As tarifas de Trump sobre o Brasil surgem num momento em que o gigante sul-americano supera os Estados Unidos como o maior exportador agrícola do mundo. A ascensão do Brasil como potência agrícola mundial revela como a produção de alimentos se tornou uma fonte estratégica de poder e por que isso importa muito além dos mercados globais de commodities.
Fonte: Global Research
Em meio a imposição de tarifas e uma guerra comercial com os americanos, o Brasil está se aproximando para superar os Estados Unidos como o maior produtor e exportador de produtos agrícolas do mundo. Em 2025, as exportações agrícolas dos EUA atingiram US$ 171 bilhões, enquanto o Brasil registrou US$ 169,2 bilhões – uma diferença de apenas US$ 2 bilhões, após anos em que a diferença já foi de US$ 56 bilhões.
Somente no primeiro semestre de 2026, as exportações do agronegócio brasileiro atingiram o recorde de US$ 87 bilhões, um aumento de 6%, impulsionadas pela soja, carne bovina, frango, algodão e café. O Financial Times descreveu recentemente essa mudança como “A queda da superpotência agrícola americana para o Brasil”, observando como a China passou a depender fortemente do fornecimento brasileiro de commodities.
Este aspecto pouco discutido do declínio americano como superpotência surge num momento delicado: o presidente Donald Trump impôs novas tarifas sobre produtos brasileiros, oficialmente vinculadas a preocupações com trabalho forçado e práticas comerciais desleais. Autoridades brasileiras classificaram as medidas como “arbitrárias” e “injustificadas”.
Monica de Bolle, pesquisadora sênior do Instituto Peterson de Economia Internacional, argumenta que o caso de trabalho forçado contra o Brasil não se trata realmente de trabalho forçado, mas sim de uma “exigência dos EUA para que o Brasil se aliste na guerra econômica americana contra a China”. Em todo caso, as novas tarifas americanas ameaçam mais de um terço do comércio do agronegócio brasileiro, afetando cerca de US$ 11 bilhões em exportações e aprofundando a queda nas negociações comerciais.
Sem dúvida, a ascensão do setor agrícola brasileiro não é a única razão por trás das tarifas; elas não são apenas uma reação à transformação do gigante do hemisfério sul em uma superpotência agrícola, a maior do planeta. Refletem, contudo, uma convergência mais ampla entre competição econômica, rivalidade geopolítica e política industrial americana. A ascensão do Brasil o tornou um concorrente econômico mais relevante, aumentando, assim, a importância de qualquer disputa comercial.

Vale lembrar que a nação sul-americana conquistou uma fatia de mercado substancial, em parte devido às tensões comerciais anteriores entre os EUA e a China. Quando Washington impôs tarifas sobre produtos chineses durante o primeiro mandato de Trump, Pequim respondeu reduzindo drasticamente as compras de soja americana e outros produtos agrícolas: a China então voltou-se para o Brasil. Em 2025, o Brasil exportou mais de 80 milhões de toneladas de soja para a China , bem à frente dos EUA ( menos de 10 milhões ).
Dessa forma, essa nação que chega a produzir três safras por ano, aprofundou seus laços comerciais com a China e tornou-se cada vez mais importante para a segurança alimentar global. Washington, como era de se esperar, vê riscos nessa mudança, ao ficar para trás do Brasil.
As novas tarifas, portanto, refletem não apenas uma disputa comercial bilateral, mas um esforço mais amplo da superpotência americana para gerenciar a concorrência em uma economia global cada vez mais multipolar, enquanto o poder alimentar americano declina. O sucesso no campo do Brasil o tornou um concorrente estratégico mais significativo, mesmo que essa não seja a razão declarada para as tarifas.
Isso também expõe uma concepção errônea comum: a ideia enganosa de que a produção agrícola pertence principalmente aos países do “Terceiro Mundo”. A agricultura é frequentemente associada a economias em desenvolvimento porque muitas nações mais pobres dependem fortemente da exportação de matérias-primas. Ser uma verdadeira superpotência alimentar, no entanto, é algo bem diferente: significa possuir a capacidade de alimentar centenas de milhões de pessoas além da sua própria população e tornar-se indispensável para os mercados globais [o Brasil produz alimentos para alimentar cerca de 900 milhões de pessoas por ano, mais de quatro vezes a sua população].
