas 6 horas.

São Leopoldo, RS

Em meio à escuridão [a energia e o fornecimento de água foram cortados no final da manhã] e à luz de lanternas, no começo da noite do dia 4 de maio, finalmente conseguimos ajuda de dois barcos, sendo um dos bombeiros com dois soldados. Depois de muitos esforços, porque embaixo, no primeiro piso da residência o nível da água já beirava os 1,70 cm, e lutando contra forte correnteza, conseguimos embarcar nos dois botes apenas com as roupas do corpo e com a ajuda de quatro homens, sendo dois bombeiros profissionais.

Após nosso resgate e de termos abandonado a casa onde estávamos, fomos para o município vizinho de Novo Hamburgo, onde já estavam instalados, em diferentes pontos, outros membros da família.

Somos uma família grande de quatro irmãos, sendo três mulheres. TODAS as minhas irmãs e a minha mãe moram no mesmo bairro [mais as residências de dois sobrinhos, que também foram afetadas] e todas as quatro perderam praticamente tudo, sendo que a matriarca [quase 90 anos] provavelmente perdeu até mesmo a sua casa, totalmente encoberta pelas águas com tudo o que havia dentro.

O histórico de enchentes na família é antigo pois em 1965 e 1967 enfrentamos a mesma situação de cheia extrema localizada em São Leopoldo, no mesmo bairro e nos recuperamos. Mas desta vez as perdas materiais foram quase totais, pois a abrangência e a contundência da catástrofe superou TUDO na cidade e para a sua população.

Somos resilientes e teimosos e gostamos de celebrar a vida, especialmente em churrascos de família, mas desta vez o golpe foi profundo e muito doloroso, especialmente para os membros mais avançados em idade e jovens, inclusive uma sobrinha e jovem mãe com filho pequeno de dois anos e meio e à espera do segundo, “guri” [que enviamos para a casa de um parente em município vizinho e em lugar elevado dois dias antes].

Após este breve relato e em função do duro golpe que todos recebemos, solicitamos a todos os nossos fiéis leitores que acompanham o nosso trabalho, que na medida de suas possibilidades, colaborassem com a recuperação do nosso núcleo familiar, contribuindo com qualquer quantia que considerarem possível.

Normal e rotineiramente já solicitamos colaboração de nossos leitores para a manutenção de nosso blog, que contribuem quando podem, mas salientamos que desta vez a sua contribuição não é para manutenção, mas será para ajudar a reerguer a família de quem esta por trás de tudo que vocês leem, há quase treze anos, ininterruptamente, 24/7.

Para todos que quiserem contribuir conosco, disponibilizamos nossa conta na Caixa Econômica Federal  AGENCIA: 1803 – CONTA: 000780744759-2, Operação 1288, pelo PIX-CPF 211.365.990-53 (Caixa)” . Antecipadamente somos muitos gratos, eu e minha família, para aqueles que generosamente atenderem ao nosso apelo e que a Divina Providência abençoe e proteja à todos.


Mais de 200 mil pessoas foram afetadas até o momento pelas cheias em São Leopoldo e Novo Hamburgo de acordo com as prefeituras municipais. Deste total, 180 mil são leopoldenses que estão desabrigados. Outras 32 mil pessoas são hamburguenses, atingidas total ou parcialmente pela água — neste caso, não necessariamente desabrigadas.

A última medição do Rio dos Sinos, às 17h deste domingo (5), apontava uma altura de 9,03 metros das águasEm São Leopoldo, houve erosão de um trecho do dique ao lado da Casa de Bombas do Arroio Gauchinho, no bairro Santo Afonso, em uma extensão entre 40 metros e 60 metros. Em Novo Hamburgo, imagens aéreas mostravam que o dique do lado do município permanecia intacto em toda a sua extensão, conforme a prefeitura. 

A estimativa atual é de que ainda haja cerca de 2,6 mil pessoas para serem resgatadas em São Leopoldo. De acordo com o governo municipal, no entanto, “boa parte das demandas estão sendo atendidas”. O município está com 57 abrigos, que estão acolhendo 12 mil famílias. Nas duas cidades, a captação de água continua suspensa e não há previsão para a retomada, em São Leopoldo quase toda a cidade também está sem energia elétrica.


10 respostas

  1. Grande Adm de um dos melhores sites da internet, estamos contigo, não desiste quem pelea! Que vocês e o Rio Grande consigam sair dessa! Vamos ajudar, pessoal!

  2. Gratidão aos guerreiros de um povo humano que se faz um farol brilhar os nossos caminhos nesta escuridão. A tormenta vai passar e juntos reergueremos ainda mais fortes. Kristho em seu coração.

    1. Tenho amigos em São Leopoldo, eu morava no RS hj resido em Florianópolis. Infelizmente a NOM pegou pesado. Eduardo Leite faz parte do Fórum Econômico Mundial.

  3. Ajudei um pouco, que vocês consigam se reerguer, gosto muito do seu trabalho! Que sua família fique bem bem como todas as famílias que estão sofrendo com essa tragédia.

  4. Não consigo contribuir com muito pois minha família também está passando por uma situação difícil; porém a gente divide o pouco que tem. Seu trabalho é magnífico e tenho certeza que sairá dessa. Grande abraço !

  5. Esse é o único site que leio!

    Estou em são Leo! Minha casa fica no alto!

    Estou desde sábado resgatando gente, gato, cachorro….já é 1:53 e não consigo dormir!

    Chorei de alegria quando vi que o ADM é capilé!!!!!

  6. Boa noite Thoth, fiz a minha contribuição e deixei tb. uma msg no contato@thoth3126, e desejo que vc e família estejam bem na medida do possível. Fique com Deus!

  7. Oi Luiz Henrique Ávila dos Santos (Thot)
    Fiz um Pix com uma pequena contribuição à sua família, gostaria de ter contribuído mais, infelizmente, estou desempregado mas nem de perto se compara ao drama de vcs.

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