A alimentação é um recurso fundamental e estratégico que todos os países necessitam diariamente, independentemente dos ciclos econômicos [ninguém se alimenta com “avançados produtos tecnologicos”]. Os Estados que controlam a produção de grandes quantidades de grãos, carne, soja, frutas, fertilizantes e/ou óleos comestíveis obtêm, assim, uma influência duradoura. Interrupções nesse controle podem desencadear inflação, agitação social e até mesmo instabilidade política no exterior.
Historicamente, o outrora imenso domínio agrícola dos Estados Unidos também foi um pilar de seu poder global, complementando sua força militar, financeira e tecnológica. Durante a Guerra Fria, as exportações de alimentos serviram como instrumentos de diplomacia e coerção. Obras como “ Food Power: The Rise and Fall of the Postwar American Food System ” e “Agrarian Superpower” detalham como Washington utilizou essa ferramenta no cenário mundial.
O tema do “poder alimentar” ganhou destaque recentemente, especialmente no contexto da guerra comercial entre os EUA e a China, onde os alimentos emergiram como uma potencial “arma”[mais um tiro dos EUA que saiu pela culatra]. A questão é que, no século XXI, uma superpotência não é apenas aquela que pode projetar força militar ou dominar as finanças. É também aquela que consegue garantir cadeias de suprimentos essenciais, incluindo a alimentar. Numa era de mudanças climáticas, crescimento populacional e fragmentação geopolítica, a capacidade de produzir e exportar alimentos de forma confiável está se tornando uma fonte de poder nacional cada vez mais valiosa, embora frequente e constanteme subestimada e desprezada pelos mais ignorantes.
Assim, os alimentos deixam de ser vistos apenas como uma mercadoria e passam a ser considerados um ativo estratégico fundamental, comparável à energia, à tecnologia e aos minerais críticos. Consequentemente, o controle sobre a produção e as exportações aumenta a resiliência, o poder diplomático e a influência de um Estado entre as nações.

Em última análise, a ascensão do Brasil na sua enorme produção do Agronegócio destaca a transição de um sistema de comércio global centrado em Washington para um sistema mais policêntrico. Países como o Brasil detêm agora poder de mercado suficiente para conferir às disputas comerciais uma importância geopolítica, bem como econômica e de segurança alimentar.
Além disso, as tarifas de Trump também se encaixam em um padrão de pressão renovada sobre o Brasil, incluindo potenciais tensões militares. Como mencionei anteriormente, isso ocorre no contexto de uma abordagem revivida da Doutrina Monroe (“neomonroísmo”).
Há também fatores internos. Os agricultores americanos, um dos grupos políticos mais fiéis a Trump, enfrentam dificuldades reais: os custos de produção são substancialmente mais altos do que os de seus colegas brasileiros, e as margens de lucro diminuíram. Os produtores americanos ainda realizam colheitas enormes, mas os preços baixos, as tensões comerciais e a perda de participação de mercado criaram tempos difíceis.
Em contrapartida, o país latino-americano gigante em terras ferteis beneficia-se de múltiplas colheitas por ano, terras mais baratas em muitas regiões e adaptações genéticas desenvolvidas por brasileiros adequadas ao seu clima.
A ascensão contínua do Brasil na produção e venda de alimentos claramente não significa que os Estados Unidos tenham perdido o seu poder no setor agrícola – pelo contrário, continuam a impressionar. A tendência, porém, é clara e, até o momento, favorece a continuidade do crescimento brasileiro. Tarifas podem desacelerar o comércio bilateral, mas é improvável que revertam mudanças estruturais mais profundas nos mercados globais.
Este episódio nos lembra que, no mundo atual, a força agrícola se traduz diretamente em peso geopolítico, na medida em que nada é mais importante do que viver sem fome. À medida que as cadeias de suprimentos se fragmentam e a competição entre as grandes potências se intensifica, a segurança alimentar se tornará cada vez mais importante, muito além dos preços das commodities.



